Tradutores e Traduções.

A proposta tradutória de Frederico Lourenço caracteriza-se, fundamentalmente, por uma orientação literária e filológica, ao menos no horizonte epistemológico assumido pelo tradutor. Tal abordagem não implica a desconsideração da tradição teológica associada ao texto bíblico; antes, esta é metodologicamente relativizada por meio da distinção entre o texto em suas línguas originais e as sucessivas camadas interpretativas produzidas ao longo da história da recepção. Nesse sentido, a obra de Lourenço insere-se em diálogo direto com a exegese crítica contemporânea, privilegiando uma perspectiva histórico-literária em detrimento de uma leitura normativo-dogmática. Trata-se, portanto, de um instrumento especialmente adequado ao estudo da Bíblia enquanto documento histórico e literário, ainda que não se apresente como uma tradução orientada à edificação devocional ou à consolidação de identidades confessionais específicas.

De modo geral, a produção de traduções bíblicas deve ser compreendida à luz de seus pressupostos hermenêuticos e de seus vínculos institucionais, sendo frequente a associação dessas versões a tradições confessionais determinadas. No âmbito da teologia acadêmica, a tradução bíblica ocupa posição estratégica, uma vez que constitui o principal meio de mediação entre o texto canônico e os diversos contextos linguísticos, culturais e históricos de recepção. Longe de configurar-se como um procedimento meramente técnico ou instrumental, o ato tradutório envolve escolhas exegéticas e hermenêuticas que possuem implicações teológicas significativas, condicionando, em larga medida, a compreensão e a apropriação do texto bíblico por parte de comunidades leitoras e do campo acadêmico.

Nesse contexto, a recorrente questão acerca da “melhor” tradução da Bíblia revela-se metodologicamente imprecisa se não for acompanhada de uma explicitação prévia dos objetivos do leitor ou do pesquisador. Interroga-se, por exemplo, se a demanda recai sobre uma tradução mais próxima da literalidade do texto-fonte, apta a servir como base para estudos comparativos e para a análise da história das traduções bíblicas em língua portuguesa, ou se o interesse reside em uma versão voltada à leitura devocional, catequética ou pastoral, que privilegie a clareza e a familiaridade linguística. Assim, a avaliação de uma tradução não pode ser dissociada de sua finalidade específica e de seu horizonte de uso.

Por fim, a indicação da tradução de Frederico Lourenço não deve ser compreendida como representativa do modo como a teologia católica, em sentido estrito, concebe a relação com o texto bíblico. Enquanto o protestantismo clássico afirma a Escritura como Palavra de Deus e norma única e suficiente de fé (sola Scriptura), a teologia católica articula a revelação divina a partir de uma estrutura tripartite, composta pela Escritura, pela Tradição e pelo Magistério. Nesse modelo, a interpretação autorizada do texto bíblico não se fundamenta exclusivamente no princípio escriturístico, mas se desenvolve no interior da tradição viva da Igreja, sob a mediação normativa do Magistério enquanto instância hermenêutica reguladora da doutrina.

Tradução Biblica e Metodologia Histórico-Crítica.

Tradução Bíblica e Metodologia Histórico-Crítica: fundamentos, aplicações e limites

1. Introdução

A tradução bíblica ocupa um lugar central na reflexão teológica acadêmica, uma vez que constitui o principal meio de acesso ao texto bíblico em contextos linguísticos e culturais diversos. Longe de ser um exercício meramente técnico, a tradução envolve decisões exegéticas, hermenêuticas e teológicas que condicionam a recepção do texto sagrado. Nesse sentido, este capítulo propõe analisar o fenômeno da tradução bíblica à luz da Metodologia Histórico-Crítica, destacando suas contribuições, seus pressupostos epistemológicos e seus limites, especialmente no confronto com traduções livres, poéticas e literárias.

Parte-se da hipótese de que traduções de orientação formal se alinham mais estreitamente aos objetivos da investigação histórico-crítica, enquanto traduções livres operam sob uma lógica hermenêutica distinta, voltada à atualização estética e comunicativa do texto. A metáfora do espelho e da pintura impressionista serve como eixo interpretativo para descrever essas abordagens contrastantes.

2. A Metodologia Histórico-Crítica e o controle hermenêutico do texto

A Metodologia Histórico-Crítica consolidou-se, sobretudo a partir do século XIX, como o paradigma dominante na exegese acadêmica ocidental. Seu objetivo fundamental é reconstruir, tanto quanto possível, o sentido original do texto bíblico em seu contexto histórico, literário e sociocultural. Para isso, articula procedimentos como a crítica textual, a análise filológica, a crítica das formas, a crítica literária e a crítica da redação.

No campo da tradução bíblica, essa metodologia pressupõe uma distinção rigorosa entre texto, interpretação e aplicação. Traduções alinhadas a esse paradigma tendem a operar com forte contenção hermenêutica, evitando resolver no próprio texto traduzido questões exegéticas que permanecem abertas no texto-fonte. Tal postura reflete a convicção de que a tarefa do tradutor, no contexto acadêmico, não é atualizar o texto, mas preservar sua alteridade histórica.

3. Traduções formais como instrumentos exegéticos

Traduções de equivalência formal, como as diversas recensões da Almeida, podem ser compreendidas como instrumentos auxiliares da exegese histórico-crítica. Seu compromisso com a preservação da estrutura sintática e do vocabulário do texto-fonte favorece a análise gramatical e semântica, permitindo que o leitor perceba ambiguidades, tensões e lacunas presentes nos manuscritos.

O exemplo de João 1:1 é ilustrativo. Ao manter a construção καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος sem explicitação dogmática, traduções formais preservam o campo interpretativo necessário à reflexão cristológica crítica. De modo semelhante, em Romanos 3:28, a manutenção da expressão “obras da lei” impede que a tradução antecipe soluções exegéticas debatidas na pesquisa paulina contemporânea, especialmente no diálogo com a Nova Perspectiva sobre Paulo.

Nesse sentido, a tradução formal funciona como um “espelho metodológico”: ainda que inevitavelmente imperfeito, reflete o texto com o mínimo de interferência interpretativa possível, favorecendo o trabalho acadêmico.

4. Traduções livres e o deslocamento hermenêutico

Em contraste, traduções livres, poéticas ou literárias deslocam o foco metodológico da reconstrução histórica para a recepção contemporânea do texto. Nelas, o tradutor assume explicitamente o papel de intérprete e, em certos casos, de coautor, incorporando ao texto traduzido decisões estéticas, pastorais e teológicas.

A ampliação poética de Salmo 23:1 exemplifica esse deslocamento. Ao explicitar elementos implícitos na metáfora do pastor, a tradução abandona a economia semântica do hebraico e oferece uma leitura interpretativa que visa à compreensão imediata do leitor moderno. Embora legítima em contextos pastorais ou devocionais, essa abordagem distancia-se dos pressupostos da exegese histórico-crítica, pois dissolve a distinção entre tradução e interpretação.

