A Leitura de Machado de Assis no Interregno da Tradição Filológica Ocidental.

A leitura de Machado de Assis através da teologia filológica, da hermenêutica filosófica e da psicanálise lacaniana revela não uma simples aplicação de métodos externos, mas a descoberta de uma estrutura interna que esses métodos, cada um a seu modo, tentam nomear. O que emerge é uma teoria da interpretação onde a indeterminação não é obstáculo, mas condição de possibilidade do sentido literário moderno.

A tradição filológico-teológica, desde a escola de Alexandria até Bultmann, desenvolveu uma hermenêutica da profundidade: o texto como artefato de camadas, acessível pela análise minuciosa da letra. Aplicada a Machado, essa tradição encontra sua inversão funcional: não a revelação de sentido oculto, mas a demonstração de que toda revelação é construção, toda profundidade é efeito de superfície. A teologia negativa de Pseudo-Dionísio e Mestre Eckhart, com sua via do não-dito, oferece o precedente místico dessa estrutura: o Deus que só se alcança pela negação encontra em Machado seu duplo laico, o desejo que só se preserva pela não-realização. A viúva de Missa do Galo, o padre de A Igreja do Diabo, Augusta com seu segredo — todos praticam uma apofasis do sujeito, uma auto-negação que não conduz ao transcendente, mas sustenta o imanente em sua opacidade.

A hermenêutica filosófica do século XX, representada por Gadamer e Ricœur, pressupõe que a interpretação, embora histórica e parcial, ainda assim aproxima o intérprete do sentido. A fusão de horizontes, o mundo do texto, a refiguração mimetológica — todos esses conceitos supõem uma direção, um movimento de aproximação, mesmo que infinito. Machado subverte essa teleologia: seu círculo hermenêutico não é espiral ascendente, mas labirinto sem centro, onde cada passo aumenta a distância do que se busca. A consciência historicamente efetiva gadameriana torna-se, em Machado, consciência historicamente inefetiva — não porque ignore sua inserção na história, mas porque essa inserção é vivida como condenação ao não-saber. O leitor de Machado não enriquece seu horizonte; é despojado da ilusão de que horizontes possam ser fundidos.

A psicanálise lacaniana oferece o vocabulário mais adequado para essa estrutura, precisamente porque Lacan, diferentemente de Gadamer, funda sua teoria na impossibilidade constitutiva. O Real como o que não cessa de não se escrever, o objeto a como causa do desejo que não se satisfaz, o gozo do Outro como irredutível ao saber — esses conceitos mapeiam o território machadiano com precisão surpreendente. A viúva de Missa do Galo deseja o cavalheiro não apesar de sua indisponibilidade, mas por causa dela: o objeto a só funciona como causa do desejo na medida em que permanece falto. O padre de A Igreja do Diabo tenta preencher a falta do Outro institucional com um Outro perverso, mas descobre que não há Outro do Outro, que a falta é irredutível. Augusta, como mulher não-toda, escapa à lógica fálica do saber que classifica e possui, sustentando-se na posição de segredo-do-outro que não se devela.

O que essas três leituras convergem em nomear é uma ética da impossibilidade. Não a ética kantiana do dever, nem a utilitária da consequência, nem a aristotélica da virtude — mas uma ética do permanecer com o enigma, do não-ceder na dúvida, do fazer da interpretação não um meio para a verdade, mas fim em si mesma. Machado não é cético no sentido filosófico tradicional: não nega a possibilidade de verdade em geral, mas pratica a impossibilidade de verdade particular em cada texto. O ceticismo seria metalinguístico; a dúvida machadiana é performática, constitutiva do ato de narrar.

Essa estrutura tem implicações para a teoria literária que vão além do caso machadiano. Se a modernidade literária é definida pela consciência da construção ficcional, pela metalinguagem, pela fragmentação, Machado demonstra que esses traços não são invenção do século XX, nem simplesmente antecipação, mas desenvolvimento interno de uma lógica que já operava no Realismo. A ironia machadiana não é temperamento pessoal, nem reflexo de sua posição social, nem estratégia retórica — é estrutura ontológica, o modo como o sujeito moderno se relaciona com a linguagem quando reconhece que ela não transmite, apenas transforma.

Para o leitor formado na tradição filológica, a lição é desconfortável: o método que desenvolvemos para acessar o sentido dos textos sagrados, quando aplicado a Machado, revela a insuficiência do próprio método. Mas essa insuficiência não é falha a ser corrigida, é descoberta a ser habitada. A hermenêutica da impossibilidade não abandona a hermenêutica; a radicaliza, levando-a ao limite onde se torna auto-reflexiva. Interpretar Machado é interpretar a interpretação, não no sentido metalinguístico de segundo grau, mas no sentido existencial de confronto com a própria divisão.

A comparação com Gadamer e Ricœur mostra que a hermenêutica filosófica do século XX, mesmo em suas formulações mais sofisticadas, ainda pressupunha um resto de otimismo: a ideia de que, embora histórica e parcial, a interpretação ainda assim enriquece, aproxima, habita. Machado nega esse resto, não por pessimismo, mas por realismo estrutural: ele sabe que o gozo do texto reside na sua recusa de ser habitado, na sua resistência à apropriação. O leitor de Machado não é hóspede bem-vindo num mundo ficcional; é voyeur frustrado de uma cena que não se complete, analista impossível de um discurso que não se cure.

A leitura lacaniana, por sua vez, oferece a chave para essa frustração: ela não é defeito, mas efeito de gozo. O que Machado proporciona não é a satisfação hermenêutica da compreensão, mas o gozo do descompasso entre desejo de sentido e impossibilidade de sentido. Esse gozo, para ser sentido, exige que o leitor assuma sua posição — não de mestre que sabe, nem de discípulo que aprende, mas de sujeito dividido que goza da própria divisão.

Assim, a tríade teologia/hermenêutica/psicanálise converge em uma teoria da leitura machadiana que é, simultaneamente, teoria da modernidade literária. Machado de Assis, escritor de periferia do capitalismo, filho de mestiça liberta, autodidata em língua de colonizador, construiu uma poética onde a impossibilidade estrutural é vivida não como tragédia, mas como condição de criação. Sua dúvida não é ignorância a ser superada, nem método a ser aplicado, nem atitude a ser adotada — é ser do texto, o modo como sua ficção existe no mundo.

O legado dessa estrutura para a crítica contemporânea é duplo. Primeiro, genealógico: demonstra que a modernidade literária brasileira não é derivativa, não uma aplicação tardia de tendências europeias, mas invenção original de uma resposta a condições específicas — a modernização desigual, a formação de classes sem tradição burguesa, a racialização da sociedade. Segundo, metodológico: propõe que a crítica literária, quando confrontada com textos que resistem à interpretação, não deve buscar métodos mais sofisticados de penetração, mas desenvolver éticas de permanência — formas de leitura que façam da resistência do texto não obstáculo, mas interlocutor.

A hermenêutica da impossibilidade, assim entendida, não é renúncia à compreensão, mas compreensão elevada à segunda potência: não o que o texto significa, mas como o texto significa a impossibilidade do significar. Machado de Assis, lido à luz da teologia filológica, da hermenêutica filosófica e da psicanálise lacaniana, revela-se não apenas grande escritor, mas teórico da interpretação — aquele que, na prática da ficção, antecipou e subverteu os principais métodos que a posteriori seriam aplicados a ele. 

O Real Machadiano.

O Real Machadiano: Lacan e a Estrutura do Impossível em "A Igreja do Diabo", "O Segredo de Augusta" e "Missa do Galo"


1. Introdução: Lacan e a tríade do sujeito

Jacques Lacan (1901-1981) propõe, em seus seminários, uma estrutura tripartida do sujeito: o Imaginário (a identificação com a imagem especular, o ego), o Simbólico (a ordem da linguagem, da lei, do Nome-do-Pai) e o Real (o que resiste à simbolização, o impossível). O Real não é a "realidade" empírica, mas o núcleo de impossibilidade que atravessa o sujeito — o que não pode ser dito, representado, integrado.

