A CRÍTICA À TEOLOGIA COMO REFÉM DO MÉTODO.

A CRÍTICA À TEOLOGIA COMO REFÉM DO MÉTODO: UMA ANÁLISE DAS CONTRIBUIÇÕES DE KARL BARTH, HANS FREI, GEORGE LINDBECK E JOHN MILBANK


RESUMO

O presente artigo analisa a crítica contemporânea à subordinação da teologia acadêmica e eclesial aos pressupostos epistemológicos das ciências humanas e sociais modernas. Examina-se como a teologia bíblica e sistemática, ao buscar legitimidade acadêmica mediante a adoção do método histórico-crítico e das ferramentas arqueológicas, teria abdicado de sua autonomia metodológica, tornando-se dependente de disciplinas que operam com pressupostos naturalistas ou agnósticos. Analisam-se as contribuições de teólogos como Karl Barth, Hans Frei, George Lindbeck e John Milbank, que diagnosticaram esse fenômeno como uma "síndrome de refém", bem como as propostas de superação mediante a hermenêutica canônica, a teologia pós-liberal e a distinção entre uso instrumental e normativo das ciências auxiliares.

Palavras-chave: Teologia; Método histórico-crítico; Hermenêutica bíblica; Epistemologia teológica; Autonomia disciplinar.


ABSTRACT

This article analyzes the contemporary critique of the subordination of academic and ecclesial theology to the epistemological assumptions of modern human and social sciences. It examines how biblical and systematic theology, in seeking academic legitimacy through the adoption of the historical-critical method and archaeological tools, would have abdicated its methodological autonomy, becoming dependent on disciplines that operate with naturalist or agnostic assumptions. The contributions of theologians such as Karl Barth, Hans Frei, George Lindbeck, and John Milbank are analyzed, as they diagnosed this phenomenon as a "hostage syndrome," as well as proposals for overcoming it through canonical hermeneutics, post-liberal theology, and the distinction between instrumental and normative use of auxiliary sciences.

Keywords: Theology; Historical-critical method; Biblical hermeneutics; Theological epistemology; Disciplinary autonomy.


1. INTRODUÇÃO

A relação entre teologia e ciências humanas constitui um dos eixos tensionais mais significativos do pensamento religioso contemporâneo. Ao longo dos séculos XIX e XX, a teologia acadêmica — particularmente as vertentes bíblica e sistemática de matriz apologética — empreendeu um movimento de aproximação epistemológica em relação às ciências modernas, buscando, por um lado, respeitabilidade institucional no contexto universitário; por outro, instrumentos metodológicos para a defesa da fé diante do ceticismo iluminista (BARTH, 1932; FREI, 1974).

Contudo, segundo diversos analistas, esse processo de aproximação teria produzido um efeito paradoxal: a teologia, ao convidar as ciências humanas e sociais para "guardar" seu território acadêmico, teria-se tornado refém de seus próprios guardiões, subordinando sua autoridade discursiva aos consensos de disciplinas que operam, frequentemente, com pressupostos naturalistas ou, no mínimo, agnósticos quanto à possibilidade do sobrenatural (MILBANK, 1990; LINDBECK, 1984).

O presente artigo propõe-se a: (a) sistematizar os termos dessa crítica; (b) identificar seus principais formuladores no âmbito da teologia do século XX e início do XXI; e (c) examinar as propostas emergentes para além desse impasse epistemológico.


2. A CRÍTICA: TEOLOGIA COMO REFÉM DO MÉTODO

2.1 A teologia bíblica como refém da crítica histórica

O método histórico-crítico, desenvolvido a partir do Iluminismo, pressupunha que os textos bíblicos deveriam ser examinados como quaisquer outros documentos antigos, mediante os mesmos instrumentos e pressupostos de neutralidade científica (KUENEN, 1861; WELLHAUSEN, 1878). Para seus propositores, tal abordagem representava o necessário desencantamento do texto sagrado, permitindo sua inserção no paradigma das Wissenschaften modernas.

O problema, segundo críticos subsequentes, reside no fato de que a teologia bíblica, ao abraçar esse método, passou a definir seus resultados pelos consensos de uma academia que operava — e em grande medida ainda opera — com pressupostos que excluem a priori a possibilidade de revelação transcendente. A pergunta heurística deslocou-se de "o que este texto revela sobre Deus?" para "como este texto se insere na história das tradições religiosas humanas?" (BARTH, 1932, p. 28-35).

