A Condição de Possibilidade da Graça.

A Condição de Possibilidade da Graça: Uma Análise Teológica de Lucas 18,10-14 à Luz da Soteriologia Bíblica


Resumo

O presente artigo investiga a questão da condição de possibilidade para a operação da graça divina, tomando como ponto de partida a parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,10-14). Através de uma análise exegética do texto grego e de uma síntese teológica com outros loci das Escrituras, argumenta-se que a atitude do publicano não constitui a causa da graça, mas sim a remoção do obstáculo à sua operação. A graça divina, por sua soberania, não depende de atitude humana prévia para agir; contudo, a autossuficiência espiritual funciona como barreira à sua recepção. O estudo propõe uma distinção crucial entre "abrir caminho" para a graça (semipelagianismo) e "cessar de bloqueá-la" (receptividade).

Palavras-chave: Graça; Justificação; Lucas 18,10-14; Soteriologia; Exegese do Novo Testamento; Semipelagianismo.


1. Introdução: O Problema Teológico

A pergunta que orienta esta investigação é de primeira grandeza na teologia sistemática e bíblica: qual é a condição de possibilidade para que a graça divina opere na vida humana? Mais especificamente: a graça depende de uma atitude prévia do sujeito — como a humildade e a confissão do publicano em Lucas 18,10-14 — para encontrar "caminho" de operação, ou ela age de modo soberano, independentemente de qualquer disposição humana?

A questão não é meramente especulativa. Ela toca no cerne do debate histórico entre sinergismo (tradições ortodoxa e católica) e monergismo (tradição reformada), bem como no perigo do semipelagianismo — a doutrina, condenada no Concílio de Orange (529 d.C.), segundo a qual a iniciativa da graça depende de um primeiro movimento da vontade humana.[1]

O presente estudo propõe-se a examinar a parábola lucana em seu contexto imediato e em diálogo com outros textos neotestamentários, especialmente Romanos 5,6-8 e a parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), a fim de oferecer uma resposta que seja fiel tanto à lógica narrativa da parábola quanto à coerência teológica do conjunto das Escrituras.


2. Metodologia

Adota-se uma abordagem de exegese teológica (theological exegesis), que integra:

1. Análise filológica do texto grego de Lucas 18,10-14 (NA28), com atenção especial à semântica do verbo ἱλάσκομαι (hilaskomai);

2. Análise narrativa da parábola, identificando os papeis dramáticos e a conclusão de Jesus;

3. Síntese canonica (canonical synthesis), relacionando o texto lucano com outros loci do Novo Testamento;

4. Diálogo com a tradição teológica, especialmente as categorias do semipelagianismo e da soberania da graça.


3. Análise Exegética: A Parábola do Publicano (Lc 18,10-14)

3.1. O Texto e sua Estrutura

A parábola é introduzida por Jesus com uma finalidade didática explícita: "Também disse esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos como justos e desprezavam os outros" (Lc 18,9). O Sitz im Leben é, portanto, a autopresunção espiritual.

A estrutura narrativa apresenta uma antítese binária:

Elemento Fariseu Publicano 

Posição no templo Em pé, consigo mesmo De longe, sem erguer os olhos 

Atitude corporal Orava consigo mesmo Batia no peito 

Conteúdo da oração Agradecimento pela própria justiça Confissão: "Deus, tem piedade de mim, pecador" 

Resultado declarado por Jesus Não desceu justificado Desceu justificado 

A conclusão de Jesus é categórica: "Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa, e não aquele" (Lc 18,14a).


3.2. A Semântica de ἱλάσκομαι (hilaskomai)

O verbo empregado pelo publicano — ἱλάσκομαι (hilaskomai) — é de significado soteriológico crucial. Deriva da mesma raiz de ἱλαστήριον (hilastērion), termo técnico do Septuaginta para o "propiciatório", o lugar da expiação no santuário (Ex 25,17-22; cf. Rm 3,25).[2]

O publicano, ao usar este verbo, não oferece sacrifício. Antes, se coloca no lugar do sacrifício. Sua oração pode ser parafraseada teologicamente assim: "Aquilo que deveria ser oferecido para expiar o pecado — eu mesmo sou aquele que precisa dele." O gesto de bater no peito (etýpte tò stḗthos) reforça essa identificação com a vítima sacrificial.


3.3. A Atitude do Publicano como "Espaço Aberto"

Na lógica da parábola, o publicano realiza três movimentos que funcionam como abertura para a graça:

1. Reconhecimento da própria posição real ("de longe", sem erguer os olhos ao céu — gesto de vergonha e de consciência da indignidade);

2. Confissão do pecado sem atenuantes (autodenominação como "pecador", sem qualquer contraponto positivo);

3. Apelação exclusiva à misericórdia divina (nenhuma obra, nenhum mérito, apenas a súplica).

A atitude do publicano, contudo, não causa a graça. Se assim fosse, teríamos uma inversão do sola gratia — a graça dependeria de um pré-requisito humano. O que a parábola mostra é que a atitude do publicano não bloqueia a graça, ao contrário do fariseu, cuja justiça própria funciona como blindagem.


