A Distinção e Simultaneidade entre Fides Quae Creditur e Fides Qua Creditur.

A Distinção e Simultaneidade entre Fides Quae Creditur e Fides Qua Creditur: Uma Análise Teológico-Doutrinária


Resumo

O presente artigo examina a relação epistemológica e soteriológica entre a fé objetiva (fides quae creditur) e a fé subjetiva (fides qua creditur) na tradição reformada. Argumenta-se que, embora a distinção analítica entre ambas seja não apenas possível, mas necessária para a clareza doutrinária, sua operação na economia da salvação é simultânea e organicamente inseparável. A investigação demonstra que a separação de tais dimensões resulta em patologias teológicas caracterizadas pela ortodoxia morta ou pelo subjetivismo místico, enquanto a unidade orgânica preserva a integridade da experiência cristã.

Palavras-chave: fé objetiva; fé subjetiva; fides quae creditur; fides qua creditur; teologia reformada; soteriologia; epistemologia teológica.


1. Introdução

A questão da natureza da fé cristã constitui um dos loci classici da teologia sistemática, particularmente no que tange à distinção entre o conteúdo de fé e o ato de crer. A tradição reformada, em continuidade com a escolástica medieval e em diálogo crítico com o protestantismo liberal, desenvolveu uma terminologia técnica que distingue entre a fides quae creditur (a fé que é crida) e a fides qua creditur (a fé pela qual se crê). 

O problema central que este estudo aborda reside na tensão aparente entre a distinção analítica — necessária à clareza conceitual — e a unidade operacional — indispensável à integridade da experiência cristã. Argumenta-se que a solução para tal aporia encontra-se na categoria teológica de distinção sem separação (distinctio sine separatione), princípio hermenêutico fundamental para a sã doutrina.


2. Fundamentação Doutrinária: A Distinção Analítica


2.1 Definições Conceituais

A teologia reformada estabelece a seguinte diferenciação categorial:

Dimensão Fides Quae Creditur Fides Qua Creditur 

Definição O conteúdo objetivo que é crido O ato pessoal e subjetivo de crer 

Interrogativa Quid? (O quê?) Quomodo? (Como?) 

Natureza ontológica Imutável, depositum fidei Variável, sujeita ao crescimento e à provação 

Fonte originária Revelação divina (depositum fidei) Dom gratuito de Deus (Eph. 2:8) 

Função soteriológica Norma fidei (norma normans) Instrumentum justificationis 


2.2 Legitimidade da Distinção

A distinção analítica entre fides quae e fides qua é epistemologicamente legítima e teologicamente indispensável por duas razões fundamentais:

Primeiramente, ela evita a confusão categorial segundo a qual a intensidade subjetiva do ato de crer seria indicador suficiente da verdade objetiva do conteúdo crido. A história do cristianismo demonstra que seitas e movimentos sincréticos frequentemente apresentam fé subjetiva intensa desvinculada do depositum fidei (cf. Mt. 7:21-23).

Segundamente, a distinção previne a patologia da ortodoxia morta, na qual o mero assentimento intelectual ao conteúdo doutrinário, ausente de vivência existencial, é erroneamente identificado como fé salvífica. A epístola de Tiago estabelece tal distinção de forma lapidar: "Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Até os demônios o creem — e estremecem" (Tg. 2:19, ARA).


3. Unidade Operacional: A Simultaneidade na Economia da Salvação

3.1 Estrutura da Simultaneidade

Não obstante a legitimidade da distinção analítica, na experiência concreta do crente e na estrutura mesma da aliança divina, ambas as dimensões operam simultanea e organicamente. Não há, em condições de normalidade espiritual, momento algum em que uma dimensão opere sem a outra.


3.2 Manifestações da Unidade Orgânica

a) Na conversão (conversio)

O processo de conversão não se configura como recepção sequencial: primeiro o conteúdo doutrinário como manual neutro, seguido de decisão subjetiva. Pelo contrário, a operação do Espírito Santo compreende simultaneamente a illuminatio intellectus — capacitação para a compreensão do conteúdo — e a regeneratio voluntatis — inclinação da vontade para o abraçamento desse mesmo conteúdo. A iluminação cognitiva e a regeneração volitiva são, portanto, aspectos simultâneos de uma única operação divina.


b) Na justificação (iustificatio)

A fé que justifica é, por definição, fides viva — fé viva que possui simultaneamente conteúdo objetivo (Cristo e suas obras) e confiança subjetiva (em Cristo e suas obras). Não há justificação por conteúdo morto (mero assentimento histórico ou notional), tampouco por confiança vazia (fé sem objeto definido). A formulação reformada insiste na coinerência (perichoresis) dessas dimensões: o conteúdo é abraçado pela confiança, e a confiança é sempre confiança em algum conteúdo determinado.


c) Na santificação e exortação (sanctificatio)

A epístola de Judas, ao exortar os crentes a "lutar pela fé que uma vez por todas foi dada aos santos" (Jd. 3, ARA), pressupõe a operação simultânea de ambas as dimensões. O cristão deve conhecer o conteúdo em jogo (fides quae) e estar pessoalmente engajado na luta (fides qua). A exortação apostólica é, portanto, dirigida ao sujeito integral — cognição e afeto — e não meramente à esfera intelectual ou experiencial isoladamente.


4. Metáforas Ilustrativas da Relação Dialética

Para elucidar a complexa relação entre distinção analítica e unidade operacional, propõem-se as seguintes analogias:


a) A lâmpada e a luz

A lâmpada (fides quae) constitui o aparato estrutural, o depositum institucionalizado. A luz (fides qua) é a irradiação, a operação efetiva. Conceitualmente distinguíveis, na prática não há luz sem lâmpada, e lâmpada que não irradia é inoperante. A metáfora sugere que a estrutura doutrinária existe para ser vivificada pela operação subjetiva.


b) O caminho e o andar

O caminho (fides quae) é a rota estabelecida, a verdade imutável que dá direção. O andar (fides qua) é o movimento pessoal ao longo dessa rota. Distinguem-se conceitualmente, mas não há andar cristão sem caminho, e o caminho existe precisamente para ser percorrido. A metáfora enfatiza a teleologia da fé objetiva: ela é para ser praticada.


c) O coração e o sangue

O coração (fides quae) é o órgão estrutural que contém. O sangue (fides qua) é o fluxo vital que circula. Anatomicamente distinguíveis, na operação vital são inseparáveis: coração sem sangue é morte orgânica; sangue sem coração não circula. A metáfora ilustra a organicidade da relação.


d) O arco e a flecha

A metáfora mais abrangente é a do arco e flecha. O arco (fides quae) é a estrutura imutável que dá direção e potência. A corda tensionada (fides qua) é o ato pessoal que impulsiona. A flecha (o cristão) atinge o alvo apenas quando ambos operam em conjunção. A tensão da corda sem o arco é ineficaz; o arco sem a tensão é inoperante.