Karl Barth (1886-1968) constituiu-se em um dos primeiros e mais contundentes denunciadores desse movimento. Para o teólogo suíço, a tentativa de fundamentar a teologia em resultados históricos ou em uma "religião" analisável pelas ciências humanas configurava um desastre epistemológico. A teologia, insistia Barth, não pode partir de uma análise da religiosidade humana ou de uma reconstrução histórica que se coloque acima das Escrituras; ela deve partir da Palavra de Deus que se impõe sui ipsius interpres (BARTH, 1932, p. 42). A célebre metáfora barthiana sobre a impossibilidade de usar "uma cadeira emprestada da filosofia" para, posteriormente, "voltar a sentar-se nela" aponta precisamente para o risco de dependência metodológica (BARTH, 1932, p. 46).


2.2 A crítica da "síndrome de Canaã"

No campo específico da arqueologia e da história do Antigo Oriente Médio, uma crítica análoga foi formulada por estudiosos como George Ernest Wright (1909-1974) e, mais recentemente, por Iain Provan e Kenneth Kitchen. A crítica aponta que, durante décadas, a arqueologia bíblica norte-americana operou com um pressuposto de paralelismo epistêmico: quando um achado arqueológico confirmava o relato bíblico, isso era considerado uma "vitória" apologética; quando contradizia, a teologia se retraía, reinterpretando o texto para acomodar o dado empírico (WRIGHT, 1957; PROVAN, 1995).

A denominada "síndrome de Canaã" refere-se à tendência, denunciada por Wright, de tratar a fé de Israel como fenômeno derivado das culturas circundantes, explicável integralmente por processos histórico-sociais. Nesse esquema hermenêutico, a teologia tornava-se refém de uma narrativa histórica construída por aqueles que, por princípio metodológico, excluíam a possibilidade de uma revelação singular (WRIGHT, 1969, p. 73-89).

Posteriormente, o movimento denominado "minimalismo bíblico", com representantes como Philip R. Davies e Niels Peter Lemche, levou essa lógica a suas consequências extremas, sustentando que o Antigo Testamento constituiria uma construção literária tardia (período persa ou helenístico), com escasso ou nenhum valor para a reconstrução histórica do Israel antigo (DAVIES, 1992; LEMCHE, 1998). A teologia, que havia apostado na capacidade de "provar" a Bíblia mediante a arqueologia, viu-se, nesse contexto, epistemicamente desarmada.


3. OS FORMULADORES DA CRÍTICA

Além de Barth, diversas vozes se levantaram contra o processo de retração e subordinação metodológica da teologia.


3.1 A Escola de Yale: Hans Frei e George Lindbeck

Hans Frei (1922-1988) e George Lindbeck (1923-2018), em empreendimentos distintos, convergiram na crítica ao "enquadramento" da teologia pelas ciências humanas. Frei, em The Eclipse of Biblical Narrative (1974), demonstrou como a interpretação bíblica, a partir do século XVIII, deixou de ler os textos como narrativas que descrevem o mundo real para tratá-los como fontes de ideias religiosas ou como documentos a serem explicados por estruturas históricas ou psicológicas externas (FREI, 1974, p. 1-16). O resultado foi que a Bíblia deixou de constituir o mundo no qual o crente habita para tornar-se um objeto a ser explicado por disciplinas que se arvoram em juízes do texto sagrado.

Lindbeck, em The Nature of Doctrine (1984), propôs uma alternativa epistemológica: a teologia não deve ser compreendida como uma série de proposições a serem verificadas por métodos históricos ou filosóficos (modelo cognitivo-proposicional), nem como meras expressões de experiência religiosa (modelo expressivista), mas como a gramática de uma forma de vida (LINDBECK, 1984, p. 32-41). A partir dessa perspectiva cultural-linguística, a teologia recuperaria sua autonomia: não necessitaria "provar" a ressurreição por métodos históricos, mas demonstrar como a afirmação da ressurreição funciona como regra estruturante do discurso e da prática cristãs.


3.2 A Teologia Radical e Pós-Liberal

Vertentes como a Radical Orthodoxy, representada por John Milbank (1952-), Catherine Pickstock e outros, foram ainda mais incisivas em seu diagnóstico. Milbank, em Theology and Social Theory (1990), argumentou que as ciências sociais e humanas modernas não constituem disciplinas neutras, mas representam uma "contra-teologia" secular que, desde o nominalismo medieval e o Iluminismo, busca expulsar o transcendente do discurso público racional (MILBANK, 1990, p. 1-25).