A ficção de Machado de Assis, especialmente nos três contos analisados, constrói uma topologia do impossível que dialoga estruturalmente com a teoria lacaniana. Se para Lacan o Real é "o que não cessa de não se escrever" (ce qui ne cesse de ne pas s'écrire), para Machado o Real é "o que não cessa de não se narrar" — o enigma que persiste precisamente porque toda narrativa o circunda sem alcançá-lo.


2. O Real em "Missa do Galo": o gozo impossível

O desejo em "Missa do Galo" não é simplesmente reprimido (modelo freudiano clássico), mas estruturalmente impossível. A viúva deseja o cavalheiro, mas esse desejo é mediado pela liturgia, pela culpa, pela memória — pela linguagem. O que resta é o resíduo não simbolizado: o "fogo em mim" que não se traduz em nome, ação ou confissão.


2.1. O objeto a

Lacan desenvolve o conceito de objeto a (objet petit a) como a causa do desejo, não seu objeto. É o que falta no outro, o que faz com que o outro seja desejável precisamente porque incompleto. Em "Missa do Galo", o cavalheiro funciona como objeto a: não é amado por suas propriedades (beleza, eloquência, status), mas por seu estatuto de falta. A viúva nunca sabe se ele a deseja de volta; essa incerteza, essa falta no outro, sustenta seu desejo.

O final do conto — o aperto de mão na sacristia — é um encontro falhado com o Real do gozo. O toque físico não realiza o desejo; apenas o testemunha como impossível. O gozo, para Lacan, é "impossível" não porque não exista, mas porque, alcançado, deixa de ser gozo. A viúva, ao narrar, preserva o gozo na dimensão do impossível — é isso que faz de sua narrativa uma liturgia lacaniana.


2.2. O gozo do Outro

A pergunta que atravessa o conto — "será que houve adultério?" — pode ser reformulada lacanianamente: "o que o Outro quer de mim?" O Outro (o cavalheiro, a sociedade, Deus) é suposto de gozo (supposé au jouissance), mas seu gozo permanece opaco. A viúva não sabe se é objeto de desejo ou de piedade, se sua presença na missa é sacrilégio ou devoção. Essa opacidade do gozo do Outro é constitutiva do sujeito machadiano.


3. O Real em "A Igreja do Diabo": a instituição como falta

Se "Missa do Galo" situa o Real no desejo individual, "A Igreja do Diabo" o situa na instituição religiosa. O padre-protagonista descobre que a Igreja Católica, supostamente lugar da verdade, é aparato de mentira. Sua resposta — fundar uma Igreja do Diabo onde se pratica o mal sinceramente — é uma tentativa de preencher a falta do Outro, de fazer existir um lugar onde o gozo não seja proibido.


3.1. A perversão como estrutura

Lacan distingue entre neurose, psicose e perversão. O perverso, diferentemente do neurótico (que questiona o gozo do Outro), se coloca como instrumento do gozo do Outro — ele sabe o que o Outro quer, e se oferece para realizá-lo. O padre de "A Igreja do Diabo" assume uma estrutura perversa: ele sabe que o Diabo quer o mal, e se organiza para fornecê-lo.

Contudo, o final onírico/aporético do conto revela que essa posição de saber é falsa. O padre não sabe se sonhou ou viveu; o Diabo, como Outro, não confirma seu gozo. A perversão, submetida à lógica machadiana, revela-se como neurose de grau superior: não o questionamento do gozo do Outro, mas a constatação de que não há Outro para sustentar o gozo.


3.2. O sonho e o Real

O sonho, para Freud, é "realização de desejo"; para Lacan, é "realização de desejo do Outro". O sonho do padre realiza o desejo de uma Igreja onde a hipocrisia seja abolida — mas esse desejo é do Outro simbólico (a honestidade como valor burguês), não do sujeito. O final, que suspende a distinção sonho/realidade, revela o Real como impasse: não há posição externa de onde se possa julgar se o desejo foi realizado ou não.


4. O Real em "O Segredo de Augusta": a mulher como segredo-do-outro

"O segredo de Augusta" desloca o Real para o campo social da feminilidade. Augusta possui um segredo; esse segredo é suposto por todos (D. Fernanda, o narrador, o leitor), mas nunca confirmado. Aqui, o Real assume a forma do segredo-do-outro (le secret de l'Autre): não algo que Augusta esconde, mas algo que se supõe que ela esconda.


4.1. A mulher como sintoma do homem

Lacan, no Seminário XX (Encore), propõe que "a mulher não existe" (la femme n'existe pas) — não no sentido empírico, mas no sentido de que a feminilidade não é definível pela lógica fálica do Simbólico. A mulher é "não-toda" (pas-toute), não submetida integralmente à lei do Nome-do-Pai. Augusta encarna essa "não-totalidade": seu segredo a coloca fora da lógica da revelação/confissão que governa o discurso masculino.

O narrador e D. Fernanda operam no discurso da curiosidade, que é uma forma de discurso universitário: eles querem saber, classificar, integrar o segredo de Augusta ao saber estabelecido. Augusta, por sua opacidade, resiste a esse discurso. Não se trata de que ela "tenha" um segredo (conteúdo oculto), mas de que ela seja o segredo — a falta no discurso do Outro que permite que o desejo dos outros se sustente.


4.2. O gozo feminino

Lacan distingue entre gozo fálico (integrável ao Simbólico, gozo do organismo) e gozo do Outro (jouissance de l'Autre), supostamente feminino, "além do falo". O segredo de Augusta pode ser lido como marca do gozo do Outro: algo que não se deixa contar, simbolizar, integrar. D. Fernanda e o narrador circulam em torno desse gozo, mas não o alcançam — não porque Augusta o esconda, mas porque ele não é acessível pela via do saber.


5. Tabela comparativa: três topologias do Real

Conceito lacaniano "Missa do Galo" "A Igreja do Diabo" "O Segredo de Augusta" 

Real O gozo do desejo (não realizável) O gozo da instituição (não sustentável) O gozo feminino (não simbolizável) 

Objeto a O cavalheiro como falta O Diabo como promessa de gozo sem lei Augusta como segredo-do-outro 

Posição do sujeito Neurose (questionamento do gozo do Outro) Perversão (falsa posição de saber) "Não-toda" (resistência à lógica fálica) 

Falha do Simbólico A liturgia não integra o desejo A instituição não garante a verdade A sociedade não captura a feminilidade 

Estrutura do final Indeterminação moral Aporia ontológica Suspensão epistemológica 

Efeito de leitura Melancolia (perda do que nunca se teve) Angústia (falta de fundamento) Fascinação (gozo do não-saber) 


6. A hermenêutica lacaniana: além da interpretação

Lacan, no Seminário XI (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), distingue entre interpretação (que opera no campo do Simbólico, modificando a cadeia significante) e passe (que opera no campo do Real, confrontando o sujeito com sua divisão). A hermenêutica tradicional — gadameriana, ricoeuriana — é hermenêutica da interpretação. A hermenêutica machadiana é hermenêutica do passe: não modificação do sentido, mas confronto com a impossibilidade do sentido.

Nos três contos, o leitor é colocado numa posição de analista impossível: ele escuta a associação livre do narrador, mas não pode oferecer interpretação que cure, que integre, que complete. A viúva, o padre, Augusta — todos falam, mas o que dizem resiste à tradução. O Real machadiano é, assim, Real do discurso: não o que está fora da linguagem, mas o que, na linguagem, falha de funcionar como linguagem.


