O Profeta como Instância de Confronto Ético: Uma Análise da Narrativa de Davi, Bate-Seba e Urias (2 Samuel 11-12)
Resumo
O presente artigo propõe uma análise teológica e ética da narrativa bíblica concernente à transgressão de Davi (2 Samuel 11-12), examinando a função do profeta Natan como instância de confronto moral diante do poder monárquico absoluto. A investigação desenvolve-se em duas perspectivas analíticas: a primeira, de natureza exegetíca, investiga a dinâmica textual que estabelece o profeta como instrumento de censura divina; a segunda, de caráter filosófico-moral, amplia a reflexão para o âmbito das sociedades pluralistas e laicas, identificando instituições contemporâneas que cumprem função equivalente à do profeta bíblico. Conclui-se que a narrativa transcendente seu contexto teológico originário para afirmar a necessidade universal de limites ao poder, sejam estes de natureza sagrada ou secular.
Palavras-chave: Ética do poder; Profetismo bíblico; Teologia moral; Filosofia política; Limites do poder absoluto.
1. Introdução
A narrativa de Davi, Bate-Seba e Urias, consignada em 2 Samuel 11-12, constitui um dos casos mais emblemáticos das Escrituras Hebraicas concernentes à corrupção do poder e à imperiosa necessidade de instâncias morais capazes de confrontá-lo. O episódio, que culmina no reconhecimento da transgressão real mediante a parábola do profeta Natan (2 Sm 12,1-7), oferece campo fértil para reflexões interdisciplinares que dialogam com a teologia bíblica, a ética filosófica e a teoria política.
O presente estudo propõe-se a responder à questão fundamental: de que modo opera a censura ética diante do poder absoluto, e quais são as instâncias legítimas de seu exercício? Para tanto, desenvolvem-se duas perspectivas analíticas complementares: uma primeira, de natureza exegetíca, que examina a função do profeta no contexto da monarquia israelita; e uma segunda, de caráter filosófico-moral, que investiga a possibilidade de equivalências funcionais em contextos sociais não teocráticos.
2. O Profeta como Instrumento de Confronto na Estrutura Monárquica Israelita
Na configuração sociopolítica da monarquia unida israelita, conforme descrita nos textos deuteronomísticos, o monarca ocupava o ápice da pirâmide hierárquica, detendo autoridade suprema nas esferas judiciária, militar e cultual (cf. Dt 17,14-20; 1 Sm 8,11-18). Não obstante a existência de mecanismos formais de limitação do poder real — notadamente a Lei (Torá) como norma suprema (Dt 17,18-19) —, a prática efetiva demonstrava considerável assimetria institucional: inexistiam, no período pré-exílico, instâncias fiscalizadoras independentes dotadas de competência para julgar condutas do soberano.
Quando o poder se corrompe mediante processo de horizontalização — fenômeno caracterizado pela instrumentalização de pares e súditos como meros objetos da vontade governamental —, torna-se imperativa a emergência de um contraponto capaz de restabelecer a verticalidade ética. No horizonte teológico da aliança (bərît), esse contraponto assume a figura do profeta (nāḇî'), investido de autoridade carismática e delegada (cf. Jr 1,4-10; Ez 2,1-3,11).
Natan, ao confrontar Davi mediante a parábola da ovelha (2 Sm 12,1-6), exerce precisamente essa função de "consciência externa" (Ricoeur, 1960), isto é, uma instância crítica que o sujeito havia silenciado interiormente. O profeta não representa interesses particulares nem oposição política partidária, mas uma instância transcendente — o sagrado (qōdeš) — que julga as ações do monarca segundo padrão moral superior à própria autoridade real. A eficácia do confronto profético — demonstrada pelo arrependimento de Davi (2 Sm 12,13) — evidencia que, na teologia deuteronomística, somente aquele investido de autoridade divina poderia desafiar o poder absoluto sem aniquilamento físico ou político.
