Análise da Reconstituição Histórico-Textual.

Análise da Reconstituição Histórico-Textual: Metodologia da Crítica Textual e a Reconstrução de Manuscritos do Cristianismo Primitivo na Ásia Menor (Século II d.C.)


Resumo

O presente ensaio examina as possibilidades e limitações metodológicas concernentes à reconstituição da integridade textual e teológica de manuscritos bíblicos do século II d.C. na Ásia Menor, mediante a aplicação da crítica textual e da história da transmissão do texto. Argumenta-se que, embora a reconstrução física exata do autographon seja epistemologicamente inatingível, a inferência das características teológicas, litúrgicas e materiais de tais documentos constitui empresa metodologicamente viável, desde que operacionalizada através de protocolos analíticos rigorosos.

Palavras-chave: Crítica Textual; História da Transmissão; Manuscritos do Novo Testamento; Ásia Menor; Século II d.C.; Papirologia.


1. Introdução

A questão da reconstituição retrospectiva de manuscritos bíblicos do cristianismo primitivo apresenta desafios epistemológicos significativos para a pesquisa histórico-religiosa. O presente estudo propõe-se a analisar as metodologias disponíveis para a reconstrução da integridade — compreendida tanto em seu aspecto material quanto teológico-litúrgico — de textos que circularam na Ásia Menor durante o século II d.C., particularmente no que concerne aos papiros unciais e às comunidades religiosas da região.


2. Fundamentação Metodológica: A Crítica Textual como Instrumento de Retroalimentação Histórica

A reconstrução da integridade textual de manuscritos não mais existentes em seu estado físico original exige a mobilização de um aparato metodológico complexo, operacionalizado mediante os seguintes procedimentos analíticos:


2.1. Coleta e Classificação de Testemunhas Textuais

O primeiro estágio metodológico consiste na agregação de papiros datados do século III d.C. em diante que apresentem afinidades com as famílias textuais características da Ásia Menor, notadamente o denominado Textus Occidentalis e as recensões primitivas do Textus Alexandrinus (METZGER; EHRMAN, 2005). A identificação de tais testemunhas fundamenta-se em critérios paleográficos, codicológicos e textológicos que permitam estabelecer genealogias de transmissão.


2.2. Análise das Citações Patrísticas

O segundo procedimento compreende o exame das citações bíblicas presentes nos escritos dos Padres da Igreja associados à Ásia Menor. Particular relevância assume a análise das obras de Irineu de Lyon (c. 130–202 d.C.), originário de Esmirna, cujas citações evangélicas e paulinas constituem evidência indireta da forma textual dos manuscritos por ele utilizados no final do século II (NORRIS, 2004). A comparação das leituras atestadas por Irineu com as variantes presentes nos papiros egípcios e nos manuscritos bizantinos posteriores possibilita a identificação de leituras tipologicamente associadas à região da Ásia.


2.3. Identificação de Variantes Regionais

A análise comparativa das variantes textuais permite inferir características específicas da transmissão asiática. Por exemplo, a tendência expansiva observada nos manuscritos de Atos dos Apóstolos de proveniência asiática — caracterizada pela adição de explicações teológicas e harmonizações — permite postular que tais interpolações já estariam presentes nos exemplares do século II em Éfeso (BARRETT, 1998).


3. O Contexto Sociorreligioso: Comunidades, Confissionalidade e Marcação Textual

O século II d.C. na Ásia Menor caracterizou-se por intensa pluralidade teológica e competição confessional, contexto que inevitavelmente influenciou a transmissão e a recepção dos textos bíblicos. As principais correntes identificáveis incluem:

- Comunidades joaninas (Éfeso): Caracterizadas por alta cristologia e ênfase na divindade de Cristo, conforme atestado na tradição joanina (BROWN, 1979);

- Montanistas (Frígia): Movimento profético que enfatizava a continuidade da revelação e o papel do Paráclito (TABBERNEE, 2007);

- Proto-ortodoxos: Seguidores da sucessão episcopal apostólica, posteriormente hegemônicos na definição do cânon;

- Marcionitas: Partidários de Marcion de Sinope, que propunham cânon reduzido (Lucas e Paulo) e rejeição do Antigo Testamento (BLACKMAN, 1948).

A identificação da confessionalidade subjacente a determinado manuscrito ou família textual pode ser operacionalizada mediante a análise de padrões temáticos recorrentes. A ênfase particular no papel do Paráclito no Evangelho de João, por exemplo, pode indicar uso em contextos montanistas ou, alternativamente, em comunidades joaninas tradicionais (TREVETT, 2002).


3.1. Dimensões da Integridade Manuscrital

A noção de integridade textual transcende o plano meramente grafémico, englobando as seguintes dimensões:


3.1.1. Aspectos Codicológicos e Materiais

A materialidade do objeto livro constitui indicador cultural significativo. A adoção do códice em papiro (charta), em detrimento do rolo (volumen) hebraico ou do pergaminho de luxo romano, configura-se como marcador de identidade religiosa cristã, sinalizando a diferenciação em relação tanto ao judaísmo sinagogal quanto às práticas pagãs de consumo textual (ROBERTS; SKEAT, 1983).


3.1.2. Marcas de Uso e Intervenções Textuais

A análise paleográfica das correções e lectiones variae permite identificar intervenções posteriores, possivelmente realizadas por leitores ortodoxos em processo de "limpeza" de leituras consideradas heterodoxas (PARKER, 1997).


