Uma Análise Crítica da Fórmula Agustiniana e suas Implicações para o Diálogo Judeu-Cristão.

Novum Testamentum in Vetere latet, Vetus Testamentum in Novo patet: Ponte Hermenêutica ou Paliativo Supercessionista?

Uma Análise Crítica da Fórmula Agustiniana e suas Implicações para o Diálogo Judeu-Cristão


Resumo

O presente artigo examina a celebre fórmula hermenêutica atribuída a Agostinho de Hipona — Novum Testamentum in Vetere latet, Vetus Testamentum in Novo patet —, investigando se esta constitui efetivamente uma ponte para o diálogo inter-religioso ou, paradoxalmente, um mecanismo de aprofundamento do abismo histórico entre judaísmo e cristianismo. Por meio de uma análise em quatro movimentos — (1) significado original, (2) potencial como ponte, (3) função histórica como paliativo e (4) risco supercessionista —, argumenta-se que, embora a intenção teológica original da fórmula seja a de estabelecer continuidade canônica, seu efeito histórico operou predominantemente como um dispositivo unilateral de apropriação textual, insuficiente para fundamentar uma hermenêutica genuinamente dialógica.


Palavras-chave: Hermenêutica bíblica; Supercessionismo; Diálogo judeu-cristão; Agostinho de Hipona; Tipologia bíblica.


1. Introdução

A questão que fundamenta esta investigação coloca no centro do debate uma das mais antigas e influentes fórmulas hermenêuticas da tradição cristã, interrogando se esta representa parte da solução para o diálogo entre as duas comunidades ou se, contrariamente, acentua o problema histórico que as separa. A resposta a tal questão exige a distinção rigorosa entre a intentio teológica da frase e seus effectus histórico na configuração das relações judeu-cristãs.

A tese central aqui defendida sustenta que a expressão em análise constitui, em sua intenção original, uma ponte hermenêutica interna ao cristianismo; contudo, no contexto do abismo histórico que caracteriza as relações entre as duas comunidades, funcionou predominantemente como um paliativo unilateral, insuficiente para configurar uma verdadeira solução dialógica, podendo, em determinados usos, aprofundar ainda mais a divisão.

A presente análise desenvolve-se em quatro momentos distintos: (1) o significado original da fórmula; (2) seu potencial como instrumento de mediação; (3) sua função histórica como paliativo; e (4) o risco de exacerbação do abismo inter-religioso.


2. O Significado Original: Uma Hermenêutica da Continuidade

A fórmula Novum Testamentum in Vetere latet, Vetus Testamentum in Novo patet é atribuída a Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), embora este a sistematize a partir de uma tradição já presente nas escrituras neotestamentárias. O significado teológico da expressão pode ser decomposto em duas proposções correlatas:


2.1. Novum Testamentum in Vetere latet ("O Novo Testamento está escondido no Antigo")

Esta primeira proposição sustenta que as realidades neotestamentárias — a figura de Cristo, a instituição eclesial, os sacramentos — encontram-se já presentes no Antigo Testamento, embora de forma velada, figurada e profética. Trata-se da hermenêutica dos typoi e das figurae: o cordeiro pascal prefigura Cristo; a travessia do Mar Vermelho tipifica o batismo. A escatologia cristã está, assim, latens na economia veterotestamentária.


2.2. Vetus Testamentum in Novo patet ("O Antigo Testamento está desvelado no Novo")

A segunda proposição estabelece que o Novo Testamento revela o significado verdadeiro do Antigo. Cristo opera como clavis hermeneutica que desbloqueia o sentido profundo das Escrituras hebraicas. O que permanecia occultum torna-se manifestum através da economia da revelação cristã.

A intentio original da fórmula não consiste na negação do Antigo Testamento, mas na afirmação de sua permanente validade e unidade com o Novo. Configura-se como uma afirmação de continuidade e cumprimento (pleroma). Para a Igreja primitiva, engajada no processo de definição identitária sem rejeitar suas raízes, esta fórmula apresentava-se como estruturalmente essencial.


3. A Fórmula como Potencial Ponte: Elementos Teoricamente Mediadores

Analisando a estrutura interna da fórmula, identificam-se elementos que, teoricamente, poderiam configurar-se como instrumentos de construção de pontes hermenêuticas:


3.1. Reconhecimento do Antigo como Locus Revelationis

A fórmula não estabelece a substituição do Antigo pelo Novo; antes, afirma que o Novo estava latet (escondido) no Antigo. O Antigo permanece como base, como solo do qual o Novo brota. Sem o Antigo, o Novo careceria de fundamento, de raiz histórica e teológica.


