Considerando o fato de que a epístola de Judas se vale de textos de livre circulação em sua epoca da literatura apócrifa do Segundo Templo( Henoque e a Assunção de Moisés). De igual modo o apstololo Paulo faz menção de poetas gregos no capítulo 17 de Atos dos Apostolos, bem como utiliza ideias e conceitos estoicos em uma de suas epistolas. Um dos principais fundamentos que é crucial para o movimento reformador: "Scriptura Sui Ipsius Intepres", ainda se sustenta no debate atual sobre a Bíblia? O que se deve fazer com uma questão profunda e extremamente relevante como esta, já que ela toca no cerne de um dos princípios de natureza hermenêutica mais importantes da Reforma Protestante — Scriptura sui ipsius interpres (a Escritura é intérprete de si mesma) — e o submete ao crivo da complexidade literária e cultural do próprio cânon bíblico?
A resposta, em síntese, é: o princípio se sustenta, mas não da forma como foi formulado no contexto polêmico do século XVI, nem como foi vulgarizado posteriormente. Ele requer uma compreensão mais matizada à luz da crítica bíblica e da história da formação do cânon.
Vamos analisar os desafios que você levanta e, em seguida, avaliar como o princípio pode ser compreendido hoje.
I. Os Desafios Apresentados
1. O Uso de Literatura Apócrifa e Intertestamentária
O fato de se mencionar corretamente a Epístola de Judas. O texto faz referência direta a duas obras que não faziam parte do cânon judaico palestinense, mas que circulavam amplamente no período do Segundo Templo:
· 1 Enoque: Judas 14-15 cita explicitamente o livro de 1 Enoque (capítulo 1,9) ao afirmar que "Enoque, o sétimo depois de Adão, profetizou". A tradição atribuída a Enoque era amplamente respeitada em círculos judaicos e cristãos primitivos.
· A Assunção de Moisés: Judas 9 faz referência a uma disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo sobre o corpo de Moisés, narrativa que não se encontra em nenhum texto do Antigo Testamento hebraico, mas que corresponde a uma tradição preservada na Assunção de Moisés (ou Testamento de Moisés), um texto apócrifo.
O que Judas faz, portanto, é valer-se de tradições não-canônicas como parte de seu argumento inspirado. Ele não está canonizando essas obras, mas pressupõe que seus leitores as conhecem e as reconhecem como portadoras de autoridade moral e profética.
2. O Uso de Poetas e Filósofos Gregos
Em Atos 17, Paulo, no Areópago de Atenas, cita duas fontes gregas:
· "Nele vivemos, nos movemos e existimos" (v. 28) é um verso atribuído ao poeta cretense Epimênides (séc. VI a.C.), mas também associado a Arato, em seu poema Fenômenos.
· "Somos também sua descendência" (v. 28) é uma citação direta de Arato (séc. III a.C.), com ecos também no hino a Zeus de Cleantes, o estoico.
Além disso, em suas epístolas, Paulo utiliza conceitos estoicos — como a distinção entre o "interior" e o "exterior" (2Cor 4,16), a ideia de consciência como testemunha interior (Rm 2,15), e a própria estrutura argumentativa de certos catálogos de virtudes e vícios — que ecoam a linguagem filosófica de sua época.
Paulo não está adotando o estoicismo como sistema teológico, mas utiliza categorias culturais e linguísticas disponíveis para comunicar o Evangelho a um público helenizado.
II. O Princípio Scriptura Sui Ipsius Interpres: Origem e Sentido Original
O princípio Scriptura sui ipsius interpres foi formulado pelos reformadores (especialmente Melanchthon e Calvino) no contexto da controvérsia com a tradição eclesial romana. Ele tinha um duplo propósito:
1. Afirmar a clareza (perspicuitas) da Escritura: Contra a ideia de que a Escritura era obscura e precisava da mediação infalível do magistério eclesiástico para ser compreendida, os reformadores sustentavam que as partes claras da Escritura interpretam as partes obscuras.
2. Rejeitar a autoridade da tradição como fonte independente: A Escritura era considerada autossuficiente como regra de fé, e a interpretação não poderia ser determinada por dogmas eclesiásticos externos ao texto.
No entanto, os reformadores não negavam a importância dos instrumentos auxiliares: o conhecimento das línguas originais (hebraico, grego), a história, e mesmo os pais da Igreja — mas sempre como servos da Escritura, não como autoridades independentes.
III. Como o Princípio se Sustenta no Debate Atual?
O debate contemporâneo, informado pela crítica histórica, pela história das religiões e pela descoberta de manuscritos (como os de Qumran), introduziu complexidades que tornam insustentável uma versão simplificada do princípio. No entanto, a intuição fundamental pode ser reformulada e permanece válida.