5. Patologias Resultantes da Separação: Uma Tipologia de Erros

A história da igreja evidencia os perigos de perder a simultaneidade operacional entre as dimensões da fé:

Extremo Teológico Descrição Manifestações Históricas 

Separação que isola o conteúdo Redução da fé a mero assentimento doutrinário Ortodoxia morta; escolasticismo frio; farisaísmo; neosscholasticismo sem vitalidade espiritual 

Separação que isola o ato Redução da fé a mera experiência ou confiança pessoal Entusiasmo sectário; misticismo sem ancoragem doutrinária; subjetivismo moderno; liberalismo teológico 

A sã teologia (theologia sana) mantém a distinção para a clareza epistemológica, mas insiste na simultaneidade para a integridade existencial. A alternância entre esses extremos constitui, de fato, uma dialética recorrente na história do cristianismo.


6. Conclusão

O presente estudo defendeu a tese segundo a qual a distinção entre fides quae creditur e fides qua creditur é simultaneamente analítica e operacional. 

Em termos analíticos, a distinção é não apenas possível, mas necessária. A tradição teológica desenvolveu essa terminologia ao longo de séculos para preservar a clareza doutrinária e evitar confusões categoriais.

Em termos operacionais, as dimensões atuam simultaneamente na realidade concreta da salvação. Não existe fé salvífica que seja apenas conteúdo sem confiança, nem confiança salvífica que seja apenas intensidade subjetiva sem conteúdo verdadeiro.

O princípio hermenêutico que emerge desta investigação pode ser formulado assim: distinguir sem separar, unir sem confundir. Tal princípio constitui o caminho da sã teologia e a garantia da integridade da fé cristã, tanto em sua dimensão cognitiva quanto existencial.


Referências Bibliográficas Sugeridas (para complementação)

AUGUSTINUS. De Praedestinatione Sanctorum.

CALVIN, J. Institutio Christianae Religionis.

BAVINCK, H. Gereformeerde Dogmatiek.

BERKHOF, L. Systematic Theology.

WEBSTER, J. "The Identity of the Holy". In: Word and Church. Edinburgh: T&T Clark, 2001.

VAN TIL, C. An Introduction to Systematic Theology.

A Unidade da Fé.

A Unidade da Fé: Aspectos Objetivo e Subjetivo no Pensamento Bíblico-Reformado

A distinção teológica entre fé objetiva (fides quae creditur) e fé subjetiva (fides qua creditur) constitui uma das questões mais relevantes para a compreensão sistemática da soteriologia cristã, embora tal distinção demande cautela hermenêutica para que não se configure em dualismo não autorizado pelas Escrituras Sagradas. A resposta mais precisa à questão que se coloca — se existiriam dois princípios de fé — é negativa: não há dois princípios de fé, mas tão-somente dois aspectos ou usos distintos de uma única fé.

A teologia bíblica e reformada compreende que a pistis (fé) é uma só, podendo, contudo, ser considerada sob dois ângulos analíticos. Como habitus, trata-se do instrumento pelo qual o pecador se une a Cristo, configurando-se como a confiança, a adesão da vontade e do entendimento à graça divina (cf. Heb 11:1; Ef 2:8). Como depositum, corresponde ao corpo de verdades reveladas por Deus nas Escrituras e confiado aos apóstolos, sendo o quid do credo, ou seja, aquilo que deve ser crido (cf. 1Tm 6:20; 2Tm 1:12-14). Paulo e Judas não apresentam doutrinas concorrentes, mas, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, enfatizam aspectos diferenciados da mesma realidade teológica, dirigindo-se a problemáticas distintas em seus respectivos contextos histórico-literários.

A formulação de "dois princípios" de fé implicaria a existência de duas fontes de autoridade, dois tipos de salvação ou duas realidades paralelas e autônomas, hipótese que deve ser rejeitada por fundamentos teológicos incontornáveis. O conteúdo (fé objetiva) existe para gerar o ato (fé subjetiva), de modo que a doutrina — o depositum — não constitui um fim em si mesma. O evangelho foi "entregue" para que fosse "crido", e o conhecimento objetivo das Escrituras visa produzir a confiança subjetiva em Cristo, pois sem o ato de crer, o conteúdo permanece como letra morta (cf. 2Co 3:6). Reciprocamente, o ato de fé (fé subjetiva) depende necessariamente do conteúdo (fé objetiva), uma vez que a fé que salva não se configura como confiança vazia ou genérica. No cristianismo histórico, o obiectum fidei possui importância constitutiva, e o próprio Paulo adverte que, se alguém pregar "outro Jesus" ou "outro evangelho", a fé depositada nesse objeto é inútil (2Co 11:4; Gl 1:6-9). Portanto, a fé subjetiva saudável é aquela que se apega ao conteúdo objetivo entregue pelos apóstolos.

A melhor maneira de visualizar a relação entre fé objetiva e fé subjetiva não é como duas entidades separadas, mas como dois lados da mesma moeda — distintos, porém inseparáveis. A fé objetiva (fides quae creditur) corresponde à revelação, à verdade, ao evangelho, respondendo à pergunta "O que devo crer?" (Quid credendum?). Judas enfatiza guardar o depósito contra heresias, enquanto Paulo apresenta Cristo como conteúdo da fé. Seu perigo, quando isolada, é a ortodoxia morta, pois Tiago adverte que "os demônios creem e tremem" (Tg 2:19). A fé subjetiva (fides qua creditur), por sua vez, corresponde à confiança, ao assentimento, à rendição pessoal, respondendo à pergunta "Como me aproprio disso?" (Quomodo credendum?). Judas enfatiza a luta como engajamento pessoal, enquanto Paulo ensina que pela fé pessoal somos justificados. Seu perigo, quando isolada, é o misticismo vazio sem ancoragem na verdade.