4. Síntese Teológica: A Graça Além da Parábola

A parábola, por sua natureza didática e parcial, não esgota a teologia bíblica da graça. É necessário ampliar o horizonte hermenêutico.


4.1. A Graça sem Atitude Prévia: Romanos 5,6-8

Paulo, em Romanos, oferece uma correção necessária à leitura exclusiva da parábola lucana:

> Pois Cristo, quando ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios [...] se ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós. (Rm 5,6.8)

Aqui a graça não espera uma atitude correta. Ela age quando ainda éramos no lugar do fariseu (confiantes em nós mesmos) e do publicano (conscientes do pecado). O fariseu, mesmo em sua cegueira, também é objeto da graça — ele apenas a recusa.


4.2. A Graça que Antecede a Confissão: Lucas 15,11-32

A parábola do filho pródigo oferece um contraponto narrativo ao texto de Lucas 18. O filho mais novo elabora um discurso de confissão: "Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho" (Lc 15,21). Mas o pai nem o deixa terminar. A graça irrompe antes da confissão completa — o abraço, o manto, o anel, o sacrifício festivo antecedem a retórica penitencial.

Isso demonstra que a atitude do publicano (confessar, bater no peito) é um lugar onde a graça é bem-vinda, mas não é uma condição necessária para sua operação.


5. A Distinção Crucial: Caminho versus Não-Bloqueio

A imagem do "caminho" para a graça é teologicamente perigosa, pois sugere que o homem precisa preparar o terreno para que Deus aja. Essa lógica, em sua forma extrema, configura semipelagianismo.[3]

A parábola lucana, contudo, sugere algo mais sutil: o publicano remove os obstáculos. O fariseu está "cheio de si" — sua justiça própria é uma muralha. O publicano está "vazio de si" — e essa vacuidade não é mérito, é apenas o espaço vazio onde a graça pode entrar.


5.1. Analogia Ilustrativa

A escuridão não causa a luz, mas a luz só ilumina onde há escuridão, não onde já há claridade própria. A humildade do publicano não é a luz; é a escuridão reconhecida como escuridão. A graça é a luz que irrompe; a humildade é a ausência de obstáculos à sua penetração.


6. Discussão: Sinergismo, Monergismo e o Perigo do Semipelagianismo

A pergunta inicial toca no mistério da cooperação entre graça e liberdade humana.

Tradição Ênfase Risco Teológico 

Ortodoxa/Católica Sinergismo: graça e liberdade cooperam Dificuldade em preservar a primazia absoluta da graça 

Reformada Monergismo: graça opera sozinha Risco de negar a responsabilidade humana na resposta 

Semipelagianismo O homem dá o primeiro passo; a graça completa Heresia: subordina a iniciativa divina à humana 

A resposta que harmoniza a parábola com o conjunto das Escrituras evita todos esses extremos:

> A graça divina não precisa de caminho para operar. Ela opera onde quer. Mas onde encontra alguém como o publicano — que não confia em si, que reconhece sua miséria, que apenas pede — ela opera sem encontrar resistência.

O publicano não prepara o terreno; ele apenas para de construir muros.


7. Conclusão

A pergunta que orientou este estudo — "É apenas e tão somente quando Deus se depara com o gesto e atitude de alguém como o publicano que a graça divina tem caminho para operar?" — exige uma resposta diferenciada:

No nível da parábola (Lc 18): Sim. A contraposição é binária: o fariseu bloqueia a graça (confiança em si), o publicano a recebe (confissão de miséria).

No nível da teologia bíblica total: Não. A graça opera também onde não há confissão (os ímpios por quem Cristo morreu, Rm 5). O que a atitude do publicano faz não é abrir um caminho para a graça, mas deixar de bloqueá-lo.

O gesto do publicano não é a causa da graça. É a rendição que permite que a graça, que já estava a caminho, finalmente o alcance. A graça não precisa de caminho. Ela abre o caminho. Mas quando encontra um coração que já se reconheceu como pecador, ela encontra não um caminho, mas um porto.


Referências

[1] CONCÍLIO DE ORANGE II. Canones. 529 d.C. In: DENZINGER, H.; HÜNERMANN, P. Enchiridion symbolorum. 43. ed. Freiburg: Herder, 2010. Can. 1-25.