7. Implicações: Machado como analista da modernidade

A leitura lacaniana dos três contos permite formular uma teoria machadiana do sujeito moderno:

O sujeito dividido: Machado antecipa a estrutura lacaniana do sujeito como (barra sobre o S) — o sujeito dividido pela linguagem. Seus narradores não são "pessoas" (psicologia) nem "tipos" (sociologia), mas posições de enunciação: lugares onde a linguagem fala, falhando.

O declínio do Nome-do-Pai: em "A Igreja do Diabo", a Igreja (instância do Nome-do-Pai) não garante mais a lei; em "O segredo de Augusta", o casamento burguês (variante secular do Nome-do-Pai) não integra a feminilidade; em "Missa do Galo", a liturgia (Nome-do-Pai religioso) não sublima o desejo. Machado descreve uma civilização onde o Simbólico falha, precisamente o que Lacan diagnosticará no século XX.

A ética do psicanalista: Lacan propõe, em A ética da psicanálise, uma ética do "bem-dizer" (bien-dire) — não o bem-fazer moral, mas o ato de falar de modo a não ceder no seu desejo. Os narradores machadianos, em sua recusa de integrar o Real ao Simbólico, em sua persistência na dúvida, encarnam essa ética: eles não cedem na impossibilidade, fazendo dela própria a condição de sua fala.


8. Conclusão: o gozo da interpretação impossível

A comparação com Lacan revela que a hermenêutica da impossibilidade machadiana não é simplesmente pessimismo ou ceticismo. É, antes, uma ética do gozo — não o gozo da satisfação, mas o gozo do desejo sustentado na dimensão do impossível. O leitor de Machado não é frustrado pela falta de resposta; é gozado pela própria falta, pela persistência do questionamento.

Lacan, no final de sua trajetória, fala em "gozo do Outro" como horizonte ético. Machado, no final do século XIX, já construía ficções onde esse gozo é praticado: não a resolução do enigma, mas o gozo de permanecer com o enigma. A dúvida, em Machado, não é estado transitório, mas modo de ser — e é nisso que sua modernidade reside, não na temática, mas na estrutura de gozo que propõe ao leitor.


Referências

Lacan, Jacques. O seminário, livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

Lacan, Jacques. O seminário, livro XVII: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

Lacan, Jacques. O seminário, livro XX: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

Lacan, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

Assis, Machado de. Contos completos. Organização de João Cezar de Castro Rocha. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

Zizek, Slavoj. O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política. São Paulo: Boitempo, 2001.

Copjec, Joan. Read my desire: Lacan against the historicists. Cambridge, MA: MIT Press, 1994.

Badiou, Alain. O século. São Paulo: Perspectiva, 2008.

Miller, Jacques-Alain. "A fantasia, lógica do gozo". In: Gozar: seminário da AMP 2003-2004. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

O Tríptico da Dúvida.

O Tríptico da Dúvida: "Missa do Galo", "A Igreja do Diabo" e "O Segredo de Augusta" como Variantes de uma Hermenêutica da Impossibilidade


1. Introdução: três contos, uma estrutura

Publicados entre 1883 e 1893, "A igreja do Diabo", "O segredo de Augusta" e "Missa do Galo" constituem um tríptico hermenêutico: três abordagens do enigma, três registros temáticos, uma mesma estrutura de indeterminação. Se "Missa do Galo" opera no campo do desejo erótico-religioso, "A igreja do Diabo" desloca-se para o terreno da instituição eclesiástica, e "O segredo de Augusta" para o âmbito da moralidade burguesa. Em cada um, a hermenêutica da impossibilidade assume configurações distintas, revelando a versatilidade do método machadiano.


2. "A igreja do Diabo" (1883): a hermenêutica institucional

O conto narra a história de um padre que, cansado da hipocrisia da Igreja oficial, funda uma "igreja do Diabo" onde se pratica o mal abertamente, como forma de sinceridade. O final revela que tudo era um sonho — ou não: o narrador desdiz a interpretação onírica, sugerindo que talvez o sonho fosse a própria realidade.


2.1. A instituição como texto

Se em "Missa do Galo" o objeto hermenêutico é o desejo individual, em "A igreja do Diabo" é a Igreja como instituição interpretativa. A Igreja católica, na tradição filológico-teológica, é o guardiã do método hermenêutico: ela fixa o canôn, estabelece as regras de leitura, media entre o texto sagrado e o fiel. Machado subverte essa função: a Igreja no conto é aparato de dissimulação, não de revelação.

O padre-protagonista propõe uma contra-hermenêutica: se a Igreja oficial lê o mundo como bem (mas pratica o mal), sua igreja lerá o mundo como mal (mas praticará a sinceridade). Essa inversão, contudo, não resolve o problema hermenêutico — apenas o duplica. O mal, quando institucionalizado, torna-se tão convencional quanto o bem; a sinceridade forçada é tão falsa quanto a hipocrisia.


2.2. O sonho como aporia

O final do conto é uma aporia estrutural: "Era sonho? Não era sonho?". Esta indeterminação não é recurso literário menor, mas teoria do conhecimento em ação. A distinção entre realidade e sonho pressupõe um critério de verdade que o texto recusa fornecer. Se era sonho, a crítica à Igreja é desarmada (não passou de devaneio); se não era, a crítica é redobrada (a realidade é tão absurda quanto o sonho). Ambas as leituras são igualmente válidas e igualmente insuficientes.

Comparativamente: enquanto "Missa do Galo" suspende o juízo moral (adulterou ou não?), "A igreja do Diabo" suspende o juízo ontológico (aconteceu ou não?). A hermenêutica da impossibilidade, aqui, atinge o fundamento da realidade.


3. "O segredo de Augusta" (1892): a hermenêutica social

O conto apresenta Augusta, mulher casada, que possui um "segredo" nunca revelado ao leitor. Sua amiga, D. Fernanda, tenta descobri-lo; o narrador, posicionado como observador, também especula. O segredo permanece oculto, mas sua existência transforma Augusta em objeto de fascinação.


3.1. O segredo como commodity

Em "Missa do Galo", o não-dito é estrutural (o desejo não pode ser nomeado); em "O segredo de Augusta", o não-dito é socialmente produzido. A burguesia machadiana, como observa Roberto Schwarz, vive da aparência: o que importa não é o que se é, mas o que se parece ser. O segredo de Augusta funciona como capital simbólico — seu valor reside precisamente na não-revelação.

A hermenêutica social opera aqui como economia da curiosidade: D. Fernanda e o narrador investem energia interpretativa na descoberta do segredo, mas esse investimento não busca retorno, apenas a manutenção do investimento mesmo. O segredo, uma vez revelado, perderia valor; a dúvida, mantida, gera renda simbólica contínua.


3.2. A mulher como enigma

A comparação com "Missa do Galo" é reveladora. Ambos os contos têm narradoras femininas (ou focalizadas por mulheres) cujo interior é inacessível. Mas enquanto a viúva de "Missa do Galo" narra sua própria opacidade (sabe que não sabe), Augusta performa sua opacidade (sabe que os outros não sabem, e lucra com isso).

Isso introduz uma terceira camada hermenêutica: em "Missa do Galo", temos leitor → narradora → evento; em "O segredo de Augusta", temos leitor → narrador → D. Fernanda → Augusta → segredo. Cada mediação aumenta a distância interpretativa, mas também aumenta o prazer da mediação. A hermenêutica da impossibilidade, aqui, é erótica social: o desejo de saber substitui o saber, e a sedução da interpretação substitui a interpretação bem-sucedida.


4. Tabela comparativa: três modos de indeterminação

Aspecto "A igreja do Diabo" (1883) "O segredo de Augusta" (1892) "Missa do Galo" (1893) 

Registro temático Instituição religiosa Moralidade burguesa Desejo erótico-religioso 

Objeto hermenêutico Realidade vs. sonho Segredo social Culpa vs. inocência 

Tipo de indeterminação Ontológica (aconteceu?) Social (existe o segredo?) Moral/psicológica (houve ato?) 