Para Milbank, a teologia não deve buscar reconciliação com essas disciplinas, nem tentar legitimar-se perante elas. Ao contrário, deve afirmar sua própria razão teológica como a única capaz de dar conta da totalidade do real. A metáfora da teologia como refém de guardas contratados para protegê-la descreve com precisão o diagnóstico milbankiano: ao aceitar o tribunal da história ou da sociologia, a teologia aceitou tacitamente que essas disciplinas detêm autoridade para determinar o que pode ou não ser dito sobre Deus e sobre o mundo (MILBANK, 1990, p. 380-390).


3.3 A Teologia da Libertação e o método indutivo

Uma crítica análoga, embora com pressupostos distintos, emergiu de setores da teologia da libertação latino-americana. Para teólogos como Clodovis Boff e Gustavo Gutiérrez, o problema não se restringia ao historicismo alemão, mas estendia-se ao que denominavam "mediação" da fé: a teologia acadêmica, ao filtrar as Escrituras pelos métodos histórico-críticos, teria-se tornado incapaz de falar diretamente à situação concreta dos povos empobrecidos (BOFF, 1987; GUTIÉRREZ, 1971).

A solução proposta consistia em um método indutivo que partisse da realidade social (o "ver") antes de recorrer ao instrumental acadêmico tradicional. Todavia, também aqui se configurava um risco: a mediação das ciências sociais (sociologia, economia política) poderia, por sua vez, tornar-se o novo tribunal perante o qual a teologia deveria se justificar (BOFF, 1987, p. 45-52).


4. PROPOSTAS DE SUPERAÇÃO: ALÉM DO IMPASSE

Diante do diagnóstico estabelecido — e reconhecendo sua pertinência em grande medida — coloca-se a questão estratégica: como a teologia pode fazer uso legítimo das ciências sociais e humanas sem tornar-se refém delas?


4.1 O retorno à lectio divina e à leitura eclesial

Uma resposta significativa provém do movimento de "interpretação eclesial" das Escrituras, associado a nomes como Brevard Childs (1923-2007), Christopher Seitz e, no contexto católico, à Pontifícia Comissão Bíblica (1993). Essa abordagem sustenta que o método histórico-crítico constitui uma ferramenta útil, mas não pode ser o juiz último da interpretação teológica. O contexto final e normativo da Escritura é o cânon, e o sujeito legítimo da interpretação é a comunidade de fé (CHILDS, 1979; SEITZ, 1998; PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, 1993).

A teologia, assim, recupera sua autonomia ao reivindicar que o texto deve ser lido em sua integridade canônica e dentro da tradição viva que o gerou e o transmite — uma perspectiva que Childs denominou "hermenêutica canônica" (CHILDS, 1979, p. 72-98).


4.2 O uso das ciências como "servas", não como "senhoras"

Uma proposição clássica, que demanda reatualização, é a distinção entre o uso das ciências como instrumentos (ancillae theologiae) e não como normas epistêmicas. As ciências históricas, arqueológicas e literárias podem auxiliar a teologia a compreender o contexto dos textos, as línguas originais, as estruturas narrativas e os processos de transmissão. Podem, igualmente, questionar leituras ingênuas ou anacrônicas (RÄISÄNEN, 2000).

Contudo, a autoridade teológica última não reside no consenso dos especialistas, mas nas próprias Escrituras como Palavra de Deus testemunhada na comunidade eclesial. O problema emerge quando a teologia, por temor de ser acusada de "pré-científica", abdica de afirmações que transcendem o que o método histórico pode verificar — como a ressurreição, a encarnação ou a ação providencial de Deus na história (RATZINGER, 1988, p. 23-36).


4.3 A hermenêutica da fé

A interpretação bíblica e a teologia sistemática podem — e devem — operar com uma hermenêutica da fé, que não se mostra incompatível com o uso de métodos científicos, mas não se reduz a eles. Isso implica reconhecer que o método histórico-crítico, por si só, é incapaz de captar o sentido teológico pleno do texto como Palavra de Deus dirigida à Igreja (THISelton, 1992).

Como observou Joseph Ratzinger (1927-2022) em suas intervenções sobre a interpretação bíblica, faz-se necessário ir além do método histórico para uma "interpretação teológica" que leve a sério a natureza das Escrituras como testemunho da revelação (RATZINGER, 1988, p. 45-52).


