O Rito de Lázaro: A Liturgia das Migalhas
(Um Ofício da Exclusão e da Esperança Escatológica)
Intróito: O Advento da Fome
O altar não era de mármore, mas de poeira. O santuário, o espaço sob a mesa do rico, onde os ruídos da festa ecoavam como salmos distorcidos. Lázaro, o oficiante involuntário desta liturgia invertida, iniciava seu ofício diário com um ato de espera que era, em si, uma oração muda. Seu corpo era o missal aberto, suas chagas, as rubricas desta cerimônia do desprezo.
Primeira Leitura: Profecia das Migalhas (Lc 16:19-21)
A liturgia começava com a leitura dos sinais: o tilintar dos cálices, o riso espesso dos convivas, o aroma de pão quente que descia como uma bênção irônica. Cada migalha que caía da toalha bordada era um versículo de um evangelho da escassez. Lázaro não pedia o banquete; seu coração afeiçoara-se à economia da sobra. Sua devoção era vigiar o instante da queda, aquele kairos em que o excesso do rico se tornava, por um segundo, a provisão do pobre. As migalhas eram sua eucaristia amarga, um corpo esfarelado partido sem intenção de comunhão.
O Salmo das Feridas Abertas
As feridas eram seu saltério. Enquanto os cães—credenciados diáconos desta liturgia estranha—vinham lamber-lhe as úlceras, ele recitava, sem palavras, o salmo da dor persistente. Cada lambida era um versículo de um salmo de abandono: "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" (Sl 22:1). Mas nos cães havia uma paradoxal misericórdia animal—eles não fugiam de sua miséria; aproximavam-se, em um gesto de compaixão instintiva que faltava aos seres humanos da festa. Eles eram a comunidade desta igreja à margem do portão.
A Epístola do Grande Abismo (Lc 16:26)
A lição mais profunda vinha da arquitetura da exclusão. O portão do rico não era apenas de ferro; era o "grande abismo" já estabelecido na terra (Lc 16:26). Era um espaço litúrgico: de um lado, o Sanctus do banquete; do outro, o Kyrie Eleison silencioso da necessidade. Lázaro, em seu rito diário, testemunhava a liturgia da indiferença, onde o rico, vestido de púrpura e linho (os paramentos de sua auto-justificação), oferecia incenso à sua própria prosperidade, sem ver o altar vivo de carne sofredora a seus pés.
O Evangelho da Reversão (Lc 16:22-25)
Mas toda liturgia aponta para um mistério. E o rito de Lázaro era, na verdade, um Advento prolongado. Sua fome era um jejum profético. Sua fraqueza, um poder escondido. Aos olhos do mundo, ele era um fracassado em seu ofício divino—um sacerdote sem sacrifício aceito. Aos olhos da eternidade, ele celebrava, na pobreza, um rito de investidura. Cada dia de abandono era uma vela acesa esperando a Vigília Pascal.
E então vinha o Pater Noster silencioso: "O pão nosso de cada dia nos dá hoje." Mas o pão que lhe chegava era o que sobrava, o que caía, o pós-comunhão dos outros. E, no entanto, nessa economia perversa, ele aprendia a depender não da mesa do rico, mas da mão invisível que sustentava Jó em seu esterco e Elias junto ao ribeiro de Querite.
O Ofertório: O Corpo como Oblação
Qual era a oferta de Lázaro? Ele não tinha cordeiros, nem azeite, nem primícias. Sua oferta era seu próprio corpo, uma hóstia viva colocada sobre o altar do limiar social. Sua existência era um memorial contínuo, uma peça de teatro sagrado que revelava o pecado de uma sociedade que celebrava a comunhão dentro de casa enquanto excluía o co-adorador da porta. Suas feridas, abertas, eram como o véu do templo rasgado—revelando a doença de um coração humano que pode deleitar-se em abundância ao lado da agonia.
A Consagração: O Momento da Morte e da Coroação
A consagração desta estranha liturgia só aconteceu na morte. Os anjos que o carregaram para o seio de Abraão foram os ministros que finalmente vestiram o oficiante com os paramentos adequados. A morte foi sua ordenação. O pranto não ouvido na terra tornou-se o cântico triunfal nos átrios celestes. A migalha rejeitada tornou-se o convidado de honra no banquete eterno. O rito chegava ao seu Sursum Corda definitivo: o coração de Lázaro, finalmente, levantado.
A Comunhão Eschaton: Inversão dos Lugares
No grande Amen da história, a liturgia revelou seu significado. O rico, agora no Hades, implorava por uma gota d'água—uma migalha de misericórdia. Lázaro, acolhido, desfrutava da comunhão plena. A mesa havia virado. A liturgia das migalhas terrestres cedia lugar ao Banquete do Cordeiro, onde não há portões, nem abismos, nem sobras—apenas a abundância da graça que sacia toda fome.
Pós-Comunhão: O Rito que Nos Interpela
Assim, a liturgia de Lázaro não termina. Ela se desdobra em cada portão onde a humanidade é dividida. Ele nos ensina que:
1. A verdadeira adoração não pode ignorar o altar humano à porta. Qualquer rito que não enxergue Lázaro é um ruído vazio (Is 1:13-17; Am 5:21-24).
2. O sofrimento do justo, embora incompreensível, pode ser um rito de intercessão silenciosa—um participar dos sofrimentos de Cristo (Cl 1:24), cujas chagas são nossa cura.
3. A graça divina opera uma reversão cósmica. Os últimos serão primeiros; os famintos serão saciados (Lc 1:52-53). A liturgia final de Deus é sempre de restauração.
Portanto, ao nos aproximarmos de qualquer mesa—seja a da Eucaristia, seja a de nossa vida abundante—Lázaro, o oficiante-mor dos esquecidos, nos sussurra a pergunta litúrgica mais crucial: Quem está fora do nosso portão? E que migalhas da nossa justiça, da nossa atenção, da nossa graça, estamos deixando cair—ou melhor, oferecendo intencionalmente—como santo pão da comunhão que aponta para o Banquete onde, finalmente, não haverá mais nem ricos nem pobres, mas apenas filhos saciados no abraço do Pai?
Amém. Vem, Senhor Jesus. Vem rápido à porta.
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