[2] BAUER, W.; DANKER, F. W.; ARNDT, W. F.; GINGRICH, F. W. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. 3. ed. Chicago: University of Chicago Press, 2000. p. 473-474 (s.v. ἱλάσκομαι).

[3] OBERMAN, H. A. The Harvest of Medieval Theology: Gabriel Biel and Late Medieval Nominalism. Grand Rapids: Eerdmans, 1967. (Sobre as origens do semipelagianismo e sua condenação).

[4] FITZMYER, J. A. The Gospel According to Luke (X-XXIV). Anchor Bible 28A. New York: Doubleday, 1985. p. 1185-1192.

[5] MARSHALL, I. H. The Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text. NIGTC. Exeter: Paternoster, 1978. p. 675-682.

[6] LUTHER, M. Von der Freiheit eines Christenmenschen (1520). In: Werke. Weimarer Ausgabe, Bd. 7. p. 12-38.

A Parábola como Texto Pré-Secular.

1. A parábola como texto pré-secular: limites metodológicos para aplicações diretas


A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,10-14, NA28) não pode ser utilizada como texto fundante para uma discussão direta acerca do secularismo. Essa reserva metodológica fundamenta-se em três constatações textuais. Primeiramente, o cenário narrativo pressupõe um ambiente sagrado compartilhado: ambos os personagens encontram-se no Templo, locus da presença divina e centro da vida litúrgica judaica. Em segundo lugar, a parábola opera com um pressuposto transcendente inequívoco, uma vez que tanto o fariseu quanto o publicano se dirigem a Deus como realidade pessoal e moralmente relevante. Terceiro, a linguagem empregada pelos personagens é intrinsecamente litúrgica, mesmo no caso do publicano, cuja fala direta — "Deus, propícia-te a mim, o pecador" (Lc 18,13) — mobiliza categorias religiosas como pecado, misericórdia e juízo divino. O secularismo, conforme o diagnóstico clássico de Charles Taylor em *A Secular Age*, implica uma "mutualidade" na qual a transcendência deixou de constituir o horizonte inevitável da existência humana. Nesse sentido, a parábola é estritamente pré-secular, e qualquer aplicação direta incorreria em anacronismo hermenêutico.


2. Uma analogia estrutural: a "morte da consciência de Deus" como resquício secular na figura do fariseu

Não obstante os limites metodológicos acima delineados, é possível estabelecer uma ponte analógica indireta entre a condição do fariseu e o fenômeno do secularismo. A contribuição hermenêutica reside na seguinte proposição: o fariseu não está imune ao pecado, mas está imune à consciência do pecado — e essa "morte da consciência de Deus" funciona como análogo estrutural do secularismo.

A analogia pode ser sistematizada da seguinte forma. O fariseu fala de Deus, porém não se dirige a Deus como juiz; de modo correlato, o homem moderno secularizado fala de "Deus" como conceito cultural, mas perdeu a relação existencial com a transcendência. O fariseu utiliza linguagem religiosa para autojustificação; o homem secular emprega categorias religiosas esvaziadas — como "espiritualidade" sem juízo ou "fé" sem conteúdo objetivo. O fariseu não reconhece sua própria condição de réu diante de Deus; o homem secular não reconhece que está diante de um juízo transcendente. Em ambos os casos, a "consciência de Deus" está morta: no fariseu, embora Deus exista objetivamente; no homem moderno, como diagnóstico cultural.


3. Fundamentação teológica: Tillich e Nietzsche como interlocutores

A referência a Paul Tillich e Friedrich Nietzsche é precisa e hermenêuticamente produtiva. Em *A Coragem de Ser*, Tillich interpreta a proclamação nietzscheana "Deus está morto" não como declaração ontológica acerca da inexistência de Deus, mas como diagnóstico cultural: o Deus que "morreu" é o Deus como ser supremo, o garantidor de sentido e moral para a civilização ocidental. O que resta é o "abismo" (*Grund*), que Tillich designa como "Deus acima de Deus". A aplicação aqui proposta, contudo, é ainda mais direta: a consciência de Deus — entendida como a capacidade de se perceber como criatura diante do Criador, como réu diante do Juiz — é o que efetivamente está morto no homem moderno. Essa condição corresponde estruturalmente à do fariseu na parábola: ele possui teologia, possui ritual, mas carece de consciência de estar diante do Deus vivo.


4. Resposta a uma objeção possível

Poder-se-ia objetar que o fariseu não é secular, mas religiosamente hipócrita, e que o secularismo configura indiferença, não arrogância religiosa. A resposta a essa objeção é a seguinte: a arrogância religiosa do fariseu produz o mesmo efeito prático que o secularismo produz no homem moderno, a saber, a ausência de uma relação real com Deus como juiz. O fariseu está imune à consciência do pecado porque sua religiosidade o blindou; o homem secular está imune à mesma consciência porque a transcendência foi removida de seu horizonte existencial. Trata-se de causas distintas — blindagem religiosa versus exclusão transcendental —, mas de consequência existencial idêntica: a morte da consciência de Deus.


