Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação.


Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação e a Tensão Escatológica do "Já" e do "Ainda Não"


Resumo

O presente trabalho apresenta uma síntese do pensamento teológico de Oscar Cullmann, teólogo luterano franco-suíço que se destacou como um dos mais influentes intérpretes do Novo Testamento no século XX. A análise centra-se em seus principais contribuições: a teologia da história da salvação (Heilsgeschichte), a tensão escatológica entre o "já" e o "ainda não", a cristologia funcional e suas posições no debate sobre mito e história, bem como suas contribuições à teologia política e ao ecumenismo.


Palavras-chave: Oscar Cullmann; Heilsgeschichte; Escatologia; Cristologia; Desmitologização.


1. Introdução

Oscar Cullmann (1902-1999) constitui-se como uma das figuras centrais da teologia bíblica do século XX. Formado nas universidades de Estrasburgo e Basileia, o teólogo luterano de origem francesa desenvolveu uma obra que buscava mediar entre a crítica histórica moderna e a fé cristã tradicional. Sua proposta teológica distinguiu-se tanto do existencialismo de Rudolf Bultmann quanto da escatologia realizada de C. H. Dodd, oferecendo uma alternativa estruturada pela categoria de Heilsgeschichte (história da salvação) (CULLMANN, 1967a).


2. A Tensão Escatológica: O "Já" e o "Ainda Não"

O conceito mais emblemático do pensamento cullmanniano reside na reinterpretação da escatologia cristã mediante a dialética do "já" (schon) e do "ainda não" (noch nicht).


2.1 O "Já": A Vitória Decisiva em Cristo

Para Cullmann, o centro da história não se projeta em um futuro distante, mas encontra-se na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. O evento decisivo para a salvação da humanidade já se consumou: a batalha final contra o pecado e a morte foi travada e vencida na cruz (CULLMANN, 1956). Essa perspectiva confere às realizações históricas de Jesus um caráter definitivo e irreversível.


2.2 O "Ainda Não": A Consumação Futura

Paralelamente, Cullmann mantém a expectativa de uma consumação final do Reino de Deus, cuja instauração plena e perfeita permanece como promessa futura. A Igreja, portanto, habita o intervalo entre a vitória conquistada e a manifestação escatológica definitiva.


2.3 A Analogia Militar

Para ilustrar essa tensão, Cullmann recorre a uma analogia histórica: a Segunda Guerra Mundial foi decisivamente vencida com o Dia D (a invasão da Normandia), todavia a guerra somente findou completamente no Dia V (a vitória final) (CULLMANN, 1956, p. 84). Analogamente, a Igreja vive no período intermediário entre a vitória decisiva de Cristo e a consumação escatológica.


3. Cristologia e a Concepção Linear do Tempo

3.1 O Tempo como Linearidade Histórica

Contrariando a concepção grega de tempo como ciclo eterno (kyklos), Cullmann defende que o cristianismo introduziu uma compreensão de tempo como linear e irrepetível, orientado por um propósito divino teleológico (CULLMANN, 1967b). A história da salvação configura-se, assim, como uma linha reta que atinge seu ápice na pessoa de Jesus Cristo.


3.2 Cristologia Funcional

Em sua obra seminal Christologie des Neuen Testaments (1957), Cullmann propõe uma cristologia que prescinde de categorias filosóficas gregas — tais como "natureza" (physis) e "substância" (ousia) — em favor de uma abordagem funcional. O foco recai sobre os títulos cristológicos atribuídos a Jesus no Novo Testamento (Profeta, Servo Sofredor, Senhor, Filho de Deus), os quais revelam a obra e a função messiânica de Cristo na história da salvação (CULLMANN, 1967b, p. 15-42).


4. O Debate sobre Mito e História

Cullmann posicionou-se de forma crítica em relação ao programa de "desmitologização" (Entmythologisierung) proposto por Rudolf Bultmann (1941). Enquanto Bultmann advogava pela reinterpretação dos relatos bíblicos para extração de significado existencial, prescindindo de sua suposta roupagem mitológica, Cullmann argumentava que o Novo Testamento, embora utilizando conceitos da mitologia contemporânea, subordina-os a um evento histórico concreto: a ressurreição de Jesus (CULLMANN, 1967a).

Para Cullmann, a remoção do caráter histórico desses eventos esvaziaria o cerne da fé cristã, a qual permanece ancorada em fatos ocorridos em tempo e espaço determinados. A historicidade constitui, portanto, pressuposto indispensável para a validade da proclamação cristã.


5. Teologia Política e Ecumenismo

5.1 Igreja e Estado

Cullmann rejeitou a dicotomia entre esfera religiosa e esfera política. Em sua concepção, tanto a Igreja quanto o Estado subsistem sob o senhorio de Cristo (Christus Herr), embora desempenhem funções distintas no Reino já inaugurado (CULLMANN, 1956, p. 192-210).

5.2 O Primado de Pedro e o Diálogo Ecumênico

Num gesto ecumênico significativo, Cullmann reconheceu que Pedro exerceu efetivamente papel de liderança e primazia na Igreja primitiva. Contudo, argumentou que tal função era pessoal e intransferível, não podendo ser herdada por um sucessor institucional (o Papa). Essa posição buscava abrir perspectivas para o diálogo entre luteranos e católicos romanos, sem implicar submissão ao magistério papal (CULLMANN, 1962).


5.3 Unidade na Diversidade

Cullmann concebia a diversidade denominacional não como problema a ser eliminado, mas como expressão da riqueza do Espírito Santo. Sua visão ecumênica não pressupunha fusão uniformizante, mas a coexistência de diferentes tradições eclesiais orbitando em torno de um centro comum: Jesus Cristo (CULLMANN, 1956).


6. Considerações Finais

A obra de Oscar Cullmann representa um esforço sistemático de construir pontes entre a crítica histórica e a fé cristã. Por meio da categoria de Heilsgeschichte e da tensão escatológica do "já e ainda não", o teólogo ofereceu um esquema hermenêutico que influenciou profundamente a teologia bíblica subsequente. Sua proposta permitiu que a Igreja se compreendesse como participante ativa na missão divina, vivendo na expectativa entre a vitória consumada de Cristo e a esperança de sua parusia.


Referências

CULLMANN, O. Christ and Time: The Primitive Christian Conception of Time and History. Tradução de Floyd V. Filson. 3. ed. Filadélfia: Westminster Press, 1956.

CULLMANN, O. Peter: Disciple, Apostle, Martyr: A Historical and Theological Study. 2. ed. rev. Tradução de Floyd V. Filson. Filadélfia: Westminster Press, 1962.

CULLMANN, O. Salvation in History. Tradução de Sidney G. Sowers. Nova Iorque: Harper & Row, 1967a.

CULLMANN, O. The Christology of the New Testament. Tradução de Shirley C. Guthrie e Charles A. M. Hall. Rev. ed. Filadélfia: Westminster Press, 1967b.

BULTMANN, R. Neues Testament und Mythologie: Das Problem der Entmythologisierung der neutestamentlichen Verkündigung. In: BULTMANN, R. Glauben und Verstehen: Gesammelte Aufsätze. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1941. v. 1, p. 1-44.

Lectio Divina/Leitura Eclesial.

Esta é uma questão teológica profunda sobre hermenêutica bíblica e práticas de leitura espiritual. É necessário buscar informações sobre G. Ernest Wright e sua proposição de teologia como "Recitação Confessional" para poder responder adequadamente algumas questões.