As próprias Escrituras demonstram que esses aspectos são inseparáveis. Em Romanos 10:8-10, Paulo une os dois aspectos em unidade sintética: a "palavra da fé" (conteúdo) está próxima, e com o coração se "crê" (ato) para a justiça, de modo que o quod e o quo operam conjuntamente na experiência salvífica. Em 1 Timóteo 1:19, Paulo exorta Timóteo a "conservar a fé" (conteúdo) e "a boa consciência" (vida de fé), demonstrando que o depósito doutrinário e a vivência pessoal caminham em conjunto inseparável. Em Judas 1:20, no mesmo versículo em que ordena lutar pela fé, Judas conclama: "edificando-vos na vossa santíssima fé", onde "fé" é simultaneamente a base objetiva sobre a qual se edifica e o exercício subjetivo de santificação.

Não há dois princípios de fé, pois tal afirmação criaria uma dicotomia artificial entre crer e saber, entre experiência e doutrina — dualismo não autorizado pela teologia bíblica. O que se constata é uma única fé que se manifesta de forma integrada: objetivamente, como o evangelho imutável, o depositum confiado à Igreja, que deve ser guardado, defendido e transmitido intacto às gerações futuras; subjetivamente, como o instrumento pessoal pelo qual o pecador arrependido abraça esse evangelho, confia em Cristo e é justificado perante Deus. A luta pela fé, conforme enfatiza Judas, destina-se precisamente a preservar a pureza do conteúdo objetivo, para que a fé subjetiva, conforme ensina Paulo, continue sendo verdadeiramente salvífica. Se o conteúdo se corrompe, o ato de crer torna-se vão; se o ato de crer não existe, o conteúdo permanece morto. Portanto, a teologia bíblica exige que se mantenham os dois aspectos unidos, sem confundi-los, mas também sem separá-los em "dois princípios" distintos. A fides quae creditur e a fides qua creditur constituem, em última instância, a mesma fé cristã considerada sob duas perspectivas — a da graça objetivamente revelada e a da graça subjetivamente experimentada — em perfeita unidade teológica.


Referências: 

Bíblia Sagrada (Almeida Revista e Corrigida); 

Calvino, João. Institutas da Religião Cristã; 

Bavinck, Herman. Reformed Dogmatics; 

Murray, John. Redemption Accomplished and Applied; 

Berkhof, Louis. Systematic Theology. 

A Distinção Entre Fides Qua Creditur e Fides Quae Creditur.

A Distinção Entre Fides Qua Creditur e Fides Quae Creditur: Uma Análise Comparativa de Efésios 2:8 e Judas 1:3


Resumo

O presente artigo examina a distinção semântica e teológica do termo "fé" (pistis) no Novo Testamento, particularmente nas epístolas de Paulo e Judas. Através de uma análise comparativa de Efésios 2:8 e Judas 1:3, demonstra-se que, embora ambos os autores tratem da mesma realidade salvífica, empregam o conceito de fé em sentidos distintos — subjetivo e objetivo respectivamente — que se revelam complementares na economia da salvação cristã.

Palavras-chave: pistis; fé subjetiva; fé objetiva; soteriologia; Efésios; Judas.


1. Introdução

A questão da natureza da fé no Novo Testamento constitui um tema central na teologia bíblica, especialmente quando se considera a aparente tensão entre diferentes empregos do termo pistis pelos diversos autores neotestamentários. A presente investigação propõe-se a analisar especificamente as concepções de fé presentes na Epístola aos Efésios (2:8) e na Epístola de Judas (versículo 3), demonstrando que, embora Paulo e Judas estejam tratando da mesma realidade salvífica fundamentada em Cristo, abordam aspectos distintos e complementares do fenômeno da fé.


2. Metodologia

A análise proceder-se-á mediante abordagem exegético-teológica, considerando: (a) o contexto imediato de cada passagem; (b) o uso lexical do termo pistis em ambos os contextos; (c) a função soteriológica atribuída à fé em cada autor; e (d) a relação dialética entre os dois conceitos.


3. Análise Exegética

3.1 A Fé em Paulo (Efésios 2:8)

O apóstolo Paulo emprega o termo pistis em sentido subjetivo — fides qua creditur (a fé pela qual se crê). No texto de Efésios 2:8 ("τῇ γὰρ χάριτί ἐστε σεσῳσμένοι διὰ πίστεως"), a referência é ao ato pessoal de crer, ao instrumento mediante o qual o sujeito se apropria da graça divina.


Características do conceito paulino:

- Foco: O meio de salvação para o indivíduo;

- Ação: O crente recebe (metáfora da "mão vazia" que se abre para receber Cristo);

- Contexto teológico: Refutação da soteriologia baseada em obras da lei ou mérito humano (cf. Ef 2:9: "οὐκ ἐξ ἔργων, ἵνα μή τις καυχήσηται").

Conforme observa Silva (2015, p. 124), "para Paulo, a fé é primariamente uma relação de confiança pessoal em Cristo, que exclui qualquer base de autojustificação".


3.2 A Fé em Judas (Judas 1:3)

Judas, por sua vez, utiliza pistis em sentido objetivo — fides quae creditur (a fé que é crida). A expressão "τῇ πίστει ἅπαξ παραδοθείσῃ τοῖς ἁγίοις" (Judas 1:3) refere-se não ao ato de crer, mas ao conteúdo que é crido: o corpo doutrinário, o evangelho, a revelação normativa depositada pelos apóstolos.


Características do conceito judaico:

- Foco: O objeto da salvação (a verdade revelada) que demanda preservação;

- Ação: O crente "luta" (ἐπαγωνίζεσθαι) — defende e guarda esse depósito contra falsificações;

- Contexto teológico: Combate às alterações da verdade e aos ensinamentos heterodoxos (cf. Judas 1:4: "παρεισέδυσαν γάρ τινες ἄνθρωποι").

Bauckham (1983, p. 5) assinala que "Judas está preocupado com a integridade do depósito apostólico, considerado completo e definitivo (ἅπαξ παραδοθείσῃ)".