5. Conclusão

Os argumentos aqui apresentados são plausíveis, bem fundamentados e exegeticamente respeitosos, na medida em que não forçam a parábola a falar diretamente de secularismo, mas propõem uma analogia estrutural. A articulação final — que vincula o fariseu, imune ao pecado mas não imune à consciência do pecado, ao diagnóstico tillichiano da "consciência de Deus morta" no homem moderno — constitui uma contribuição hermenêutica legítima e criativa.

 

Uma Análise Teológica da Justificação pela Graça.

A Parábola do Fariseu e do Publicano (Lc 18,10-14): Uma Análise Teológica da Justificação pela Graça


1. O Diagnóstico Teológico do Fariseu: Conhecimento que Cega

A parábola de Lucas 18,10-14 apresenta, em primeiro lugar, um fariseu que demonstra notável precisão no diagnóstico do pecado. Em sua oração, ele enumera com rigor as transgressões alheias: roubo, injustiça, adultério (Lc 18,11). Do ponto de vista hermenêutico, o fariseu possui uma descrição teológica impecável do pecado, demonstrando conhecimento das Escrituras e da tradição interpretativa de seu tempo. Contudo, essa mesma "capacidade descritiva" converte-se em armadilha existencial. O fariseu utiliza o conhecimento do pecado não para o autoexame, mas para a comparação com o outro: "não sou como os demais homens" (Lc 18,11). A liturgia e a prática religiosa — jejum semanal e dízimo de todos os seus ganhos (Lc 18,12) — tornam-se instrumentos de autocomplacência espiritual. Ele confunde ritual religioso com retidão interior, e sua piedade, em vez de abrir-lhe os olhos para a própria condição, cega-o à soberba, ao desprezo ao próximo e à autossuficiência que o dominam. Assim, o fariseu não está imune ao pecado, mas imune à consciência do pecado.


2. O Publicano: Liturgia como Ponte para o Reconhecimento Humilde

Em contraposição, o publicano oferece uma fórmula litúrgica que ecoa o Salmo 51: "Ó Deus, tem piedade de mim, pecador" (Lc 18,13). Embora a expressão seja reconhecidamente uma fórmula de oração penitencial, a diferença decisiva reside na postura existencial do personagem. O publicano não descreve o pecado alheio, mas apenas o próprio. Ele não se compara a ninguém, pois reconhece que, diante do tribunal divino, toda comparação humana perde sentido. Crucialmente, o publicano sente-se em juízo: estar no Templo não é para ele ocasião de exibir virtudes, mas momento de total rendição à misericórdia divina. A liturgia, no caso do publicano, funciona como ponte para o reconhecimento humilde da própria miséria espiritual, e não como escudo contra o autoexame.


3. A Grande Inversão: Justificação pela Misericórdia

A conclusão da parábola apresenta uma inversão teológica radical: "Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa, e não aquele" (Lc 18,14). A justificação do publicano e a não-justificação do fariseu não se fundamentam na quantidade ou qualidade das práticas religiosas, mas na orientação existencial da oração. O fariseu foi ao Templo apresentar sua própria justiça; o publicano foi apresentar sua própria miséria. No evangelho de Lucas, Deus justifica precisamente aquele que não confia na própria justiça, mas na misericórdia divina. A justificação, portanto, não é conquistada pela observância ritual, mas recebida pelo reconhecimento da própria indignidade e pelo apelo à graça.


4. Síntese Teológica

A parábola do fariseu e do publicano revela que a diferença entre a oração aceita e a oração rejeitada não está nas palavras externas, mas na relação interior com Deus. O fariseu usa a liturgia e o conhecimento do pecado como escudo contra o autoexame, transformando a prática religiosa em instrumento de justificação própria. O publicano, por sua vez, utiliza uma fala litúrgica similar como ponte para o reconhecimento humilde da própria condição pecaminosa. O fariseu crê que sua prática o torna imune ao juízo divino; o publicano sabe que sua única defesa é o apelo à graça. A justificação, no contexto lucano, é, portanto, um ato de misericórdia divina dirigido ao coração contrito e humilde, que reconhece sua total dependência da graça.

Parábola do Fariseu e do Publicano (Lc 18,9-14)

A análise apresentada alinha-se de modo consistente à interpretação tradicional da Parábola do Fariseu e do Publicano (Lc 18,9-14), podendo ser articulada ponto a ponto da seguinte maneira.