4. Limites e Possibilidades da Reconstituição Retrospectiva

A tentativa de "retroagir no tempo" histórico-textual não produz uma "fotografia" do manuscrito, mas sim um "mapa de tendências" (GAMBLE, 1995). Com relativa segurança metodológica, pode-se postular que um manuscrito reconstituído de Esmirna, datado de c. 160 d.C., apresentaria as seguintes características:

1. Materialidade: Códice de papiro, conforme padrão cristão do período;

2. Conteúdo: Provável inclusão dos quatro evangelhos ou do Apostolikon paulino, com cânon ainda em processo de formação e possível ausência das epístolas católicas;

3. Theologia: Predominância de tom anti-docético, refletindo as controvérsias cristológicas da região, documentadas nas epístolas de Inácio de Antioquia (HOLMES, 2007);

4. Texto de Atos: Provável conformação ao Textus Occidentalis, com tendência expansiva e explicativa.


5. Considerações Finais

A reconstituição da integridade teológica e litúrgica de manuscritos do cristianismo primitivo na Ásia Menor constitui empreendimento metodologicamente viável, embora a reconstrução da integridade física exata permaneça como aproximação necessariamente incompleta. O estudioso opera analogicamente ao paleontólogo: a partir de fragmentos materiais (papiros), vestígios indiretos (citações patrísticas) e conhecimento do ecossistema sociorreligioso, constrói-se uma reconstrução operacional do objeto histórico e de suas modalidades de uso comunitário.

Portanto, a perspectiva retrospectiva não permite a visualização do texto em sua pureza originária, mas possibilita a delineação da "sombra teológica" por ele projetada sobre suas comunidades de recepção — o que, para os fins da história da exegese e da recepção bíblica, constitui objeto de conhecimento igualmente válido e fecundo.



Referências


BARRETT, C. K. A Critical and Exegetical Commentary on the Acts of the Apostles. Edinburgh: T&T Clark, 1998.

BLACKMAN, E. C. Marcion and His Influence. London: SPCK, 1948.

BROWN, Raymond E. The Community of the Beloved Disciple. New York: Paulist Press, 1979.

GAMBLE, Harry Y. Books and Readers in the Early Church: A History of Early Christian Texts. New Haven: Yale University Press, 1995.

HOLMES, Michael W. (ed.). The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations. 3. ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2007.

METZGER, Bruce M.; EHRMAN, Bart D. The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration. 4. ed. New York: Oxford University Press, 2005.

NORRIS, Richard A. (ed.). The Christological Controversy. Minneapolis: Fortress Press, 2004.

PARKER, David C. The Living Text of the Gospels. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.

ROBERTS, Colin H.; SKEAT, T. C. The Birth of the Codex. London: Oxford University Press, 1983.

TABBERNEE, William. Fake Prophecy and Polluted Sacraments: Ecclesiastical and Imperial Reactions to Montanism. Leiden: Brill, 2007.

TREVETT, Christine. Montanism: Gender, Authority and the New Prophecy. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.

Machado de Assis e a Hermenêutica de Ricouer.

Machado de Assis e a Hermenêutica de Paul Ricœur: A Dialética da Antecipação e da Mediação na Construção do Sentido Narrativo


Resumo

O presente artigo investiga a relação entre a poética machadiana e a teoria da mimese desenvolvida por Paul Ricœur, com ênfase particular na análise de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). Partindo da hipótese de que a obra de Machado de Assis antecipa e simultaneamente media o processo de encontro entre leitor e texto, propõe-se uma leitura que articula os conceitos de Mimese II (configuração) e Mimese III (refiguração) delineados em Tempo e Narrativa (1983-1985). Argumenta-se que o narrador brasiliense estabelece uma estratégia discursiva calcada na ambiguidade calculada, mediante a qual a recepção da obra é não apenas prevista, mas encenada no próprio tecido narrativo, dissolvendo a dicotomia entre arquiteto e cicerone do texto.

Palavras-chave: Machado de Assis; Paul Ricœur; Hermenêutica; Mimese; Recepção; Memórias Póstumas de Brás Cubas.


1. Introdução

A interlocução entre a literatura brasileira do século XIX e os desenvolvimentos contemporâneos da teoria literária e da filosofia hermenêutica tem se configurado como um campo fecundo de investigação acadêmica. Nesse contexto, a obra de Machado de Assis (1839-1908), particularmente sua fase madura, inaugurada com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), apresenta-se como objeto privilegiado para análises que buscam articular a prática ficcional com reflexões metanarrativas sobre a constituição do sentido literário.

O presente estudo propõe-se a examinar a estética machadiana à luz da teoria da mimese desenvolvida pelo filósofo francês Paul Ricœur (1913-2005), especialmente em sua obra Tempo e Narrativa (Temps et Récit, 1983-1985). A questão central que orienta esta investigação pode ser formulada do seguinte modo: em que medida a poética de Machado de Assis antecipa o processo de encontro do leitor com a obra — conforme postulado pela Mimese III ricoeuriana — sem, contudo, abandonar o leitor à própria sorte hermenêutica?

A hipótese aqui sustentada é a de que o escritor brasileiro opera uma síntese dialética entre essas duas dimensões, produzindo uma ambiguidade calculada que confere à sua obra um estatuto singularmente moderno no panorama da narrativa ocidental. Tal ambiguidade manifesta-se na construção de um narrador que, ao mesmo tempo em que prefigura a recepção do texto, estabelece com o leitor uma relação de mediação e guia, transformando o ato da leitura em um diálogo intersubjetivo.


2. Fundamentação Teórica: A Tríade Mimética de Paul Ricœur

Para a devida compreensão do problema em questão, faz-se necessário retomar brevemente a arquitetura conceitual ricoeuriana. Em Tempo e Narrativa, Ricœur desenvolve uma teoria da narratividade fundamentada em três momentos interdependentes, designados como Mimese I, Mimese II e Mimese III (RICŒUR, 1994).