3.2. Impulso à Leitura do Antigo Testamento

A fórmula funciona como incentivo à leitura das Escrituras hebraicas pela Igreja. Se o Novo está ali oculto, torna-se necessário procurá-lo. Em tese, isto poderia conduzir a um estudo profundo e respeitoso das Escrituras hebraicas.


3.3. Estabelecimento de Diálogo Interno Canônico

A fórmula institui um diálogo interno dentro do cânon cristão entre suas duas partes constitutivas. Representa uma tentativa de criação de coerência e unidade na pluralidade textual.


4. A Fórmula como Paliativo: A Problemática Histórica

O uso do termo "paliativo" para descrever a função histórica da fórmula é preciso do ponto de vista semântico. Um paliativo alivia os sintomas, mas não cura a doença subjacente. E a doença, neste caso, é o abismo real existente entre as duas comunidades vivas.


4.1. O Paliativo Interno

Durante séculos, a fórmula serviu para tranquilizar a consciência cristã. Permitiu que a Igreja lesse o Antigo Testamento sem necessidade de confronto com a comunidade judaica viva que o guardava e interpretava. O Antigo Testamento transformou-se em livro cristão, lido através de óculos cristãos, tornando a sinagoga invisível ou irrelevante para a economia hermenêutica.

A fórmula funcionou como anestésico: aliviava a tensão de possuir um texto compartilhado com um povo que não aceitava Jesus, permitindo à Igreja simplesmente "confiscar" o texto para uso próprio, sem o incômodo da alteridade viva.


4.2. A Ausência de Reciprocidade

A fórmula é estruturalmente unilateral. Não interroga como o judaísmo lê o Novo Testamento. Não estabelece diálogo real entre iguais. Configura-se como declaração de posse: "O Antigo é nosso porque o Novo o revela". Para o judeu, esta fórmula é, na melhor das hipóteses, incompreensível; na pior, constitui apropriação indébita de sua Torá.


5. A Fórmula como Aprofundamento do Abismo: O Risco Supercessionista

A questão final é a mais contundente: será que esta fórmula, ao invés de resolver, acentua o abismo? A resposta é: depende do uso que dela se faz.


5.1. O Uso Supercessionista

Se a fórmula for compreendida como "o Novo substitui o Antigo", ou "o Antigo só tem valor na medida em que aponta para o Novo e, uma vez cumprido, pode ser deixado de lado", então acentua profundamente o abismo. Esta leitura alimenta a teologia da substituição (supercessionismus), segundo a qual a Igreja substituiu Israel como povo de Deus.

Nesta visão, a fórmula não é ponte, mas declaração de despossessão: o texto foi tirado dos judeus e dado aos cristãos.


5.2. O Uso Potencialmente Dialógico

Se a fórmula for compreendida como convite a diálogo mais complexo, onde o Novo ilumina o Antigo sem apagá-lo, e onde o Antigo mantém sua voz própria e irredutível, pode constituir ponto de partida. Mas para isto, é necessário um segundo movimento que a fórmula original não prevê: o reconhecimento de que o judaísmo possui leitura legítima e contínua do Antigo Testamento, leitura que não é "cega", mas outra tradição viva.

Isto exigiria fórmula complementar, algo como: Vetus Testamentum in Synagoga vivit ("O Antigo Testamento vive na Sinagoga").


6. Conclusão: A Insuficiência da Fórmula Agustiniana

A grandeza e a limitação da fórmula de Agostinho residem em sua intentio interna. Ela resolve o problema da unidade do cânon cristão, mas não resolve, nem sequer equaciona, o problema da relação com a comunidade judaica viva.

É um paliativo porque permite à Igreja ler o Antigo Testamento em paz, sem lidar com a perturbação de saber que o mesmo texto é lido de forma diferente, e com igual paixão, por outro povo. Pode acentuar o abismo quando usada para justificar leitura exclusivista e supercessionista, que deslegitima a interpretação judaica.

Para que esta fórmula se torne verdadeira ponte, necessitaria ser completada por outra consciência: a de que o Novo Testamento, por sua vez, também está, de certa forma, latet (escondido) na vida e na tradição do povo judeu, e que o diálogo com a sinagoga é indispensável para que o pateat (desvelamento) cristão não se torne redução empobrecedora do mistério insondável das Escrituras.

Sem esta reciprocidade, a bela fórmula agustiniana corre o risco de ser, não a chave que abre a porta, mas a fechadura que a mantém trancada de um só lado.


Referências

AGOSTINHO DE HIPONA. De Doctrina Christiana. 

VON BALTHASAR, H.U. A Teologia da História. 

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A PROMOÇÃO DA UNIDADE DOS CRISTÃOS. Recordação de Auschwitz: Para uma nova apresentação do judaísmo nos ensinamentos e na pregação da Igreja. 1998.

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