3. A Censura Ética em Perspectiva Secular: Instituições e Princípios
A transição do âmbito teológico para o campo filosófico-moral exige a consideração de que a censura ética não depende exclusivamente de mediação sagrada. A tragédia davídica ilustra que, na ausência de limites internos (consciência moral) ou externos (instituições fiscalizadoras), o poder tende necessariamente à extrapolação. Historicamente, o profeta constituiu a voz que faltava; contudo, em sociedades pluralistas e não teocráticas, a função "natânica" distribui-se por múltiplas instâncias e princípios.
3.1. Instituições republicanas e a separação de poderes
A arquitetura institucional das democracias contemporâneas estabelece mecanismos formais de contenção do poder político. Parlamentos dotados de fiscalização legislativa, judiciários independentes e imprensa livre funcionam como "profetas" laicos incumbidos de confrontar o poder quando este transgride limites éticos. Tais instituições representam a lei positiva e o contrato social, configurando-se como equivalentes funcionais modernos da "aliança" (bərît) bíblica (Rawls, 1971; Habermas, 1992).
3.2. Sociedade civil e opinião pública
Movimentos sociais, organizações não governamentais e mobilizações populares assumem papel de "consciência coletiva", denunciando abusos de poder e exigindo accountability dos governantes. Essa dimensão corresponde à função profética de denúncia (tôkēaḥāh) e intercessão (pāg̱a'), operando, todavia, mediante pressão social e política rather than autoridade carismática divina.
3.3. Filosofia moral e ética secular
A condenação do adultério e do homicídio — transgressões centrais na narrativa de 2 Samuel 11 — não se restringe ao discurso religioso. A tradição filosófica ocidental, desde a reflexão platônica e aristotélica sobre a tirannis até o imperativo categórico kantiano, desenvolveu fundamentações racionais para a limitação do poder e a busca do bem comum (Kant, 1785). Sob essa ótica, Davi teria incorrido em falha moral ao não universalizar sua máxima de ação: se todos os governantes adotassem o homicídio como instrumento de encobrimento de erros, a própria possibilidade de coexistência social colapsaria.
4. Considerações Finais
A narrativa de Davi e Natan evidencia que o poder absoluto requer contraponto absoluto. No contexto histórico-teológico da monarquia israelita, esse contraponto assumia a forma do representante do sagrado. Todavia, a essência da narrativa transcende seu enquadramento religioso originário para afirmar, de modo universal, que nenhum ser humano, independentemente de seu poder, pode colocar-se acima da lei moral sem enfrentar consequências ou, minimamente, censura ética.
A transgressão de Davi não se restringiu à esfera teológica; constituiu erro humano de consequências devastadoras, exemplificando a patologia da "visão horizontalizada" — fenômeno característico de quem se concebe como entidade superior entre os homens. Na ausência contemporânea de profetas que se apresentem com parábolas sobre ovelhas, a Constituição, a imprensa livre e a própria marcha da História cumprem função equivalente: a de recordar ao poderoso, como Natan recordou a Davi, que "tu és este homem" (2 Sm 12,7).
Referências Bibliográficas
Habermas, J. (1992). Faktizität und Geltung: Beiträge zur Diskurstheorie des Rechts und des demokratischen Rechtsstaats. Frankfurt am Main: Suhrkamp.
Kant, I. (1785). Grundlegung zur Metaphysik der Sitten. Riga: Johann Friedrich Hartknoch.
Rawls, J. (1971). A Theory of Justice. Cambridge: Harvard University Press.
Ricoeur, P. (1960). Philosophie de la volonté, II: Finitude et culpabilité. Paris: Aubier.
Bibliografia Bíblica (edições consultadas):
- Bíblia Hebraica Stuttgartensia (BHS)
- Novum Testamentum Graece (NA28)
- Traduções: Nova Versão Internacional (NVI); Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB).
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