4. Síntese Comparativa

A distinção teológica entre os dois conceitos pode ser sistematizada da seguinte forma:

Aspecto Paulo (Efésios 2) Judas (v. 3) 

Sentido Subjetivo (ato de crer) Objetivo (o que se crê) 

Função soteriológica Instrumento que salva Depósito que se guarda 

Verbo associado "Sois salvos" (recepção) "Lutar" (defesa, preservação) 

Perigo combatido Confiança na carne (obras) Desvio da verdade (heresia) 


5. Implicações Teológicas

A compreensão adequada dessa distinção previne dois desvios hermenêuticos recorrentes:


5.1 O erro do subjetivismo

Conceber a fé meramente como sentimento ou experiência pessoal desvinculada de conteúdo doutrinário. Judas demonstra que existe uma fé objetiva — um conjunto de verdades reveladas — que foi "entregue uma vez por todas" (ἅπαξ). Sem o conteúdo correto (fé em um "outro Jesus", cf. 2 Co 11:4), o ato de crer torna-se ineffectual.


5.2 O erro do legalismo doutrinário

Conceber a guarda da fé como mero exercício intelectual de memorização de proposições. Paulo evidencia que a fé salvífica não se reduz à concordância histórica com fatos, mas consiste em confiança viva na graça, que necessariamente produz frutos de amor e boas obras (cf. Ef 2:10).


6. Conclusão

Paulo, ao afirmar que "pela graça sois salvos por meio da fé", descreve a porta de entrada da salvação — a confiança pessoal em Cristo. Judas, ao exortar a "lutar pela fé que uma vez foi entregue", descreve a fundação e os limites da caminhada cristã — o conteúdo imutável que deve ser preservado para que a porta de entrada continue acessível e pura.

Ambos os apóstolos concordam que não há salvação sem a fé subjetiva (confiança pessoal), mas essa confiança só é válida quando ancorada na fé objetiva (o evangelho apostólico). Para Judas, a "fé pela qual se é salvo" (Paulo) é identicamente a "fé que deve ser guardada" — ou seja, o genuíno evangelho de Cristo. A distinção, portanto, não implica contradição, mas complementaridade na compreensão da pistis cristã.


Referências

BAUCKHAM, R. J. Jude, 2 Peter. Word Biblical Commentary, v. 50. Waco: Word Books, 1983.

SILVA, M. Interpreting the Pauline Epistles. Grand Rapids: Baker Academic, 2015.

A Exegese de Judas 1:3.

A Exegese de Judas 1:3: A Defesa do Depósito da Fé Cristã Primitiva


Resumo

O presente artigo analisa a passagem de Judas 1:3, focalizando a exortação do autor a "lutar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos". A investigação desenvolve-se em três dimensões analíticas: o contexto histórico-literário da epístola, a análise teológico-semântica dos termos-chave, e as implicações práticas para a comunidade cristã contemporânea. A pesquisa demonstra que a carta de Judas constitui uma resposta pastoral à infiltração de falsos mestres na comunidade eclesial, propondo uma compreensão da fé como depositum fidei — um patrimônio doutrinário definitivo, completo e irrepetível, cuja preservação constitui responsabilidade inalienável dos crentes.

Palavras-chave: Judas 1:3; Epístola de Judas; Depositum Fidei; Tradição Apostólica; História do Cristianismo Primitivo.


1. Introdução

A Epístola de Judas, embora breve, apresenta-se como um documento de singular relevância para a compreensão da autoconsciência teológica do cristianismo primitivo. O versículo 3 do capítulo 1 emerge como núcleo hermenêutico da carta, concentrando em si a preocupação central do autor: a preservação da integridade da fé cristã face às ameaças heterodoxas. O texto bíblico em apreço declara:

> "Amados, embora estivesse muito ansioso por escrever-vos acerca da comum salvação, senti a necessidade de dirigir-vos esta exortação para que luteis pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (Judas 1:3, ARA).

A presente análise propõe-se a examinar esta passagem mediante abordagem multidimensional, articulando perspectivas histórica, teológica e prático-pastoral.


2. Contexto Histórico-Literário

A epístola situa-se no contexto de uma comunidade eclesial submetida a pressões internas significativas. O autor identifica a presença de pseudodidaskaloi (falsos mestres) que haviam se infiltrado na comunidade, caracterizados por duas distorções fundamentais: a transformação da graça divina em licenciosidade moral (aselgeia) e a negação da soberania (despoteia) de Cristo (Judas 1:4).

Diante desta conjuntura crítica, Judas modifica o propósito original de sua correspondência — que versaria sobre a "salvação comum" (koinē sōtēria) — para dirigir-se a uma exortação urgente de caráter polêmico-defensivo. A mudança de ênfase evidencia a prioridade pastoral do autor: a preservação da identidade doutrinária da comunidade face à subversão teológica em curso.


3. Análise Teológico-Semântica

A exegese detalhada dos termos empregados em Judas 1:3 revela uma construção teológica sofisticada, calcada em conceitos tecnicamente precisos.


3.1 O Verbo Epagonizomai (Lutar)

O imperativo epagonizomai (ἐπαγωνίζομαι) constitui termo composto que intensifica a noção de agonizomai, evocando semanticamente esforço atlético ou militar. A preposição epi- intensifica a ação, sugerindo luta contínua e determinada. O emprego deste vocábulo indica que a defesa da fé não constitui atitude passiva, mas empreendimento que exige vigor, persistência e dedicação total do crente.


3.2 A Expressão Hapax (Uma Vez por Todas)

O advérbio hapax (ἅπαξ) assume caráter técnico-teológico decisivo. Sua ocorrência qualifica a natureza da revelação cristã como:

- Definitiva: Não admite complementação ou correção posterior;

- Completa: Encerra em si o pleno conteúdo necessário à fé e à prática cristã;

- Irrepetível: Exclui a possibilidade de novas revelações que alterem ou suplementem o corpus doutrinário estabelecido.

Esta compreensão fundamenta a concepção de sola scriptura e a rejeição de continuísmos revelacionais posteriores à era apostólica.