5. Compatibilidade, fidelidade e projetos teológicos

A análise comparativa demonstra que a compatibilidade entre traduções de diferentes orientações não é automática, mas depende do projeto teológico e metodológico que as sustenta. Traduções formais respondem prioritariamente às exigências da pesquisa acadêmica, enquanto traduções livres respondem a demandas comunicativas e estéticas específicas.

Assim, a questão da fidelidade não pode ser reduzida a um juízo moral ou confessional. Trata-se, antes, de identificar a que e para quem uma tradução é fiel. No contexto da pós-graduação em Teologia, a fidelidade metodológica à alteridade histórica do texto constitui um critério fundamental.

6. Notas críticas: os limites da Metodologia Histórico-Crítica

Apesar de sua importância, a Metodologia Histórico-Crítica não está isenta de limitações. Em primeiro lugar, sua ênfase na reconstrução do sentido original pode levar à marginalização das dimensões canônica, litúrgica e comunitária do texto bíblico. O texto, tratado predominantemente como objeto histórico, corre o risco de ser desvinculado de sua função normativa e performativa nas comunidades de fé.

Em segundo lugar, a pretensão de controle hermenêutico pode ocultar o fato de que o próprio método é historicamente situado e ideologicamente condicionado. Como apontam abordagens pós-críticas, toda leitura — inclusive a histórico-crítica — opera a partir de pressupostos culturais, filosóficos e teológicos específicos.

Por fim, a resistência da Metodologia Histórico-Crítica à linguagem poética e estética pode empobrecer a apreensão de textos cuja natureza é, em si mesma, literária e simbólica. Nesse ponto, o diálogo com abordagens literárias e hermenêuticas contemporâneas não deve ser visto como ameaça, mas como complemento crítico.

7. Considerações finais

Conclui-se que a tradução bíblica, quando situada no horizonte da Metodologia Histórico-Crítica, deve ser compreendida como uma prática epistemologicamente responsável, orientada pela distinção entre texto, interpretação e aplicação. Traduções formais desempenham um papel fundamental nesse processo, funcionando como instrumentos exegéticos que preservam a complexidade e a alteridade do texto bíblico.

Traduções livres, por sua vez, constituem mediações legítimas em outros contextos, mas metodologicamente distintas do projeto histórico-crítico. Reconhecer essa distinção não implica hierarquização absoluta, mas clareza quanto aos objetivos teológicos e acadêmicos de cada empreendimento tradutório.

Referências essenciais

NIDA, Eugene A. Toward a Science of Translating. Leiden: Brill, 1964.

RICOEUR, Paul. Sobre a tradução. Belo Horizonte: UFMG, 2005.

SCHLEIERMACHER, Friedrich. Sobre os diferentes métodos de traduzir.

VENUTI, Lawrence. The Translator’s Invisibility.

KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento.

A Ortodoxia Protestante & Pietismo.

A Ortodoxia Protestante e o Pietismo: Configurações, Tensões e Legados no Protestantismo Moderno

A história do Protestantismo entre os séculos XVI e XVIII é marcada por dinâmicas internas de consolidação doutrinária e, posteriormente, por movimentos de reação espiritual. Nesse contexto, destacam-se a Ortodoxia Protestante e o Pietismo, dois movimentos que, embora partilhem raízes comuns na Reforma, expressam compreensões distintas acerca da natureza da fé cristã, da autoridade eclesiástica e da vida religiosa. O embate entre ambos não se limitou ao campo teórico, mas configurou uma disputa mais ampla acerca da identidade e da vocação do Protestantismo.

1. A Ortodoxia Protestante (séculos XVI–XVIII)

A Ortodoxia Protestante, também denominada Escolástica Protestante ou Protestantismo Confessional, corresponde ao período posterior à primeira geração dos reformadores — como Martinho Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio — estendendo-se aproximadamente do Concílio de Trento (1545–1563) até o advento do Iluminismo, no século XVIII.

1.1 Contexto histórico e objetivos

Após a morte dos principais líderes da Reforma, as igrejas protestantes enfrentaram desafios simultâneos: de um lado, a Contra-Reforma católica, que se reorganizava institucional e teologicamente para refutar as doutrinas reformadas; de outro, o surgimento de controvérsias internas relativas à correta interpretação da fé cristã. Nesse cenário, a Ortodoxia Protestante emergiu com o propósito de sistematizar, defender e consolidar o legado doutrinário da Reforma.

1.2 Características fundamentais

A Ortodoxia Protestante distinguiu-se por um conjunto de traços teológicos e metodológicos bem definidos:

Sistematização doutrinária: O pensamento dos reformadores foi organizado em sistemas teológicos abrangentes e logicamente estruturados, resultando em extensas obras de teologia sistemática. A fé cristã passou a ser apresentada como um corpo coerente e racional de verdades.

Centralidade da ortodoxia doutrinária: A precisão conceitual tornou-se um valor primordial. Confissões de fé detalhadas, como a Fórmula de Concórdia no luteranismo e os Cânones de Dort no calvinismo, estabeleceram os limites normativos da ortodoxia.

Adoção do método escolástico: Inspirados na escolástica medieval, os teólogos protestantes recorreram à lógica formal e à filosofia aristotélica como instrumentos para a exposição e defesa da fé, ainda que com conteúdo distintamente reformado.

Ênfase apologética e controversista: Grande parte da produção teológica foi dedicada à refutação do catolicismo romano, bem como ao enfrentamento de disputas intra-protestantes, envolvendo luteranos, calvinistas, arminianos e grupos considerados sectários.

Valorização da autoridade institucional: Houve uma forte ênfase na autoridade do clero academicamente instruído e na igreja institucional enquanto guardiã legítima da verdade teológica.

1.3 Críticas e limites percebidos

Com o passar do tempo, a Ortodoxia Protestante passou a ser criticada por sua tendência ao intelectualismo excessivo. Muitos observadores apontaram um distanciamento entre a formulação doutrinária e a vivência prática da fé, de modo que a religião parecia reduzir-se ao assentimento intelectual a proposições corretas, com impacto limitado na vida espiritual e ética dos fiéis.

2. O Pietismo (séculos XVII–XVIII)

O Pietismo surgiu no interior do luteranismo como um movimento de renovação espiritual, constituindo-se em reação direta aos excessos percebidos da Ortodoxia Protestante. Posteriormente, exerceu influência significativa em outras tradições protestantes.

2.1 Principais representantes

Entre os principais líderes do movimento destacam-se Philipp Jakob Spener, frequentemente considerado o “pai do Pietismo”, e August Hermann Francke, figura central na institucionalização de suas propostas.