A Mimese I (mimesis pré-figurada) corresponde à compreensão pré-narrativa que o sujeito possui da temporalidade e da ação, isto é, o horizonte de expectativas culturais e simbólicas que antecede qualquer configuração textual. A Mimese II (mimesis configurada) refere-se à operação própria do texto narrativo, mediante a qual a ação é organizada segundo estruturas temporais e composicionais específicas, engendrando o "mundo da obra". Por fim, a Mimese III (mimesis refigurada) designa o momento da recepção, em que o leitor, confrontado com o mundo proposto pelo texto, procede à sua refiguração, trazendo à tona seu próprio horizonte de experiência e estabelecendo um diálogo entre o mundo da obra e o mundo da vida (RICŒUR, 1994, p. 101-156).

É precisamente na interface entre a Mimese II e a Mimese III que a poética machadiana instala sua especificidade, conforme se procura demonstrar nas seções seguintes.


3. Machado de Assis como "Arquiteto" da Mimese III: A Antecipação do Processo de Refiguração

A partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis inaugura uma modalidade narrativa caracterizada pela ruptura com as convenções do romance realista oitocentista. Não obstante, tal ruptura não se configura como mero exercício de vanguarda formal; antes, ela vem acompanhada de uma sofisticada operação metanarrativa que antecipa e orquestra o processo de encontro do leitor com a obra.

O narrador brasiliense, ao se dirigir diretamente ao destinatário empírico por meio de apostrofes recorrentes — "leitor distraído", "leitora minha querida", "leitor antipático" (ASSIS, 1999) —, não se limita a efetuar a quebra convencional da "quarta parede" dramatúrgica. Opera-se, nesse gesto, uma inscrição do leitor no próprio tecido textual, de modo que a Mimese III (a refiguração propriamente dita) é, paradoxalmente, encenada no interior da Mimese II (a configuração textual).

Conforme assinala Ricœur (1994, p. 389), o sentido da narrativa não se esgota no texto, mas realiza-se no ato da leitura. Machado de Assis, contudo, parece levar essa premissa a suas últimas consequências, construindo um narrador que personifica a consciência dessa dialética. Brás Cubas, o "defunto autor", escreve desde a perspectiva de quem já foi lido, interpretado e julgado, instaurando uma temporalidade complexa em que o momento da enunciação já pressupõe o momento da recepção.

Nesse sentido, o texto machadiano pode ser compreendido como uma arquitetura discursiva que prevê sua própria recepção, convertendo o leitor em personagem ativa do jogo narrativo. A obra não se apresenta como objeto acabado, mas como evento hermenêutico que só se consuma no encontro intersubjetivo entre narrador e destinatário.


4. Machado de Assis como "Cicerone" do Caos: A Mediação do Processo de Leitura

Paralelamente à operação de antecipação descrita na seção anterior, a poética machadiana desenvolve uma estratégia complementar de mediação e guia do leitor. A inovação formal operada por Machado de Assis — caracterizada pela fragmentação narrativa, pela estrutura capitular descontínua, pelas digressões filosóficas e pelo tom irônico-pessimista — poderia, em tese, gerar um efeito de estranhamento ou de abandono do destinatário, particularmente considerando-se o horizonte de expectativas do leitor oitocentista, habituado à linearidade do romance realista-naturalista.

Nesse contexto, o diálogo estabelecido entre narrador e leitor funciona como um mecanismo de negociação dos termos de um "novo contrato de leitura" (compreendido aqui no sentido que Jacques Derrida atribui ao conceito de "contrato" textual, embora operando dentro de uma perspectiva hermenêutica). Ao advertir o leitor sobre as idiossincrasias do percurso narrativo — "Não espere uma história comum. Vou pular, vou divagar, vou falar de coisas aleatórias" —, o narrador brasiliense estabelece uma cumplicidade que ameniza o impacto das inovações formais e temáticas.

A ironia, elemento constitutivo do estilo machadiano, opera nesse contexto como instrumento de mediação hermenêutica. Quando o narrador profere suas "teorias" — como o célebre "humanitismo" — ou suas reflexões existenciais amargas, a interrupção do discurso filosófico por meio de gracejos ou interpelações diretas ao leitor cria um efeito de distanciamento que, longe de fragmentar o sentido, o reforça mediante a construção de uma complicidade intersubjetiva.

O leitor, assim, não se sente abandonado à própria sorte hermenêutica, mas acompanhado por um "cicerone irônico" que conhece os atalhos do labirinto textual. A ironia funciona, nesse sentido, como uma forma de "salva-vidas" epistemológico, garantindo que, mesmo diante das provocações niilistas do narrador, permaneça viva a consciência de uma inteligência ordenadora que conduz o processo de leitura.


5. A Dissolução da Falsa Dualidade: Síntese Dialética na Poética Machadiana

A análise precedente permite concluir que a genialidade estética de Machado de Assis reside precisamente na dissolução da aparente dicotomia entre antecipação e mediação. O narrador brasiliense não opta por uma ou outra estratégia; antes, articula-as de modo dialético, de forma que a antecipação do processo de encontro só é possível porque o leitor não é abandonado nesse encontro.

O diálogo machadiano constitui, assim, a própria encenação da Mimese III ricoeuriana. Cria-se um espaço textual em que a refiguração não se configura como evento posterior e acidental à configuração, mas como componente integrante do jogo narrativo. A obra machadiana, nesse sentido, é construída de modo a conter, em sua estrutura mesma, a previsão de sua própria recepção, convertendo o ato solitário da leitura em diálogo intersubjetivo.

A intenção poética de Machado de Assis não se restringe, portanto, à mera previsão do fenômeno hermenêutico (como filósofo que antecipa um processo), tampouco se limita à função didático-gnoseológica de guiar o leitor (como pedagogo do texto). Sua proposta estética visa, antes, à criação de uma obra que só alcance sua plena existência no momento do encontro com o destinatário.

O leitor machadiano é, nesse sentido, convocado a assumir o estatuto de coautor da significação, transformando o ato da leitura em "grande e irônica aventura do sentido" (ASSIS, 1999). Não se trata de um leitor abandonado à deriva hermenêutica, mas de um leitor "contratado" para a construção compartilhada do mundo ficcional.