1. O Que Precisa Ser Revisto ou Matizado
· A ideia de uma "autossuficiência" isolada: A Escritura não foi produzida num vácuo cultural. Os autores bíblicos utilizaram tradições orais, fontes escritas (algumas das quais não preservadas ou não canônicas), categorias filosóficas e linguagens culturais de seu tempo. A "autossuficiência" não pode significar ignorar esses contextos.
· A noção de perspicuitas absoluta: Embora as Escrituras testemunhem claramente o Evangelho, muitos textos permanecem obscuros sem o auxílio da história, da arqueologia, do conhecimento das línguas e da literatura intertestamentária. O exemplo de Judas e de Paulo mostra que os próprios autores pressupunham um conhecimento cultural que não está imediatamente acessível ao leitor contemporâneo sem mediação erudita.
· A separação radical entre Escritura e tradição: Atualmente, reconhece-se que o cânon emergiu de um processo histórico dentro da comunidade de fé, e que a Escritura sempre foi lida e interpretada dentro de uma tradição. O que a Reforma rejeitava era a elevação da tradição ao mesmo nível de autoridade normativa, não o reconhecimento de que a interpretação ocorre na tradição.
2. O Que Permanece Válido e Essencial
Apesar dessas matizações, o núcleo do princípio Scriptura sui ipsius interpres continua sendo fundamental para uma hermenêutica de fé:
· A unidade teológica da Escritura: O princípio afirma que há uma coerência interna no testemunho bíblico, centrada em Cristo. As partes menos claras devem ser interpretadas à luz das mais claras, especialmente do Evangelho. Isso não é anulado pelo fato de os autores usarem fontes externas; ao contrário, essas fontes são assumidas e transformadas pelo testemunho inspirado.
· A Escritura como norma normativa não normada: Ainda que a interpretação exija mediações históricas e culturais, a Escritura permanece o critério último ao qual todas essas mediações devem se submeter. O uso que Judas faz de 1 Enoque não significa que 1 Enoque tenha autoridade canônica; significa que o autor inspirado seleciona e incorpora uma tradição extra-canônica a serviço de sua mensagem. Algo similar ocorre com Paulo e os poetas gregos: ele utiliza categorias culturais, mas as subordina ao Evangelho.
· A Escritura interpreta a Escritura: O método canônico de interpretação — que lê um texto à luz do conjunto do cânon — permanece válido. Por exemplo, a compreensão da Lei em Paulo é iluminada pelos Salmos e pelos Profetas; a cristologia do Quarto Evangelho é lida à luz dos Evangelhos sinóticos e das cartas paulinas. Esse movimento interno ao cânon é insubstituível.
IV. Uma Formulação Contemporânea
Diante dessas considerações, podemos reformular o princípio nos seguintes termos:
A Escritura é intérprete de si mesma porque constitui um testemunho unificado e coerente, centrado na pessoa de Jesus Cristo, e porque a comunidade de fé reconhece nela a norma última de sua fé e prática. No entanto, a interpretação da Escritura requer o uso de todos os instrumentos históricos, filológicos e culturais disponíveis — incluindo o conhecimento das literaturas do Segundo Templo e da cultura greco-romana —, desde que tais instrumentos permaneçam a serviço da compreensão do texto canônico e não substituam sua autoridade.
Nessa formulação, tanto a legitimidade do uso de fontes extra-canônicas e conceitos filosóficos pelos autores bíblicos quanto a necessidade de uma hermenêutica que respeite a unidade e a autoridade da Escritura são preservadas.
V. Conclusão
O princípio Scriptura sui ipsius interpres não foi refutado pelas descobertas históricas ou pela crítica literária; ele foi, na verdade, enriquecido e matizado. O que se tornou insustentável é uma versão ingênua do princípio que imaginava a Escritura como um texto fechado em si mesmo, produzido sem mediações culturais e interpretável sem referência à história. A Escritura não é autossuficiente no sentido de ser autoexplicativa sem o trabalho da erudição; ela é autossuficiente no sentido teológico de que, uma vez compreendida em seu contexto histórico e literário, ela mesma fornece a chave hermenêutica para sua interpretação mais profunda: o testemunho de Cristo e a economia da salvação.
Assim, o uso que Judas faz de 1 Enoque e que Paulo faz de poetas gregos não contradiz o princípio reformado; antes, demonstra que a inspiração bíblica opera assumindo e transformando os recursos culturais disponíveis, subordinando-os à unidade do testemunho apostólico. A tarefa atual é manter a centralidade da Escritura como norma, sem ignorar as complexidades históricas e literárias que ela mesma nos apresenta.
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