Há sim uma relação significativa entre o retorno à Lectio Divina/Leitura Eclesial e a proposta de G. Ernest Wright sobre a teologia bíblica como "Recitação Confessional" (Biblical Theology as Recital). Permita-me desenvolver essa conexão:


A Proposta de G. Ernest Wright

Em sua obra seminal God Who Acts: Biblical Theology as Recital (1952), Wright define a teologia bíblica como "a recitação confessional dos atos redentores de Deus em uma história particular" . Wright, figura central do Movimento de Teologia Bíblica (1945-1961), propôs que:

- A revelação não está primariamente nas palavras da Escritura, mas nos atos poderosos de Deus na história — especialmente o Êxodo e a Aliança 

- A teologia bíblica é, essencialmente, a recontação (recital) da comunidade de fé sobre as ações de Deus

- O foco está na confissão comunitária dos feitos divinos, não em proposições abstratas ou símbolos evocativos 


Pontos de Convergência com a Lectio Divina

1. Dimensão Confessional e Comunitária

Tanto a Lectio Divina quanto Wright enfatizam que a leitura da Bíblia é um ato confessional — não meramente informativo, mas formativo da identidade da comunidade. Wright via a Escritura como o relato da comunidade sobre suas experiências com Deus, não como um compêndio de doutrinas . A Lectio Divina, em sua raiz monástica e eclesial, pressupõe que a leitura acontece in ecclesia — na comunidade que confessa a mesma fé.


2. Foco nos Atos de Deus vs. Proposições Abstratas

Wright rejeitava a leitura da Bíblia como "reservatório de símbolos evocativos" ou "compêndio de proposições doutrinais" . A Lectio Divina, por sua natureza, também evita a abordagem meramente analítica ou dogmática, buscando antes encontrar o Deus que age através do texto — uma ressonância direta com o subtítulo de Wright: Deus Que Age.


3. A Estrutura Narrativa como Matriz Teológica

O Movimento de Teologia Bíblica, inspirado por Wright, via a Bíblia como a "história dos atos de Deus da criação à consumação" . A Lectio Divina, especialmente em sua recuperação contemporânea (como na Divino Afflante Spiritu e no Dei Verbum), retoma essa sensibilidade narrativa: o texto não é um objeto a ser dissecado, mas uma história viva na qual o leitor é convidado a se situar.


4. A Recitação como Performance Teológica

Wright usava "recital" (recital) no sentido de recontar, confessar publicamente. A Lectio Divina, em sua fase de Meditatio e Oratio, é exatamente isso: uma performance existencial onde o crente reconta a si mesmo e a Deus o que o texto revela sobre os atos divinos. Ambos subvertem a dicotomia entre "estudo objetivo" e "devoção subjetiva".


Uma Diferença Importante

Contudo, há uma tensão produtiva: Wright, enquanto moderno crítico, buscava fundamentar essa recitação na história (Heilsgeschichte), enquanto a Lectio Divina tradicional fundamenta-se na tradição viva da Igreja e na ação do Espírito Santo na leitura. Wright foi criticado por Langdon Gilkey justamente por tentar conciliar uma cosmovisão moderna (causal, crítica) com uma linguagem teológica bíblica (sobrenatural, confessional) . A Lectio Divina, por outro lado, não parte do problema moderno da historicidade, mas da experiência eclesial do texto como lugar de encontro com Cristo.


Conclusão

O retorno à Lectio Divina e à Leitura Eclesial pode ser visto como uma recuperação prática do que Wright propunha teoricamente: uma teologia que é confissão dos atos de Deus, não mera análise de textos. Ambos compartilham a convicção de que a Bíblia é antes de tudo testemunho da ação divina, e que sua leitura autêntica exige que o leitor se posicione dentro dessa história de salvação — como confessor, não apenas como observador.

A diferença está no locus da autoridade: para Wright, na historicidade dos eventos; para a Leitura Eclesial, na actualização desses eventos na vida da Igreja sob a inspiração do Espírito. 

A Afirmação da Ressurreição como Regra Estruturante.

O Risco do Idealismo na Afirmação da Ressurreição como "Regra Estruturante": Uma Análise Crítica


Resumo

O presente artigo examina a tensão entre a autonomia do discurso teológico e o compromisso ontológico com a historicidade do evento da ressurreição. Analisa-se a acusação de resquício idealista na afirmação de que a ressurreição funciona como "regra estruturante" do discurso cristão, articulando três possíveis interpretações dessa relação: (1) o resquício hegeliano de idealismo, (2) a via hermenêutica pós-heideggeriana e (3) o realismo teológico da cruz.

Palavras-chave: Ressurreição; Idealismo; Hermenêutica Teológica; Bultmann; Pannenberg; Moltmann


1. O Problema: Autonomia Teológica e Referência Histórica

A afirmação de que a ressurreição de Jesus funciona como "regra estruturante" do discurso cristão — e não meramente como objeto de investigação histórica — constitui uma questão epistemológica central para a teologia contemporânea. Esta formulação, embora perspicaz e capaz de escapar dos limites do positivismo histórico, suscita a seguinte interrogação: há, nesta afirmação, um resquício de idealismo?

A resposta depende fundamentalmente de como se compreende a relação entre a "regra estruturante" e o evento a que ela se refere. Propõe-se, neste ensaio, a identificação de três possibilidades hermenêuticas distintas.


2. O Resquício de Idealismo (Hegeliano)

Se a afirmação em questão implicar que a ideia da ressurreição — compreendida como símbolo da vitória do espírito sobre a matéria, da esperança sobre o desespero, ou da continuidade da comunidade eclesial — é o que verdadeiramente importa para a fé, tornando a historicidade do evento indiferente ou mesmo um obstáculo para a fé genuína, então estaremos diante de uma configuração idealista.

Nesta perspectiva, a fé torna-se autorreferencial: ela crê na sua própria estrutura de sentido. A teologia, ao recuperar sua "autonomia" metodológica, cortaria o cordão umbilical com um evento contingente, transformando-se em um discurso sobre a necessidade lógica do espírito — uma configuração que remonta, metodologicamente, ao idealismo hegeliano (cf. HEGEL, 1986).


3. A Via Hermenêutica (Pós-Heideggeriana)

Grande parte da teologia do século XX — de Rudolf Bultmann a Wolfhart Pannenberg, passando por Paul Ricoeur — empreendeu esforços consideráveis para evitar essa deriva idealista. Nesta perspectiva, a afirmação não é que a ressurreição funciona como regra, mas que ela é o evento fundador que instaura essa regra.


3.1. Bultmann: Historie e Geschichte

Bultmann, frequentemente acusado de idealismo, sustenta que a cruz e a ressurreição são eventos históricos (Historie, no sentido de facts brutos) que somente se tornam reveladores quando alcançam o existente na linguagem (Geschichte) (BULTMANN, 1969). Para o teólogo de Marburgo, a ressurreição não é um fato passado demonstrável, mas o evento de fé que inaugura uma nova autocompreensão existencial.

O risco idealista aqui é real, na medida em que a fé parece criar seu próprio fundamento — uma objeção levantada, entre outros, por Ernst Käsemann (cf. KÄSEMANN, 1969).


3.2. Pannenberg: O Evento Histórico Público

Pannenberg, em contraste metodológico explícito, insiste que a teologia somente recupera autonomia legítima se conseguir demonstrar que a ressurreição é um evento histórico público, ainda que não verificável pelos métodos estritos da ciência histórica — que operam, segundo ele, com um princípio de analogia que exclui a priori a possibilidade do milagre (PANNENBERG, 1977).

Para Pannenberg, a "regra estruturante" só possui legitimidade epistemológica se derivar de um fato que irrompeu na história universal, submetendo-se à verificabilidade histórica in principle, embora não in actu pelos métodos positivistas.


4. A Teologia da Cruz e o Realismo (Lutero/Moltmann)

Uma resposta mais robusta à acusação de idealismo emerge da teologia que insiste no realismo ontológico do evento. Para Jürgen Moltmann, a ressurreição não é uma "regra estruturante" abstrata, mas a promessa concreta que se opõe à realidade material da morte (MOLTMANN, 1974).

