O Poder Absoluto e o Incondicional: Uma Análise Teológico-Existencial do Confronto entre Davi e Natan
Resumo
O presente ensaio propõe uma análise teológico-filosófica da dinâmica existencial entre poder temporal e poder sagrado, tomando como caso paradigmático o confronto entre o rei Davi e o profeta Natan narrado no Segundo Livro de Samuel. Através do diálogo interdisciplinar entre teologia sistemática, fenomenologia da religião e filosofia existencial, demonstra-se que o poder absoluto só encontra limite efetivo quando confrontado pelo "Incondicional" — categoria tillichiana que designa a realidade última que transcende toda condicionalidade histórica. A tese central defende que a irrupção do sagrado no mundo condicionado constitui a única forma de censura efetiva ao poder que se autopercebe como ilimitado, operando uma transformação ontológica no sujeito poderoso mediante a experiência do mysterium tremendum et fascinans descrito por Rudolf Otto.
Palavras-chave: Poder absoluto; Teologia da religião; Rudolf Otto; Paul Tillich; Incondicional; Mysterium tremendum; Ética teológica; Ontologia existencial.
1. Introdução
A questão do limite do poder constitui um dos problemas centrais da reflexão teológica e filosófica desde as origens do pensamento ocidental. A narrativa bíblica do confronto entre Davi e Natan (2Sm 12,1-15) oferece um campo fértil para a investigação das dinâmicas existenciais que operam quando o poder temporal absoluto encontra-se com a dimensão do sagrado. O presente estudo propõe-se a analisar esse encontro não meramente como um episódio de correção moral ou censura institucional, mas como uma irrupção ontológica que move a discussão do campo da ética institucional para o campo da ontologia existencial.
A hipótese central deste trabalho é que o poder absoluto só encontra parâmetros efetivos de censura quando confrontado por alguém que se apresenta na condição de representante do sagrado, pois somente o Incondicional possui autoridade suficiente para desarticular a lógica auto-referencial do poder que se crê ilimitado.
2. Fundamentação Teórico-Metodológica
2.1 O Conceito de Mysterium Tremendum et Fascinans em Rudolf Otto
Rudolf Otto (1869-1937), em sua obra seminal Das Heilige (1917), desenvolveu uma fenomenologia da experiência religiosa que se tornou fundamental para a compreensão moderna do numinoso. Otto caracteriza a experiência do sagrado como um mysterium — algo totalmente outro (ganz andere) — que se manifesta simultaneamente como tremendum e fascinans.
O elemento tremendum refere-se à dimensão aterradora, avassaladora do sagrado, que provoca uma sensação de pavor místico (schemenzitternd) diante de uma potência absolutamente superior. O elemento fascinans, por sua vez, designa a atração magnética, o fascínio exercido pelo numinoso, que simultaneamente repele e atrai o sujeito religioso (OTTO, 1917).
2.2 A Categoria do "Incondicional" em Paul Tillich
Paul Tillich (1886-1965), em sua teologia sistemática, desenvolveu a categoria do "Incondicional" (Unbedingte) como designação da realidade última que transcende toda condicionalidade histórica. Para Tillich, o ser humano vive predominantemente preocupado com as coisas condicionadas — status, poder, segurança —, mas é no confronto com o Incondicional que ele encontra tanto o seu "fundamento do ser" (Grund des Seins) quanto o "abismo do ser" (Abgrund des Seins) (TILLICH, 1951).
O Incondicional não é simplesmente um ser entre outros seres, mas a própria profundidade do ser, aquilo que dá fundamento a toda realidade condicionada sem ser, ela mesma, condicionada por nada.
3. Desenvolvimento Argumentativo
3.1 O Poder como Antítese do Limite: A Ontologia do Poder Temporal
O ser humano investido de poder temporal — seja um monarca como Davi, um imperador ou um líder político moderno — opera, por definição, no campo do condicionado. Ele controla exércitos, dita leis, distribui privilégios e molda realidades sociais conforme sua vontade. O grande perigo existencial reside no fato de que, ao exercer controle sobre múltiplas esferas da realidade, o poderoso pode desenvolver uma ilusão de imunidade diante de tudo aquilo que não pode ser controlado ou manipulado.
A narrativa bíblica apresenta Davi, no episódio de Bate-Seba e Urias, agindo como se sua vontade real constituísse a medida última das coisas. Ele tenta reduzir o mundo ao seu próprio domínio, operando uma totalização do poder que nega qualquer exterioridade. O adultério com Bate-Seba e o assassinato de Urias não são meros deslizes morais, mas expressões de uma lógica ontológica que subordina toda realidade à vontade do soberano.
O confronto com Natan, portanto, não pode ser reduzido a uma mera crítica moral ou a um conselho político. Trata-se da irrupção do Incondicionado no mundo condicionado, do encontro com uma realidade que não pode ser manipulada, comprada ou silenciada por decretos reais. O profeta representa a verticalidade que irrompe na horizontalidade do poder autonomizado.
3.2 O Fascinosum Tremendum como Experiência Limite
A experiência do numinoso descrita por Otto adquire contornos particularmente nítidos no caso do poderoso confrontado pelo sagrado. Para o detentor de poder absoluto, esse encontro constitui uma experiência limite (Grenzerfahrung) no sentido exacto do termo: é o momento em que as estruturas de sentido que sustentavam sua existência colapsam diante de uma realidade maior.
3.2.1 A Dimensão Tremendum: A Dissolução da Ilusão de Soberania
O elemento tremendum da experiência numinosa manifesta-se, no caso do poderoso, como a dissolução da ilusão de soberania. Diante do sagrado, o rei descobre que não constitui o centro do universo; ele é, fundamentalmente, apenas um homem. As vestes reais, que simbolizavam sua autoridade e distinção, caem, e ele se vê nu, em uma ressonância simbólica com a narrativa adamítica do pecado original.