6. Considerações Finais

A articulação entre a poética de Machado de Assis e a hermenêutica de Paul Ricœur revela-se como campo produtivo para a compreensão da modernidade narrativa brasileira. A análise de Memórias Póstumas de Brás Cubas demonstra que o escritor brasileiro operou uma sofisticada síntese entre a antecipação do processo de recepção e a mediação do encontro com o leitor, dissolvendo a dicotomia entre arquiteto e cicerone do texto.

Tal operação confere à obra machadiana um estatuto privilegiado na história da narrativa ocidental, na medida em que converte a reflexão metanarrativa em estratégia constitutiva do sentido. A Mimese III ricoeuriana, longe de ser mero momento posterior à configuração textual, é encenada no próprio tecido da Mimese II, instaurando uma temporalidade complexa em que a recepção é simultaneamente prevista, mediada e realizada.

Futuras investigações poderão estender essa análise a outras obras da fase madura de Machado de Assis — como Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899) —, bem como explorar as implicações dessa poética para a teoria contemporânea da recepção e dos estudos de leitura.


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Referências

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática, 1999.

RICŒUR, Paul. Tempo e Narrativa. Trad. Constança Marcondes Cesar. 3 v. Campinas: Papirus, 1994.


A Refiguração Narrativa e Leituras nos Papiros Unciais.

A Refiguração Narrativa na Leitura Pública de Papiros Unciais: Uma Análise à Luz da Mimese III.


Resumo

O presente artigo propõe uma análise da operação hermenêutica da Mimese III (Refiguração), conforme elaborada por Paul Ricœur, aplicada ao contexto histórico específico da leitura pública de papiros unciais durante a Antiguidade Tardia e o início da Idade Média. Busca-se demonstrar como o encontro entre o mundo do texto e o mundo do ouvinte se configurava como um ato eminentemente performático, comunitário e sensorial, distanciando-se substancialmente das práticas leitoras modernas de caráter individual e silencioso.


1. Introdução: O Problema e o Cenário Histórico

O conceito filosófico de Mimese III, desenvolvido por Ricœur em Tempo e Narrativa, designa o momento culminante do processo narrativo, no qual a configuração textual (Mimese II) articula-se à pré-compreensão do destinatário (Mimese I), resultando em uma transformação da experiência temporal e prática do sujeito. O presente estudo aplica esse arcabouço teórico à prática da leitura pública de papiros unciais — códices ou rolos confeccionados em papiro e escritos em letras maiúsculas, arredondadas e separadas, predominantes entre os séculos IV e VIII d.C. —, comum em contextos litúrgicos, monásticos e acadêmicos da época.


2. O Leitor como Agente da Refiguração

Na Mimese II, o autor — ou o copista, enquanto configurador secundário — organiza o texto na página. A escrita uncial, pela sua clareza monumental, constitui-se já como um ato de configuração voltado para a oralidade. Contudo, é na Mimese III que o texto adquire efetividade existencial.

O leitor público não se restringe à função de decodificador; assume-se como primeiro intérprete e agente central da refiguração. Por meio de sua performance vocal — entonação, pausas, ritmo —, corporifica a "síntese do heterogêneo" ricoeuriana, transformando as marcas gráficas em evento sonoro e temporal. Em contextos litúrgicos, particularmente, o leitor configura-se como figura de autoridade, mediador sagrado através do qual o "mundo do texto" (o universo das Escrituras) irrompe no mundo presente da comunidade.


3. O Público e a Dimensão Comunitária da Refiguração

A Mimese III na leitura pública de unciais distingue-se da leitura silenciosa moderna por seu caráter eminentemente coletivo. Os ouvintes, imersos na mesma performance, experimentam sincronicamente o tempo configurado pela narrativa. Ocorre, assim, uma articulação triádica: o tempo da história (o tempo do texto), o tempo litúrgico (o momento do ano, a festa religiosa) e o tempo da comunidade (sua história, suas provações e esperanças). Esta configuração representa a refiguração do tempo em seu estado mais acabado, conforme postulado por Ricœur.

A audição coletiva institui um "nós" hermenêutico. As reações afetivas do grupo — emoções, suspiros, comoção — manifestam materialmente a operação refigurativa. O sentido não emerge da interpretação solitária, mas da construção coletiva operada pelo corpo social.


4. A Materialidade e o Contexto como Catalisadores

A materialidade do suporte e o espaço físico da leitura não constituem elementos neutros; participam ativamente do processo de refiguração.

O papiro uncial, enquanto objeto precioso, de dimensões consideráveis, confeccionado em material importado e com caligrafia meticulosa, exala uma aura de autoridade, sacralidade e permanência. O ouvinte não apenas percebe a narrativa auditivamente; visualiza o artefato que a contém, cuja mera existência atesta a importância e a veracidade do conteúdo. Essa percepção sensorial molda decisivamente a maneira pela qual a mensagem é refigurada na experiência do sujeito.

Ademais, o espaço físico e sonoro — basílica com acústica particular, refeitório monástico, sala de aula —, as condições de iluminação e a reverberação da voz do leitor criam uma atmosfera estética e espacial específica. Este ambiente constitui o "mundo do ouvinte" que se fundirá ao "mundo do texto", tornando a refiguração também uma experiência estética situada.


5. A Dimensão Litúrgica e a Refiguração da Existência

No âmbito cristão, a leitura de um Evangelho em uncial durante a celebração eucarística não se restringia à transmissão de informação; configurava-se como ato performático de atualização da Palavra. A narrativa da Paixão, proclamada na Semana Santa, não remetia apenas a um acontecimento passado, mas refigurava a experiência presente dos fiéis, convocando-os à identificação com a narrativa e à projeção de seu significado sobre suas existências e sobre a esperança escatológica.