3.3 O Verbo Paradidomi (Entregue)

O termo paradidomi (παραδίδωμι) pertence ao léxico técnico da transmissão de tradição na antiguidade helenística e judaica. Seu emprego sugere:

1. Caráter fiduciário: A fé não é propriedade da Igreja, mas tesouro-lhe confiado em regime de guarda;

2. Responsabilidade de preservação: Os destinatários são depositários, não proprietários, do conteúdo revelado;

3. Continuidade histórica: Estabelece vínculo ininterrupto entre a revelação apostólica e as gerações subsequentes.


4. Implicações Prático-Pastorais

A compreensão de Judas 1:3 comporta duas dimensões aplicativas fundamentais para a vida eclesial.


4.1 A Defesa da Ortodoxia Doutrinária

A exortação judaica não se refere à luta pro fide (conquista da salvação mediante obras), mas pro fide (defesa do conteúdo objetivo da revelação). Esta distinção implica:

- Desenvolvimento de discernimento teológico (diakrisis) para diferenciar verdade e heresia;

- Compromisso com a pureza do kerygma evangélico;

- Rejeição de sínteses ecléticas que diluam a especificidade cristã.


4.2 A Continuidade com a Tradição Apostólica

Para o autor, a "fé entregue" não configura construção subjetiva de cada geração, mas realidade recebida dos apóstolos. Este princípio fundamenta:

- A autoridade normativa das Escrituras Apostólicas;

- A rejeição de inovações doutrinárias (kainotomia) que contradigam o paradosis estabelecido;

- A necessidade de traditio fiel na transmissão intergeracional da fé.


5. Considerações Finais

A epístola de Judas apresenta uma concepção da fé cristã radicalmente descontinuista com modelos evolucionistas ou contextualistas radicais. A fé é apresentada como depositum sagrado, imutável e completo, confiado à comunidade dos santos. A responsabilidade dos cristãos — em todas as eras — não consiste em atualizar ou adequar este patrimônio às demandas contingentes, mas em preservá-lo com zelo, defendendo sua integridade contra tentativas de corrupção, enquanto cultivam a santidade pessoal e aguardam a consumação escatológica.


Referências Bibliográficas

Bauckham, R. J. (1983). Jude, 2 Peter. Word Biblical Commentary. Waco: Word Books.

Kelly, J. N. D. (1969). A Commentary on the Epistles of Peter and of Jude. London: A & C Black.

Green, M. (1968). The Second Epistle General of Peter and the General Epistle of Jude. London: Tyndale Press.

Watson, D. F. (2012). The Letter of Jude. New International Commentary on the New Testament. Grand Rapids: Eerdmans.

O Subjetivismo Luterano na Filosofia de Kierkgaard.

O SUBJETIVISMO LUTERANO NA FILOSOFIA DE KIERKEGAARD: CONTINUIDADE E RADICALIZAÇÃO

Resumo: O presente artigo investiga a relação entre o subjetivismo teológico de Martin Lutero e a filosofia existencial de Søren Kierkegaard. Analisa-se em que medida o reformador alemão influenciou o pensador dinamarquês, demonstrando que Kierkegaard não apenas recebeu as intuições luteranas, mas as radicalizou em uma perspectiva existencial-filosófica. O estudo percorre três dimensões fundamentais: (1) a definição do subjetivismo luterano em sua dimensão soteriológica; (2) a transposição e radicalização desse subjetivismo no pensamento kierkegaardiano; e (3) as críticas de Kierkegaard ao luteranismo estabelecido de sua época. Conclui-se que Kierkegaard opera uma transfiguração do subjetivismo luterano, convertendo-o de categoria teológica em categoria existencial.

Palavras-chave: Subjetivismo; Lutero; Kierkegaard; Existencialismo; Fé.


1. INTRODUÇÃO

A questão da filiação intelectual entre Martin Lutero (1483-1546) e Søren Kierkegaard (1813-1855) constitui um dos temas mais relevantes para a compreensão da filosofia da religião moderna. Embora separados por mais de três séculos, ambos pensadores compartilham uma ênfase decisiva na subjetividade individual como locus privilegiado da experiência religiosa. No entanto, enquanto em Lutero tal subjetivismo assume caráter predominantemente teológico-soteriológico, em Kierkegaard ele é transposto para o âmbito filosófico-existencial, constituindo-se como reação crítica ao idealismo hegeliano dominante no século XIX.

O objetivo deste artigo é demonstrar que o subjetivismo de Lutero não apenas pode ser identificado no pensamento de Kierkegaard, mas constitui um de seus pilares fundamentais — embora radicalizado e ressignificado em um contexto filosófico distinto. Para tanto, proceder-se-á a uma análise em três momentos: (a) a caracterização do subjetivismo luterano; (b) sua recepção e radicalização em Kierkegaard; e (c) as críticas kierkegaardianas ao luteranismo institucionalizado.


2. O SUBJETIVISMO LUTERANO: DIMENSÕES SOTERIOLÓGICAS

O conceito de subjetivismo em Lutero não deve ser confundido com subjetivismo epistemológico — a tese de que a verdade é determinada pelo sentimento individual. Trata-se, antes, de um subjetivismo existencial e soteriológico, centrado na relação coram Deo (diante de Deus). Três aspectos fundamentais caracterizam essa posição.


2.1 Sola Fide e a individualidade salvífica

A doutrina da justificação pela fé (sola fide) estabelece que a salvação não advém das obras ou da submissão a autoridades eclesiásticas externas (Magistério, Tradição), mas exclusivamente da fé pessoal e individual. O indivíduo — der Einzelne — encontra-se, em última instância, isolado diante de Deus, estabelecendo uma relação direta e intransferível com o divino (LUTERO, 1520/2017).


2.2 A primazia da consciência

No discurso pronunciado na Dieta de Worms (1521), Lutero afirma: "Meine Gewissens ist gefangen in Gottes Wort [...] ich kann nicht anders" ("Minha consciência é cativa da Palavra de Deus [...] não posso e não vou retratar-me") (LUTERO, 1521/2008, p. 45). Tal declaração evidencia que a instância decisória última não reside na instituição eclesiástica, mas na consciência individual iluminada pela Escritura.


2.3 A fé como apropriação pessoal

Para Lutero, a verdade cristã não se reduz a conhecimento teórico passivamente aceito. A fé exige apropriação pessoal em meio à Anfechtung — termo técnico que designa angústia, tentação e desespero existencial. A fé configura-se, assim, como ato de vontade e paixão, distinto do mero assensus intelectual (OBERMAN, 1992, p. 123-145).