Narrador Homem, autoritário, duvidoso Homem, voyeur, frustrado Mulher, auto-ocultante, ambígua 

Instituição em questão Igreja Católica Casamento burguês Liturgia católica 

Efeito no leitor Desestabilização ontológica Complicidade voyeurística Identificação melancólica 

Tempo narrativo Presente onírico Presente social Passado rememorado 

Teologia correspondente Teologia negativa (Deus oculto) Teologia da glória (aparência) Teologia da dúvida (indeterminação) 


5. A hermenêutica da impossibilidade como método geral


Esses três contos permitem sistematizar a hermenêutica machadiana em três princípios:

Princípio da equidistância: o texto mantém abertas interpretações incompatíveis, sem favorecer nenhuma. Em "A igreja do Diabo", sonho e realidade têm peso igual; em "O segredo de Augusta", a existência e a inexistência do segredo são igualmente plausíveis; em "Missa do Galo", culpa e inocência coexistem.

Princípio da regressão infinita: toda interpretação gera necessidade de mais interpretação. O narrador de "A igreja do Diabo" interpreta o sonho, depois interpreta a interpretação; D. Fernanda especula sobre o segredo, gerando novas especulações; a viúva relembra, questionando o próprio relembrar.

Princípio do efeito de vazio: a indeterminação não é defeito a ser sanado, mas efeito estético buscado. O vazio hermenêutico é o lugar onde o leitor é forçado a confrontar sua própria projeção interpretativa — não o sentido do texto, mas o texto como espelho do desejo de sentido do leitor.


6. Implicações: além da hermenêutica filosófica

Gadamer e Ricœur, como vimos, pressupõem que a interpretação, embora histórica, ainda assim enriquece o sentido. Machado demonstra que há um limite onde a interpretação não enriquece, apenas repete a estrutura do vazio.


Este limite tem consequências:

Para a teoria literária: a hermenêutica da impossibilidade sugere que a "abertura" do texto (Eco) ou a "escrita" (Derrida) não são invenções do século XX, mas já operavam na ficção realista brasileira — precisamente como crítica interna ao realismo.

Para a história das ideias: Machado antecipa não apenas a hermenêutica filosófica, mas sua deconstrução pós-moderna. Se Gadamer é a "idade de ouro" da hermenêutica (sentido possível) e Derrida é a "idade de ferro" (sentido impossível), Machado é a idade do limiar — onde a possibilidade e a impossibilidade se tocam.

Para a crítica brasileira: a leitura de Roberto Schwarz, que enfatiza a "ideia fora do lugar" de Machado, pode ser complementada por uma leitura que enfatize a dúvida fora do lugar — a impossibilidade de fixar sentido como marca da modernidade periférica.


7. Conclusão: o tríptico como teoria da ficção

Lidos em conjunto, "A igreja do Diabo", "O segredo de Augusta" e "Missa do Galo" constituem uma teoria da ficção machadiana. Cada conto explora uma dimensão da indeterminação: a ontológica, a social, a psicológica. Juntos, demonstram que a hermenêutica da impossibilidade não é um recurso temático (aplicável apenas a certos assuntos), mas uma estrutura formal (aplicável a qualquer assunto).

A comparação com Gadamer e Ricœur, novamente, revela a especificidade de Machado. Para os filósofos hermenêuticos, o texto é diálogo — mesmo que infinito, mesmo que histórico, ainda assim diálogo. Para Machado, o texto é monólogo que se desfaz — a voz que fala para si mesma, descobrindo que não há interlocutor, nem mesmo em si mesma.

A "aplicação" de Gadamer e Ricœur a esses três contos produz, portanto, não uma interpretação, mas uma auto-refutação hermenêutica: o método filosófico, levado ao limite, demonstra sua própria insuficiência. E é precisamente essa insuficiência que Machado celebra — não como tragédia, mas como condição da literatura moderna.


Referências

Assis, Machado de. Contos completos. Organização de João Cezar de Castro Rocha. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2006.

Schwarz, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 2000.

Schwarz, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

Gadamer, Hans-Georg. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 1999.

Ricœur, Paul. Tempo e narrativa. Campinas: Papirus, 1994.

Derrida, Jacques. De la grammatologie. Paris: Minuit, 1967.

Eco, Umberto. Lector in fabula. Milano: Bompiani, 1979.

Iser, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: Edusp, 1996.

Jauss, Hans Robert. Experiência estética e hermenêutica literária. São Paulo: Edusp, 1994.

Da Teologia da Dúvida à Hermenêutica Filosófica.

Da Teologia da Dúvida à Hermenêutica Filosófica: Machado de Assis como Precursor de Gadamer e Ricœur


1. O círculo hermenêutico e sua inversão machadiana

A hermenêutica filosófica contemporânea, especialmente na formulação de Hans-Georg Gadamer (1900-2002), fundamenta-se na noção de círculo hermenêutico: a compreensão do todo pressupõe a compreensão das partes, e vice-versa, num movimento circular que nunca se fecha definitivamente. Em Verdade e método (1960), Gadamer argumenta que a interpretação não é reconstrução do sentido original, mas fusão de horizontes — o encontro entre o horizonte histórico do texto e o horizonte histórico do intérprete.

Para Paul Ricœur (1913-2005), a hermenêutica deve superar a oposição entre explicação (método científico) e compreensão (método humanístico). Em De texto à ação (1986) e Tempo e narrativa (1983-1985), Ricœur desenvolve uma hermenêutica do suspeita e da afirmação: o texto não revela imediatamente um mundo, mas o propõe; o leitor, ao interpretar, não apenas descobre, mas habita esse mundo proposto.

Machado de Assis, cronologicamente anterior a ambos, constrói uma poética que inverte o círculo hermenêutico tradicional. Se Gadamer e Ricœur partem da premissa de que a interpretação, embora histórica e parcial, ainda assim aproxima-se do sentido, Machado parte da premissa oposta: toda interpretação é desvio, e esse desvio é constitutivo. O círculo hermenêutico em Machado não é uma espiral ascendente, mas um labirinto sem saída — onde cada interpretação gera não clarificação, mas mais interpretação, numa regressão infinita.


2. Gadamer e a consciência histórica: Machado como "efeito de verdade"

Gadamer distingue entre consciência histórica ingênua — que pretende transcender sua própria historicidade — e consciência historicamente efetiva (wirkungsgeschichtliches Bewußtsein) — que reconhece sua inserção na história como condição de compreensão. A "verdade" em Gadamer não é correspondência entre proposição e estado de coisas, mas efeito de verdade (Wahrheitswirkung) — o modo como uma obra se revela verdadeira para um intérprete situado.

Aplicado a Machado, este conceito revela uma tensão produtiva. Os narradores machadianos — especialmente a viúva de "Missa do Galo" — possuem uma consciência historicamente efetiva radical: eles sabem que recordar é interpretar, que interpretar é construir, e que construir é, inevitavelmente, inventar. Contudo, diferentemente do otimismo gadameriano (onde a fusão de horizontes enriquece o sentido), a consciência machadiana produz melancolia hermenêutica: a certeza de que nunca se chegará ao "como realmente foi", não porque o acesso seja dificultado, mas porque não há "realmente" a ser acessado — apenas versões, releituras, reconstruções.

O "efeito de verdade" em Machado é, portanto, um efeito de verdade sobre a impossibilidade de verdade. A viúva, ao narrar, não nos dá acesso a um evento passado, mas nos dá acesso à estrutura da memória como ficção — algo que Gadamer, preso à tradição romântica da hermenêutica, não leva em conta.


3. Ricœur: a narrativa como "mundo do texto" versus o "não-mundo" machadiano

Ricœur, em Tempo e narrativa, desenvolve uma teoria da mimesis narrativa em três estágios:

- Mimesis I (prefiguração): a experiência pré-narrativa do tempo humano

- Mimesis II (configuração): a organização do enredo (muthos)

- Mimesis III (refiguração): a aplicação do texto à ação do leitor

Para Ricœur, o texto literário "desenha um mundo" (entwirft eine Welt, na formulação heideggeriana) que o leitor pode habitar. A ficção não é fuga da realidade, mas laboratório de possibilidades existenciais.