2.2 Traços distintivos

O Pietismo caracterizou-se por uma reorientação da vida cristã em direção à experiência pessoal e à prática devocional:

Ênfase na experiência subjetiva da fé: A verdadeira fé não era compreendida apenas como conhecimento doutrinário, mas como uma experiência existencial de conversão e relacionamento pessoal com Cristo.

Centralidade do novo nascimento e da santificação: O movimento destacou a transformação interior do indivíduo e a vivência concreta da santidade no cotidiano.

Formação de pequenos grupos: Spener promoveu reuniões domésticas para estudo bíblico, oração e edificação mútua — as chamadas ecclesiolae in ecclesia — como alternativa à rigidez da estrutura eclesiástica formal.

Leitura bíblica devocional: A Escritura passou a ser lida prioritariamente com fins espirituais e pastorais, e não como instrumento principal de disputa teológica.

Ativismo social e missionário: O Pietismo impulsionou iniciativas missionárias, educacionais e assistenciais, exemplificadas nas obras sociais desenvolvidas por Francke em Halle.

Valorização do sacerdócio universal dos crentes: O movimento reduziu a distância entre clero e leigos, enfatizando a responsabilidade espiritual de todos os fiéis.

3. O Conflito entre Ortodoxia Protestante e Pietismo

O embate entre Ortodoxia e Pietismo ultrapassou o âmbito acadêmico, configurando-se como uma disputa profunda acerca da essência da fé protestante. As principais tensões podem ser sintetizadas em quatro eixos centrais.

3.1 Fé intelectual versus experiência do coração

Enquanto a Ortodoxia enfatizava a necessidade da doutrina correta como meio indispensável para a preservação da fé salvífica, o Pietismo insistia que a salvação exigia uma experiência consciente de conversão, sendo a correção doutrinária necessária, porém insuficiente sem a transformação interior.

3.2 Autoridade institucional versus experiência subjetiva

A Ortodoxia atribuía à igreja institucional e ao clero instruído a função normativa de guardiães da verdade. Em contraste, o Pietismo manifestava desconfiança em relação à religião meramente formal, deslocando a autoridade para a experiência pessoal e para a comunidade dos crentes regenerados.

3.3 Dogma versus prática cristã

Para a Ortodoxia, a tarefa primordial da igreja consistia no ensino e na defesa da doutrina pura. Para o Pietismo, a prioridade residia na promoção da piedade prática e da santidade de vida.

3.4 Metodologias distintas

A Ortodoxia privilegiava sermões eruditos, disputas teológicas públicas e literatura polêmica. O Pietismo, por sua vez, favorecia pequenos grupos, testemunhos pessoais e literatura devocional voltada à edificação espiritual.

Considerações finais: resultados e legado histórico

O conflito entre Ortodoxia Protestante e Pietismo foi intenso e, não raro, marcado por acusações mútuas. Os ortodoxos denunciavam os pietistas como entusiastas e subjetivistas, enquanto os pietistas acusavam a Ortodoxia de representar uma orthodoxia morta, isto é, uma fé intelectualmente correta, porém espiritualmente estéril.

Do ponto de vista histórico, nenhum dos movimentos prevaleceu de forma absoluta. O Pietismo contribuiu decisivamente para a revitalização espiritual do Protestantismo, influenciando o Metodismo de John Wesley e o movimento missionário moderno. A Ortodoxia, por sua vez, preservou a centralidade da coerência doutrinária e da reflexão teológica rigorosa.

A tensão entre correção doutrinária e vida espiritual vivida tornou-se, assim, uma dinâmica constitutiva do Protestantismo histórico, permanecendo como um eixo recorrente — e por vezes conflituoso — nos debates contemporâneos das igrejas evangélicas.

Foco no texto-base de João 8:32.

A comparação direta de João 8:32 entre as duas versões revela alterações mínimas no nível lexical. Todavia, quando se aplicam métodos sincrônicos, torna-se possível analisar o papel funcional do versículo dentro de cada sistema tradutório específico. Já a abordagem diacrônica permite investigar tanto a evolução do texto-base grego quanto as transformações históricas da língua portuguesa subjacentes a essas traduções.

A Metodologia Histórico-Crítica constitui o arcabouço científico que organiza essa investigação, ao fornecer não apenas as ferramentas analíticas — com destaque para a Crítica Textual —, mas também o imperativo epistemológico de reconstruir, tanto quanto possível, o significado histórico original do texto. Esse significado atua como parâmetro objetivo para a avaliação do trabalho dos tradutores, seja o de João Ferreira de Almeida no século XVII, seja o da comissão responsável pela Almeida Revista e Corrigida.

É precisamente essa metodologia que transforma uma simples comparação vocabular em uma análise aprofundada da gênese, transmissão e recepção interpretativa do texto bíblico. Essas considerações introdutórias delineiam os procedimentos fundamentais para o desenvolvimento de uma hermenêutica metodologicamente comprometida com a compreensão histórica dos textos sagrados. Entretanto, ao estabelecer uma relação entre a primeira edição da tradução de Almeida, no século XVII, e a Almeida Revista e Corrigida, impõe-se uma questão decisiva: a diferença entre o leitor do português seiscentista e o leitor do português do século XXI. Tal diferença exige a consideração de elementos linguísticos orientados por pressupostos da linguística histórica, da semântica e da pragmática.

Que proposições científicas podem ser levantadas aqui?

A partir desse enquadramento, é plenamente possível formular proposições científicas, entre as quais destaco as seguintes:

1. Proposição linguístico-histórica

O significado pragmático de João 8:32 permanece relativamente estável no nível do texto-base grego, mas sofre reconfigurações semânticas na recepção do leitor em função das mudanças históricas da língua portuguesa.

Essa proposição permite investigar como termos como verdade e libertar mantêm continuidade lexical, mas adquirem novos campos semânticos ao longo dos séculos.

2. Proposição tradutória

As diferenças entre a tradução de Almeida do século XVII e a ARC não decorrem primariamente de variantes textuais gregas, mas de decisões tradutórias condicionadas por mudanças linguísticas, culturais e eclesiais.

Aqui, o foco desloca-se da Crítica Textual para a história da tradução, evidenciando que a estabilidade textual não implica estabilidade interpretativa.

3. Proposição hermenêutica

Toda tradução bíblica pressupõe um leitor implícito, historicamente situado, o que torna a hermenêutica inseparável da análise do horizonte linguístico e cultural do público-alvo.

Essa proposição conecta diretamente hermenêutica bíblica com teoria da recepção (Wirkungsgeschichte).

4. Proposição metodológica

A Metodologia Histórico-Crítica fornece critérios objetivos para avaliar traduções bíblicas, mas não elimina a necessidade de mediações linguísticas e culturais na atualização do texto para novos contextos de leitura.

Aqui você demonstra consciência crítica: o método é necessário, mas não absoluto.