6. Considerações Finais

A Mimese III na leitura pública de papiros unciais configura-se como culminância de um processo complexo, no qual: (a) o texto, com sua intriga configurada e sua materialidade específica; (b) a comunidade, com sua pré-compreensão de mundo, fé e estrutura social; (c) a performance do leitor, que corporifica o texto; e (d) o ambiente físico e litúrgico, que determina o ritmo e a atmosfera da recepção, articulam-se dialeticamente.

O resultado dessa articulação é a refiguração da experiência coletiva: a comunidade não apenas compreende a história, mas é, em certo sentido, incorporada por ela, vendo seu sentido de tempo, identidade e mundo transformado pelo ato de audição. A narrativa deixa de ser objeto para tornar-se evento fundador da realidade do grupo.


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Referências

RICŒUR, Paul. Tempo e Narrativa. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1994. 3 v.

CAVARERO, Adriana. Por uma ontologia vocal da singularidade. Tradução de Paulo Neves. Revista Estudos Semióticos, São Paulo, v. 6, n. 3, 2010.

STOCK, Brian. The Implications of Literacy: Written Language and Models of Interpretation in the Eleventh and Twelfth Centuries. Princeton: Princeton University Press, 1983.

SAENGER, Paul. Space Between Words: The Origins of Silent Reading. Stanford: Stanford University Press, 1997.

Hegel vs Marx, ou Hegel & Marx?

A proposição segundo a qual “o ser é movimento autodinamizado pelas contradições que contém” pode ser tomada como uma formulação sintética do núcleo da dialética moderna e, nesse sentido, constitui um ponto de convergência fundamental entre Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx. Tal formulação expressa a compreensão de que a realidade não consiste em um conjunto de substâncias estáticas, mas em um processo dinâmico de vir-a-ser, cujo princípio motor reside nas contradições internas que a constituem. A dialética, assim entendida, não descreve um movimento imposto externamente aos entes, mas um dinamismo imanente que emerge da própria estrutura do real.

No sistema hegeliano, a dialética apresenta-se como lógica do desenvolvimento da Ideia. O ponto de partida da Ciência da Lógica é o conceito de Ser puro, cuja indeterminação absoluta conduz imediatamente à sua identidade com o Nada. Dessa tensão entre Ser e Nada emerge o Devir, primeira determinação concreta do pensamento. O movimento dialético caracteriza-se, portanto, como um processo de autossuperação conceitual, no qual cada determinação contém em si a negatividade que a impulsiona para além de si mesma. Trata-se de um movimento autodinamizado porque a contradição não é extrínseca ao conceito, mas constitui sua própria estrutura interna. Em última instância, esse processo culmina na autoconsciência do Espírito, de modo que a história é interpretada como o itinerário de autorrealização da Ideia.

Em Marx, por sua vez, a estrutura dialética é preservada, porém submetida a uma inflexão decisiva. A lógica da contradição deixa de operar primariamente no plano da Ideia para ser situada nas condições materiais de existência. A contradição fundamental não se encontra entre categorias lógicas, mas nas relações sociais historicamente determinadas. No modo de produção capitalista, por exemplo, evidencia-se a tensão entre forças produtivas e relações de produção, bem como entre o caráter social do trabalho e a apropriação privada dos meios de produção. Essas contradições não são meramente conceituais; manifestam-se em crises econômicas, conflitos de classe e transformações históricas concretas. A dialética, assim, converte-se em instrumento crítico para a análise das formações sociais.

A relação entre Hegel e Marx pode, portanto, ser descrita como herança e ruptura. Marx reconhece na dialética hegeliana o método capaz de apreender a realidade como processo contraditório; contudo, rejeita seu fundamento idealista, propondo uma “inversão” que situa o movimento na base material da vida social. Se, em Hegel, o sujeito do processo é a Ideia que se objetiva na história, em Marx o sujeito histórico é a práxis humana inserida em determinadas relações de produção. O “cordão umbilical” que os une reside na matriz dialética comum; a separação ocorre no plano ontológico que fundamenta essa dialética.

Conclui-se, assim, que a formulação proposta é adequada para caracterizar o elemento estrutural compartilhado por ambos os pensadores: a compreensão do ser como processo movido por contradições internas. Todavia, a distinção entre idealismo e materialismo permanece decisiva para a correta interpretação de seus respectivos sistemas filosóficos.

A Dieta Israelita.

A DIETA ISRAELITA NO CONTEXTO ECOLÓGICO E CULTURAL DO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO: UMA ANÁLISE MULTIDIMENSIONAL


Resumo

O presente artigo examina a inter-relação entre legislação religiosa, ecologia histórica e formação identitária no Antigo Oriente Próximo, com ênfase nas prescrições dietéticas da Torá (cashrut). Analisa-se a aparente tensão entre a rigidez normativa dessas prescrições e as condições ambientais semiáridas do antigo Israel, demonstrando que tal rigidez constitui, na verdade, uma resposta adaptativa integrada a fatores ecológicos, econômicos, culturais e teológicos.

Palavras-chave: Cashrut; Ecologia histórica; Antigo Israel; Identidade cultural; Antigo Oriente Próximo.


1. Introdução

A questão que orienta a presente investigação situa-se no âmbito da intersecção entre legislação religiosa, ecologia histórica e formação identitária no Antigo Oriente Próximo. A aparente tensão entre a rigidez das prescrições dietéticas da Torá e o ambiente semiárido do antigo Israel exige uma análise multidimensional, que considere fatores ecológicos, econômicos, culturais e teológicos. Propõe-se demonstrar que as normas alimentares israelitas não constituíam imposições arbitrárias, mas sistemas adaptativos profundamente integrados ao contexto ambiental e sociocultural da região.


2. A base pastoril da dieta israelita

As leis alimentares da Torá refletem, primordialmente, uma matriz pastoril, e não agrícola. As prescrições concentram-se na classificação dos animais aptos ao consumo e nos procedimentos de abate e preparo, o que corresponde a uma sociedade originalmente nômade ou seminômade.