Machado subverte essa arquitetura. Em "Missa do Galo", não há Mimesis I estável: a experiência pré-narrativa é já contaminada pela narrativa futura (a viúva só "sabe" o que sentiu porque agora narra). Não há Mimesis II configurada: o enredo é deliberadamente fragmentado, com lacunas que não são preenchidas. E não há Mimesis III refiguradora: o leitor não pode "habitar" o mundo do texto porque esse mundo é intencionalmente desabitável — é um mundo de portas fechadas, de olhares que não encontram confirmação, de gestos que não se completam.

O que Ricœur chama de "mundo do texto", em Machado torna-se "não-mundo do texto" — uma proposição de sentido que se auto-revoga. A viúva propõe um mundo de desejo possível, mas imediatamente o suspende; propõe um mundo de culpa possível, mas igualmente o suspende. O resultado não é a "referência segunda" ricoeuriana (o mundo ficcional como redescrição do mundo real), mas uma referência negativa: o texto refere-se à impossibilidade de sua própria referência.


4. A hermenêutica do suspeita: Freud, Marx, Nietzsche e Machado

Ricœur, em Freud e a filosofia (1965), identifica três "mestres da suspeita": Marx (a consciência falsa como produto das relações sociais de produção), Nietzsche (a verdade como ilusão fixada pelo poder) e Freud (a consciência como efeito de forças inconscientes). A hermenêutica do suspeita desvela, atrás das aparências, uma realidade oculta — mas uma realidade ainda assim positiva (a luta de classes, a vontade de potência, o inconsciente).

Machado antecipa essa hermenêutica, mas a esvazia de seu conteúdo positivo. Seus narradores são mestres da suspeita: desconfiam de si mesmos, dos outros, da linguagem. Mas, diferentemente dos mestres da suspeita ricoeurianos, não encontram nada por trás da suspeita — apenas mais suspeita.

A viúva de "Missa do Galo" desconfia de sua própria memória ("será que foi assim?"), do cavalheiro ("será que ele desejava?"), da liturgia ("será que a missa significava algo?"). Mas essa desconfiança não revela uma verdade oculta (como em Freud), não desmascara uma ideologia (como em Marx), não transvaloriza valores (como em Nietzsche). Revela apenas a estrutura mesma da desconfiança como modo de ser moderno.

Machado é, assim, o quarto mestre da suspeita — aquele que suspeita da própria suspeita, e nisso antecipa a crítica pós-moderna à hermenêutica filosófica.


5. O tempo narrativo: Ricœur versus Machado

Em Tempo e narrativa, Ricœur busca resolver a aporia do tempo fenomenológico (o tempo vivido como "duração" bergsoniana) e do tempo cosmológico (o tempo medido como sucessão de instantes). A narrativa, para Ricœur, é o terceiro tempo que medeia entre essas duas aporias, criando uma "configuração temporal" onde o passado, o presente e o futuro se articulam em uma totalidade significativa.

A temporalidade em "Missa do Galo" resiste a essa mediação. O conto opera com três tempos:

Tempo Característica Função hermenêutica 

Tempo da narração (presente da viúva) Indeterminado, posterior ao evento Interpretação retrospectiva 

Tempo do evento (noite de Natal) Suspenso, nunca plenamente acessível Objeto da interpretação 

Tempo da leitura (presente do leitor) Simultâneo à narração, mas estranho a ela Interpretação da interpretação 

Esses tempos não se articulam numa "totalidade significativa" ricoeuriana. Pelo contrário, cada tempo subverte o anterior: o presente da narração contamina o passado do evento (a memória é reconstrução); o presente da leitura desestabiliza a narração (percebemos as contradições que a narradora não percebe). O resultado não é uma "configuração" temporal, mas uma desfiguração — o tempo como problema irresolvível.


6. Distânciação e apropriação: o paradoxo machadiano

Ricœur, em De texto à ação, desenvolve os conceitos de distânciação (Distanciation) e apropriação (Aneignung). A distânciação é a objetivação do sentido no texto, que libera a mensagem de sua intenção original; a apropriação é o movimento pelo qual o leitor faz seu o sentido distanciado, aplicando-o à sua própria situação.

Machado radicaliza a distânciação até seu limite paradoxal. Em "Missa do Galo", há uma distânciação sem apropriação possível: o texto objetifica um sentido (o enigma do desejo), mas esse sentido é intencionalmente inapropriável. O leitor não pode "fazer seu" o mundo do conto porque esse mundo recusa-se a ser habitado — é um mundo de espectros, de gestos incompletos, de palavras não ditas.

A "apropriação" machadiana é, na verdade, uma expropriação: o leitor é despojado de sua segurança hermenêutica, forçado a reconhecer que a interpretação não conduz à posse do sentido, mas à constatação da sua elusividade. Isso não é falha do texto, mas sua condição de possibilidade: só porque o sentido não pode ser apropriado, ele permanece como questão — e é essa permanência questionante que caracteriza a experiência estética moderna.


7. Conclusão: Machado como limite da hermenêutica filosófica

A leitura de Machado através de Gadamer e Ricœur revela não apenas afinidades, mas limites. A hermenêutica filosófica do século XX, mesmo em suas formulações mais sofisticadas, pressupõe que a interpretação, embora histórica e parcial, ainda assim aproxima-se do sentido — que a fusão de horizontes é enriquecimento, que o mundo do texto é habitável, que a suspeita revela uma verdade.

Machado nega todas essas premissas. Sua "teologia da dúvida" não é uma hermenêutica do sentido oculto, mas uma hermenêutica do não-senso constitutivo — onde a interpretação não revela, apenas revela a revelação como impossível.

Isso não significa que Gadamer e Ricœur sejam inaplicáveis a Machado. Pelo contrário: são necessariamente aplicáveis, precisamente para demonstrar onde falham. A hermenêutica filosófica encontra em Machado seu limite interno — o ponto onde a tradição que ela busca compreender se recusa a ser compreendida, não por obscurantismo, mas por excesso de lucidez.

Machado de Assis é, assim, o anti-filósofo hermenêutico por excelência: aquele que constrói textos que só podem ser lidos hermenêuticamente para demonstrar a insuficiência da leitura hermenêutica. Sua modernidade não está em negar a tradição, mas em assumir a tradição para melhor subvertê-la — não pelo exterior, mas pelo interior, não pela violência, mas pela ironia.

A "aplicação" de Gadamer e Ricœur a Machado produz, portanto, não uma interpretação definitiva, mas uma interpretação da impossibilidade da interpretação — que é, talvez, a única forma de fazer justiça a um autor que fez da dúvida não método, mas destino.


Referências

Gadamer, Hans-Georg. Verdade e método. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1999. 2 vols.

Ricœur, Paul. Tempo e narrativa. Tradução de Constanza Marques. Campinas: Papirus, 1994. 3 vols.

Ricœur, Paul. De texto à ação: ensaios de hermenêutica II. São Paulo: Papirus, 1993.

Ricœur, Paul. Freud e a filosofia: ensaio de interpretação. Rio de Janeiro: Forense, 1970.

Grondin, Jean. Introdução à hermenêutica filosófica. Petrópolis: Vozes, 2008.

Davey, Nicholas. Unquiet understanding: Gadamer's philosophical hermeneutics. Albany: SUNY Press, 2006.

Kearney, Richard. On Paul Ricoeur: the owl of Minerva. Aldershot: Ashgate, 2004.

Assis, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. 3 vols.

A Teologia Negativa como Chave Hermenêutica.

