A estética como mediação teológica da revelação
1. Introdução
A reflexão teológica contemporânea tem redescoberto, com crescente interesse, a dimensão estética como categoria hermenêutica relevante para a compreensão da revelação divina. Longe de se restringir ao campo do gosto subjetivo ou da apreciação artística, a estética passa a ser entendida como um espaço de mediação entre o mundo sensível e a realidade transcendente. Nesse horizonte, a experiência da beleza se configura como uma resposta humana à manifestação da glória divina por meio da criação, assumindo contornos que articulam contemplação, conhecimento e culto.
2. A experiência estética como resposta ao vislumbre beatífico
A manifestação estética pode ser descrita como uma resposta contemplativa à percepção da beleza enquanto mediação do transcendente. Tal resposta emerge de um vislumbre beatífico, entendido não como a visão plena de Deus — reservada, na tradição cristã, à consumação escatológica —, mas como uma apreensão parcial e antecipatória da ordem, da harmonia e da formosura inscritas no cosmos. Esse vislumbre produz no sujeito uma experiência de bem-aventurança, na medida em que o belo desperta admiração, assombro e desejo de permanência.
Agostinho de Hipona já reconhecia essa dinâmica ao afirmar que as criaturas, em sua beleza, clamam silenciosamente pelo Criador: “Interroga a beleza da terra, interroga a beleza do mar, interroga a beleza do ar que se dilata e se difunde [...] todas te respondem: olha-nos, somos belas. A sua beleza é uma confissão” (AGOSTINHO, Confissões, X, 6, 9). A experiência estética, portanto, não se esgota no objeto contemplado, mas aponta para além de si mesma, assumindo um caráter anagógico.
3. A estética elevada ao âmbito do culto
Quando compreendida teologicamente, a estética ultrapassa o domínio da contemplação passiva e é elevada ao âmbito do culto. A admiração pela beleza criada transforma-se em oração, na medida em que o sujeito reconhece, ainda que implicitamente, a fonte última dessa beleza. Nesse sentido, a experiência estética adquire um caráter confessional: ela afirma que a beleza do universo não é fruto do acaso nem expressão de um princípio impessoal, mas manifestação de uma realidade pessoal.
Hans Urs von Balthasar desenvolve essa intuição ao sustentar que a glória (Herrlichkeit) constitui uma categoria fundamental da revelação cristã, inseparável da beleza. Para o autor, a forma (Gestalt) da revelação desperta fascínio e convida à adoração, pois nela resplandece a autoapresentação de Deus (BALTHASAR, 1982). Assim, a estética não é um adorno secundário da teologia, mas um de seus fundamentos estruturantes.
4. Fundamentos bíblicos, filosóficos e da teologia natural da estética teológica
A articulação entre beleza, criação e revelação encontra sólido respaldo na tradição bíblica. O Salmo 19 afirma que “os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos”, indicando que a criação possui uma dimensão revelacional objetiva. A beleza e a ordem do cosmos não apenas encantam, mas comunicam algo do Criador, funcionando como linguagem não verbal da glória divina.
Esse horizonte bíblico dialoga de modo significativo com a filosofia clássica, especialmente com Platão. No Banquete e na República, o filósofo concebe o Belo como uma via de acesso ao Bem, capaz de elevar a alma do mundo sensível ao inteligível. A experiência estética, nesse contexto, possui uma função pedagógica e ascensional, conduzindo o sujeito à contemplação da realidade suprema (PLATÃO, Banquete, 210a–212b).
As tradições abraâmicas incorporam e ressignificam essas intuições ao afirmar que a beleza do mundo criado não é autossuficiente, mas remissiva. Essa remissividade fundamenta-se no pressuposto clássico da teologia natural segundo o qual a criação, enquanto obra divina, possui uma capacidade real — ainda que limitada e analógica — de comunicar algo sobre o seu Autor.¹ Ela convoca o ser humano à adoração e à responsabilidade, orientando o olhar para além do sensível e situando a experiência estética no interior de uma relação pessoal com Deus.