A reação de Davi — "Pequei contra o Senhor" (2Sm 12,13) — não é mero reconhecimento jurídico de uma infração, mas o reconhecimento de uma nudez existencial. O poder que antes o protegia da realidade — pois o rei absoluto não precisa ouvir "não" — desaba diante de uma realidade que o precede e o excede. O tremendum é, neste sentido, a experiência da finitude radical.
3.2.2 A Dimensão Fascinans: A Possibilidade de Restauração
Apesar do terror inerente ao confronto — "tu és este homem" (2Sm 12,7) —, há um elemento fascinante na experiência, porque esse encontro também representa a única possibilidade genuína de restauração. Se o Incondicional não se manifestasse, o poderoso estaria condenado a apodrecer dentro da sua própria bolha de ilusão ontológica, cada vez mais distante da realidade e, portanto, cada vez mais destrutivo.
O confronto é, paradoxalmente, um ato de graça, pois recoloca a pessoa em seu devido lugar na ordem da criação. O fascinans reside na promessa de que, apesar da queda, há possibilidade de restauração — não através do auto-esforço, mas através do encontro com aquele que é maior.
3.3 Tillich e o "Incondicional": A Finitude como Horizonte do Poder
A análise tillichiana do Incondicional permite aprofundar a compreensão da dinâmica temporal que opera no confronto entre poder e sagrado. O poder temporal tenta, por sua natureza, negar a finitude. O rei age como se nunca fosse morrer, como se nunca fosse prestar contas, como se seu reinado pudesse se estender indefinidamente no tempo.
Contudo, o tempo é inexorável. Ele corrói reinados, apaga dinastias, esquece nomes e, eventualmente, expõe a verdade. O confronto com o sagrado, personificado no profeta Natan, é a personificação dessa inexorabilidade temporal. É o tempo — e a verdade que ele revela — batendo à porta do palácio e anunciando: "Tu és pó e ao pó voltarás; e enquanto estás aqui, há Alguém maior que tu."
O Incondicional, portanto, não é simplesmente uma instância moral superior, mas a própria realidade última diante da qual toda condicionalidade — incluindo o poder real — se revela como efêmera e dependente.
3.4 O Incondicional como Único Parâmetro de Censura ao Poder Absoluto
A tese de que "só encontra parâmetros de censura ao ser confrontado por alguém que se apresenta na condição de representante do sagrado" pode ser sustentada mediante a análise das diferentes modalidades de confronto ao poder.
3.4.1 O Confronto entre Poderes Condicionados
O poder relativo pode ser confrontado por outro poder relativo: um juiz pode confrontar um prefeito; a imprensa pode confrontar um empresário; a oposição política pode confrontar o governo. Isso é, em última instância, política — o jogo das forças condicionadas no campo do condicionado.
Nesse nível, o confronto permanece dentro da mesma lógica do poder: é uma disputa de forças, uma competição por recursos, influência e autoridade. O resultado depende de alianças, estratégias e contingências históricas.
3.4.2 O Confronto com o Absoluto
O poder que se crê absoluto — como o de Davi na cena do adultério e homicídio — só pode ser efetivamente confrontado pelo Absoluto. Qualquer outro tipo de censura poderia ser interpretada pelo tirano como uma mera disputa de poder, algo a ser esmagado com mais poder. A crítica de um servo pode ser ignorada; a insatisfação popular pode ser reprimida; a opinião de um general pode ser neutralizada.
Mas a censura que vem em nome do Incondicional não pode ser combatida com as mesmas armas. Ela desarma o poderoso porque o atinge não no seu posto, mas na sua existência. Davi poderia ter matado Natan, mas não o fez. Por quê? Porque no momento em que Natan disse "Tu és esse homem", algo na consciência de Davi reconheceu a voz do Incondicional. Ele entendeu que não estava sendo atacado por um rival político, mas confrontado pela Realidade Última da qual ele próprio dependia para existir.
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4. Conclusão
A reflexão desenvolvida neste ensaio permite concluir que a "visão horizontalizada" do poderoso — aquela que reduz toda realidade ao campo do condicionado e do controlável — só encontra uma barreira intransponível quando algo vertical irrompe em seu mundo. É o encontro com o Fascinosum Tremendum — a realidade santa que fascina porque oferece perdão, mas treme porque exige justiça — que quebra a soberania do ego inflado pelo poder.
Diante do Incondicional, o tempo e a eternidade se encontram, e o rei descobre que, apesar de todo o seu poder temporal, ele é, essencialmente, apenas um homem diante de Deus. Essa descoberta não é mero reconhecimento teórico, mas uma transformação ontológica que reconfigura a própria compreensão de si e da realidade.
A narrativa de Davi e Natan permanece, assim, como um paradigma teológico da relação entre poder e sagrado, demonstrando que a única censura efetiva ao poder absoluto é aquela que vem do Absoluto — não como imposição externa, mas como irrupção da realidade última que funda e julga toda realidade condicionada.
Referências
OTTO, Rudolf. Das Heilige: Über das Irrationale in der Idee des Göttlichen und sein Verhältnis zum Rationalen. Breslau: Trewendt & Granier, 1917.
TILLICH, Paul. Systematic Theology. Vol. I. Chicago: University of Chicago Press, 1951.
TILLICH, Paul. The Courage to Be. New Haven: Yale University Press, 1952.
BÍBLIA SAGRADA. 2ª edição. São Paulo: Edições Paulinas, 2015.
RICOEUR, Paul. Freud and Philosophy: An Essay on Interpretation. New Haven: Yale University Press, 1970.