Conforme descrito em Levítico 11 e Deuteronômio 14, são permitidos apenas animais ruminantes e de casco fendido — como bovinos, ovinos e caprinos —, espécies plenamente adaptadas às regiões montanhosas e semiáridas de Canaã. Esses animais convertem vegetação esparsa em recursos de alto valor nutricional (leite, carne e lã), maximizando a eficiência ecológica do sistema produtivo.

Em contraste, o porco — expressamente proibido — apresenta baixa adaptabilidade a ambientes áridos, requer sombra e água abundante e compete diretamente com os humanos por grãos. Tal incompatibilidade ecológica reforça a hipótese de que a proibição possuía, ademais, uma racionalidade ambiental.

Por fim, a interdição de predadores terrestres e aves de rapina indica coerência com um modo de vida pastoril, no qual tais animais representavam ameaças diretas ao rebanho e não recursos alimentares estratégicos.


3. Canaã e o microclima mediterrâneo

A caracterização de Canaã como "terra que mana leite e mel" (cf. Êxodo 3:8) deve ser compreendida em chave ecológica e simbólica. A região, embora inclua áreas desérticas, apresenta microclima mediterrâneo nas terras altas centrais, com regime de chuvas sazonais que favorecia pastoreio e agricultura complementar.

O "leite" remete à abundância de produtos lácteos — recurso renovável e central na dieta pastoril. O "mel", por sua vez, provavelmente designa tanto o mel silvestre quanto xaropes de tâmaras ou figos, fontes concentradas de açúcar disponíveis no Levante.

Embora cereais (trigo e cevada), uvas, figos e oliveiras compusessem a base agrícola, a proteína regular derivava sobretudo de laticínios, reservando-se o consumo de carne a ocasiões festivas e sacrificiais.


4. As restrições como adaptação ecológica e sanitária

Diversas prescrições podem ser interpretadas como estratégias adaptativas ao clima quente:

a) Proibição do sangue (cf. Levítico 17): além da fundamentação teológica ("o sangue é a vida"), o completo escoamento sanguíneo reduz riscos de deterioração bacteriana.

b) Interdição de certas gorduras (chelev): essas partes são mais suscetíveis à rancificação em clima quente.

c) Separação entre carne e leite (cf. Êxodo 23:19): ainda que possua provável pano de fundo cultual (distanciamento de práticas cananeias), a separação prática de processos distintos de conservação alimentar também pode ter contribuído para maior segurança alimentar.

Assim, as normas não devem ser reduzidas a meras medidas sanitárias, mas tampouco podem ser dissociadas de sua funcionalidade ecológica.


5. Distinção cultural no contexto do Antigo Oriente Próximo

A dieta israelita também operava como marcador identitário frente a outras culturas regionais.

No Antigo Egito, a economia irrigada do Nilo sustentava dieta mais diversificada, incluindo peixes e suínos. Povos cananeus das planícies costeiras igualmente dispunham de maior variedade alimentar. Já os israelitas das terras altas consolidaram uma identidade distintiva por meio de práticas dietéticas que reforçavam separação simbólica e social.

Esse fenômeno encontra paralelos entre grupos pastorais posteriores, como os beduínos da Península Arábica, cuja alimentação se estrutura majoritariamente em torno de laticínios e carne ovina ou caprina.


6. Dimensão teológica e santidade

Acima de sua racionalidade ecológica, as leis dietéticas são apresentadas na Torá como expressão de santidade (קדושה, kedushá). Em Levítico 19:2, a convocação "Sede santos, porque eu sou santo" insere a alimentação no âmbito da obediência cultual.

A prática alimentar torna-se, assim, um exercício cotidiano de disciplina e memória da aliança. A distinção entre puro e impuro transcende a biologia e assume dimensão simbólica, organizando o mundo em categorias que espelham a ordem sagrada.


7. Conclusão

A dieta prescrita na Torá revela-se profundamente coerente com o contexto ecológico e sociocultural do antigo Israel. Longe de constituir imposição impraticável, ela:

1. Otimizava recursos disponíveis em ambiente semiárido por meio do pastoreio;

2. Reduzia riscos de deterioração alimentar em clima quente;

3. Funcionava como mecanismo de diferenciação identitária no Antigo Oriente Próximo;

4. Sacralizava a vida cotidiana, integrando subsistência e teologia.

Desse modo, a rigidez normativa operava simultaneamente como estratégia de sustentabilidade material e como estrutura formadora de coesão espiritual, articulando ambiente, cultura e religião em um sistema integrado de sentido.

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Referências

BIBLIA SAGRADA. Tradução ecumênica. São Paulo: Paulus, 1994.

A dieta e a alimentação Kosher.

Essa questão situa-se no âmbito da inter-relação entre legislação religiosa, ecologia histórica e formação identitária no Antigo Oriente Próximo. A aparente tensão entre a rigidez das prescrições dietéticas da Torá e o ambiente semiárido do antigo Israel exige uma análise multidimensional, que considere fatores ecológicos, econômicos, culturais e teológicos.


1. A base pastoril da dieta israelita

As leis alimentares da Torá (cashrut) refletem, primordialmente, uma matriz pastoril, e não agrícola. As prescrições concentram-se na classificação dos animais aptos ao consumo e nos procedimentos de abate e preparo, o que corresponde a uma sociedade originalmente nômade ou seminômade.

Conforme descrito em Levítico 11 e Deuteronômio 14, são permitidos apenas animais ruminantes e de casco fendido — como bovinos, ovinos e caprinos — espécies plenamente adaptadas às regiões montanhosas e semiáridas de Canaã. Esses animais convertem vegetação esparsa em recursos de alto valor nutricional (leite, carne e lã), maximizando a eficiência ecológica do sistema produtivo.