3. A RADICALIZAÇÃO KIERKEGAARDIANA DO SUBJETIVISMO

Kierkegaard, profundamente influenciado pela teologia luterana — especialmente pela ênfase na graça e no paradoxo —, traduz o subjetivismo luterano para o âmbito da existência filosófica, operando três transformações decisivas.


3.1 Der Einzelne contra o Sistema

Se Lutero opôs-se ao sistema eclesiástico de sua época, Kierkegaard dirige sua crítica contra o sistema filosófico hegeliano. Hegel, segundo Kierkegaard, pretendeu explicar a totalidade da existência mediante um sistema lógico-objetivo, reduzindo o indivíduo a mero momento no movimento do Espírito Absoluto (KIERKEGAARD, 1846/2010, p. 112).

Kierkegaard resgata o grito luterano ("Hier stehe ich, ich kann nicht anders"), transfigurando-o no imperativo de que "a verdade é subjetividade". A multidão — o público, o sistema — representa a impessoalidade que esmaga a individualidade. A fé configura-se como salto existencial que só pode ser executado na solidão do singular (den Enkelte) diante de Deus (KIERKEGAARD, 1843/2009, p. 89).


3.2 A verdade como subjetividade

No Post-scriptum às Migalhas Filosóficas (1846), Kierkegaard — sob o pseudônimo Johannes Climacus — formula sua tese mais radical: "A verdade é a subjetividade" (Sandheden er Subiectiviteten) (KIERKEGAARD, 1846/2010, p. 175).

Para o pseudônimo, não basta possuir o conteúdo objetivo correto do cristianismo se tal conhecimento não transforma a existência do indivíduo. Uma pessoa pode dominar toda a teologia luterana e ainda assim permanecer na esfera estética ou ética, sem alcançar a autêntica fé religiosa. A verdadeira fé ocorre quando o indivíduo se relaciona com a verdade (Cristo) mediante paixão infinita e interioridade.

Tal posição ecoa diretamente Lutero: a fé não é historia (conhecimento dos fatos), mas fiducia (confiança pessoal). Kierkegaard, contudo, radicaliza: o como (a maneira como o sujeito se relaciona com a verdade) torna-se mais importante que o quê (o conteúdo objetivo) (KIERKEGAARD, 1846/2010, p. 178-180).


3.3 Anfechtung e o Paradoxo Absoluto

Lutero descrevia a fé como aquela que nasce na Anfechtung — momento em que o indivíduo experimenta Deus como juiz terrível e só pode apegar-se à Sua promessa. Kierkegaard eleva tal conceito ao estatuto de categoria existencial fundamental.

Para Kierkegaard, a fé não constitui certeza tranquila, mas tensão permanente. O cristianismo apresenta-se como paradoxo absoluto (Deus no tempo, o eterno no histórico), inacessível à razão objetiva e abraçável apenas pela paixão subjetiva no ápice da angústia. A fé é movimento do desespero — a "doença mortal" — para a possibilidade de Deus, sendo essencialmente subjetiva e solitária (KIERKEGAARD, 1849/2011, p. 45-67).


4. A CRÍTICA DE KIERKEGAARD AO LUTERANISMO ESTABELECIDO

Apesar da profunda filiação, Kierkegaard desenvolve crítica feroz ao luteranismo de sua época — especificamente à Igreja Nacional da Dinamarca —, considerando-o traição ao autêntico espírito luterano. Nesse ponto, distingue o "Lutero vivo" (o reformador que sofreu) do "luteranismo estabelecido" (religião cultural institucionalizada).


4.1 A união Igreja-Estado

Kierkegaard acusa Lutero (e o luteranismo posterior) de haver facilitado excessivamente a vida cristã mediante a união entre Igreja e Estado. Ao subordinar a Igreja ao braço secular, Lutero teria, segundo essa interpretação, eliminado o martírio e a perseguição como constitutivos do verdadeiro cristianismo. O cristianismo tornou-se "objetivo" e institucional, perdendo seu caráter de risco existencial (KIERKEGAARD, 1854-1855/2009, p. 234-256).


4.2 A graça sem ascensão

Kierkegaard argumenta que, ao rejeitar as obras, Lutero abriu espaço para uma complacência na qual "tudo está na graça" e o indivíduo prescinde do esforço para tornar-se cristão. Para Kierkegaard, a graça representa o objetivo final, mas exige movimento prévio de desespero, repetição e esforço infinito — o que ele denomina "ressonância da fé" (Gjentagelsen) (KIERKEGAARD, 1843/2011, p. 112-134).


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O subjetivismo luterano não apenas pode ser identificado em Kierkegaard, mas constitui um de seus fundamentos, transfigurado em categoria existencial-filosófica. Enquanto em Lutero o subjetivismo assume caráter predominantemente teológico — o indivíduo coram Deo, justificado pela fé pessoal contra a autoridade externa da Igreja —, em Kierkegaard ele torna-se existencial e filosófico: a verdade como interioridade apaixonada do singular que, diante do paradoxo e da angústia, assume responsabilidade total por sua existência contra a impessoalidade do sistema hegeliano e da cristandade cultural.

Kierkegaard afirmava que sua obra consistia em "ler novamente" (at læse) o cristianismo. De fato, ele leu Lutero de maneira tão radical que, em muitos aspectos, realizou com o luteranismo institucionalizado o mesmo que Lutero fizera com a Igreja Católica: utilizou as premissas do mestre para criticar o sistema que se reclamava seu herdeiro.


REFERÊNCIAS

KIERKEGAARD, S. Begrebet Angest [O Conceito de Angústia]. 1844. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Enten-Eller [Ou... Ou]. 1843. Tradução de Álvaro Luiz Amaral. São Paulo: Hedra, 2009.

KIERKEGAARD, S. Frygt og Bæven [Temor e Tremor]. 1843. Tradução de José Gama. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Gjentagelsen [A Repetição]. 1843. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Indøvelse i Christendom [Exercício no Cristianismo]. 1850. Tradução de Paula Baptista et al. Lisboa: Relógio d'Água, 2003.

KIERKEGAARD, S. Syvdommen til Døden [A Doença Mortal]. 1849. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Afsluttende uvidenskabelig Efterskrift [Post-scriptum Final Não Científico às Migalhas Filosóficas]. 1846. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2010.