Em primeiro lugar, a humildade não se identifica com uma postura litúrgica específica. Na parábola, o fariseu ora no Templo — local sagrado por excelência —, assume a posição ereta, própria da oração litúrgica, e observa rigorosamente os rituais de jejum e dízimo. Ainda assim, a humildade lhe é estranha. O publicano, por sua vez, posiciona-se à distância, recusa-se a levantar os olhos ao céu e transgride o "protocolo" esperado; contudo, sua atitude traduz uma humildade autêntica, que independe de gestos externos.

Em segundo lugar, o fariseu realiza uma leitura do pecado circunstancial, porém seletiva e hipócrita. Ele identifica transgressões — roubo, injustiça, adultério — e chega a comparar-se com o publicano. A parábola, no entanto, evidencia que tal diagnóstico moral não se aplica a si mesmo: ele percebe o pecado "ao redor", mas é incapaz de reconhecer em si a soberba e o desprezo ao próximo, que constituem sua verdadeira falta.

Em terceiro lugar, o publicano estabelece uma relação direta e essencial com Deus. A despeito de não dominar a liturgia nem formular uma oração elaborada, dirige-se imediatamente ao núcleo da questão: reconhece sua condição de miséria diante do divino e clama por misericórdia ("Deus, tem piedade de mim, pecador"). Sua postura é direta, sincera e pessoal; não deposita confiança em ritos externos, mas exclusivamente na misericórdia divina.

Dessa articulação, depreende-se que a parábola ensina que a justificação diante de Deus não decorre de posturas litúrgicas corretas, de erudição teológica ou de práticas religiosas externas, mas da humildade sincera que reconhece o próprio pecado e suplica por misericórdia. O fariseu detinha ritos e aparente moralidade, porém lhe faltava o essencial. O publicano, despojado de prestígio social e até de uma oração "esteticamente elaborada", retirou-se justificado em virtude de sua relação verdadeira e humilde com Deus. 

EXEGESE DE LUCAS 18:10-14 (NA28):.

EXEGESE DE LUCAS 18:10-14 (NA28): A INVERSÃO PARADOXAL DA JUSTIFICAÇÃO NA PARÁBOLA DO FARISEU E DO PUBLICANO

A parábola do fariseu e do publicano, registrada em Lucas 18:10-14, constitui um dos textos mais densos do Evangelho de Lucas no que concerne à teologia da justificação e da graça. Situada no contexto mais amplo das instruções de Jesus sobre a oração, que se estende desde o capítulo 18, versículo 1, até o versículo 14, a narrativa apresenta um contraste deliberado entre dois personagens arquetípicos da religiosidade judaica da época. A exegese do texto grego, conforme estabelecido pelo Novum Testamentum Graece, na sua vigésima oitava edição, revela nuances sintáticas e semânticas que são frequentemente diluídas nas traduções vernaculares, exigindo, portanto, uma análise cuidadosa dos detalhes textuais e sintáticos do grego koiné.

O objetivo do presente estudo é analisar os elementos gramaticais e teológicos do pericope, demonstrando como a estrutura linguística do grego koiné corrobora a inversão paradigmática proposta por Jesus, segundo a qual a justificação não é alcançada pela autoafirmação religiosa, mas recebida mediante a humilhação e a apelação à misericórdia expiatória de Deus.


A POSTURA E O DESTINATÁRIO DA ORAÇÃO

O texto grego distingue a natureza da oração de cada personagem de maneira sintaticamente significativa. No que tange ao fariseu, o particípio aoristo statheis, que significa "tendo se posicionado" ou "ficando de pé", descreve a sua postura no Templo. Embora a posição ereta fosse comum no contexto litúrgico, a ênfase do participialismo grego recai sobre a ação deliberada de tomar uma posição, não apenas física, mas também simbólica. O fariseu assume uma postura de destaque, de visibilidade, como quem se coloca em cena.

Mais decisivo, porém, é o complemento preposicional pros heauton, que significa "para si mesmo". A sintaxe indica que, embora estivesse fisicamente no espaço sagrado do Templo, o fariseu não se dirigia efetivamente a Deus, mas orava em direção a si mesmo. A preposição pros com o reflexivo heauton sugere uma orientação interiorizada da oração, na qual a liturgia funciona como espelho para a exaltação da própria justiça. O fariseu, portanto, transforma o ato de adoração em um monólogo de autoafirmação, utilizando o espaço litúrgico como palco para a performance da sua virtude.

Em contraste, o publicano é descrito pelo advérbio makrothen, que significa "de longe". Ele não ousa aproximar-se do espaço litúrgico central. A distância física que mantém funciona como um ícone visível da distância moral que ele percebe entre si e a santidade divina. A escolha lexical de Lucas não é casual, pois makrothen evoca a consciência da indignidade e da separação do pecador diante da transcendência de Deus. O publicano reconhece, pelo seu próprio posicionamento espacial, que não pertence ao centro da comunhão sacra.


