O Conservadorismo Circunstancial na Tradução Bíblica: Análise da Abordagem das Unidades de Medida na NVI 2023
Resumo
O presente artigo investiga a decisão editorial da Nova Versão Internacional 2023 (NVI 23) de manter as unidades de medida antigas no corpo do texto, abandonando as conversões métricas presentes na edição de 2001. A análise propõe que tal escolha configura uma forma de conservadorismo circunstancial — não necessariamente fundamentada em convicções teológicas explícitas, mas decorrente de estratégias editoriais, disputas institucionais e posicionamentos metodológicos no campo da tradução bíblica evangélica brasileira.
Palavras-chave: Conservadorismo tradutório; Unidades de medida bíblicas; Equivalência formal; Mercado editorial evangélico; Filologia bíblica.
1. Introdução
A tradução bíblica constitui-se como um campo de tensão permanente entre a fidelidade ao texto-fonte e a acessibilidade ao leitor receptor. Nesse contexto, decisões aparentemente técnicas — como a conversão ou manutenção de unidades de medida — adquirem significados que transcendem a esfera estritamente linguística.
A presente investigação examina a reversão metodológica operada pela NVI 2023 quanto ao tratamento de medidas antigas (côvados, talentos, efás, batos), buscando compreender se tal mudança representa uma manifestação de conservadorismo teológico, ou antes, um conservadorismo circunstancial — isto é, uma postura metodológica condicionada por fatores editoriais, mercadológicos e institucionais.
2. A Manutenção das Unidades de Medida: Implicações Metodológicas
2.1 O Princípio da Literalidade Formal
A opção por preservar termos como côvado, talento, efá, bato e dracma no corpo textual — sem conversão para o sistema métrico decimal — alinha-se ao princípio da equivalência formal (formal correspondence). Segundo Venuti (1995), essa abordagem prioriza a preservação da "estranheza" (foreignness) do texto original, exigindo do leitor um esforço hermenêutico para compreender o universo cultural de produção do documento.
Os defensores dessa postura sustentam que:
- A tradução deve maximizar a conservação da "cor local" e da ambientação histórica do texto bíblico;
- Adaptações culturais constituem formas de interpretação que potencialmente distorcem o sentido original;
- O leitor contemporâneo deve aproximar-se do mundo bíblico, e não o contrário (NORD, 1997).
2.2 A Crítica à Acessibilidade
Em contraste, a equivalência dinâmica — adotada pela NVI 2001 — defende que a conversão de medidas para unidades contemporâneas (metros, litros, quilogramas) representa uma "decisão de comunicação responsável" (SAYÃO, 2023). O argumento subjacente é que o leitor brasileiro médio carece de referencial para interpretar "duzentos côvados", tornando a manutenção do termo antigo uma barreira cognitiva desnecessária.
3. O Conservadorismo no Contexto Evangélico Brasileiro
3.1 A Dicotomia Tradutória Histórica
O cenário evangélico brasileiro caracteriza-se por uma polarização entre dois modelos tradutórios:
Modelo Representantes Características
Comunicativo-contemporâneo NVI (2001), NTLH, Bíblia Viva Linguagem atualizada, conversão de medidas, priorização da compreensão imediata
Tradicional-erudito ARC, ACF, NVI 23 (2023) Preservação de arcaísmos, manutenção de unidades antigas, ênfase na literalidade
A NVI original (2001) ocupou posição singular ao conciliar rigor acadêmico — fundamentada no Texto Crítico — com acessibilidade comunicativa. Sua revisão de 2023, ao reverter a conversão métrica, aproxima-se metodologicamente das traduções tradicionais, historicamente associadas a correntes conservadoras teológicas e eclesiásticas (BARTHES, 2007).
3.2 O Conservadorismo como Estratégia de Legitimação
A mudança editorial pode ser interpretada como uma estratégia de diferenciação no mercado editorial evangélico:
- Disputa institucional: A NVI 23 foi produzida por novo comitê, sem participação dos tradutores originais. Alterações visíveis (como as unidades de medida) funcionam como marcadores de territorialidade editorial, sinalizando que se trata de projeto distinto;
- Segmentação de público: A manutenção de termos arcaicos atende a um nicho que desconfia de traduções "excessivamente modernas", notadamente em denominações de tradição reformada ou confessional;
- Percepção de fidelidade: Para o leitor leigo, a presença de unidades antigas cria efeito de literalidade — impressão de maior proximidade com os originais, ainda que o texto hebraico ou grego também exija interpretação para determinar valores precisos (CARSON, 2000).
4. A Natureza Circunstancial do Conservadorismo
O conceito de conservadorismo circunstancial é aqui proposto para designar posturas tradutórias que, embora apresentem características formalmente conservadoras, não derivam de convicções teológicas explícitas sobre inspiração bíblica ou inerrância, mas de condicionantes contextuais:
Dimensão Manifestação na NVI 23
Editorial Mudança de equipe tradutora; necessidade de diferenciação do produto anterior
Mercadológica Busca de legitimidade junto a público conservador; competição com versões Almeida
Metodológica Aproximação com tendências internacionais de "literalidade ilustrada"
Institucional Desvinculação simbólica do trabalho de Sayão e equipe original
Assim, o conservadorismo da NVI 23 opera como efeito de posicionamento mais do que como princípio orientador. Trata-se de uma opção que se alinha com tradições conservadoras sem necessariamente subscrevê-las teologicamente.
5. A Crítica dos Tradutores Originais
Luiz Sayão, coordenador da NVI 2001, manifesta posição crítica quanto à reversão metodológica. Em comunicação pública (2023), o estudioso argumenta que:
> "Converter medidas ao sistema métrico não é uma liberdade poética, mas uma decisão de comunicação responsável. [...] Manter o termo sem explicação pode gerar mais obscuridade do que fidelidade."
A crítica de Sayão evidencia que a mudança representa rompimento epistemológico com a filosofia tradutória que fundamentou a consagração da NVI no Brasil. Do ponto de vista dos tradutores históricos, a nova edição sacrifica a clareza comunicativa em prol de uma literalidade que configuraria artefato formal — isto é, uma aparência de fidelidade que não corresponde necessariamente a maior precisão hermenêutica.
6. Considerações Finais
A decisão da NVI 2023 de manter unidades de medida antigas no corpo do texto pode, efetivamente, ser lida como sinal de conservadorismo, especialmente quando contrastada com a proposta original de 2001. Contudo, tal conservadorismo é predominantemente circunstancial, determinado por:
1. Fatores editoriais: Mudança de equipe e necessidade de diferenciação institucional;
2. Estratégias de mercado: Segmentação voltada a público que valoriza aparência tradicional;
3. Posicionamento metodológico: Aproximação com modelos de equivalência formal, sem implicação necessária em conservadorismo doutrinário.
Para o leitor que prioriza acessibilidade e a proposta comunicativa que caracterizou a NVI original, a revisão de 2023 representa descontinuidade significativa — não apenas técnica, mas ideológica — no projeto tradutório da versão no contexto brasileiro.
Referências
BARTHES, R. Aula. São Paulo: Cultrix, 2007.
CARSON, D. A. The Inclusive-Language Debate: A Plea for Realism. Grand Rapids: Baker Books, 2000.
NIDA, E. A. Toward a Science of Translating. Leiden: Brill, 1964.
NORD, C. Translating as a Purposeful Activity: Functionalist Approaches Explained. Manchester: St. Jerome Publishing, 1997.
SAYÃO, L. Comunicação pública sobre a NVI 2023. 2023.
VENUTI, L. The Translator's Invisibility: A History of Translation. London: Routledge, 1995.
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