A Teologia Negativa como Chave Hermenêutica: Machado de Assis entre Pseudo-Dionísio e Mestre Eckhart


1. Fundamentos da teologia apofática

A teologia negativa (via negativa) constitui uma tradição mística cristã que sustenta a impossibilidade de predicar positivamente de Deus. Seu fundamento filosófico remonta ao neoplatonismo de Plotino, mas sua formulação cristã mais influente é atribuída a Pseudo-Dionísio, o Areopagita (século V-VI), monge provavelmente sírio autor de Da hierarquia celeste, Da hierarquia eclesiástica, Dos nomes divinos e Da teologia mística.

O núcleo da doutrina dionisiana pode ser assim resumido: Deus é "superessencial" (hyperousios), situando-se além de toda afirmação e negação. As afirmações teológicas (kataphasis) são necessárias mas inadequadas; as negações (apophasis) são mais verdadeiras, mas ainda insuficientes. A verdadeira teologia mística transcende até mesmo a negação, alcançando uma "escuridão luminosa" (caligo luminosa) onde o intelecto se silencia.

No século XIV, Mestre Eckhart (c. 1260-1327) radicaliza essa tradição, especialmente em seus sermões em alemão vulgar. Para Eckhart, Deus é "puro nada" (rein Nichts) no sentido de estar além de toda determinação ontológica. A alma alcança a união mística quando renuncia não apenas às criaturas, mas à própria vontade e imaginação de Deus — um "desapego absoluto" (Gelâzenheit).

A questão que se impõe: de que modo essa tradição, desenvolvida para falar do inefável divino, pode iluminar a ficção de Machado de Assis, um escritor laico do século XIX?


2. O inefável erótico: Pseudo-Dionísio e "Missa do Galo"

Retomemos o trecho central do conto:

> "Os olhos dele fitavam-me com tal intensidade que eu sentia fogo em mim."

Pseudo-Dionísio, em Dos nomes divinos, desenvolve uma teologia do êxtase erótico como metáfora da união com Deus. O amor divino é "extático" (ekstatikos) porque leva o amante fora de si mesmo. Contudo, esse êxtase nunca é plenamente articulável: o Capítulo VII de Da teologia mística consiste em uma série de negações — "Ele não é um, não é unidade, não é divindade ou bondade".

Em "Missa do Galo", o desejo opera de modo estruturalmente análogo. A narradora descreve uma experiência que excede sua capacidade de nomeação: "fogo em mim". Não diz "desejo", "paixão" ou "culpa" — termos que fixariam a experiência em uma categoria moral ou psicológica. O "fogo" é uma metáfora que queima a própria metáfora, apontando para algo que não pode ser diretamente dito.

A hierarquia dionisiana — a progressão através de símbolos materiais em direção ao inmaterial — é subvertida por Machado. Na teologia positiva, o fogo seria um vestígium que conduziria a uma verdade superior. Em Machado, o fogo permanece opaco: não há ascensão, apenas incandescência sem combustão. O desejo não se eleva ao espiritual nem se condena ao carnal; permanece suspenso, inefável.


3. O Deus oculto e o narrador escondido: Eckhart e a desconstrução do eu

Mestre Eckhart distingue entre Deus (Gott) e a divindade (Gottheit). Deus é o Deus das propriedades, dos atributos, da trindade — objeto de teologia positiva. A divindade é o fundo abissal, o "deserto" onde Deus despojado de si mesmo habita. O alma só alcança este Deus quando se torna "puro nada", despojando-se inclusive de sua própria identidade.

Esta estrutura mística encontra um paralelo perturbador na técnica narrativa de Machado. Seus narradores — Brás Cubas, Dom Casmurro, a viúva de "Missa do Galo" — são mestres da auto-ocultação. Não mentem explicitamente; antes, dissolvem-se na própria narrativa.

A viúva de "Missa do Galo" nunca se nomeia. Conta uma história de desejo sem confessar seu próprio desejo. Como o místico eckhartiano que busca o "deserto" da alma, ela parece ter alcançado uma espécie de Gelâzenheit narrativa: não se apega nem à inocência nem à culpa, deixando que o leitor projete sobre seu silêncio.

Mas aqui reside a diferença crucial. Para Eckhart, o despojamento leva à união com o Ser supremo. Para Machado, o despojamento leva à indeterminação ontológica. O eu narrativo não encontra Deus no fundo de si mesmo; encontra apenas mais texto, mais camadas de interpretação possíveis.


4. A "escuridão luminosa" como estrutura narrativa

Pseudo-Dionísio descreve a experiência mística suprema como uma "escuridão luminosa" — não a ausência de luz, mas uma luz tão intensa que ofusca a visão. Esta paradoxologia é fundamental para a teologia apofática: o conhecimento de Deus é simultaneamente o mais luminoso e o mais obscuro.

Machado constrói "Missa do Galo" segundo uma estrutura homóloga. O conto é narrado em duas temporalidades: o presente da narração (a viúva relembrando) e o passado do evento (a noite de Natal). Entre essas duas camadas, há uma iluminação que ofusca: a memória não clarifica, mas torna mais enigmático.

O título mesmo do conto opera como uma "escuridão luminosa". "Missa do Galo" é uma expressão transparente para o leitor católico: a celebração do nascimento de Cristo. Mas no interior do texto, essa transparência se torna opacidade: a missa é cenário de desejo, o galo canta para ninguém, o nascimento do Salvador é substituído pelo (não)nascimento de um amor proibido.

A luz do título — a clareza litúrgica — torna-se escuridão na narrativa: não se sabe o que realmente aconteceu. E reciprocamente, a escuridão do enigma — o que ocorreu na sacristia? — torna-se luminosa: é precisamente a indeterminação que permite a perpetuação do desejo, sua existência como desejo, não como satisfação ou frustração.


5. A linguagem do não-dito: paralelos textuais

Para demonstrar a produtividade desta leitura, apresento uma tabela comparativa de estratégias retóricas:

Pseudo-Dionísio Mestre Eckhart Machado de Assis ("Missa do Galo") 

"Superessencial" (hyperousios) — além do ser "Puro nada" (rein Nichts) — além da determinação A viúva sem nome — além da identidade moral 

"Escuridão luminosa" (caligo luminosa) "Deserto" da alma A sacristia — espaço liminar, iluminado e obscuro 

Hierarquia de negações Desapego progressivo Suspensão narrativa — nada é confirmado nem negado 

Êxtase erótico como metáfora da união Nascimento de Deus na alma Desejo não realizado como preservação do desejável 

Silêncio como fim da teologia Mudez mística O final abrupto: "Fim" — sem conclusão 


6. Implicações: Machado como místico da dúvida

Se a teologia negativa busca, através do silêncio, alcançar o Deus que excede toda linguagem, Machado busca, através da ambiguidade, preservar o real que excede toda narrativa. Não é Deus que está em jogo em "Missa do Galo", mas algo igualmente inefável: a verdade do desejo humano, que se destroi quando nomeado, fixado, julgado.

A viúva, como narradora, é uma mística laica: ela sabe que a verdadeira experiência não suporta a confissão. Se dissesse "adulterei", tornaria o desejo crime; se dissesse "resisti", tornaria o desejo virtude. Ambas as formulações seriam traições à complexidade da experiência. O silêncio — a apofasis machadiana — é a única fidelidade possível.

Contudo, há uma diferença ética fundamental. A teologia negativa pressupõe que, além do silêncio, há presença — Deus, o Bem, o Um. Machado pressupõe que, além do silêncio, há ausência: não o nada metafísico, mas o vazio estrutural de toda narrativa que pretende capturar a vida. A dúvida em Machado não é um método ascensional, mas uma condição residencial: habitamos a interpretação sem saída, não porque a verdade seja inatingível, mas porque não há verdade a atingir — apenas mais texto, mais memória, mais desejo.