5. Proposição epistemológica

A comparação entre traduções de épocas distintas revela que a objetividade hermenêutica não reside na literalidade formal, mas na fidelidade ao sentido histórico mediado por linguagens historicamente mutáveis.

Essa é uma proposição forte, com impacto direto no debate sobre “tradução fiel”.

Considerações Metodológicas e Hermenêuticas sobre João 8:32 nas Traduções de Almeida.

Considerações Metodológicas e Hermenêuticas sobre João 8:32 nas Traduções de Almeida

A análise comparativa de João 8:32 entre a tradução de João Ferreira de Almeida, no século XVII, e a versão Almeida Revista e Corrigida evidencia uma notável estabilidade textual no nível do texto-base grego. A Crítica Textual demonstra que não há variantes significativas que justifiquem alterações substanciais na tradução do versículo. Todavia, essa estabilidade formal não implica, automaticamente, estabilidade interpretativa.

A aplicação de métodos sincrônicos permitiu observar o papel funcional do versículo dentro de cada sistema tradutório, considerando o conjunto da obra e suas escolhas linguísticas internas. Já a abordagem diacrônica revelou que as transformações históricas da língua portuguesa desempenham papel decisivo na maneira como termos centrais do versículo — como “verdade” e “libertar” — são compreendidos por leitores de épocas distintas.

Nesse contexto, a Metodologia Histórico-Crítica mostrou-se indispensável enquanto sistema científico de investigação, ao fornecer tanto os instrumentos analíticos quanto o horizonte epistemológico que orienta a busca pelo significado histórico original do texto. Ao estabelecer esse significado como parâmetro normativo, torna-se possível avaliar criticamente o trabalho dos tradutores, sem reduzir a análise a juízos meramente confessionais ou impressionistas.

Entretanto, a comparação entre a primeira edição da tradução de Almeida e a Almeida Revista e Corrigida evidencia que toda tradução bíblica pressupõe um leitor implícito, situado em um determinado contexto linguístico, cultural e eclesial. O leitor do português seiscentista não compartilha o mesmo horizonte semântico, pragmático ou discursivo do leitor do século XXI, o que impõe desafios hermenêuticos inevitáveis.

Dessa forma, constata-se que a fidelidade tradutória não pode ser compreendida exclusivamente em termos de correspondência lexical ou formal, mas deve ser avaliada à luz da capacidade da tradução de comunicar, de maneira inteligível, o sentido histórico do texto bíblico ao seu público-alvo. A hermenêutica, portanto, não se apresenta como etapa posterior à tradução, mas como dimensão constitutiva do próprio ato tradutório.

Conclui-se que a análise de João 8:32 confirma que a objetividade hermenêutica não reside na imutabilidade da forma linguística, mas na mediação responsável entre o texto antigo e o leitor contemporâneo, tarefa para a qual a Metodologia Histórico-Crítica permanece fundamental, ainda que não exaustiva.

Hopoteses formais para uma pesquisa bíblica.

1. Hipóteses formais de pesquisa

As proposições levantadas anteriormente podem ser convertidas nas seguintes hipóteses científicas, formuladas segundo padrões acadêmicos:

Hipótese Geral

Embora João 8:32 apresente estabilidade textual significativa entre a tradução de João Ferreira de Almeida (século XVII) e a Almeida Revista e Corrigida, a compreensão do versículo é substancialmente afetada pelas transformações históricas da língua portuguesa e pelo horizonte hermenêutico do leitor.

Hipóteses Específicas

H1 – Hipótese linguística

As alterações na recepção semântica de João 8:32 entre os séculos XVII e XXI decorrem majoritariamente de mudanças no uso e no campo semântico da língua portuguesa, e não de variações relevantes no texto grego subjacente.

H2 – Hipótese tradutória

As diferenças entre as duas versões analisadas refletem decisões tradutórias orientadas por critérios de inteligibilidade para públicos distintos, revelando a existência de leitores implícitos historicamente situados.

H3 – Hipótese hermenêutica

A manutenção da forma verbal e lexical em traduções sucessivas não garante a preservação do sentido histórico original sem mediações hermenêuticas adequadas ao contexto linguístico do leitor contemporâneo.

H4 – Hipótese metodológica

A aplicação da Metodologia Histórico-Crítica, especialmente da Crítica Textual e da análise histórico-linguística, permite avaliar traduções bíblicas de modo objetivo, ao mesmo tempo em que evidencia os limites da literalidade formal como critério exclusivo de fidelidade.

Historicidade ou subjetividade.

Viver na cidade do Rio de Janeiro, minha cidade natal, é um privilégio inenarrável. E hoje é uma sexta feira. Ou seja, para variar, apesar de estarmos em plena pandemia da COVID-19, em curva ascendente e sem nenhuma perspectiva de que esta curva entre em declínio. O que posso descrever sem qualquer demagogia, é que assistimos a um quadro deprimente e desesperador.

O que posso dizer como fato no dia de hoje. E essa assertiva vale como registro histórico para o futuro. Pois lá na frente aqueles que a ela recorrerem terão condições de buscar maiores informações sobre seu contexto de surgimento. Todavia, é fato que existe uma ausência de perspectiva, do ponto de vista de minha experiência e expectativa pessoal, quanto ao que pode ocorrer em termos de futuro a cerca da minha família e de mim mesmo. 

Embora esta primeira fala estabeleça uma relação direta entre morar e viver numa cidade alegre, festeira, como o Rio, e a pandemia que ceifa milhares de vida pelo país. O objetivo, contudo, não tem como pressuposto, pelo menos de minha parte, a omissão do quadro caótico em que nos encontramos. Aqueles que acessarem este texto terão a real noção do caráter caótico, degradante e imoral que nos encontramos. 

É caótico por várias razões. Uma delas, é o fato de que ocorre um real estado de apatia coletiva. O que impera é uma política deliberada que privilegia alguns setores da sociedade em detrimento de um consenso comunitário. Não são, por isso mesmo, os movimentos populares e de cunho social os agentes da nova pauta política neste país.

É um infortúnio e uma lamentável ocorrência o número expressivo de óbitos como resultado direto dessa pandemia. Boa parte deles ocorre em função do desdém das autoridades públicas ligadas ao governo federal e, sem qualquer tipo de aventura demagógica, há uma extrema parcela de responsabilidade deste governo na atual situação calamitosa que hoje atravessamos. 

Ainda não há como precisar quanto a eventuais questionamentos sobre o porque de ter feito uma escolha tão aleatória na parte que me compete para a produção desse texto a cerca da proposição desta leitura contextualizando-a com esse ambiente trágico e catastrófico que é essa pandemia. Tendo como base a leitura e interpretacão de um texto tido, dito e consagrado como sagrado. Ou seja, estou falando com especificidade da Bíblia. Sem qualquer texto específico de imediato para a sustentação.