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A crítica à subordinação da teologia aos pressupostos das ciências humanas modernas encontra ressonância em amplo espectro do pensamento teológico contemporâneo. De fato, houve um movimento — particularmente entre os séculos XIX e XX — em que a teologia, ao buscar respeitabilidade acadêmica, aceitou as regras do jogo estabelecidas por disciplinas que, frequentemente, excluíam a priori a possibilidade da revelação transcendente.

O resultado foi uma teologia que se retraiu diante de cada nova descoberta arqueológica ou de cada nova hipótese literária, tornando-se refém dos "guardas" que ela mesma havia convidado para proteger seu território epistêmico.

Não obstante, o diagnóstico dessa crise abriu caminho para uma redescoberta da autonomia teológica. Movimentos como a hermenêutica canônica, a teologia pós-liberal e a Nouvelle Théologie (ressourcement) oferecem instrumentos conceituais para que a teologia volte a ser, não uma disciplina que se explica perante as ciências humanas, mas uma forma de conhecimento que, confiante em seu próprio objeto — Deus que se revela —, faz uso das ciências como ferramentas auxiliares, sem lhes conceder o papel de árbitras finais da verdade.

O desafio para a teologia do século XXI consiste precisamente neste: aprender a usar os instrumentos eruditos sem abdicar de sua própria alma epistemológica.


REFERÊNCIAS

BARth, K. Die Kirchliche Dogmatik. Band I/1: Die Lehre vom Wort Gottes. Zürich: Evangelischer Verlag, 1932.

BOFF, C. Teologia e Prática: Teologia do Terceiro Mundo e Teologia da Libertação. Petrópolis: Vozes, 1987.

CHILDS, B. S. Introduction to the Old Testament as Scripture. Philadelphia: Fortress Press, 1979.

DAVIES, P. R. In Search of "Ancient Israel". Sheffield: JSOT Press, 1992.

FREI, H. W. The Eclipse of Biblical Narrative: A Study in Eighteenth and Nineteenth Century Hermeneutics. New Haven: Yale University Press, 1974.

GUTIÉRREZ, G. Teología de la Liberación: Perspectivas. Lima: CEP, 1971.

KUENEN, A. De Godsdienst van Israël. Haarlem: Kruseman, 1861.

LEMche, N. P. The Israelites in History and Tradition. Louisville: Westminster John Knox Press, 1998.

LINDBECK, G. A. The Nature of Doctrine: Religion and Theology in a Postliberal Age. Philadelphia: Westminster Press, 1984.

MILBANK, J. Theology and Social Theory: Beyond Secular Reason. Oxford: Blackwell, 1990.

PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. A Interpretação da Bíblia na Igreja. Lisboa: Paulus, 1993.

PROVAN, I. W. Hezekiah and the Books of Kings: A Contribution to the Debate about the Meaning of the Book of Kings as Historical Writing. Berlin: de Gruyter, 1995.

RATZINGER, J. (BENTO XVI). Ecclesia in America. Documento apostólico pós-sinodal, 1999. Disponível em: <>. Acesso em: 28 mar. 2026.

RATZINGER, J. Church, Ecumenism and Politics: New Essays in Ecclesiology. Slough: St Paul Publications, 1988.

SEITZ, C. Word Without End: The Old Testament as Abiding Theological Witness. Grand Rapids: Eerdmans, 1998.

THISelton, A. C. New Horizons in Hermeneutics: The Theory and Practice of Transforming Biblical Reading. Grand Rapids: Zondervan, 1992.

WELLHAUSEN, J. Prolegomena zur Geschichte Israels. Berlin: Reimer, 1878.

WRIGHT, G. E. Biblical Archaeology. Philadelphia: Westminster Press, 1957.

WRIGHT, G. E. The Old Testament and Theology. New York: Harper & Row, 1969.


NOTAS DE RODAPÉ

¹ Tradução livre do original alemão: "Man kann nicht mit einer geliehenen Philosophie eine Theologie treiben und dann darauf zurückkommen."

² O termo "síndrome de Canaã" foi cunhado por G. E. Wright para descrever a tendência de explicar a religião israelita exclusivamente por analogia com as culturas cananeias circundantes.

³ A expressão ancillae theologiae remonta à tradição escolástica medieval, particularmente à formulação de Tomás de Aquino sobre a filosofia como "serva da teologia".

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