KIERKEGAARD, S. Øieblikket [O Momento]. 1854-1855. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2009.

LUTERO, M. De captivitate Babylonica ecclesiae praeeludium [O Cativeiro Babilônico da Igreja]. 1520. Tradução de Luiz Alberto de Boni. São Paulo: Loyola, 2017.

LUTERO, M. Wormser Edikt [Discurso na Dieta de Worms]. 1521. In: Luthers Werke in Auswahl. Berlin: de Gruyter, 2008. v. 2, p. 42-48.

OBERMAN, H. A. Luther: Man Between God and the Devil. New Haven: Yale University Press, 1992.

WESTPHAL, M. Becoming a Self: A Reading of Kierkegaard's Concluding Unscientific Postscript. West Lafayette: Purdue University Press, 1996.

Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação.


Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação e a Tensão Escatológica do "Já" e do "Ainda Não"


Resumo

O presente trabalho apresenta uma síntese do pensamento teológico de Oscar Cullmann, teólogo luterano franco-suíço que se destacou como um dos mais influentes intérpretes do Novo Testamento no século XX. A análise centra-se em seus principais contribuições: a teologia da história da salvação (Heilsgeschichte), a tensão escatológica entre o "já" e o "ainda não", a cristologia funcional e suas posições no debate sobre mito e história, bem como suas contribuições à teologia política e ao ecumenismo.


Palavras-chave: Oscar Cullmann; Heilsgeschichte; Escatologia; Cristologia; Desmitologização.


1. Introdução

Oscar Cullmann (1902-1999) constitui-se como uma das figuras centrais da teologia bíblica do século XX. Formado nas universidades de Estrasburgo e Basileia, o teólogo luterano de origem francesa desenvolveu uma obra que buscava mediar entre a crítica histórica moderna e a fé cristã tradicional. Sua proposta teológica distinguiu-se tanto do existencialismo de Rudolf Bultmann quanto da escatologia realizada de C. H. Dodd, oferecendo uma alternativa estruturada pela categoria de Heilsgeschichte (história da salvação) (CULLMANN, 1967a).


2. A Tensão Escatológica: O "Já" e o "Ainda Não"

O conceito mais emblemático do pensamento cullmanniano reside na reinterpretação da escatologia cristã mediante a dialética do "já" (schon) e do "ainda não" (noch nicht).


2.1 O "Já": A Vitória Decisiva em Cristo

Para Cullmann, o centro da história não se projeta em um futuro distante, mas encontra-se na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. O evento decisivo para a salvação da humanidade já se consumou: a batalha final contra o pecado e a morte foi travada e vencida na cruz (CULLMANN, 1956). Essa perspectiva confere às realizações históricas de Jesus um caráter definitivo e irreversível.


2.2 O "Ainda Não": A Consumação Futura

Paralelamente, Cullmann mantém a expectativa de uma consumação final do Reino de Deus, cuja instauração plena e perfeita permanece como promessa futura. A Igreja, portanto, habita o intervalo entre a vitória conquistada e a manifestação escatológica definitiva.


2.3 A Analogia Militar

Para ilustrar essa tensão, Cullmann recorre a uma analogia histórica: a Segunda Guerra Mundial foi decisivamente vencida com o Dia D (a invasão da Normandia), todavia a guerra somente findou completamente no Dia V (a vitória final) (CULLMANN, 1956, p. 84). Analogamente, a Igreja vive no período intermediário entre a vitória decisiva de Cristo e a consumação escatológica.


3. Cristologia e a Concepção Linear do Tempo

3.1 O Tempo como Linearidade Histórica

Contrariando a concepção grega de tempo como ciclo eterno (kyklos), Cullmann defende que o cristianismo introduziu uma compreensão de tempo como linear e irrepetível, orientado por um propósito divino teleológico (CULLMANN, 1967b). A história da salvação configura-se, assim, como uma linha reta que atinge seu ápice na pessoa de Jesus Cristo.


3.2 Cristologia Funcional

Em sua obra seminal Christologie des Neuen Testaments (1957), Cullmann propõe uma cristologia que prescinde de categorias filosóficas gregas — tais como "natureza" (physis) e "substância" (ousia) — em favor de uma abordagem funcional. O foco recai sobre os títulos cristológicos atribuídos a Jesus no Novo Testamento (Profeta, Servo Sofredor, Senhor, Filho de Deus), os quais revelam a obra e a função messiânica de Cristo na história da salvação (CULLMANN, 1967b, p. 15-42).


4. O Debate sobre Mito e História

Cullmann posicionou-se de forma crítica em relação ao programa de "desmitologização" (Entmythologisierung) proposto por Rudolf Bultmann (1941). Enquanto Bultmann advogava pela reinterpretação dos relatos bíblicos para extração de significado existencial, prescindindo de sua suposta roupagem mitológica, Cullmann argumentava que o Novo Testamento, embora utilizando conceitos da mitologia contemporânea, subordina-os a um evento histórico concreto: a ressurreição de Jesus (CULLMANN, 1967a).

Para Cullmann, a remoção do caráter histórico desses eventos esvaziaria o cerne da fé cristã, a qual permanece ancorada em fatos ocorridos em tempo e espaço determinados. A historicidade constitui, portanto, pressuposto indispensável para a validade da proclamação cristã.


5. Teologia Política e Ecumenismo

5.1 Igreja e Estado

Cullmann rejeitou a dicotomia entre esfera religiosa e esfera política. Em sua concepção, tanto a Igreja quanto o Estado subsistem sob o senhorio de Cristo (Christus Herr), embora desempenhem funções distintas no Reino já inaugurado (CULLMANN, 1956, p. 192-210).

5.2 O Primado de Pedro e o Diálogo Ecumênico

Num gesto ecumênico significativo, Cullmann reconheceu que Pedro exerceu efetivamente papel de liderança e primazia na Igreja primitiva. Contudo, argumentou que tal função era pessoal e intransferível, não podendo ser herdada por um sucessor institucional (o Papa). Essa posição buscava abrir perspectivas para o diálogo entre luteranos e católicos romanos, sem implicar submissão ao magistério papal (CULLMANN, 1962).