5. Estética e teologia natural: implicações críticas
A inserção da estética no horizonte da teologia natural permite compreender a beleza como um dos vestigia Dei presentes na criação. Diferentemente de uma teologia natural racionalista, centrada exclusivamente em inferências lógico-dedutivas, a via estética opera por meio da contemplação e do reconhecimento afetivo-intelectual da ordem e da forma. Tomás de Aquino já indicava que o pulchrum se relaciona intrinsecamente com o bonum e o verum, uma vez que aquilo que é verdadeiramente belo manifesta proporção, integridade e claridade (claritas).²
No entanto, a tradição teológica moderna levantou críticas significativas a uma confiança excessiva na teologia natural. Karl Barth, por exemplo, rejeitou qualquer tentativa de acesso autônomo a Deus por meio da criação, entendendo-a como uma ameaça à soberania da revelação em Cristo.³ Todavia, mesmo em Barth, permanece uma noção de criação como teatro da glória divina (theatrum gloriae Dei), conceito herdado de Calvino, que admite uma dimensão revelacional subordinada e dependente da graça.⁴
Nesse sentido, a estética teológica pode ser compreendida como uma forma não autônoma de teologia natural: ela não pretende substituir a revelação especial, mas funcionar como testemunho pré-discursivo e preparatório, capaz de dispor o sujeito humano à escuta da Palavra. A beleza criada não salva, mas convoca; não revela o conteúdo pleno do evangelho, mas aponta para a realidade pessoal do Criador.
6. Considerações finais
A estética, compreendida como mediação teológica, revela-se um espaço privilegiado de encontro entre criação, revelação e culto. Ao unir o testemunho bíblico, a reflexão filosófica clássica e a tradição espiritual cristã, torna-se possível compreender a experiência da beleza como uma forma legítima de conhecimento teológico — não discursivo, mas contemplativo — que culmina na adoração. Assim, a admiração estética não se opõe à fé, mas a aprofunda, configurando-se como resposta humana ao resplendor da glória divina manifestada no mundo.
Referências
AGOSTINHO. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Paulus, 1997.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Tradução de Alexandre Correia. São Paulo: Loyola, 2001.
BALTHASAR, Hans Urs von. Glória: uma estética teológica. v. 1. Tradução de J. A. Mac Dowell. São Paulo: Loyola, 1982.
BARTH, Karl. A Epístola aos Romanos. Tradução de J. M. S. Câmara. São Paulo: Novo Século, 2003.
CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Tradução de Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
ECO, Umberto. Arte e beleza na estética medieval. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2010.
MARITAIN, Jacques. Arte e escolástica. Tradução de A. Teixeira. São Paulo: Loyola, 1995.
PLATÃO. O Banquete. Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
SCRUTON, Roger. Beleza. Tradução de Luis Carlos Borges. São Paulo: É Realizações, 2013.
TILLICH, Paul. Teologia Sistemática. Tradução de Getúlio Bertelli. São Leopoldo: Sinodal, 2005.
———. A coragem de ser. Tradução de E. G. Wachs. São Paulo: Paz e Terra, 2009.
¹ Sobre os vestigia Dei na tradição patrística e medieval, ver AGOSTINHO, De Trinitate, VI, 10.
² AQUINO, Suma Teológica, I, q. 5, a. 4.
³ BARTH, Nein! Antwort an Emil Brunner. München: Chr. Kaiser Verlag, 1934.
⁴ CALVINO, Institutas, I, 5.
AGOSTINHO. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Paulus, 1997.
BALTHASAR, Hans Urs von. Glória: uma estética teológica. v. 1. Tradução de J. A. Mac Dowell. São Paulo: Loyola, 1982.
PLATÃO. O Banquete. Tradução de Maria Teresa Schiappa de Azevedo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
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