A presente reflexão procura estabelecer, de modo estrutural e não meramente temático, a possibilidade de conexão entre o debate em curso — centrado na tensão entre racionalidade filológica e gramática algorítmica — e o desenvolvimento de uma tese de doutorado dedicada à pregação protestante, à hermenêutica bíblica ou à teologia prática. A relação aqui proposta não se configura como uma simples "aplicação" dos conceitos discutidos, mas como um habitar a própria tensão que os constitui, de modo que a pesquisa se torna, em sua arquitetura interna, o lugar onde essa tensão se manifesta concretamente.
Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que o objeto da tese já se encontra no epicentro do debate. A pregação constitui o ponto de colisão entre a racionalidade filológica — que se articula na exegese, no estudo do contexto histórico e na recepção da tradição — e a gramática algorítmica, presente na homilética de plataforma e na produção de conteúdo otimizado. A tese pode, portanto, documentar essa colisão não como abstração teórica, mas como prática observável, registrando o modo como essas duas lógicas se entrecruzam nas práticas homiléticas contemporâneas.
Em segundo lugar, a tese pressupõe, ainda que não o nomeie explicitamente, uma racionalidade filológica como referencial de fundo. Ora, esse referencial encontra-se em processo contínuo de erosão, de modo que a contribuição original da pesquisa pode consistir em torná-lo explícito: mostrar que a filologia não é apenas um método exegetico entre outros, mas uma condição de possibilidade da própria pregação. Ao torná-lo explícito, a tese se coloca em condições de revelar o que se perde quando esse referencial é substituído pela gramática algorítmica.
Em terceiro lugar, propõe-se tratar o algoritmo não como ferramenta neutra, mas como interlocutor teórico. Isso significa analisar como a lógica de plataforma já está presente na homilética contemporânea, mesmo em contextos nos quais nenhuma inteligência artificial é utilizada de fato. O chamado "prompt binário", discutido anteriormente, deve ser compreendido como modelo heurístico: não uma descrição literal da realidade, mas uma hipótese de leitura apta a revelar tendências estruturais que, de outro modo, permaneceriam invisíveis.
Em quarto lugar, caso Tillich integre o referencial teórico da pesquisa, a tese pode mobilizar o método da correlação como alternativa crítica à gramática algorítmica. A operação não se resume a "aplicar Tillich"; trata-se, antes, de evidenciar que a correlação exige dois sujeitos — aquele que pergunta e aquele que responde —, ao passo que o algoritmo opera apenas com input e output. A tese pode, desse modo, argumentar que a pregação só se constitui como pregação na medida em que há correlação, e que a gramática algorítmica elimina a correlação precisamente ao suprimir o ouvinte como sujeito.
Em quinto lugar, a distinção proposta por Tillich em sua crítica a Bultmann — entre desliteralizar e desmitologizar — pode converter-se em eixo metodológico da tese. A desliteralização pressupõe interpretação; a gramática algorítmica, por sua vez, opera por correlação estatística. Diante disso, a pesquisa pode demonstrar que a pregação que perde a desliteralização perde, concomitantemente, a profundidade ontológica que lhe é constitutiva, reduzindo-se a superfície otimizada.
Em sexto lugar, o diagnóstico central da tese pode ser formulado a partir do "vazio de correlação": o prompt binário é vazio de correlação porque nele não há outrem. A pregação algorítmica não se caracteriza, portanto, pela heresia, mas pela irrelevância, na medida em que produz output sem receptor. A tese se incumbe de demonstrar esse diagnóstico por meio de análise de casos, entrevistas e observação de práticas homiléticas, oferecendo evidência empírica para uma avaliação teológica.
Em sétimo lugar, é legítimo indagar se em Tillich subsistiria alguma "semente" de gramática algorítmica. A resposta obtida foi negativa. Contudo, a tese pode explorar por que essa semente não existe — e por que a própria tentativa de encontrá-la revela o que está em jogo na passagem da filologia ao algoritmo. Nesse sentido, a tese pode ser, ela mesma, uma operação filológica: ler Tillich contra a gramática algorítmica e mostrar que a correlação é irredutível à otimização.
Por fim, se a racionalidade filológica está em migração irreversível em direção à gramática algorítmica, a tese pode assumir-se como ato de resistência — não nostálgica, mas crítica. Não se trata de restaurar uma filologia pura e inatingível, mas de habitar a tensão entre as duas gramáticas, evidenciando que a pregação necessita da filologia para não degenerar em ruído organizado.
Em síntese, a tese pode relacionar-se a esse debate mediante cinco operações fundamentais: tornar explícito o referencial filológico que a pregação pressupõe; tratar o algoritmo como interlocutor teórico e não como ferramenta neutra; mobilizar Tillich como método de resistência à correlação estatística; diagnosticar o vazio de correlação na homilética contemporânea; e demonstrar que a pregação algorítmica é irrelevante antes que herética. A tese não precisa, contudo, "resolver" o debate. Cabe-lhe documentar a tensão, analisar suas consequências e propor uma hermenêutica que resista à dissolução da correlação — o que, em si, já constitui um ato filológico e, talvez, um ato teológico.