A abordagem dessa discussão no tocante a pandemia e o tipo de proposição que se objetiva levar para consideração deveria ter como objetivo a ser alcançado, uma palavra inspirativa e de caráter exortativo aos colegas pastores. Por outro lado, parece que a ficção, hoje, tal qual a enxergo e que para muitos se trata tão somente de uma abordagem hermenêutica também denominada de alegórica. E que, neste tempo de registro, não quer me abandonar. Talvez seja, pelo fato de que ao se fazer uso dela, seja mais cômodo, e quem sabe, menos problemático. 

O que especificamente não desejo perder de vista é que a pandemia é um dado concreto da realidade nacional e internacional. O que, por ora, tenho feito dela um parâmetro ou balizamento daquilo que me introduz ao cenário real e catastrófico da sociedade do meu tempo e de minha experiência enquanto carioca, natural e morador da zona oeste do Rio de Janeiro. E a forma como ela tem afetado a minha vida, a de meus familiares e parentes. Porém, tudo isto desde uma perspectiva contextualizada num grande centro urbano e cultural do país.

Como ainda vivemos sob o impacto das medidas de restrições e isolamento social. Vale ressaltar que a julgar pelos acontecimentos no tocante ao relaxamento dessas regras por parte das autoridades. Os cuidados e o isolamento social é uma regra que me impus unilateralmente. Fico imaginando novamente que se existisse alguém para me ouvir, não é este o caso, isto aqui é uma produção textual. Seriam pessoas da mesma classe, ou grupo de interesse com os quais convivo. 

Situações como esta provocadas por calamidades tendem naturalmente a nos isolar de tal forma que acabamos por nós mesmos a nos tornarmos muito mais seletivo quanto aos interesses com os quais nos alinhamos. Neste caso, apenas e tão somente neste caso, ainda que não seja um intenção precípua considerar aqueles para quem naturalmente deveria ser endereçado e com especificidade este texto. Todavia, não há como negar que ele tenha uma tendência clerical.

Não resta dúvida que o foco central da discussão tem como objetivo a apuração, depuração, ou catarse teológica. Logo, e o tipo de reunião em que esta modalidade de fala tem sua acolhida, é bem caracterizada e já faz parte, no meu caso, do calendário pessoal, onde nos últimos seis anos tornei-me muito mais assíduo numa modalidade de reunião fundada na comunhão. 

Daí a verossimilhança entre uma reunião propriamente dita e a provável e possível, que, neste texto, serve como objeto de apreciação e pano de fundo para a construção de um discurso, ou quem sabe, de tantos outros discursos como se verá mais adiante.

Do ponto de vista de uma ordem cronológica e afinada ao calendário de atividades das igrejas e estas com o próprio calendário de atividades culturais e turísticas da cidade no início de cada ano, às vezes, antes ou depois da folia. Entretanto, a percepção é de que quando essas reuniões tem seu início, ao que parece, estamos também iniciando nossas vidas ministeriais. 

Não necessariamente sob o rigor de uma cronologia do ano ora em curso, e, muito menos dos nossos afazeres eclesiásticos; Porém, pautados pelo dinamismo sempre presente que nos acompanha e que se constrói tendo além desse calendário maior da cidade. Também o calendário de atividades das muitas igrejas e suas membresias. Uma vez que ao nos reunirmos em uma dessas igrejas, há uma logística bastante intensa nessas reuniões semanais e matinais, e o dinamismo que as acompanha. 

Falar da reunião e não daqueles que acorrem a ela não tem cabimento. O que posso falar, falo com reconhecimento, acolhimento e cordialidade pelo modo afetuoso com que somos recebidos. De coração, porém, sem jamais ser cordial(Alusão a tese do mito do homem cordial de Sérgio B. de Holanda). E ainda não consegui dar uma definição do sentimento de satisfação e orgulho por fazer parte deste grupo.

O que posso afirmar faço de acordo o tamanho e intensidade das experiências. Já faz algum tempo que faço parte deste grupo. Ele, por ser uma espécie de refúgio ante as dificuldades, fortalece de tal maneira minha vida, mesmo quando estou envolvido com algum tipo de querela com qualquer um dos seus integrantes. 

A conclusão que sempre tiro a cada momento e por ser parte deste grupo. É de como a presença  sempre cativante e fraterna de cada um dos integrantes faz um bem e uma substancial diferença em todos nós e, especialmente, para a minha vida. Se tivesse que qualificar a reunião a partir de um relato bíblico. Eu diria que nossa reunião das manhãs de segunda feira são como as cidades de refúgio, não porque nelas acolhemos homicidas. Elas são cidades deixadas por Deus como mandamento para o levitas. Para aqueles que cuidam e trabalham para o culto e a adoração(Números 35:6).

É fato, entretanto, que a cada ano que passa, não há como afirmar que aquele que passou, agora se insere no histórico dos debates de caráter teológico e pastoral passados, bem como dos momentos de contrição e solidariedade que se têm uns para com os outros. Aprende-se com os problemas, com os erros, as dificuldades e também com a vitória de cada um de seus membros. Todavia, isto tem sido possível pois estas reuniões têm nos ensinado o exercício e prática dos compartilhamentos. Não  compartilhamos o pão, senão também os nossos problemas, os nossos dilemas, e, portanto, também as nossas dificuldades. 

É uma reunião comumente conhecida como um café de pastores e para pastores. E é sempre muito agradável estarmos diante de uma mesa farta. Preparada com carinho e dedicação. Uma verdadeira prova de DIACONIA cristã que se experimenta através das muitas igrejas, dos seus membros e de seus respectivos anjos, nossos colegas pastores. Apesar de, em alguns momentos, acontecerem algumas brincadeiras em tom jocoso com a  nomenclatura que dá vida a esta nossa reunião: “Café dos Anjos”. Somos anjos sim. Não os anjos da ANGEOLOGIA, mas os anjos que servem ao Senhor como emissários humanos e portadores da palavra de Deus. 

Mas não posso deixar de falar da fartura da mesa do Senhor. Que não quer ser tão somente uma caracterização da diversidade dos elementos, melhor dizendo, dos alimentos ali oferecidos. Ela também é farta pelo alimento espiritual que nela é oferecido. Pois nela somos levados pela comunhão de Cristo a abrirmos a sua palavra (BÍBLIA) e nos deleitarmos com este manjar espiritual temperado com as experiências de quem compartilha suas explanações. 

Quando se faz menção do que ficou para trás. Penso na possibilidade perfeitamente viável de um acervo de mensagens e experiências. Experiências estas experimentadas e compartilhadas. Todavia, e aí a experiência é tão somente minha. E é minha por levar a sério aquele pensamento de que quando estou diante da palavra de Deus do ponto de vista de sua expressividade e viabilizada pela fala de cada um dos senhores, estou com certeza diante de Deus, pois, é impossível desvinculá-lo de sua palavra e esta quando é pregada, esplanada, compartilhada entre todos e por todos.