Se a ressurreição fosse apenas uma estrutura de discurso sem referencialidade histórica, ela não teria força para consolar a vítima ou para protestar contra a injustiça estrutural. A autonomia da teologia, nesta configuração, não significa que ela dispensa a história, mas que ela se recusa a deixar que o método histórico — que pressupõe um mundo fechado de causa e efeito — determine a priori o que pode ou não ter acontecido.


5. Conclusão

A afirmação de que a ressurreição opera como "regra estruturante" do discurso cristão só demonstra um resquício de idealismo se estiver desconectada de um compromisso ontológico com a realidade da ressurreição como evento que, embora não seja demonstrável pelos métodos históricos padrão — pois estes já excluem a possibilidade do milagre em seu protocolo de investigação —, constitui a condição de possibilidade para que o discurso cristão tenha um conteúdo objetivo e não seja mera autorreferência comunitária.

Se a teologia recupera sua autonomia metodológica para simplesmente descrever como a comunidade se estrutura linguisticamente, ela degenera em antropologia cultural. Se, por outro lado, recupera sua autonomia para afirmar que a ressurreição é um evento real que escapa aos métodos históricos positivistas, mas que se impõe como promessa e futuro escatológico, ela permanece teologia propriamente dita.

O "resquício de idealismo" aparece precisamente quando se confunde a autonomia do método teológico com a suspensão da referência histórica. A verdadeira autonomia teológica reside, assim, não na independência da história, mas na recusa de submeter a realidade do evento escatológico aos protocolos de uma ciência histórica que pressupõe o fechamento causal do mundo.


Referências

BULTMANN, Rudolf. Theologie des Neuen Testaments. Tübingen: J.C.B. Mohr (Paul Siebeck), 1969.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Vorlesungen über die Philosophie der Religion. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986.

KÄSEMANN, Ernst. "Das Problem des historischen Jesus". In: Exegetische Versuche und Besinnungen. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1969. v. 1, p. 187-214.

MOLTMANN, Jürgen. Der gekreuzigte Gott: Das Kreuz Christi als Grund und Kritik christlicher Theologie. München: Kaiser, 1974.

PANNENBERG, Wolfhart. Grundfragen systematischer Theologie: Gesammelte Aufsätze. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1977. v. 2.

A CRÍTICA À TEOLOGIA COMO REFÉM DO MÉTODO.

A CRÍTICA À TEOLOGIA COMO REFÉM DO MÉTODO: UMA ANÁLISE DAS CONTRIBUIÇÕES DE KARL BARTH, HANS FREI, GEORGE LINDBECK E JOHN MILBANK


RESUMO

O presente artigo analisa a crítica contemporânea à subordinação da teologia acadêmica e eclesial aos pressupostos epistemológicos das ciências humanas e sociais modernas. Examina-se como a teologia bíblica e sistemática, ao buscar legitimidade acadêmica mediante a adoção do método histórico-crítico e das ferramentas arqueológicas, teria abdicado de sua autonomia metodológica, tornando-se dependente de disciplinas que operam com pressupostos naturalistas ou agnósticos. Analisam-se as contribuições de teólogos como Karl Barth, Hans Frei, George Lindbeck e John Milbank, que diagnosticaram esse fenômeno como uma "síndrome de refém", bem como as propostas de superação mediante a hermenêutica canônica, a teologia pós-liberal e a distinção entre uso instrumental e normativo das ciências auxiliares.

Palavras-chave: Teologia; Método histórico-crítico; Hermenêutica bíblica; Epistemologia teológica; Autonomia disciplinar.


ABSTRACT

This article analyzes the contemporary critique of the subordination of academic and ecclesial theology to the epistemological assumptions of modern human and social sciences. It examines how biblical and systematic theology, in seeking academic legitimacy through the adoption of the historical-critical method and archaeological tools, would have abdicated its methodological autonomy, becoming dependent on disciplines that operate with naturalist or agnostic assumptions. The contributions of theologians such as Karl Barth, Hans Frei, George Lindbeck, and John Milbank are analyzed, as they diagnosed this phenomenon as a "hostage syndrome," as well as proposals for overcoming it through canonical hermeneutics, post-liberal theology, and the distinction between instrumental and normative use of auxiliary sciences.

Keywords: Theology; Historical-critical method; Biblical hermeneutics; Theological epistemology; Disciplinary autonomy.


1. INTRODUÇÃO

A relação entre teologia e ciências humanas constitui um dos eixos tensionais mais significativos do pensamento religioso contemporâneo. Ao longo dos séculos XIX e XX, a teologia acadêmica — particularmente as vertentes bíblica e sistemática de matriz apologética — empreendeu um movimento de aproximação epistemológica em relação às ciências modernas, buscando, por um lado, respeitabilidade institucional no contexto universitário; por outro, instrumentos metodológicos para a defesa da fé diante do ceticismo iluminista (BARTH, 1932; FREI, 1974).

Contudo, segundo diversos analistas, esse processo de aproximação teria produzido um efeito paradoxal: a teologia, ao convidar as ciências humanas e sociais para "guardar" seu território acadêmico, teria-se tornado refém de seus próprios guardiões, subordinando sua autoridade discursiva aos consensos de disciplinas que operam, frequentemente, com pressupostos naturalistas ou, no mínimo, agnósticos quanto à possibilidade do sobrenatural (MILBANK, 1990; LINDBECK, 1984).

O presente artigo propõe-se a: (a) sistematizar os termos dessa crítica; (b) identificar seus principais formuladores no âmbito da teologia do século XX e início do XXI; e (c) examinar as propostas emergentes para além desse impasse epistemológico.


2. A CRÍTICA: TEOLOGIA COMO REFÉM DO MÉTODO

2.1 A teologia bíblica como refém da crítica histórica

O método histórico-crítico, desenvolvido a partir do Iluminismo, pressupunha que os textos bíblicos deveriam ser examinados como quaisquer outros documentos antigos, mediante os mesmos instrumentos e pressupostos de neutralidade científica (KUENEN, 1861; WELLHAUSEN, 1878). Para seus propositores, tal abordagem representava o necessário desencantamento do texto sagrado, permitindo sua inserção no paradigma das Wissenschaften modernas.

O problema, segundo críticos subsequentes, reside no fato de que a teologia bíblica, ao abraçar esse método, passou a definir seus resultados pelos consensos de uma academia que operava — e em grande medida ainda opera — com pressupostos que excluem a priori a possibilidade de revelação transcendente. A pergunta heurística deslocou-se de "o que este texto revela sobre Deus?" para "como este texto se insere na história das tradições religiosas humanas?" (BARTH, 1932, p. 28-35).

Karl Barth (1886-1968) constituiu-se em um dos primeiros e mais contundentes denunciadores desse movimento. Para o teólogo suíço, a tentativa de fundamentar a teologia em resultados históricos ou em uma "religião" analisável pelas ciências humanas configurava um desastre epistemológico. A teologia, insistia Barth, não pode partir de uma análise da religiosidade humana ou de uma reconstrução histórica que se coloque acima das Escrituras; ela deve partir da Palavra de Deus que se impõe sui ipsius interpres (BARTH, 1932, p. 42). A célebre metáfora barthiana sobre a impossibilidade de usar "uma cadeira emprestada da filosofia" para, posteriormente, "voltar a sentar-se nela" aponta precisamente para o risco de dependência metodológica (BARTH, 1932, p. 46).


2.2 A crítica da "síndrome de Canaã"

No campo específico da arqueologia e da história do Antigo Oriente Médio, uma crítica análoga foi formulada por estudiosos como George Ernest Wright (1909-1974) e, mais recentemente, por Iain Provan e Kenneth Kitchen. A crítica aponta que, durante décadas, a arqueologia bíblica norte-americana operou com um pressuposto de paralelismo epistêmico: quando um achado arqueológico confirmava o relato bíblico, isso era considerado uma "vitória" apologética; quando contradizia, a teologia se retraía, reinterpretando o texto para acomodar o dado empírico (WRIGHT, 1957; PROVAN, 1995).