A CONFISSÃO DO PECADO

A descrição do gesto do publicano é construída com uma dupla negativa que reforça a ênfase: ouk ethelen oude tous ophthalmous eparai, que significa "ele não queria nem sequer levantar os olhos". No judaísmo contemporâneo, erguer os olhos ao céu era símbolo de confiança e comunhão, como se vê no Salmo 121. A recusa do publicano em fazê-lo demonstra uma quebra radical da autossuficiência. Ele não se apresenta como merecedor de acesso visual à presença divina, mas como alguém cuja condição pecaminosa impõe uma espécie de cegueira litúrgica, uma incapacidade de olhar para o alto.

O coração teológico da parábola reside no verbo empregado pelo publicano: hilastheti, que é o aoristo imperativo passivo de hilaskomai, e significa "sê propício", "faz propiciação" ou "expia". Diferentemente de um simples pedido de compaixão, representado pelo termo eleetheti, a palavra hilastheti carrega a carga sacrificial do hilasterion, isto é, o propiciatório, a tampa da Arca da Aliança, como se encontra no Êxodo, capítulo 25, versículo 17, e que Paulo retoma em Romanos, capítulo 3, versículo 25.

O publicano, portanto, não solicita apenas misericórdia afetiva. Ele apela para o mecanismo de expiação de pecados, reconhecendo implicitamente que merece juízo. Sua oração pressupõe a consciência de que a capacidade descritiva do fariseu, por mais precisa que seja em apontar a corrupção do mundo, não apaga o pecado. Somente a intervenção expiatória de Deus pode fazê-lo. O publicano sabe que a justiça alheia, por mais real que seja a sua percepção do pecado dos outros, não constitui substituto para a sua própria necessidade de perdão.


A JUSTIFICAÇÃO E A ESTRUTURA CONTRASTIVA

A conclusão da parábola é articulada através de um particípio perfeito passivo: dedikaiomenos, que significa "tendo sido justificado". O perfeito grego indica um estado presente resultante de uma ação passada. A estrutura sintática é eloquente: este publicano desceu para sua casa tendo sido justificado, em contraste com aquele fariseu, que não desceu assim justificado.

O publicano retorna para casa numa condição nova diante de Deus, resultado do ato expiatório implícito no seu pedido. O fariseu, apesar de toda a sua performance ritual, permanece no mesmo estado de separação. O perfeito passivo enfatiza que a justificação não é uma conquista humana, mas um estado conferido por Deus. Não é o fariseu, que se apresenta cheio de obras, quem desce justificado, mas o publicano, que se apresenta vazio de pretensões.

A sentença conclusiva de Jesus, no versículo 14, inverte a lógica religiosa da época: todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado. O participialismo presente indica uma ação contínua e habitual. A humildade do publicano não é um mérito que o salva. É a condição existencial que permite receber a justificação que vem de Deus. Jesus não estabelece uma nova escala de mérito, mas desconstrói toda a lógica de autojustificação.


APLICAÇÃO EXEGÉTICA: A LEITURA DO PECADO E A CONDIÇÃO DO JUÍZO

A análise gramatical do texto confirma que o fariseu possui, de fato, uma leitura real do pecado. Ele aponta corretamente a corrupção do mundo, enumerando os ladrões, os injustos e os adúlteros. No entanto, a exegese grega explica por que isso não o salva.

Em primeiro lugar, a gramática do fariseu revela que o uso do pronome ego, que significa "eu", em contraste com hoi loipoi ton anthropon, que significa "o resto dos homens", mostra que ele transformou a oração em um sermão de comparação. Seu padrão de referência não é a Lei de Deus, mas a performance dos outros. Ele se vê imune não porque cumpra a Lei, mas porque a cumpre melhor do que os demais. A sua oração não é dirigida a Deus, mas a si mesmo, como se Deus fosse mero espectador da sua superioridade.

Em segundo lugar, o vocabulário do publicano demonstra que ele não alimenta ilusões sobre imunidade moral. A escolha de hilastheti mostra que ele reconhece que a descrição precisa do pecado alheio, por mais acurada que seja, não constitui substituto para a expiação. A justificação não é produto de uma leitura correta do pecado dos outros, mas da apelação à propiciação divina sobre o próprio pecado.


CONCLUSÃO

A análise exegética de Lucas 18:10-14, fundamentada no texto crítico do Novum Testamentum Graece, na vigésima oitava edição, confirma que a diferença entre o fariseu e o publicano não reside na liturgia em si, mas no destino da oração. O fariseu tratou Deus como plateia de sua virtude. O publicano tratou Deus como Juiz e único meio de propiciação.