Palavra e pão, pão e palavra desde um ambiente de fraternidade como até aqui tem sido descrito, tem o sentido e conteúdo metafórico. Os quais complementam e aperfeiçoam o que podemos chamar de fraternidade. O pão e a Palavra é compartilhado por todos. Os elementos de uma ceia do Senhor, EUCHARISTIA; ou alimentos servidos no café reproduzem o ambiente ideal da comunhão Cristã e a esperança de cumprimento das promessas de nosso Senhor.

Isto significa que se tem construído um passado, à luz das nossas experiências e que o mesmo precisa ser uma massa catalogável e de considerável peso em todo o processo de crescimento e aperfeiçoamento espiritual. É pressuposto básico então de que em todas as oportunidades em que estivermos reunidos nesta ou naquela igreja. E nas oportunidades que teremos ao nos reunirmos, a partir deste lugar(Lugar fictício de reunião), e nos próximos durante o ano em curso. Estaremos abrindo a Bíblia para nos alimentarmos. Consequentemente fica cada vez mais nítida tanto a natureza dessa opção de fé, quanto o seu caráter inquestionável e inegociável.     

Portanto, temos consciência do espectro irradiador de luz desse ambiente a ser considerado e as expectativas criadas em cada um. Os desafios são muitos e grandiosos. E, muito embora seja desnecessária a enumeração de cada um deles, eles desafiam nossa capacidade em conciliarmos preceitos de natureza ética e doutrinária que permitam a possibilidade de construirmos pontes, ou elos, entre as muitas hermenêuticas presentes aqui, que subentendem ter como fonte primária, a Bíblia, Palavra de Deus.

Por outro lado, e, objetivamente, por exemplo, ao adentrarmos ao texto do capítulo primeiro do evangelho de Lucas. Teremos como tarefa precípua aduzirmos todo e qualquer elemento que nos auxilie na interpretação de um texto. E que sejam capazes de nos proporcionar uma leitura adequada e aplicada a este tempo, que conforme foi aludido nos parágrafos iniciais, uma época de pandemia provocada pela COVID-19. 

Mas então, para efeito de análise do capítulo primeiro do Evangelho de Lucas, versos de 1 a 4. O que este prólogo do evangelho tem a nos oferecer neste dia? Se tivéssemos que caracterizar a figura daquele que se prontifica a narrar o texto, podemos caracterizá-lo como um compilador de um material que, segundo ele, é fruto de uma pesquisa minuciosa. Sua empreitada é de natureza particular e visa oferecer o trabalho a alguém cujo nome é TEÓPHILO.

O parágrafo acima não necessariamente identifica o autor (Embora este Evangelho leve como autor o nome de Lucas).  Todavia, caracteriza autor e narrador como a mesma pessoa. E, neste caso, já há uma tentativa de síntese daquilo que biblicamente está posto no trecho que nos serve de parâmetro para esta reflexão. Nem mais nem menos. Poderíamos ficar por aqui. Mas será que é somente isto que o texto tem a nos oferecer? Ou será que ele também fala por intermédio de outros recursos que, se aplicáveis em sua análise, falaria por meio do que não está, sob a forma de registro, dito aqui?

A peculiaridade deste tipo de metodologia resulta do seu interesse ao fazer a análise estrutural e fragmentária desse trecho e simultaneamente fixar-se tão somente nele. Depreende-se pela forma estilística deste prólogo. Com um vocabulário apurado e em estilo clássico(Alexandrino) sua semelhança com os historiadores da época helenística (Bíblia de Jerusalém, Lucas cap. 1, letra “A” do rodapé.)

Quando o autor faz menção da iniciativa que outros também tiveram, ele se vale do advérbio POLLOÍ que é inclusivo. Ele não está julgando a qualidade daqueles que o precederam. Tanto que _POLLOI – Muitos_ está relacionado à fonte da qual também Lucas se vale, ou seja, as testemunhas oculares. Mesmo quando se pensa numa tradição oral e pré-canônica, a fonte continua sendo a mesma. Até porque há entre os exegetas o claro entendimento de que em algum momento que precede ao período literário propriamente dito da tradição canônica e Sinótica, houve um período denominado de tradição ou fontes orais (As testemunhas oculares).

Raríssimas são as situações em que se pode dizer que os exegetas possuem algum tipo de unanimidade. Mas a questão das fontes é um elemento comum e de unanimidade entre eles, desde que estejam relacionadas à questão sinótica. Que é também o que nos interessa já que o Evangelho de Lucas juntamente com o de Mateus e Marcos estão atrelados a este tronco narrativo de base pré-literária.

É fundamental que não se perca de vista no horizonte de toda crítica textual, e sei que essa é uma de suas dificuldades, a alusão a um tempo pré-literário. Tempo este que se caracteriza não pela ausência de palavras. É o tempo de narrativas orais e das experiências pessoais propriamente ditas (Frederik Douglass é um exemplo que modernamente melhor ilustra esta situação) daqueles que presenciaram aqui, ali, acolá, o evento de que o texto agora se prontifica a narrar seguindo uma determinada ordem ou narrativa.

Notem também, que, a despeito dos nossos esforços em manter vivo e bem presente em nossas mentes e corações aquele preceito e pressuposto fundamental de que a Bíblia é a palavra de Deus. Quando nos prontificamos a uma análise deste texto, em especial Lucas 1, a partir de uma abordagem tipicamente escriturística e quiçá comparativa, há elementos demarcatórios que nos prendem aos cânones da ciência histórica. Percebe-se o desvio não deliberado desse horizonte. Dada à natureza fundamentada, porém, fragmentada e indutiva; na contra partida de uma abordagem literária, canônica, dogmática e dedutiva.

O autor ainda deixa claro que o seu objetivo é o fortalecimento da fé deste homem chamado Teófilo. A quem trata com tamanha desenvoltura e distinção. Entretanto, ao agir dessa maneira, revela alguns traços de máxima importância, no que diz respeito ao cuidado e zelo com que os cristãos dos tempos mais primitivos da fé, tratavam a catequese, o discipulado dos neófitos, quando o assunto era a transmissão comunitária dos fundamentos da fé em Cristo. É interessante esta questão e para tanto indico a leitura do texto: Tradição Apostólica de Hipólito de Roma, já traduzido para o português pela Editora Vozes*.

Quando ele faz referência àquelas testemunhas oculares, não somente as elenca como os reais e dignos transmissores dessas verdades, mas os qualifica como aqueles que transmitem com fidelidade. O verbo utilizado fundado numa estrutura morfológica composta com a preposição PARA – DIDOMI, que significa entregar, transmitir fielmente. Paulo também se vale deste mesmo verbo quando deseja assinalar a forma fiel e singular de se transmitir os princípios do evangelho e da fé(I Coríntios 11:23; “O que recebi, também vos ensinei, entreguei”).