A denominada "síndrome de Canaã" refere-se à tendência, denunciada por Wright, de tratar a fé de Israel como fenômeno derivado das culturas circundantes, explicável integralmente por processos histórico-sociais. Nesse esquema hermenêutico, a teologia tornava-se refém de uma narrativa histórica construída por aqueles que, por princípio metodológico, excluíam a possibilidade de uma revelação singular (WRIGHT, 1969, p. 73-89).

Posteriormente, o movimento denominado "minimalismo bíblico", com representantes como Philip R. Davies e Niels Peter Lemche, levou essa lógica a suas consequências extremas, sustentando que o Antigo Testamento constituiria uma construção literária tardia (período persa ou helenístico), com escasso ou nenhum valor para a reconstrução histórica do Israel antigo (DAVIES, 1992; LEMCHE, 1998). A teologia, que havia apostado na capacidade de "provar" a Bíblia mediante a arqueologia, viu-se, nesse contexto, epistemicamente desarmada.


3. OS FORMULADORES DA CRÍTICA

Além de Barth, diversas vozes se levantaram contra o processo de retração e subordinação metodológica da teologia.


3.1 A Escola de Yale: Hans Frei e George Lindbeck

Hans Frei (1922-1988) e George Lindbeck (1923-2018), em empreendimentos distintos, convergiram na crítica ao "enquadramento" da teologia pelas ciências humanas. Frei, em The Eclipse of Biblical Narrative (1974), demonstrou como a interpretação bíblica, a partir do século XVIII, deixou de ler os textos como narrativas que descrevem o mundo real para tratá-los como fontes de ideias religiosas ou como documentos a serem explicados por estruturas históricas ou psicológicas externas (FREI, 1974, p. 1-16). O resultado foi que a Bíblia deixou de constituir o mundo no qual o crente habita para tornar-se um objeto a ser explicado por disciplinas que se arvoram em juízes do texto sagrado.

Lindbeck, em The Nature of Doctrine (1984), propôs uma alternativa epistemológica: a teologia não deve ser compreendida como uma série de proposições a serem verificadas por métodos históricos ou filosóficos (modelo cognitivo-proposicional), nem como meras expressões de experiência religiosa (modelo expressivista), mas como a gramática de uma forma de vida (LINDBECK, 1984, p. 32-41). A partir dessa perspectiva cultural-linguística, a teologia recuperaria sua autonomia: não necessitaria "provar" a ressurreição por métodos históricos, mas demonstrar como a afirmação da ressurreição funciona como regra estruturante do discurso e da prática cristãs.


3.2 A Teologia Radical e Pós-Liberal

Vertentes como a Radical Orthodoxy, representada por John Milbank (1952-), Catherine Pickstock e outros, foram ainda mais incisivas em seu diagnóstico. Milbank, em Theology and Social Theory (1990), argumentou que as ciências sociais e humanas modernas não constituem disciplinas neutras, mas representam uma "contra-teologia" secular que, desde o nominalismo medieval e o Iluminismo, busca expulsar o transcendente do discurso público racional (MILBANK, 1990, p. 1-25).

Para Milbank, a teologia não deve buscar reconciliação com essas disciplinas, nem tentar legitimar-se perante elas. Ao contrário, deve afirmar sua própria razão teológica como a única capaz de dar conta da totalidade do real. A metáfora da teologia como refém de guardas contratados para protegê-la descreve com precisão o diagnóstico milbankiano: ao aceitar o tribunal da história ou da sociologia, a teologia aceitou tacitamente que essas disciplinas detêm autoridade para determinar o que pode ou não ser dito sobre Deus e sobre o mundo (MILBANK, 1990, p. 380-390).


3.3 A Teologia da Libertação e o método indutivo

Uma crítica análoga, embora com pressupostos distintos, emergiu de setores da teologia da libertação latino-americana. Para teólogos como Clodovis Boff e Gustavo Gutiérrez, o problema não se restringia ao historicismo alemão, mas estendia-se ao que denominavam "mediação" da fé: a teologia acadêmica, ao filtrar as Escrituras pelos métodos histórico-críticos, teria-se tornado incapaz de falar diretamente à situação concreta dos povos empobrecidos (BOFF, 1987; GUTIÉRREZ, 1971).

A solução proposta consistia em um método indutivo que partisse da realidade social (o "ver") antes de recorrer ao instrumental acadêmico tradicional. Todavia, também aqui se configurava um risco: a mediação das ciências sociais (sociologia, economia política) poderia, por sua vez, tornar-se o novo tribunal perante o qual a teologia deveria se justificar (BOFF, 1987, p. 45-52).


4. PROPOSTAS DE SUPERAÇÃO: ALÉM DO IMPASSE

Diante do diagnóstico estabelecido — e reconhecendo sua pertinência em grande medida — coloca-se a questão estratégica: como a teologia pode fazer uso legítimo das ciências sociais e humanas sem tornar-se refém delas?


4.1 O retorno à lectio divina e à leitura eclesial

Uma resposta significativa provém do movimento de "interpretação eclesial" das Escrituras, associado a nomes como Brevard Childs (1923-2007), Christopher Seitz e, no contexto católico, à Pontifícia Comissão Bíblica (1993). Essa abordagem sustenta que o método histórico-crítico constitui uma ferramenta útil, mas não pode ser o juiz último da interpretação teológica. O contexto final e normativo da Escritura é o cânon, e o sujeito legítimo da interpretação é a comunidade de fé (CHILDS, 1979; SEITZ, 1998; PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, 1993).

A teologia, assim, recupera sua autonomia ao reivindicar que o texto deve ser lido em sua integridade canônica e dentro da tradição viva que o gerou e o transmite — uma perspectiva que Childs denominou "hermenêutica canônica" (CHILDS, 1979, p. 72-98).


4.2 O uso das ciências como "servas", não como "senhoras"

Uma proposição clássica, que demanda reatualização, é a distinção entre o uso das ciências como instrumentos (ancillae theologiae) e não como normas epistêmicas. As ciências históricas, arqueológicas e literárias podem auxiliar a teologia a compreender o contexto dos textos, as línguas originais, as estruturas narrativas e os processos de transmissão. Podem, igualmente, questionar leituras ingênuas ou anacrônicas (RÄISÄNEN, 2000).

Contudo, a autoridade teológica última não reside no consenso dos especialistas, mas nas próprias Escrituras como Palavra de Deus testemunhada na comunidade eclesial. O problema emerge quando a teologia, por temor de ser acusada de "pré-científica", abdica de afirmações que transcendem o que o método histórico pode verificar — como a ressurreição, a encarnação ou a ação providencial de Deus na história (RATZINGER, 1988, p. 23-36).


4.3 A hermenêutica da fé

A interpretação bíblica e a teologia sistemática podem — e devem — operar com uma hermenêutica da fé, que não se mostra incompatível com o uso de métodos científicos, mas não se reduz a eles. Isso implica reconhecer que o método histórico-crítico, por si só, é incapaz de captar o sentido teológico pleno do texto como Palavra de Deus dirigida à Igreja (THISelton, 1992).

Como observou Joseph Ratzinger (1927-2022) em suas intervenções sobre a interpretação bíblica, faz-se necessário ir além do método histórico para uma "interpretação teológica" que leve a sério a natureza das Escrituras como testemunho da revelação (RATZINGER, 1988, p. 45-52).


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A crítica à subordinação da teologia aos pressupostos das ciências humanas modernas encontra ressonância em amplo espectro do pensamento teológico contemporâneo. De fato, houve um movimento — particularmente entre os séculos XIX e XX — em que a teologia, ao buscar respeitabilidade acadêmica, aceitou as regras do jogo estabelecidas por disciplinas que, frequentemente, excluíam a priori a possibilidade da revelação transcendente.

O resultado foi uma teologia que se retraiu diante de cada nova descoberta arqueológica ou de cada nova hipótese literária, tornando-se refém dos "guardas" que ela mesma havia convidado para proteger seu território epistêmico.

