A Apropriação da Língua e as Variantes Linguísticas na Literatura Marginal: Uma Análise a partir de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus
Resumo
O presente artigo investiga a apropriação da língua portuguesa e a utilização de variantes linguísticas não padronizadas na literatura marginal brasileira, tomando como objeto de análise a obra Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada (1960), de Carolina Maria de Jesus. Argumenta-se que a inserção de variantes populares na escrita literária constitui uma estratégia estética e política de resistência, que subverte as hierarquias linguísticas tradicionais e legitima novas formas de expressão subjetiva. A partir dos conceitos de escrevivência (Evaristo, 2005) e apropriação do instrumento de poder que é a língua escrita, demonstra-se como a variante linguística funciona como matéria-prima literária e selo de autenticidade na narrativa de Jesus.
Palavras-chave: Literatura marginal; variantes linguísticas; Carolina Maria de Jesus; escrevivência; norma padrão.
1. Introdução
A literatura brasileira, historicamente produzida por segmentos sociais privilegiados, consolidou-se mediante a utilização da norma padrão culta da língua portuguesa, a qual funcionou como símbolo de distinção social e poder (Bagno, 2002). Nesse contexto, a inserção de vozes periféricas no campo literário representa não apenas uma ampliação do cânone, mas uma subversão das estruturas de poder simbólico que regem a produção cultural. Carolina Maria de Jesus, autora negra, favelada e catadora de papéis, ao escrever Quarto de Despejo (1960), opera uma apropriação da língua escrita que desafia as convenções estéticas e linguísticas estabelecidas.
O presente estudo propõe-se a analisar como a apropriação da língua e a presença de variantes linguísticas na obra de Jesus configuram-se como estratégia literária consciente — ou intuitiva — e como marca de autenticidade e resistência. Para tanto, articula-se o conceito de escrevivência, desenvolvido por Conceição Evaristo (2005), com as discussões acerca da variação linguística e sua função estética na literatura marginal.
2. A Língua como Instrumento de Poder e Apropriação
A norma padrão da língua portuguesa historicamente funcionou como instrumento de exclusão social, reservando o acesso à escrita formal a determinados grupos (Freire, 1987). Quando Carolina Maria de Jesus se apropria da escrita, não abdica de sua voz específica; pelo contrário, inscreve na página a oralidade de sua comunidade, subvertendo a expectativa de que a literatura deva necessariamente passar pelo "filtro da correção gramatical". Trata-se de uma apropriação que privilegia a expressão genuína da subjetividade e do meio social do qual a autora provém.
3. As Variantes Linguísticas como Matéria-Prima Literária
Em Quarto de Despejo, a linguagem não constitui acidente ou erro, mas matéria-prima estética fundamental. A autora emprega o que a linguística denomina variante não padronizada ou variante popular do português brasileiro, manifestada nas seguintes dimensões:
a) Ortografia fonética: grafia das palavras conforme a pronúncia (ex.: "pobrema" em vez de "problema"; "fio" em vez de "filho");
b) Sintaxe coloquial: construção de frases segundo a lógica da oralidade, caracterizada por repetições, períodos curtos e ritmo próprio;
c) Vocabulário do cotidiano: emprego de léxico referente à realidade experienciada ("fome", "favelados", "sabão", "leite", "esmola", "quartinho").
Tais escolhas linguísticas — mesmo que não deliberadas no plano acadêmico — conferem à narrativa sua força estética e verossimilhança. Como exemplifica a passagem: "E, além da fome, tinha as pulgas que incommodava os meus filhos. Mas eu varria o quarto. Como não tinha sabão, eu varria o chão com agua" (Jesus, 1960, p. XX), a variante popular produz impacto emocional e testemunhal que a norma padrão não alcançaria.
4. O Valor Literário da Escrevivência
O conceito de escrevivência, elaborado por Conceição Evaristo (2005), designa uma modalidade de escrita que emerge da vivência, da experiência coletiva e individual do corpo negro e periférico. A variante linguística materializa essa escrevivência na página, fundando uma nova forma de fazer literatura que inclui vozes e realidades historicamente excluídas do cânone. A língua é, assim, perpetuada não pela instituição escolar ou pela gramática normativa, mas pela comunidade de falantes da periferia, que a utiliza para narrar sua própria história.
5. A Perpetuação da Língua Viva
A aplicação de variantes linguísticas na literatura por autores marginais opera a transformação da língua — dinâmica por natureza — em patrimônio cultural e literário. Tal procedimento demonstra que a literatura não depende de um "português impecável" para ter valor estético; ao contrário, enriquece-se ao incorporar as múltiplas formas de falar de um país tão diverso quanto o Brasil.
6. Considerações Finais
A análise de Quarto de Despejo permite concluir que a variante linguística aplicada à literatura funciona como: (i) selo de autenticidade da obra como testemunho; (ii) instrumento de apropriação do poder da escrita por voz marginalizada; (iii) matéria-prima estética que constrói a força narrativa e a emoção do texto; e (iv) ato de resistência que perpetua a língua em sua forma mais viva, desafiando a hegemonia da norma culta como única possibilidade literária.
Referências
BAGNO, M. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
EVARISTO, C. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2005.
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 1960.
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