A sintaxe do grego koiné, especialmente o uso de pros heauton, a dupla negativa ouk oude, o imperativo expiatório hilastheti e o particípio perfeito dedikaiomenos, articula uma teologia da graça na qual a humildade não é mérito, mas condição de recepção. A parábola, portanto, constitui uma crítica radical não apenas ao farisaísmo histórico, mas a toda forma de autojustificação religiosa que substitui a apelação à misericórdia expiatória por uma performance de superioridade moral.


REFERÊNCIAS

Nestle-Aland, Eberhard et al. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.

Bauer, Walter; Danker, Frederick W. A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature. 3. ed. Chicago: University of Chicago Press, 2000.

Bovon, François. Das Evangelium nach Lukas (Lk 15,1-19,27). EKK III/3. Zürich: Benziger, 2001.

Fitzmyer, Joseph A. The Gospel According to Luke (X-XXIV). AB 28A. New York: Doubleday, 1985.

Nolland, John. Luke 18:35-24:53. WBC 35C. Dallas: Word Books, 1993.

Green, Joel B. The Gospel of Luke. NICNT. Grand Rapids: Eerdmans, 1997.

Schweizer, Eduard. Das Evangelium nach Lukas. NTD 3. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1982.


 

Convergências e Divergências entre o Pseudo Dionísio Areopagita e a Teologia Católica.

Convergências e Divergências entre Dionísio Areopagita e a Teologia Católica sobre a Justificação e a Visão Beatífica

A teologia católica, embora profundamente influenciada pelo Pseudo-Dionísio Areopagita, estabelece uma relação complexa e matizada com o pensamento do místico neoplatônico, particularmente no que concerne ao destino último da justificação cristã. Ambas as tradições convergem no ponto culminante da vida espiritual: a contemplação de Deus, que a teologia católica denomina visão beatífica. No entanto, as vias que conduzem a esse fim supremo, bem como a compreensão do papel das hierarquias nesse processo, revelam diferenças substanciais que merecem análise detalhada.


O Objeto Final: Contemplação e Visão Beatífica

Para Dionísio Areopagita, o resultado final da justificação consiste na contemplação (theoria) como união com Deus, alcançada mediante uma cadeia hierárquica que estrutura tanto o cosmos celestial quanto a organização eclesiástica. O Pseudo-Dionísio concebe a ascensão espiritual como um movimento gradual através de múltiplos degraus, nos quais a luz divina descende e se refrata através dos coros angélicos e da hierarquia eclesial, purificando, iluminando e aperfeiçoando cada nível inferior.

A teologia católica, por sua vez, afirma que o fim último da justificação é a visão beatífica: a contemplação direta e imediata da essência divina, descrita nas Escrituras como o encontro "face a face" com o Criador. Essa visão não se constitui como uma aproximação velada ou mediada, mas como uma intuição clara e imediata da própria natureza divina, na qual o fiel é elevado pela graça santificante — um dom infundido que torna o crente "participante da natureza divina" e capacitado para ver a Deus sem intermediários.


A Função das Hierarquias: Mediação Perpétua versus Mediação Terrena

A divergência mais acentuada entre as duas tradições manifesta-se na compreensão da função das hierarquias. Na visão dionisiana, as hierarquias celeste e eclesiástica exercem uma mediação indispensável e permanente. A luz divina descende através dos coros angélicos e se refrata na hierarquia eclesial, de modo que cada degrau purifica, ilumina e aperfeiçoa o inferior. O conhecimento e a vivência dessas hierarquias constituem, para Dionísio, o próprio caminho para a união com Deus. Ao participar da liturgia e dos sacramentos, o fiel é elevado através dos degraus sagrados, assimilando-se gradualmente ao divino. Sem essa mediação hierárquica, a alma não disporia de meios adequados para ascender ao Deus inefável.

A doutrina católica, em contraposição, restringe a mediação hierárquica à vida terrena. A Igreja, com sua estrutura hierárquica e seus sacramentos, exerce a função de conduzir o fiel em direção à salvação durante a peregrinação terrestre. Todavia, no estado final da glória celestial, essa mediação cessa por completo, dando lugar à visão direta de Deus. A hierarquia eclesial funciona, portanto, como um pedagogo terreno que prepara e orienta o crente, mas não como um intermediário perpétuo entre a criatura e o Criador.


O Mecanismo de Acesso: Ascensão Gradual versus Elevação pela Graça

O Pseudo-Dionísio propõe um mecanismo de acesso gradual e analógico à realidade divina. A alma ascende mediante símbolos e ritos que refletem a ordem celestial, aproximando-se progressivamente do inefável através de uma via eminentemente cognitiva e litúrgica. Essa ascensão estrutural implica uma progressão hierárquica na qual cada nível prepara o inferior para o contato com o superior.