Não obstante, o diagnóstico dessa crise abriu caminho para uma redescoberta da autonomia teológica. Movimentos como a hermenêutica canônica, a teologia pós-liberal e a Nouvelle Théologie (ressourcement) oferecem instrumentos conceituais para que a teologia volte a ser, não uma disciplina que se explica perante as ciências humanas, mas uma forma de conhecimento que, confiante em seu próprio objeto — Deus que se revela —, faz uso das ciências como ferramentas auxiliares, sem lhes conceder o papel de árbitras finais da verdade.

O desafio para a teologia do século XXI consiste precisamente neste: aprender a usar os instrumentos eruditos sem abdicar de sua própria alma epistemológica.


REFERÊNCIAS

BARth, K. Die Kirchliche Dogmatik. Band I/1: Die Lehre vom Wort Gottes. Zürich: Evangelischer Verlag, 1932.

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NOTAS DE RODAPÉ

¹ Tradução livre do original alemão: "Man kann nicht mit einer geliehenen Philosophie eine Theologie treiben und dann darauf zurückkommen."

² O termo "síndrome de Canaã" foi cunhado por G. E. Wright para descrever a tendência de explicar a religião israelita exclusivamente por analogia com as culturas cananeias circundantes.

³ A expressão ancillae theologiae remonta à tradição escolástica medieval, particularmente à formulação de Tomás de Aquino sobre a filosofia como "serva da teologia".

Uma Reavaliação Hermenêutica à Luz da Crítica Bíblica Contemporânea.

Scriptura Sui Ipsius Interpres: Uma Reavaliação Hermenêutica à Luz da Crítica Bíblica Contemporânea


Resumo

O presente artigo analisa a sustentação do princípio reformador Scriptura sui ipsius interpres (a Escritura é intérprete de si mesma) no contexto do debate teológico e histórico-crítico contemporâneo. Partindo-se da constatação de que autores bíblicos como Judas e Paulo utilizaram fontes extra-canônicas — respectivamente, literatura apócrifa do Segundo Templo (1 Enoque e a Assunção de Moisés) e poetas e conceitos estoicos gregos —, investiga-se como o princípio hermenêutico fundamental da Reforma Protestante pode ser reformulado sem perder sua validade teológica. Argumenta-se que, embora a versão ingênua de autossuficiência bíblica seja insustentável diante das evidências históricas e literárias, o núcleo do princípio permanece válido quando apropriadamente matizado: a Escritura constitui norma normativa não normada, cuja unidade teológica centrada em Cristo oferece a chave interpretativa fundamental, sem prejuízo do uso necessário de instrumentos históricos, filológicos e culturais na tarefa hermenêutica.

Palavras-chave: Scriptura sui ipsius interpres; Hermenêutica Bíblica; Reforma Protestante; Crítica Histórica; Cânon Bíblico; Literatura Intertestamentária.


1. Introdução

Um dos fundamentos cruciais para o movimento reformador do século XVI, o princípio Scriptura sui ipsius interpres (a Escritura é intérprete de si mesma), permanece como questão profunda e extremamente relevante na teologia contemporânea. A problemática torna-se particularmente aguda quando se considera que a própria composição do cânon bíblico evidencia uma complexidade literária e cultural que parece desafiar formulações simplificadas desse princípio hermenêutico.

A epístola de Judas, por exemplo, se vale de textos de livre circulação em sua época provenientes da literatura apócrifa do Segundo Templo, tais como 1 Enoque e a Assunção de Moisés. De modo análogo, o apóstolo Paulo, no capítulo 17 dos Atos dos Apóstolos, faz menção explícita a poetas gregos, além de utilizar ideias e conceitos estoicos em suas epístolas. Tais observações submetem o princípio reformador ao crivo da análise histórico-crítica, exigindo uma reavaliação de sua formulação e aplicação.

A presente investigação propõe-se a demonstrar que o princípio Scriptura sui ipsius interpres se sustenta no debate atual, porém não na forma como foi originalmente formulado no contexto polêmico do século XVI, tampouco como foi vulgarizado posteriormente. Defende-se que o princípio requer uma compreensão mais matizada à luz da crítica bíblica e da história da formação do cânon.


2. Os Desafios Apresentados

2.1 O Uso de Literatura Apócrifa e Intertestamentária

O texto da Epístola de Judas apresenta referências diretas a duas obras que não integravam o cânon judaico palestinense, embora circulassem amplamente no período do Segundo Templo:

- 1 Enoque: Judas 14-15 cita explicitamente o livro de 1 Enoque (capítulo 1,9), atribuindo a Enoque, "o sétimo depois de Adão", uma profecia acerca do juízo futuro. A tradição enoquiana gozava de considerável respeito em círculos judaicos e cristãos primitivos.

- Assunção de Moisés: Judas 9 refere-se a uma disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo sobre o corpo de Moisés — narrativa inexistente no Antigo Testamento hebraico, mas preservada na Assunção de Moisés (ou Testamento de Moisés), texto apócrifo do período intertestamentário.

O autor de Judas, portanto, utiliza tradições não-canônicas como elemento constitutivo de seu argumento inspirado, pressupondo que seus leitores as reconheciam como portadoras de autoridade moral e profética, sem que isso implique em sua canonização.


2.2 O Uso de Poetas e Filósofos Gregos

Em Atos 17, Paulo, proferindo seu discurso no Areópago de Atenas, cita duas fontes helenísticas:

- "Nele vivemos, nos movemos e existimos" (v. 28): verso atribuído ao poeta cretense Epimênides (séc. VI a.C.), com possíveis associações a Arato em seu poema Fenômenos.

- "Somos também sua descendência" (v. 28): citação direta de Arato (séc. III a.C.), com ecos no hino a Zeus de Cleantes, o estoico.

Adicionalmente, nas epístolas paulinas, identificam-se conceitos estoicos, tais como a distinção entre "interior" e "exterior" (2Cor 4,16), a noção de consciência como testemunha interior (Rm 2,15), e a estrutura argumentativa de catálogos de virtudes e vícios que ecoam a linguagem filosófica da época.

Paulo não adota o estoicismo como sistema teológico, mas utiliza categorias culturais e linguísticas disponíveis para a comunicação do Evangelho a um público helenizado, procedimento hermenêutico que pressupõe a legitimidade do uso de fontes extra-bíblicas no discurso inspirado.


3. O Princípio Scriptura Sui Ipsius Interpres: Origem e Sentido Original

O princípio Scriptura sui ipsius interpres foi sistematizado pelos reformadores — especialmente Philipp Melanchthon e João Calvino — no contexto da controvérsia com a tradição eclesial romana. Seu duplo propósito pode ser assim delineado:

1. Afirmação da perspicuitas (clareza) da Escritura: Contra a tese de que a Escritura seria obscura e demandaria a mediação infalível do magistério eclesiástico, os reformadores sustentavam que as partes claras da Escritura interpretam as partes obscuras.

2. Rejeição da autoridade da tradição como fonte independente: A Escritura era considerada autossuficiente como regula fidei (regra de fé), de modo que a interpretação não poderia ser determinada por dogmas eclesiásticos externos ao texto.

Não obstante, os reformadores não negavam a importância dos instrumentos auxiliares: conhecimento das línguas originais (hebraico e grego), história, e mesmo os Padres da Igreja — desde que sempre como servi (servos) da Escritura, jamais como autoridades independentes.


4. Sustentação do Princípio no Debate Atual

O debate contemporâneo, informado pela crítica histórica, pela história das religiões e pelas descobertas manuscritais (notadamente os de Qumrã), introduziu complexidades que tornam insustentável uma versão simplificada do princípio. Entretanto, a intuição fundamental pode ser reformulada e permanece válida.