7. Conclusão: a modernidade como teologia invertida

A leitura filológico-teológica de "Missa do Galo" através da teologia negativa revela que a modernidade literária não é simplesmente a negação da tradição religiosa, mas sua deslocação estrutural. Machado preserva a forma da experiência mística — o êxtase, o silêncio, o despojamento — mas esvazia-a de seu conteúdo transcendente.

O resultado é uma teologia da dúvida que funciona como negatividade pura: não a negação de algo, mas a negação como algo. A dúvida não é provisória, a espera de uma evidência futura; é constitutiva, a marca do sujeito moderno que sabe que toda narrativa é construção, toda memória é ficção, todo desejo é interpretação.

Para o estudioso formado na tradição filológica, esta conclusão oferece não uma confirmação, mas um desafio: o método que desenvolvemos para ler textos sagrados revela, aplicado a Machado, que a sagralidade do texto reside precisamente em sua impossibilidade de ser sagrado — em sua resistência à fixação de sentido que a teologia, mesmo a negativa, sempre pressupôs como ideal.

Machado de Assis é, assim, o último dos místicos medievais e o primeiro dos modernistas: aquele que levou a via negativa até seu limite absoluto, descobrindo que, no fim do caminho, não há Deus nem sua ausência — há apenas mais uma página para ser lida, mais uma vez, de outro modo.


Referências específicas

Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Obras completas. Tradução de Guilherme de Oliveira. São Paulo: É Realizações, 2015.

Eckhart, Mestre. Tratados e sermões. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

Lossky, Vladimir. Teología mística de la Iglesia de Oriente. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1983.

Turner, Denys. The Darkness of God: Negativity in Christian Mysticism. Cambridge: Cambridge University Press, 1995.

Assis, Machado de. Obra completa. Organização de Aluizio Leite et al. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. 3 vols.

Schwarz, Roberto. A master on the periphery of capitalism: Machado de Assis. Durham: Duke University Press, 2001.

Uma Leitura Filológico-Teológica de "Missa do Galo"

Aplicação Prática: Uma Leitura Filológico-Teológica de "Missa do Galo"

1. O texto-problema: estabelecimento da lectio

O conto "Missa do Galo" foi publicado em 1893, na coletânea Páginas Recolhidas. A narrativa é construída em torno de um enigma central: houve ou não houve adultério entre a narradora e o cavalheiro que a acompanha à missa? A ambiguidade é estrutural — não acidental.

Para esta análise, seleciono o trecho crucial, em que a narradora descreve o momento da comunhão:

> "Os olhos dele fitavam-me com tal intensidade que eu sentia fogo em mim. A missa acabou, saímos. No escuro da sacristia, ele apertou-me a mão."

Este trecho funciona como o centro gravitacional do conto: o momento em que o sagrado (a missa, a comunhão) e o profano (o desejo, o toque) se interceptam. Aplicaremos a este trecho três procedimentos filológicos: a crítica textual das variantes, a análise da lectio difficilior e a crítica de fontes litúrgicas.


2. Crítica textual das variantes: o que não está escrito

A crítica textual bíblica, desde Lachmann, opera com o princípio de que as variantes entre manuscritos revelam tanto o processo de transmissão quanto tensões hermenêuticas. Aplicado a Machado, este método revela não variantes manuscritas (o conto foi publicado em vida do autor, com supervisão direta), mas variantes narrativas — o que o texto omite, suprime ou deixa em aberto.


Variante 1: O olhar

A narradora diz que "sentia fogo em mim". Mas o que isso significa? É confissão de culpa, relato de desejo reciproco, ou projeção da paixão do outro sobre si mesma? A filologia teológica, ao encontrar uma expressão ambígua num texto sagrado, buscaria paralelos lexicais para fixar o sentido. Aplicado a Machado, o método revela que não há paralelo fixador: o "fogo" pode ser o da concupiscência (leitura carnal), o da vergonha (leitura moral) ou o da imaginação febril (leitura psicanalítica). A ambiguidade não é um defeito de transmissão, mas uma variante intencional que o autor preserva.


Variante 2: O aperto de mão

"Ele apertou-me a mão". Na filologia bíblica, gestos de contato físico são analisados segundo contextos culturais: um aperto de mão pode ser saudação, pacto, posse ou consolação. Aqui, o gesto ocorre "no escuro da sacristia" — espaço liminar entre o sagrado (altar) e o profano (rua). A crítica de fontes litúrgicas revela que a sacristia é, tradicionalmente, o lugar de vestir as vestes sacerdotais — o sacrista é o guardião dos objetos sagrados. O adultério, se houve, não ocorre no altar (sacrilégio explícito), mas neste espaço de transição: o desejo profana o sagrado não por violência, mas por contiguidade.


3. A lectio difficilior: a leitura mais difícil

Um princípio fundamental da crítica textual é a lectio difficilior potior: quando há variantes, a leitura mais difícil (a mais estranha, a mais incômoda) é geralmente a original, pois os copistas tendem a suavizar o texto. Aplicado hermeneuticamente, este princípio sugere que a interpretação mais incômoda deve ser considerada com seriedade.

Qual seria a lectio difficilior de "Missa do Galo"? Não a leitura que confirma o adultério (desejo consumado), nem a que o nega (inocência preservada), mas a que sustenta a indeterminação como condição do sujeito moderno.

A narradora é viúva — já conheceu a carne. O cavalheiro é casado — está proibido de conhecê-la. A missa do galo é a celebração do nascimento de Cristo — momento de encarnação do Verbo. O conto articula, silenciosamente, uma teologia da encarnação frustrada: o Verbo não se fez carne; o desejo não se realizou em ato. A lectio difficilior é, portanto, que nada aconteceu, e isso é pior: a suspensão do desejo é mais torturante que sua consumação.

A filologia teológica, aplicada aqui, não resolve o enigma, mas agudiza a tensão: a dúvida não é um estado a ser superado, mas a condição estrutural da narrativa.


4. Crítica de fontes: a liturgia subvertida

A "missa do galo" (Missa in gallicantu) é, na tradição católica, a celebração do Natal que antecede o amanhecer, comemorando o nascimento de Cristo. Sua estrutura litúrgica inclui:

- Leituras: profecias messiânicas (Isaías) e narrativas da natividade (Lucas)

- Ofertório: apresentação dos dons

- Consagração: transformação do pão e vinho em Corpo e Sangue

- Comunhão: recepção da hóstia


Machado desloca todos esses elementos:

Elemento litúrgico Subversão machadiana 

Profecia A narradora relembra o passado, mas de modo incompleto 

Ofertório O cavalheiro oferece sua atenção, não dons materiais 

Consagração O olhar é intensificado ("fogo em mim"), mas não transforma 

Comunhão O aperto de mão substitui a hóstia; o contato físico profana o ritual 

A crítica de fontes revela que Machado conhecia essa estrutura — e a subverteu sistematicamente. A "comunhão" no conto é uma comunhão negativa: dois corpos que não se unem, dois desejos que não se confessam, um rito que não salva.


5. Síntese: uma teologia da dúvida

A aplicação dos métodos filológico-teológicos a "Missa do Galo" não produz uma interpretação definitiva, mas uma teologia da dúvida — forma específica de modernidade literária.

Primeiro, a crítica textual das variantes mostra que a ambiguidade em Machado não é acidental, mas construída: o texto preserva múltiplas leituras incompatíveis.

Segundo, a lectio difficilior sugere que a interpretação mais incômoda — a suspensão do sentido — é a mais fiel à estrutura do conto.

Terceiro, a crítica de fontes demonstra que Machado opera por paródia erudita: conhece a liturgia para melhor desviá-la.

O resultado não é uma "teologia de Machado de Assis" (o autor era agnóstico, emboro de formação católica), mas uma teologia do texto machadiano: a literatura moderna emerge quando a tradição filológico-teológica é aplicada a si mesma, revelando suas próprias lacunas.