A teologia católica, em síntese decisiva, desloca o foco da estrutura hierárquica para a transformação interior do homem pela graça. A justificação e a salvação não se operam por uma ascensão gradual através de estruturas sagradas, mas por um dom gratuito de Deus: a graça santificante. É ela que nos torna "filhos de Deus" e "herdeiros do céu", capacitando a alma para a visão direta e imediata do Criador. A promessa bíblica de que "veremos Deus face a face" é compreendida como realidade consumada no céu, sem a necessidade de mediação angélica perpétua.


Considerações Finais

Portanto, pode-se afirmar que entre o pensamento de Dionísio Areopagita e a doutrina católica consolidada operam tanto convergências significativas quanto rupturas fundamentais. Convergem ambas as tradições na convicção de que a contemplação de Deus constitui o fim supremo da existência humana e que, nesta vida, a hierarquia eclesiástica representa o meio ordenado para conduzir o fiel a esse destino. Todavia, distanciam-se radicalmente na compreensão do estado final: enquanto Dionísio mantém a necessidade de uma mediação hierárquica perpétua, o Catolicismo afirma que a visão beatífica realiza-se como um encontro pessoal, imediato e amoroso entre a criatura e seu Criador, operado exclusivamente pela graça santificante, sem qualquer intermediário.

Em síntese, para a teologia católica, as hierarquias funcionam como instrumentos pedagógicos terrenos que preparam e orientam o crente, mas a contemplação final configura-se como dom da graça que transcende toda mediação, realizando a união mais íntima e direta com Deus.

O Catolicismo Romano e a Hierarquização do Sagrado.

O Catolicismo Romano herdou de forma decisiva e estrutural o processo de hierarquização do sagrado deixado por Dionísio Areopagita, embora com adaptações teológicas significativas. A influência deste pensador foi imensa por dois motivos principais. Durante toda a Idade Média, acreditava-se que os escritos eram do próprio Dionísio, o Areopagita, discípulo de São Paulo mencionado em Atos 17:34, o que conferiu aos textos um valor quase apostólico e garantiu sua rápida aceitação e integração no pensamento católico. Além disso, a tradução de suas obras para o latim por João Escoto Erígena no século IX tornou-as acessíveis ao Ocidente, influenciando profundamente teólogos escolásticos como São Tomás de Aquino, que escreveu um comentário sobre Os Nomes Divinos.

A herança dionisiana manifesta-se em três áreas concretas da Igreja Católica Romana. Em primeiro lugar, a estrutura da hierarquia eclesiástica, uma vez que Dionísio estabeleceu uma correspondência entre a hierarquia celestial e a terrena, descrevendo a Igreja como uma hierarquia sagrada com três níveis de purificação, iluminação e perfeição, refletidos nos ministros e nos fiéis, estrutura que se consolidou no pensamento católico medieval e moderno. Em segundo lugar, a fundamentação da liturgia e dos sacramentos, pois a obra Da Hierarquia Eclesiástica interpreta alegoricamente a liturgia como representação terrestre da ordem celeste, influenciando a compreensão católica de que os sacramentos são meios materiais através dos quais a graça divina flui de forma hierárquica para os fiéis. Em terceiro lugar, a sustentação da iconofilia e arte sacra, uma vez que a defesa dionisiana do uso de imagens e símbolos materiais foi crucial durante as controvérsias iconoclastas, fornecendo a base teológica para a rica tradição de arte sacra que caracteriza o Catolicismo Romano.

É crucial notar que a Igreja não absorveu o sistema passivamente. Houve um esforço de filtragem teológica, principalmente por Tomás de Aquino, que rejeitou a forte influência neoplatônica de Dionísio que, em alguns pontos, parecia diluir a distinção entre Criador e criatura. Enquanto Dionísio apresenta uma teologia apofática que enfatiza o completo silêncio sobre Deus, o Catolicismo Romano equilibrou isso com a teologia catafática, mantendo que, embora Deus seja inefável, podemos falar verdadeiramente sobre Ele a partir de suas criações. Além disso, a Igreja sempre subordinou a autoridade de Dionísio à das Escrituras e dos Concílios, descartando quaisquer elementos que pudessem entrar em conflito com doutrinas centrais como a encarnação.

Em suma, o Catolicismo Romano não apenas herdou, mas integrou a arquitetura hierárquica de Dionísio como um pilar de sua eclesiologia, liturgia e visão de mundo, reinterpretando-a à luz da sua própria tradição teológica. 

A Condição de Possibilidade da Graça.

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