Em contraste, o porco — expressamente proibido — apresenta baixa adaptabilidade a ambientes áridos, requer sombra e água abundante e compete diretamente com os humanos por grãos. Tal incompatibilidade ecológica reforça a hipótese de que a proibição possuía também uma racionalidade ambiental.

Além disso, a interdição de predadores terrestres e aves de rapina indica coerência com um modo de vida pastoril, no qual tais animais representavam ameaças diretas ao rebanho e não recursos alimentares estratégicos.


2. Canaã e o microclima mediterrâneo

A caracterização de Canaã como “terra que mana leite e mel” (cf. Êxodo 3:8) deve ser compreendida em chave ecológica e simbólica. A região, embora inclua áreas desérticas, apresenta microclima mediterrâneo nas terras altas centrais, com regime de chuvas sazonais que favorecia pastoreio e agricultura complementar.

O “leite” remete à abundância de produtos lácteos — recurso renovável e central na dieta pastoril. O “mel”, por sua vez, provavelmente designa tanto o mel silvestre quanto xaropes de tâmaras ou figos, fontes concentradas de açúcar disponíveis no Levante.

Embora cereais (trigo e cevada), uvas, figos e oliveiras compusessem a base agrícola, a proteína regular derivava sobretudo de laticínios, reservando-se o consumo de carne a ocasiões festivas e sacrificiais.


3. As restrições como adaptação ecológica e sanitária

Diversas prescrições podem ser interpretadas como estratégias adaptativas ao clima quente:

Proibição do sangue (cf. Levítico 17): além da fundamentação teológica (“o sangue é a vida”), o completo escoamento sanguíneo reduz riscos de deterioração bacteriana.

Interdição de certas gorduras (chelev): essas partes são mais suscetíveis à rancificação em clima quente.

Separação entre carne e leite (cf. Êxodo 23:19): ainda que possua provável pano de fundo cultual (distanciamento de práticas cananeias), a separação prática de processos distintos de conservação alimentar também pode ter contribuído para maior segurança alimentar.

Assim, as normas não devem ser reduzidas a meras medidas sanitárias, mas tampouco podem ser dissociadas de sua funcionalidade ecológica.


4. Distinção cultural no contexto do Antigo Oriente Próximo

A dieta israelita também operava como marcador identitário frente a outras culturas regionais.

No Antigo Egito, a economia irrigada do Nilo sustentava dieta mais diversificada, incluindo peixes e suínos. Povos cananeus das planícies costeiras igualmente dispunham de maior variedade alimentar. Já os israelitas das terras altas consolidaram uma identidade distintiva por meio de práticas dietéticas que reforçavam separação simbólica e social.

Esse fenômeno encontra paralelos entre grupos pastorais posteriores, como beduínos da Península Arábica, cuja alimentação se estrutura majoritariamente em torno de laticínios e carne ovina ou caprina.


5. Dimensão teológica e santidade

Acima de sua racionalidade ecológica, as leis dietéticas são apresentadas na Torá como expressão de santidade (קדושה, kedushá). Em Levítico 19:2, a convocação “Sede santos, porque eu sou santo” insere a alimentação no âmbito da obediência cultual.

A prática alimentar torna-se, assim, um exercício cotidiano de disciplina e memória da aliança. A distinção entre puro e impuro transcende a biologia e assume dimensão simbólica, organizando o mundo em categorias que espelham a ordem sagrada.


Conclusão

A dieta prescrita na Torá revela-se profundamente coerente com o contexto ecológico e sociocultural do antigo Israel. Longe de constituir imposição impraticável, ela:

1. Otimizava recursos disponíveis em ambiente semiárido por meio do pastoreio.

2. Reduzia riscos de deterioração alimentar em clima quente.

3. Funcionava como mecanismo de diferenciação identitária no Antigo Oriente Próximo.

4. Sacralizava a vida cotidiana, integrando subsistência e teologia.

Desse modo, a rigidez normativa operava simultaneamente como estratégia de sustentabilidade material e como estrutura formadora de coesão espiritual, articulando ambiente, cultura e religião em um sistema integrado de sentido.

1. O Tempo Narrativo em Paul Ricœur (A Tríplice Mimese).

 1. O Tempo Narrativo em Paul Ricœur (A Tríplice Mimese)

Para Ricœur, o tempo se torna humano na medida em que é articulado de maneira narrativa. Em sua obra "Tempo e Narrativa", ele argumenta que a narrativa (seja histórica ou de ficção) é a guardiã do tempo. Ele propõe o conceito da Tríplice Mimese para explicar como a narrativa media entre o tempo vivido e o tempo cósmico:

· Mimese I (Pré-figuração): É o nosso mundo da ação, da experiência prática. Já temos uma pré-compreensão do agir humano (seus símbolos, estruturas, temporalidade). Vivemos no tempo, mas de forma fragmentada e dispersa.

· Mimese II (Configuração): É o ato de "empregar" a trama (o mythos). Aqui, o narrador (ou a comunidade) organiza os eventos dispersos, as causas e os acasos, em uma totalidade inteligível e completa. A Mimese II dá sentido ao tempo, criando uma "síntese do heterogêneo" – transforma uma sucessão de "agoras" em um todo com começo, meio e fim.

· Mimese III (Refiguração): É o encontro da narrativa com o mundo do leitor/ouvinte. A configuração da trama não é um fim em si mesma; ela "refigura" a experiência temporal de quem a recebe, oferecendo modelos para compreender a própria vida e o tempo histórico.

O grande paradoxo que Ricœur enfrenta é a tensão entre o Tempo do Mundo (cósmico, físico, infinito) e o Tempo da Alma (fenomenológico, interior, finito, influenciado por Agostinho). A narrativa é a única capaz de "tecer" esses dois tempos, dando uma identidade narrativa aos indivíduos e às comunidades.