4.1 Elementos que Demandam Revisão ou Matização

- A ideia de "autossuficiência" isolada: A Escritura não foi produzida em vácuo cultural. Os autores bíblicos utilizaram tradições orais, fontes escritas (algumas não preservadas ou não canônicas), categorias filosóficas e linguagens culturais de seu tempo. A "autossuficiência" não pode significar ignorância desses contextos.

- A noção de perspicuitas absoluta: Embora as Escrituras testemunhem claramente o Evangelho, numerosos textos permanecem obscuros sem o auxílio da história, da arqueologia, do conhecimento das línguas e da literatura intertestamentária. Os exemplos de Judas e Paulo demonstram que os próprios autores pressupunham um conhecimento cultural não imediatamente acessível ao leitor contemporâneo sem mediação erudita.

- A separação radical entre Escritura e tradição: Reconhece-se atualmente que o cânon emergiu de processo histórico intra-comunitário, e que a Escritura sempre foi lida e interpretada dentro de uma tradição. O que a Reforma rejeitava era a elevação da tradição ao mesmo nível de autoridade normativa, não o reconhecimento de que a interpretação ocorre intra tradicionem.


4.2 Elementos que Permanecem Válidos e Essenciais

Apesar das matizações necessárias, o núcleo do princípio Scriptura sui ipsius interpres permanece fundamental para uma hermenêutica de fé:

- A unidade teológica da Escritura: O princípio afirma a existência de coerência interna no testemunho bíblico, centrada em Cristo. As partes menos claras devem ser interpretadas à luz das mais claras, especialmente do Evangelho. Tal unidade não é anulada pelo uso de fontes externas; ao contrário, essas fontes são assumidas e transformadas pelo testemunho inspirado.

- A Escritura como norma normans non normata: Ainda que a interpretação exija mediações históricas e culturais, a Escritura permanece critério último ao qual todas essas mediações devem se submeter. O uso que Judas faz de 1 Enoque não confere autoridade canônica a essa obra; significa que o autor inspirado seleciona e incorpora tradição extra-canônica a serviço de sua mensagem. Analogamente, Paulo utiliza categorias culturais, subordinando-as ao Evangelho.

- A Escritura interpreta a Escritura: O método canônico de interpretação — que lê um texto à luz do conjunto do cânon — permanece válido. A compreensão da Lei em Paulo é iluminada pelos Salmos e pelos Profetas; a cristologia do Quarto Evangelho é lida à luz dos Evangelhos sinópticos e das cartas paulinas. Esse movimento interno ao cânon é insubstituível.


5. Uma Formulação Contemporânea

Diante das considerações expostas, propõe-se a seguinte reformulação do princípio:

> A Escritura é intérprete de si mesma porque constitui testemunho unificado e coerente, centrado na pessoa de Jesus Cristo, e porque a comunidade de fé reconhece nela a norma última de sua fé e prática. No entanto, a interpretação da Escritura requer o uso de todos os instrumentos históricos, filológicos e culturais disponíveis — incluindo o conhecimento das literaturas do Segundo Templo e da cultura greco-romana —, desde que tais instrumentos permaneçam a serviço da compreensão do texto canônico e não substituam sua autoridade.

Tal formulação preserva tanto a legitimidade do uso de fontes extra-canônicas e conceitos filosóficos pelos autores bíblicos quanto a necessidade de uma hermenêutica que respeite a unidade e a autoridade da Escritura.


6. Conclusão

O princípio Scriptura sui ipsius interpres não foi refutado pelas descobertas históricas ou pela crítica literária; foi, antes, enriquecido e matizado. Tornou-se insustentável a versão ingênua que imaginava a Escritura como texto fechado em si mesmo, produzido sem mediações culturais e interpretável sem referência à história.

A Escritura não é autossuficiente no sentido de ser autoexplicativa sem o trabalho da erudição; é autossuficiente no sentido teológico de que, uma vez compreendida em seu contexto histórico e literário, ela mesma fornece a chave hermenêutica para sua interpretação mais profunda: o testemunho de Cristo e a economia da salvação.

Assim, o uso que Judas faz de 1 Enoque e que Paulo faz de poetas gregos não contradiz o princípio reformado; demonstra, isso sim, que a inspiração bíblica opera assumindo e transformando os recursos culturais disponíveis, subordinando-os à unidade do testemunho apostólico. A tarefa hermenêutica contemporânea consiste em manter a centralidade da Escritura como norma, sem ignorar as complexidades históricas e literárias que ela mesma apresenta.


Referências

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WESTERHOLM, Stephen. Perspectives Old and New on Paul: The "Lutheran" Paul and His Critics. Grand Rapids: Eerdmans, 2004.

Scriptura Sui Ipsius Interpres?

Considerando o fato de que a epístola de Judas se vale de textos de livre circulação em sua epoca da literatura apócrifa do Segundo Templo( Henoque e a Assunção de Moisés). De igual modo o apstololo Paulo faz menção de poetas gregos no capítulo 17 de Atos dos Apostolos, bem como utiliza ideias e conceitos estoicos em uma de suas epistolas. Um dos principais fundamentos que é crucial para o movimento reformador: "Scriptura Sui Ipsius Intepres", ainda se sustenta no debate atual sobre a Bíblia? O que se deve fazer com uma questão profunda e extremamente relevante como esta, já que ela toca no cerne de um dos princípios de natureza hermenêutica mais importantes da Reforma Protestante — Scriptura sui ipsius interpres (a Escritura é intérprete de si mesma) — e o submete ao crivo da complexidade literária e cultural do próprio cânon bíblico?

A resposta, em síntese, é: o princípio se sustenta, mas não da forma como foi formulado no contexto polêmico do século XVI, nem como foi vulgarizado posteriormente. Ele requer uma compreensão mais matizada à luz da crítica bíblica e da história da formação do cânon.

Vamos analisar os desafios que você levanta e, em seguida, avaliar como o princípio pode ser compreendido hoje.


I. Os Desafios Apresentados

1. O Uso de Literatura Apócrifa e Intertestamentária

O fato de se mencionar corretamente a Epístola de Judas. O texto faz referência direta a duas obras que não faziam parte do cânon judaico palestinense, mas que circulavam amplamente no período do Segundo Templo:

· 1 Enoque: Judas 14-15 cita explicitamente o livro de 1 Enoque (capítulo 1,9) ao afirmar que "Enoque, o sétimo depois de Adão, profetizou". A tradição atribuída a Enoque era amplamente respeitada em círculos judaicos e cristãos primitivos.

· A Assunção de Moisés: Judas 9 faz referência a uma disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo sobre o corpo de Moisés, narrativa que não se encontra em nenhum texto do Antigo Testamento hebraico, mas que corresponde a uma tradição preservada na Assunção de Moisés (ou Testamento de Moisés), um texto apócrifo.

O que Judas faz, portanto, é valer-se de tradições não-canônicas como parte de seu argumento inspirado. Ele não está canonizando essas obras, mas pressupõe que seus leitores as conhecem e as reconhecem como portadoras de autoridade moral e profética.


2. O Uso de Poetas e Filósofos Gregos

Em Atos 17, Paulo, no Areópago de Atenas, cita duas fontes gregas:

· "Nele vivemos, nos movemos e existimos" (v. 28) é um verso atribuído ao poeta cretense Epimênides (séc. VI a.C.), mas também associado a Arato, em seu poema Fenômenos.

· "Somos também sua descendência" (v. 28) é uma citação direta de Arato (séc. III a.C.), com ecos também no hino a Zeus de Cleantes, o estoico.

Além disso, em suas epístolas, Paulo utiliza conceitos estoicos — como a distinção entre o "interior" e o "exterior" (2Cor 4,16), a ideia de consciência como testemunha interior (Rm 2,15), e a própria estrutura argumentativa de certos catálogos de virtudes e vícios — que ecoam a linguagem filosófica de sua época.

Paulo não está adotando o estoicismo como sistema teológico, mas utiliza categorias culturais e linguísticas disponíveis para comunicar o Evangelho a um público helenizado.