5.3 Unidade na Diversidade

Cullmann concebia a diversidade denominacional não como problema a ser eliminado, mas como expressão da riqueza do Espírito Santo. Sua visão ecumênica não pressupunha fusão uniformizante, mas a coexistência de diferentes tradições eclesiais orbitando em torno de um centro comum: Jesus Cristo (CULLMANN, 1956).


6. Considerações Finais

A obra de Oscar Cullmann representa um esforço sistemático de construir pontes entre a crítica histórica e a fé cristã. Por meio da categoria de Heilsgeschichte e da tensão escatológica do "já e ainda não", o teólogo ofereceu um esquema hermenêutico que influenciou profundamente a teologia bíblica subsequente. Sua proposta permitiu que a Igreja se compreendesse como participante ativa na missão divina, vivendo na expectativa entre a vitória consumada de Cristo e a esperança de sua parusia.


Referências

CULLMANN, O. Christ and Time: The Primitive Christian Conception of Time and History. Tradução de Floyd V. Filson. 3. ed. Filadélfia: Westminster Press, 1956.

CULLMANN, O. Peter: Disciple, Apostle, Martyr: A Historical and Theological Study. 2. ed. rev. Tradução de Floyd V. Filson. Filadélfia: Westminster Press, 1962.

CULLMANN, O. Salvation in History. Tradução de Sidney G. Sowers. Nova Iorque: Harper & Row, 1967a.

CULLMANN, O. The Christology of the New Testament. Tradução de Shirley C. Guthrie e Charles A. M. Hall. Rev. ed. Filadélfia: Westminster Press, 1967b.

BULTMANN, R. Neues Testament und Mythologie: Das Problem der Entmythologisierung der neutestamentlichen Verkündigung. In: BULTMANN, R. Glauben und Verstehen: Gesammelte Aufsätze. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1941. v. 1, p. 1-44.

Lectio Divina/Leitura Eclesial.

Esta é uma questão teológica profunda sobre hermenêutica bíblica e práticas de leitura espiritual. É necessário buscar informações sobre G. Ernest Wright e sua proposição de teologia como "Recitação Confessional" para poder responder adequadamente algumas questões.

Há sim uma relação significativa entre o retorno à Lectio Divina/Leitura Eclesial e a proposta de G. Ernest Wright sobre a teologia bíblica como "Recitação Confessional" (Biblical Theology as Recital). Permita-me desenvolver essa conexão:


A Proposta de G. Ernest Wright

Em sua obra seminal God Who Acts: Biblical Theology as Recital (1952), Wright define a teologia bíblica como "a recitação confessional dos atos redentores de Deus em uma história particular" . Wright, figura central do Movimento de Teologia Bíblica (1945-1961), propôs que:

- A revelação não está primariamente nas palavras da Escritura, mas nos atos poderosos de Deus na história — especialmente o Êxodo e a Aliança 

- A teologia bíblica é, essencialmente, a recontação (recital) da comunidade de fé sobre as ações de Deus

- O foco está na confissão comunitária dos feitos divinos, não em proposições abstratas ou símbolos evocativos 


Pontos de Convergência com a Lectio Divina

1. Dimensão Confessional e Comunitária

Tanto a Lectio Divina quanto Wright enfatizam que a leitura da Bíblia é um ato confessional — não meramente informativo, mas formativo da identidade da comunidade. Wright via a Escritura como o relato da comunidade sobre suas experiências com Deus, não como um compêndio de doutrinas . A Lectio Divina, em sua raiz monástica e eclesial, pressupõe que a leitura acontece in ecclesia — na comunidade que confessa a mesma fé.


2. Foco nos Atos de Deus vs. Proposições Abstratas

Wright rejeitava a leitura da Bíblia como "reservatório de símbolos evocativos" ou "compêndio de proposições doutrinais" . A Lectio Divina, por sua natureza, também evita a abordagem meramente analítica ou dogmática, buscando antes encontrar o Deus que age através do texto — uma ressonância direta com o subtítulo de Wright: Deus Que Age.


3. A Estrutura Narrativa como Matriz Teológica

O Movimento de Teologia Bíblica, inspirado por Wright, via a Bíblia como a "história dos atos de Deus da criação à consumação" . A Lectio Divina, especialmente em sua recuperação contemporânea (como na Divino Afflante Spiritu e no Dei Verbum), retoma essa sensibilidade narrativa: o texto não é um objeto a ser dissecado, mas uma história viva na qual o leitor é convidado a se situar.


4. A Recitação como Performance Teológica

Wright usava "recital" (recital) no sentido de recontar, confessar publicamente. A Lectio Divina, em sua fase de Meditatio e Oratio, é exatamente isso: uma performance existencial onde o crente reconta a si mesmo e a Deus o que o texto revela sobre os atos divinos. Ambos subvertem a dicotomia entre "estudo objetivo" e "devoção subjetiva".


Uma Diferença Importante

Contudo, há uma tensão produtiva: Wright, enquanto moderno crítico, buscava fundamentar essa recitação na história (Heilsgeschichte), enquanto a Lectio Divina tradicional fundamenta-se na tradição viva da Igreja e na ação do Espírito Santo na leitura. Wright foi criticado por Langdon Gilkey justamente por tentar conciliar uma cosmovisão moderna (causal, crítica) com uma linguagem teológica bíblica (sobrenatural, confessional) . A Lectio Divina, por outro lado, não parte do problema moderno da historicidade, mas da experiência eclesial do texto como lugar de encontro com Cristo.


Conclusão

O retorno à Lectio Divina e à Leitura Eclesial pode ser visto como uma recuperação prática do que Wright propunha teoricamente: uma teologia que é confissão dos atos de Deus, não mera análise de textos. Ambos compartilham a convicção de que a Bíblia é antes de tudo testemunho da ação divina, e que sua leitura autêntica exige que o leitor se posicione dentro dessa história de salvação — como confessor, não apenas como observador.

A diferença está no locus da autoridade: para Wright, na historicidade dos eventos; para a Leitura Eclesial, na actualização desses eventos na vida da Igreja sob a inspiração do Espírito. 

A Distinção e Simultaneidade entre Fides Quae Creditur e Fides Qua Creditur.

A Distinção e Simultaneidade entre Fides Quae Creditur e Fides Qua Creditur: Uma Análise Teológico-Doutrinária Resumo O presente artigo exam...