Sendo o trabalho Lucano caracterizado por uma coleta minuciosa de dados. Levantados a partir de uma intensa e expressiva relação de testemunhas oculares. Seu trabalho almeja ser uma base de sustentação histórica e, porque não dizer, científica. Com isso derruba-se aquela ideia de um possível enquadramento desta obra com características especulativas e fantasiosas que é uma análise anacrônica e típica de uma moderna crítica liberal e adogmática. O elemento contraditório de tudo isso é o que o autor deixa claro a partir do objetivo a ser alcançado neste seu prólogo.

A ênfase numa coleta de dados desde o “PRINCÍPIO” quer aceitem, ou não, não se vincula necessariamente a parâmetros canônicos, mas ao princípio da apostolicidade. Já que este último sempre se manteve como realidade até mesmo antes do início de uma tradição canônica e literária. YPERETAI são ministros ou auxiliares que trabalham com fidelidade e possuem experiência prática para a transmissão oral, no inicio, e como sustentação e distinção entre as muitas tradições canônicas e escriturísticas que estavam surgindo: “Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós”.

Há um consenso de que estes fatos que se deram entre nós tem um relativo domínio público no que tange ao senso comum e conhecimento de todos a cerca dos acontecimentos que contribuíram para o evento Cristo, os quais são identificados pela crítica pelo uso da terminologia pré-pascal propriamente dita. Por isso mesmo, existe uma base comum de dados informativos sobre estes mesmos fatos. Aqueles que empreenderam antes de Lucas a esta base de dados ou senso comum recorreram. Perpassa a ideia tanto das testemunhas vivas e oculares assim como algum documento escrito que precedeu aos sinóticos, consignado e denominado na moderna crítica textual de QUELLE, ou fonte.

A proposição de se colocar estes fatos(Horizonte pré-literario) numa ordem narrativa que resultará lá na frente numa condição de status literário não visa inverter ou subverter a ordem de como a narrativa se constroi. Na base de tudo está o testemunho de quem presenciou tudo, quase tudo, ou pequenos episódios, porém, significativos para o conjunto de uma obra que se propõe narrar sem perder a sua expressividade. Pregação para ser pregação não carece apenas de conteúdo. Precisa ter expressividade também.

Não existe adendo da parte de Lucas à catequese a que fora submetido THEOPHILO em sua iniciação ao cristianismo. Isto se ele efetivamente é um cristão que passa por um processo de catequização. Pois existe também a possibilidade de o mesmo, em sendo um alto funcionário do Império Romano, que busca informações sobre a natureza daqueles que se dizem seguidores do RESSUSCITADO, ou NAZARENO (Bíblia de Jerusalém, Ibid, letra “C”) . Se o que nos interessa é o caráter catequético, então o objetivo é tão somente fortalecê-lo na fé, ou seja, naquilo que ele mesmo estava sendo ensinado. Grosso modo, inexiste uma variação entre aquilo que a THEOPHILO foi ensinado e, com base em testemunhos vivos e orais, a tradição canônica na qual Lucas e os demais sinóticos se inserem a posteriori.

Outra questão que surge a partir do desenvolvimento desta temática, seria: O que é um registro escriturístico e o real conceito do que seja Palavra de Deus? Mas penso, e digo com muita sinceridade a todos, que este tipo de proposição sob forma de questionamento não tem a intenção de provocar qualquer tipo de posicionamento da parte de quem quer que seja. Mas sim, e a título de um exercício intelectual, produzir pensamentos de natureza especulativa que salvaguardem por intermédio deste formato estes mesmos princípios que sobrevivem até hoje no âmbito e simplicidade da fé cristã. A natureza da fé nos primórdios do Cristianismo era a crença no Ressuscitado e de que ele voltaria para buscar a sua igreja. E foi com base neste princípio que toda tradição apostólica se norteou e tem chegado até nós.   

Se refletirmos sobre o real conceito do que seja a Palavra de Deus do ponto de vista de uma ótica Lucana ou de qualquer outro autor dos textos do Novo Testamento que, em sua maioria, são todos de ascendência judaica, exceção deles é o próprio Lucas, uma vez que não tem origem judaica. Palavra de Deus é a escritura do Antigo Testamento sob a forma de registro do hebraico bíblico(KÜMMEL, W. Georg. Síntese teológica do NT, p.9) Há inúmeros casos em que esses autores do NT demonstram uma ampla liberdade a respeito da estrutura textual do texto bíblico. Começam já pelo texto do AT que utilizam, pois seguem o texto da Septuaginta, porém muitas vezes o modificam para adaptá-lo às suas necessidades. Algo parecido com uma licença poética no sentido de avançar um pouco além de uma norma propriamente dita. (J. Schreiner e G. Dautzengerg. Forma e Exigências do NT. Ed Paulinas, São Paulo, 1977, pág 21).    

Penso que até hoje qualquer versão em qualquer vernáculo daquilo que conhecemos como TANAKH, do ponto de vista dos Rabinos é uma corrupção do texto sagrado. Senão as liturgias das sinagogas espalhadas pelo mundo seriam realizadas na língua nativa  daquele país tal como aconteceu com o catolicismo a partir do Concílio Vaticano II. Pelo contrário, as liturgias nas sinagogas, textos de rezas (Kadish) são todas conduzidas em hebraico.

O que provocou essa reviravolta ou mudança de paradigma foi a expansão do evangelho. Um objetivo para ser alcançado precisa passar por um processo de intensa racionalização. Que ferramenta existia nesta época que simbolizasse esse processo? Que também foi chamado pejorativamente por Harnack de helenização ou intelectualizacão do cristianismo**. Esta ferramenta era o idioma grego. Conceitos como Logos, Reino de Deus, Ekklesia, Eucharistia e tantos outros tinham uma maior capacidade de sintetizar o que aqueles eventos pré-pascal em torno daquele homem de Nazaré e seus ensinamentos tinham produzido na vida de um pequeno grupo de discípulos e seguidores desse carismático mestre. Numa região da longínqua província chamada Palestina.

O exercício que me propus realizar juntamente com vocês notabiliza-se pela inflexão. Pela forma como modulamos ou haveremos de modular as nossas capacidades de abordagens diante do texto bíblico. Em minha modesta opinião isto não significa, em hipótese alguma, que tenhamos que abrir mão de princípios. A própria forma de apresentar este assunto não julgou procedente invalidar alguns preceitos dogmáticos presentes desde o início desta abordagem. Entretanto, no rumo dos desenvolvimentos históricos a que temos perseguidos. A tentativa de reconstrução dos mesmos. Faz-nos crescer a consciência de que eles, em algumas situações, nos impõem uma saia justa.