II. O Princípio Scriptura Sui Ipsius Interpres: Origem e Sentido Original

O princípio Scriptura sui ipsius interpres foi formulado pelos reformadores (especialmente Melanchthon e Calvino) no contexto da controvérsia com a tradição eclesial romana. Ele tinha um duplo propósito:

1. Afirmar a clareza (perspicuitas) da Escritura: Contra a ideia de que a Escritura era obscura e precisava da mediação infalível do magistério eclesiástico para ser compreendida, os reformadores sustentavam que as partes claras da Escritura interpretam as partes obscuras.

2. Rejeitar a autoridade da tradição como fonte independente: A Escritura era considerada autossuficiente como regra de fé, e a interpretação não poderia ser determinada por dogmas eclesiásticos externos ao texto.

No entanto, os reformadores não negavam a importância dos instrumentos auxiliares: o conhecimento das línguas originais (hebraico, grego), a história, e mesmo os pais da Igreja — mas sempre como servos da Escritura, não como autoridades independentes.


III. Como o Princípio se Sustenta no Debate Atual?

O debate contemporâneo, informado pela crítica histórica, pela história das religiões e pela descoberta de manuscritos (como os de Qumran), introduziu complexidades que tornam insustentável uma versão simplificada do princípio. No entanto, a intuição fundamental pode ser reformulada e permanece válida.


1. O Que Precisa Ser Revisto ou Matizado

· A ideia de uma "autossuficiência" isolada: A Escritura não foi produzida num vácuo cultural. Os autores bíblicos utilizaram tradições orais, fontes escritas (algumas das quais não preservadas ou não canônicas), categorias filosóficas e linguagens culturais de seu tempo. A "autossuficiência" não pode significar ignorar esses contextos.

· A noção de perspicuitas absoluta: Embora as Escrituras testemunhem claramente o Evangelho, muitos textos permanecem obscuros sem o auxílio da história, da arqueologia, do conhecimento das línguas e da literatura intertestamentária. O exemplo de Judas e de Paulo mostra que os próprios autores pressupunham um conhecimento cultural que não está imediatamente acessível ao leitor contemporâneo sem mediação erudita.

· A separação radical entre Escritura e tradição: Atualmente, reconhece-se que o cânon emergiu de um processo histórico dentro da comunidade de fé, e que a Escritura sempre foi lida e interpretada dentro de uma tradição. O que a Reforma rejeitava era a elevação da tradição ao mesmo nível de autoridade normativa, não o reconhecimento de que a interpretação ocorre na tradição.


2. O Que Permanece Válido e Essencial

Apesar dessas matizações, o núcleo do princípio Scriptura sui ipsius interpres continua sendo fundamental para uma hermenêutica de fé:

· A unidade teológica da Escritura: O princípio afirma que há uma coerência interna no testemunho bíblico, centrada em Cristo. As partes menos claras devem ser interpretadas à luz das mais claras, especialmente do Evangelho. Isso não é anulado pelo fato de os autores usarem fontes externas; ao contrário, essas fontes são assumidas e transformadas pelo testemunho inspirado.

· A Escritura como norma normativa não normada: Ainda que a interpretação exija mediações históricas e culturais, a Escritura permanece o critério último ao qual todas essas mediações devem se submeter. O uso que Judas faz de 1 Enoque não significa que 1 Enoque tenha autoridade canônica; significa que o autor inspirado seleciona e incorpora uma tradição extra-canônica a serviço de sua mensagem. Algo similar ocorre com Paulo e os poetas gregos: ele utiliza categorias culturais, mas as subordina ao Evangelho.

· A Escritura interpreta a Escritura: O método canônico de interpretação — que lê um texto à luz do conjunto do cânon — permanece válido. Por exemplo, a compreensão da Lei em Paulo é iluminada pelos Salmos e pelos Profetas; a cristologia do Quarto Evangelho é lida à luz dos Evangelhos sinóticos e das cartas paulinas. Esse movimento interno ao cânon é insubstituível.


IV. Uma Formulação Contemporânea

Diante dessas considerações, podemos reformular o princípio nos seguintes termos:

A Escritura é intérprete de si mesma porque constitui um testemunho unificado e coerente, centrado na pessoa de Jesus Cristo, e porque a comunidade de fé reconhece nela a norma última de sua fé e prática. No entanto, a interpretação da Escritura requer o uso de todos os instrumentos históricos, filológicos e culturais disponíveis — incluindo o conhecimento das literaturas do Segundo Templo e da cultura greco-romana —, desde que tais instrumentos permaneçam a serviço da compreensão do texto canônico e não substituam sua autoridade.

Nessa formulação, tanto a legitimidade do uso de fontes extra-canônicas e conceitos filosóficos pelos autores bíblicos quanto a necessidade de uma hermenêutica que respeite a unidade e a autoridade da Escritura são preservadas.


V. Conclusão

O princípio Scriptura sui ipsius interpres não foi refutado pelas descobertas históricas ou pela crítica literária; ele foi, na verdade, enriquecido e matizado. O que se tornou insustentável é uma versão ingênua do princípio que imaginava a Escritura como um texto fechado em si mesmo, produzido sem mediações culturais e interpretável sem referência à história. A Escritura não é autossuficiente no sentido de ser autoexplicativa sem o trabalho da erudição; ela é autossuficiente no sentido teológico de que, uma vez compreendida em seu contexto histórico e literário, ela mesma fornece a chave hermenêutica para sua interpretação mais profunda: o testemunho de Cristo e a economia da salvação.

Assim, o uso que Judas faz de 1 Enoque e que Paulo faz de poetas gregos não contradiz o princípio reformado; antes, demonstra que a inspiração bíblica opera assumindo e transformando os recursos culturais disponíveis, subordinando-os à unidade do testemunho apostólico. A tarefa atual é manter a centralidade da Escritura como norma, sem ignorar as complexidades históricas e literárias que ela mesma nos apresenta.

A Distinção entre Diákonos e Diakonia no Novo Testamento.

A Distinção entre Diákonos e Diakonia no Novo Testamento: Uma Análise Semântica e Institucional


Resumo

O presente artigo examina a complexidade terminológica relativa aos termos gregos diákonos (διάκονος) e diakonia (διακονία) no corpus neotestamentário, analisando a transição entre o uso funcional-carismático e a institucionalização hierárquica do ofício diaconal. Demonstra-se que nem toda ocorrência desses termos designa o ofício específico de diácono, tal como consolidado em Atos 6, Filipenses 1,1 e 1 Timóteo 3, sendo necessária uma análise contextual criteriosa para a distinção entre serviço como expressão da vida cristã e ministério ordenado.

Palavras-chave: Diácono; Diaconia; Ministerialidade; Eclesiologia neotestamentária; Institucionalização.


1. Introdução

A questão da ministerialidade no Novo Testamento constitui um dos campos mais complexos da exegese bíblica contemporânea. Particularmente no que concerne ao vocabulário da diaconia, observa-se uma ambiguidade semântica que tem implicações diretas para a compreensão da estrutura eclesial nas comunidades primitivas. O presente estudo propõe-se a analisar a distinção entre o substantivo diákonos e o substantivo diakonia, demonstrando que esses termos possuem um espectro de significados que transcende a mera designação de um ofício hierárquico institucionalizado.


2. O Campo Semântico Amplo de Diakonia

No grego koiné do Novo Testamento, os termos diakonia (serviço) e diákonos (servo, ministro) apresentam uma gama semântica que abrange desde o serviço material mais elementar até o exercício de ministérios eclesiais estabelecidos.


2.1. O Serviço Humilde e Cotidiano

Em diversos contextos neotestamentários, o termo designa simplesmente o ato de servir às necessidades materiais ou práticas, sem conotação de ofício eclesial:

- Marta (Lc 10,40): O evangelista Lucas registra que Marta "distraía-se com muitos serviços" (peri pollēn diakonian). Trata-se aqui de trabalho doméstico, especificamente a preparação de uma refeição para Jesus, sem qualquer implicação de cargo ministerial.