2. Os Pressupostos Calvinistas: Soberania e Predestinação

O Calvinismo Clássico (baseado nas Institutas de João Calvino e sintetizado nos Cânones de Dort) parte de uma visão radical da transcendência divina:

· Soberania Absoluta: Deus é a causa primeira de todas as coisas. Nada acontece fora da sua vontade, permissiva ou decretiva. O tempo da criação é totalmente dependente e subordinado à eternidade de Deus.

· Predestinação: Devido à soberania, Deus, antes da fundação do mundo, predestinou alguns para a salvação (eleitos) e outros para a condenação (reprovados). Isto significa que o destino final de cada alma já está definido na eternidade divina, independentemente do mérito humano.

Aqui surge uma tensão teológica clássica: Se tudo já está decretado na eternidade, qual o sentido da história e da ação humana no tempo? O tempo seria uma mera execução de um roteiro já escrito?

3. A Relação: A Narrativa como Mediação entre a Eternidade e o Tempo

A filosofia de Ricœur oferece uma ferramenta poderosa para entender como os calvinistas (e a tradição reformada) vivenciam essa aparente contradição. A relação pode ser estabelecida em três níveis, correspondentes à tríplice mimese:

A. Mimese I (Pré-figuração) e o Senso de Dependência

O calvinista vive no mundo da ação (Mimese I) com uma pré-compreensão radical: a de que sua vida e o mundo são completamente dependentes de Deus. A experiência temporal é marcada pela incerteza subjetiva ("Será que sou um eleito?") e pela certeza objetiva da fé ("Deus governa todas as coisas"). Há uma tensão pré-narrativa entre a minha experiência fragmentada no tempo (cheia de pecados, escolhas e consequências) e a crença num decreto eterno e coerente.

B. Mimese II (Configuração) e a "Trama da Salvação" (Historia Salutis)

É na Mimese II que a conexão se torna mais forte.

· A Teologia como Configuração da Trama: A teologia calvinista funciona como a "trama" que organiza os eventos caóticos da história e da vida individual. Eventos como a Queda, a Encarnação, a Cruz e a Parusia não são fatos isolados; são partes de uma única e grandiosa narrativa configurada pelo decreto eterno de Deus.

· A Predestinação como "Síntese do Heterogêneo": A doutrina da predestinação é a tentativa teológica máxima de dar sentido ao tempo. Ela responde à pergunta: "Como pode a história ter um sentido se as ações humanas são livres e contingentes?". Para o calvinismo, o sentido não vem de baixo (das ações humanas), mas de cima (do plano divino). A predestinação é a "síntese do heterogêneo" que unifica toda a dispersão da história humana sob um único autor e um único propósito: a Glória de Deus. Ela é a garantia de que a narrativa do mundo não é um absurdo, mas uma epopeia com um final definido.

· O Papel da Providência: A soberania de Deus opera na história como o "enredo" que conduz todos os personagens (mesmo os que agem mal, como José no Egito ou Pilatos) para o cumprimento do desfecho divino.

C. Mimese III (Refiguração) e a Identidade do Eleito

A Mimese III é o momento em que a narrativa bíblica e teológica encontra o crente.

· A Bíblia como Refiguração da Vida: Quando o calvinista lê as Escrituras (a Grande Narrativa), sua própria vida é "refigurada". Ele começa a interpretar sua biografia à luz dessa trama. As vitórias são sinais da eleição; as derrotas são provações; a perseverança é a marca do verdadeiro crente.

· Identidade Narrativa: O conceito de Ricœur de "identidade narrativa" (a identidade que uma pessoa adquire ao se contar ou ao ser contada pela história da comunidade) é fundamental. O crente reformado não se vê como um ser autônomo, mas como um personagem na grande narrativa da Aliança. Sua identidade é definida pelo papel que Deus lhe atribuiu na trama da salvação. A pergunta "Quem sou eu?" é respondida por "Sou alguém que foi predestinado em Cristo antes da fundação do mundo".

· O Tempo como Revelação: O tempo (a história) torna-se, então, o palco onde o decreto eterno e secreto de Deus se torna manifesto. O que era oculto na eternidade (a lista dos eleitos) é progressivamente revelado no tempo através da fé e das obras dos santos. O tempo narrativo é o meio pelo qual a eternidade se desdobra e se comunica com a criatura.

4. O Paradoxo Fundamental (e a Resposta Narrativa)

A grande dificuldade lógica é: se o final já está escrito (predestinação), por que a narrativa (o tempo) é necessária?

A resposta, iluminada por Ricœur, é que a narrativa não é para Deus, mas para o homem.

· Para Deus (o ponto de vista da eternidade), não há tempo. Há um único "agora" eterno que contempla toda a história simultaneamente. Deus é o Autor da trama, mas não vive dentro dela.

. Para o homem (o ponto de vista do tempo), a narrativa é essencial. É através do desenrolar temporal dos eventos (a história da salvação) e da apropriação pessoal dessa história (a fé) que o ser humano pode conhecer a Deus e a si mesmo.

Assim, o tempo narrativo no Calvinismo é o espaço da doxologia (louvor) e da manifestação. Ele não altera o decreto (o "roteiro" já está pronto), mas é o meio pelo qual a glória de Deus é encenada e experimentada pelas criaturas. A soberania de Deus garante a coerência da trama (Mimese II), e a predestinação garante que cada personagem (o eleito) chegará ao seu devido lugar na resolução final da história, permitindo que ele olhe para trás e veja a "mão de Deus" tecendo todos os acontecimentos para o bem (Romanos 8:28).

Conclusão

Relacionar Ricœur com o Calvinismo é ver a teologia reformada como uma poderosa Mimese II (configuração) que organiza o caos da existência humana (Mimese I) a partir da crença em um Autor soberano que escreveu a história antes do tempo. O tempo narrativo, portanto, não é o tempo da construção do destino, mas o tempo da revelação e da vivência de um destino já estabelecido na eternidade. É a forma humana e experiencial de participar da trama divina, que só faz sentido quando configurada pela fé e refigurada na vida do crente.

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