A proposta de discussão buscou elementos dentro do texto que pudessem ser colocados lado a lado com estes princípios de natureza dogmática e que nos caracterizam e nos distinguem de uma forma Hermenêutica de outros grupos e até mesmo entre nós. O prólogo lucano é de um rebuscamento clássico e erudito tal como já foi destacado neste texto. Mas a obra como um todo é produto de uma pesquisa minuciosa que teve entre outras coisas um levantamento seletivo de dados. Revela uma pesquisa de campo através da coleta de dados testemunhais junto àqueles que participaram direta ou indiretamente dos eventos narrados. E a este texto também imputamos o status de palavra de Deus.    

Esse tipo de palavra ou reflexão somente cabe neste ambiente. Ele não pode ser assunto para discussão e debate entre leigos. Digo isso tendo como exemplo o apóstolo Paulo que em suas epístolas pastorais usava sempre de um recurso literário também conhecido como Parênese, ou exortação. Que servia para algumas orientações aos presbíteros e pastores das igrejas. Todavia, longe esteja de mim a pretensão de vos orientar na forma de condução dos vossos rebanhos. Se efetivamente alcançarmos uma perspectiva que nos ofereça, grosso modo, a apropriação de alguns desses critérios de natureza histórica que concorrem com o texto, já me darei por satisfeito.          

Também prefiro acreditar que um trabalho como este jamais terá a pretensão de se insurgir como uma peça de instrumentação profética onde a iminência de tempos difíceis demandaria alguns procedimentos de natureza ética. Segundo a visão amilenista que ainda faz parte do nosso universo e dimensão escatológica, já vivemos e experimentamos o fim dos tempos. E, conforme a própria escritura, presenciaríamos o completo abandono da Sã Doutrina e o surgimento de homens que se dizem sábios, mas que têm como objetivo desviar a Igreja do Senhor da verdade(II Timóteo 3; 4:3-4 ).

Estamos no limiar de um novo ano, porém, não faz muito tempo, me refiro a 2017. Quando ocorreu uma intensa movimentação em torno de debates dentre as mais variadas temáticas, mas, que trazia como eixo principal para nossa reflexão, os 500 anos da Reforma Protestante e o consequente desdobramento desse movimento político, religioso, social e cultural. Não para a humanidade, contudo para parte dela e, especialmente, para a cristandade do ocidente. Ainda há muito que se debater sobre esse acontecimento. Em linhas gerais ele proporcionou uma racionalização de princípios quanto à abordagem das escrituras. Elegeu apenas e tão somente a escritura como a REGULA FIDES.

Do ponto de vista de uma mediação com base numa pretensa tradição que remonta aos tempos de um cristianismo tido como primitivo. Nos libertamos das amarras de uma tradição hierarquizada que se impunha tal como ela própria se auto intitulava de MAGISTÉRIO. De repente, nos vimos lançados em uma aventura onde passamos a ser constituídos, desde que estivéssemos de posse do texto bíblico, como indivíduos capacitados para o livre exame deste texto devidamente vertido para o vernáculo desse mesmo indivíduo.

Para um encontro com Deus nestas condições, bastava a leitura da agora versão da escritura e sob a tutela e ação do Espírito divino, este mesmo indivíduo estaria pela leitura e exame da mesma passível de uma experiência, que chamarei de mística com Cristo. De fato, há agora um encontro com Deus, porém, mediado pela Bíblia (Palavra de Deus). Palavra de Deus na acepção da palavra, um Cânon já existente e sem qualquer tipo de alteração muito embora passível de criticas(cânone cristológico de interpretação). Uma vez que segundo seu pensamento a Bíblia deve revelar Cristo(apud Dogmática Cristã, Vol I, página 80). 

A prova mais contundente de que nem sempre devemos tão somente abordar os aspectos positivos de qualquer movimento, foi o que aconteceu depois da Reforma e com a geração subsequente a Lutero. O surgimento da Ortodoxia Protestante foi literalmente uma tentativa de retorno ao período anterior à Reforma e àquilo contra o qual Lutero lutou: O Escolasticismo. Ao que parece essa tentativa de retorno se justificaria pela percepção e risco de um mundo em fragmentação. O que se comprovará pelos movimentos contemporâneos (A Renascença) e posteriores a Reforma (Iluminismo, racionalismo, empirismo, etc.).

Seja qual for o sentido com que nos deparamos, ou nos identificamos com este, ou aquele movimento. Não há como negarmos os pontos positivos do legado da Reforma ao nos aproximarmos pela via horizontal dos nossos semelhantes. O ponto comum era a nova vida em Cristo experimentada e compartilhada no encontro que cada um podia ter com a escritura sem a tutela de uma hermenêutica institucionalizada mediada por colegiado ou clero que estava acima de qualquer suspeita. Com isto, a mediação agora faz parte do encontro do indivíduo com Deus, por meio de Cristo. Presente tanto na sua vida quanto na escritura que o revela.

Se o resultado positivo alcançado pelo movimento reformista foi a libertação das amarras de uma hermenêutica de magistério que se auto intitulava guardiã da fé e da doutrina; por outro lado, desaguamos em uma hermenêutica fragmentária que vai desde uma fundamentação teológico-doutrinária que, a princípio, promove o surgimento de fronteiras nacionais. Mas chega especialmente ao indivíduo que passa a ser o parâmetro de construção e ponto de partida na abordagem de uma cosmologia que ficaria conhecida como humanista. Com isso cresce em grau de importância novos métodos científicos em que a centralidade passa a ser o homem, sua razão e sua experiência propriamente dita. Esse contexto de crescente fragmentação e consequentemente de desintegração de uma época é emblemático para ilustrar o aparecimento de figuras icônicas no pensamento ocidental.

Não resta dúvida que o tipo de objetivo que me interessa para o alcance de uma reflexão que seja básica para todos. Diz respeito a considerações de natureza histórica que, a princípio, estão concentradas no trato hermenêutico para com o texto bíblico e consequentemente em sua contextualização, já que elencamos aspectos quanto a natureza e estilo textual de seu autor. A forma como o introduz e a quem especificamente está sendo endereçado. Dentre os sinóticos é o único texto que faz menção a quem está sendo endereçado e diferentemente dos demais é dedicado a uma pessoa e não a uma congregação ou comunidade.

Somado a esta dinâmica de construção e formato textual, não se pode omitir a sua importância no conjunto dos demais textos então considerados canônicos através do qual são qualificados como inspirados e, portanto, com a investidura de sagrados, bem como revestidos de autoridade na exata proporção de que simultaneamente são, pela ordem, canônicos, sagrados e, portanto, palavra de Deus. Entretanto, surge uma dificuldade que deverá, ou buscará ser contornada nesta relação que qualquer um daqueles que lêem com um pouco mais de perspicácia a Escritura e que sobre ela empreendem um esboço metodológico de análise crítica.

Tradutores e Traduções.

A proposta tradutória de Frederico Lourenço caracteriza-se, fundamentalmente, por uma orientação literária e filológica, ao menos no horizon...