- Mulheres que serviam a Jesus (Lc 8,3): O mesmo evangelista menciona que certas mulheres "serviam (diēkonoun) a [Jesus] com seus bens". Tal serviço caracteriza-se como sustento material, não como função eclesial propriamente dita.

- Paulo e a coleta (Rm 15,25): O Apóstolo afirma sua intenção de dirigir-se a Jerusalém "para servir (diakonēsai) aos santos", referindo-se especificamente à coleta em favor dos pobres da Igreja-mãe.


2.2. O Serviço da Palavra e da Reconciliação

Paulo de Tarso emprega diakonia também para designar o ministério apostólico e evangelizador, sem que tal uso se refira ao ofício de diácono:

- Ministério da Reconciliação (2Cor 5,18): O Apóstolo declara que Deus "nos confiou o ministério (diakonian) da reconciliação". Tal expressão abarca o apostolado em sua totalidade, não se restringindo a uma função diaconal específica.

- Ministério do Espírito e da Justiça (2Cor 3,7-9): Paulo estabelece um contraste entre o "ministério (diakonia) da morte" (a Lei mosaica) e o "ministério (diakonia) do Espírito", bem como o "ministério (diakonia) da justiça" (o Evangelho).

- Ministério da Palavra (At 6,4): Os apóstolos declaram não poderem abandonar "o ministério (diakonia) da palavra" para servir às mesas. Significativamente, o mesmo termo diakonia é empregado tanto para o serviço apostólico quanto para o serviço dos sete, indicando que ambos constituem formas distintas de ministério.


3. A Configuração do Ofício Hierárquico de Diácono

A identificação de um uso técnico para o ofício de diácono opera-se em contextos específicos nos quais o termo aparece associado a outros títulos ministeriais e a requisitos formais claros.


3.1. Filipenses 1,1

Na epístola aos filipenses, Paulo dirige sua saudação "a todos os santos em Cristo Jesus que estão em Filipos, com os episkópois (ἐπισκόποις, bispos, supervisores) e diakónois (διακόνοις, diáconos)". Tal colocação representa a primeira ocorrência neotestamentária na qual ambos os termos aparecem conjuntamente como títulos de ofícios estabelecidos numa igreja local, indicando já uma estrutura ministerial fixa (BROWN, 1984, p. 45-47).


3.2. 1 Timóteo 3,8-13

O texto mais explícito quanto ao ofício hierárquico de diácono encontra-se na Primeira Epístola a Timóteo, na qual Paulo estabelece requisitos específicos:

> "Os diáconos, igualmente, sejam dignos, de uma só palavra, não dados ao muito vinho, não cobiçosos de torpe ganância, guardando o mistério da fé com a consciência pura. E sejam primeiro provados; depois exercam o diaconato, sendo irrepreensíveis. As mulheres, igualmente, sejam dignas, não maldizentes, sóbrias, fiéis em tudo. Os diáconos sejam maridos de uma só mulher e governem bem seus filhos e suas próprias casas" (1Tm 3,8-12).

A referência às "mulheres" (gynaikes) no versículo 11 constitui objeto de debate exegético, sendo interpretada por muitos estudiosos como alusão a diáconas — ou, alternativamente, às esposas de diáconos —, o que indicaria uma forma já institucionalizada do ofício (COLLINS, 1990, p. 123-125).


3.3. Romanos 16,1: Um Caso Limite

Paulo recomenda Febe como diákonon (διάκονον, acusativo feminino de diákonos) da igreja de Cencreias. A questão hermenêutica central consiste em determinar se tal designação se refere ao ofício de diácona ou tão-somente a uma "serva" ou "auxiliadora" em sentido funcional. O contexto sugere, contudo, uma conotação mais técnica:

1. Paulo emprega o termo diákonos no feminino (diákonon);

2. Atribui-lhe o título de "protetora" (prostatis), termo que possui conotações de liderança e autoridade;

3. Tal designação implica reconhecimento oficial por parte da comunidade de Cencreias.

Diversos estudiosos contemporâneos interpretam esta passagem como evidência de que Febe exercia um ministério oficial na referida comunidade, possivelmente como diácona, o que confirmaria a extensão do ofício também às mulheres, embora tal interpretação permaneça objeto de debate teológico (SCHÜSSLER FIORENZA, 1983, p. 168-172; FITZMYER, 1993, p. 731-733).


4. A Tensão Dialética: Carisma versus Ofício

Uma das complexidades fundamentais do Novo Testamento reside no fato de que o vocabulário da diaconia transita entre duas dimensões distintas, conforme demonstrado na Tabela 1:

Dimensão Carismática/Funcional Dimensão Institucional/Hierárquica 

Serviço espontâneo motivado pelo amor Ofício estabelecido com requisitos e ordenação 

Exercício potencial de qualquer cristão Pressupõe reconhecimento eclesial e imposição de mãos 

Exemplo: Marta (Lc 10,40) Exemplo: Os sete (At 6) e os diáconos de 1Tm 3 

Exemplo: Paulo e o ministério da reconciliação (2Cor 5,18) Exemplo: Filipenses 1,1 

O Apóstolo Paulo, em Romanos 12,7, inclui diakonia entre os carismata: "se é serviço (diakonia), dedique-se ao serviço". Tal inclusão indica que, na fase mais carismática das comunidades paulinas, o serviço podia constituir um dom do Espírito, não necessariamente vinculado a um ofício ordenado. Nas Epístolas Pastorais (1 Timóteo, Tito), porém, observa-se uma tendência à institucionalização, com a fixação dos três graus ministeriais (bispo/presbítero/diácono).


5. Considerações Finais

A análise do vocabulário diaconal no Novo Testamento permite as seguintes conclusões:

1. Espectro semântico amplo: O termo diakonia abrange desde o serviço doméstico mais elementar (Lc 10,40) até o ministério apostólico da reconciliação (2Cor 5,18).

2. Nem toda diakonia constitui ofício hierárquico: O Novo Testamento concebe o serviço como carisma, como ato concreto de amor e como exercício de qualquer ministério (profético, apostólico, pastoral), sem vínculo necessário com estruturas eclesiais formais.

3. Contextos de institucionalização: O ofício de diácono (diákonos) como função hierárquica e permanente configura-se em contextos específicos: Filipenses 1,1 e 1 Timóteo 3,8-13 representam os textos mais explícitos. Atos 6 oferece o paradigma originário, embora não empregue o termo diákonos para os sete (referindo-se a eles como "sete homens" e descrevendo sua função como diakonia).

4. Evolução histórico-literária: Nas comunidades paulinas mais antigas (1 Coríntios, Romanos), o termo diakonia é predominantemente carismático e funcional. Nas cartas pastorais (1 Timóteo, Tito) e na epístola aos filipenses, observa-se uma fixação do ofício como grau hierárquico.

Portanto, a leitura do Novo Testamento exige um discernimento hermenêutico que distinga entre o serviço como expressão da vida cristã — dever de toda a comunidade — e o ofício eclesial de diácono — ministério ordenado, com requisitos específicos e reconhecimento hierárquico. A tensão dialética entre carisma e instituição constitui uma das riquezas e complexidades do testemunho neotestamentário, oferecendo subsídios teológicos para as diversas tradições eclesiais na compreensão contemporânea do ministério.


Referências

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COLLINS, John N. Diakonia: Re-interpreting the Ancient Sources. New York: Oxford University Press, 1990.

FITZMYER, Joseph A. Romans: A New Translation with Introduction and Commentary. New York: Doubleday, 1993. (Anchor Bible, 33).

SCHÜSSLER FIORENZA, Elisabeth. In Memory of Her: A Feminist Theological Reconstruction of Christian Origins. New York: Crossroad, 1983.

Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação.

Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação e a Tensão Escatológica do "Já" e do "Ainda Não" Resumo O...