6. Implicações hermenêuticas

Esta leitura sugere que a tensão entre estética (proto)modernista e teologia filológica não é de simples incompatibilidade, mas de deslocamento funcional. O método filológico, desenvolvido para fixar o sentido das Escrituras, revela, aplicado a Machado, a impossibilidade de fixação. A teologia da dúvida que emerge não é uma teologia do ateísmo, mas uma teologia do não-saber — docta ignorantia moderna.

Para o estudioso formado na tradição filológica, esta conclusão pode parecer frustrante: o método não revela a verdade, apenas a estrutura da sua ausência. Mas é precisamente isso que caracteriza a modernidade literária: a consciência de que a profundidade textual não garante profundidade de sentido, apenas profundidade de interpretação.


Referências para aprofundamento

Auerbach, Erich. Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo: Perspectiva, 2007.

Bultmann, Rudolf. Jesus: Mitologia e desmitologização. Petrópolis: Vozes, 2011.

Gadamer, Hans-Georg. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 1999.

Gledson, John. Machado de Assis: ficcionalidade e história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

Jauss, Hans Robert. Experiência estética e hermenêutica literária. São Paulo: Edusp, 1994.

Maingueneau, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2013.

Nietzsche, Friedrich. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. São Paulo: Hedra, 2007.

Tensão entre Estética (Protomodernista) e a Teologia Filológica.

Machado de Assis e a Tensão entre Estética (Proto)Modernista e Teologia Filológica: Uma Análise Crítica


1. Situando o problema: cronologia e conceitos

Machado de Assis (1839–1908) é, cronologicamente, um escritor situado entre o Realismo, o Romantismo tardio e o Pré-Modernismo. Não pertence, estritamente, ao Modernismo brasileiro, movimento inaugurado em 1922. Contudo, sua obra tardia — especialmente romances como Dom Casmurro (1899) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), bem como contos como "Missa do Galo" (1893) — antecipa sensibilidades que serão plenamente desenvolvidas pelo modernismo: a ironia corrosiva, a fragmentação narrativa, o narrador não confiável, a dissolução do eu psicológico, a metalinguagem e o desprezo pelo sentimentalismo romântico. Assim, quando se fala em "estilo modernista" em Machado, refere-se a uma antecipação de procedimentos estéticos modernos, não a um pertencimento histórico ao movimento de 1922.

A tradição teológica embasada na filologia compreende a leitura de textos sagrados (e, por extensão, de textos literários canônicos) como artefatos linguísticos sujeitos à decifração mediante a crítica textual, a história das palavras, a análise de variantes manuscritas e o estudo de contextos culturais. Essa tradição remonta à escola de Alexandria, passa por Erasmo de Roterdã, desenvolve-se na crítica bíblica do século XIX (Lachmann, Harnack) e prossegue no século XX com teólogos como Rudolf Bultmann, que aplica a filologia à desmitologização das Escrituras. Supõe-se, nessa abordagem, que o texto possui uma profundidade vertical — camadas de sentido que a análise minuciosa da letra pode revelar, incluindo a intenção autoral, o contexto original e a verdade revelada ou histórica.


2. Pontos de tensão: incompatibilidades aparentes

A estética machadiana parece, à primeira vista, hostil a essa abordagem filológico-teológica. Há, nesse sentido, três pontos de tensão fundamentais.

Em primeiro lugar, a ironia e a ambiguidade em Machado funcionam como fim, não como meio. Ao contrário da tradição filológica, que busca revelar um sentido oculto mediante a análise das palavras, Machado celebra a indeterminação. Em "Missa do Galo", por exemplo, nunca se sabe com certeza se houve adultério ou apenas desejo imaginado. Uma teologia filológica convencional tenderia a resolver essa ambiguidade pela análise semântica dos termos "olhos", "hora", "missa". Machado, porém, constrói a ambiguidade como estrutura constitutiva do texto — não como defeito a ser sanado pela erudição.

Em segundo lugar, há uma recusa do transcendente como garantia de sentido. Diferentemente de autores medievais ou barrocos (como Padre Antônio Vieira, a quem Machado admirava, mas não imitava), o narrador machadiano não assume a existência de um Logos divino ordenando o discurso. A palavra machadiana é, por natureza, falível, dissimulada e lacunar.

Em terceiro lugar, observa-se o fim da "teologia do autor". Na tradição filológica, mesmo quando anônimo, o autor é compreendido como canal de verdade. Machado subverte essa premissa: seus narradores são mentirosos, vaidosos ou esquecidos. Não há "verdade final" que a filologia possa restaurar — apenas camadas sucessivas de interpretação.


3. Pontos de aproximação: diálogos possíveis

Nem tudo, porém, separa a estética machadiana da teologia filológica. É possível identificar três níveis de aproximação.

Primeiramente, se a filologia for compreendida não como busca da intenção original, mas como arte da leitura atenta das variantes e dos silêncios do texto, então Machado revela-se um filólogo avant la lettre. Seus contos demandam uma microanálise das palavras, dos tempos verbais, das pausas narrativas — procedimento que dialoga com a atenção filológica aos detalhes linguísticos.

Em segundo lugar, há uma afinidade entre a escrita machadiana e a teologia apofática (ou negativa), presente em autores como Pseudo-Dionísio, o Areopagita, e Mestre Eckhart. A teologia apofática sustenta que só podemos falar de Deus pelo que ele não é. Machado opera de modo semelhante com o desejo, a memória e a culpa: em "Missa do Galo", sabemos mais sobre o que não aconteceu do que sobre o que efetivamente ocorreu. Uma teologia filológica atenta à negatividade do texto poderia, portanto, estabelecer um produtivo diálogo com a ficção machadiana.

Finalmente, o sagrado profanado em Machado pode ser lido como objeto teológico. Um teólogo formado na filologia poderia analisar "Missa do Galo" como um tratado sobre o rito sem fé — a missa que não se realiza plenamente (o narrador assiste, mas apenas enxerga desejo), a hóstia que não é consumida, o confessionário invertido. Essa leitura exige conhecimento filológico: saber o que é uma "missa do galo", seu horário litúrgico, seu significado teológico. Machado conta com esse saber para melhor subvertê-lo.


4. Proposta metodológica: uma teologia da dúvida

O enquadramento proposto é viável desde que se desloque o objeto da análise. Não se trata de aplicar a "Missa do Galo" uma teologia filológica para encontrar "o sentido cristão" do conto — o que seria forçado e reducionista. Trata-se, antes, de utilizar o método filológico-teológico como lente crítica para demonstrar como Machado desconstrói a tradição que conhecia profundamente.

Machado dominava o latim, havia lido os clássicos, conhecia a Bíblia e os Padres da Igreja. Sua ironia não é ignorante, mas erudita: é a ironia de quem dominava a filologia e a teologia para melhor dissolvê-las em ambiguidade. A filologia, aplicada a Machado, não produz uma certeza, mas uma teologia da dúvida.


5. Considerações finais

É possível, portanto, enquadrar o estilo (proto)modernista de Machado de Assis numa perspectiva teológica filológica, desde que essa perspectiva não seja ingênua. Não como busca de uma verdade oculta, mas como demonstração de como a modernidade literária emerge da dissolução interna da tradição. Machado não nega a teologia: assume-a como fantasma — e a filologia serve para mostrar onde esse fantasma foi exorcizado pela ironia e pela indeterminação narrativa.


Referências sugeridas para desenvolvimento:

ASSIS, Machado de. Missa do Galo e outros contos. Organização de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

BULTMANN, Rudolf. História da tradição sinótica. Petrópolis: Vozes, 2010.

COMPAGNON, Antoine. A literatura, para que serve? São Paulo: Unesp, 2010.

GLEDSON, John. The deceptive realism of Machado de Assis. Liverpool: Francis Cairns, 1984.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 2000.

A Leitura de Machado de Assis no Interregno da Tradição Filológica Ocidental.

A leitura de Machado de Assis através da teologia filológica, da hermenêutica filosófica e da psicanálise lacaniana revela não uma simples a...