Da inadequação do instrumental crítico: uma análise comparada entre a recepção de Dante Alighieri e Carolina Maria de Jesus
Resumo
O presente artigo propõe uma análise comparativa entre os processos de recepção crítica da Divina Comédia, de Dante Alighieri, e de Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. Partindo da hipótese de que ambos os autores representam rupturas paradigmáticas na história literária ocidental, examina-se como a crítica literária tradicional demonstru incapacidade estrutural para lidar com obras que instauram novos paradigmas linguísticos e estéticos. A investigação sustenta que a recusa em utilizar a língua de prestígio — o latim medieval, no caso de Dante, e a norma culta lusitana, no caso de Carolina — constituiu ato fundador de novas tradições literárias, inicialmente incompreendidas pelos mecanismos hegemônicos de avaliação estética. A metodologia articula a hermenêutica literária com os estudos pós-coloniais e decoloniais, propondo a interseccionalidade e a escuta atenta como instrumentos analíticos capazes de superar as limitações do aparato crítico convencional.
Palavras-chave: Recepção crítica; Cânone literário; Dante Alighieri; Carolina Maria de Jesus; Interseccionalidade.
1. Introdução
A história da literatura ocidental registra inúmeros casos de obras inicialmente marginalizadas que, posteriormente, foram reconhecidas como marcos fundadores de novas tradições estéticas. Entre esses casos, destacam-se aqueles em que a inovação linguística — compreendida como a ruptura com a norma culta hegemônica — funcionou como barreira inicial à consagração crítica. O presente estudo propõe-se a examinar dois momentos paradigmáticos dessa dinâmica: a recepção da Divina Comédia (1321), de Dante Alighieri, e a de Quarto de despejo (1960), de Carolina Maria de Jesus.
A escolha desses corpus justifica-se pela natureza radicalmente inovadora de ambas as obras, que se recusaram a utilizar as línguas de prestígio de suas respectivas épocas — o latim erudito medieval e o português normativo brasileiro — optando, respectivamente, pelo volgare florentino e pela variante popular do português brasileiro. A hipótese central deste trabalho sustenta que a crítica literária tradicional demonstrou incapacidade estrutural para lidar com tais obras, uma vez que seu instrumental teórico-metodológico fora construído para analisar objetos que se adequavam aos parâmetros estéticos estabelecidos.
2. Fundamentação teórica
2.1. O conceito de "incapacidade crítica" e a hermenêutica da recepção
A noção de "incapacidade dos críticos", aqui mobilizada, refere-se não a uma falha individual ou subjetiva, mas a uma limitação estrutural do aparato teórico disponível em determinado momento histórico. Conforme aponta Hans Robert Jauss (1967), a recepção de uma obra literária está condicionada pelo "horizonte de expectativas" (Erwartungshorizont) de seu público leitor, constituído por normas estéticas previamente interiorizadas. Quando uma obra rompe radicalmente com esse horizonte, a crítica dispõe de instrumentos insuficientes para sua apreensão, resultando em juízos de valor negativos ou na redução da obra a categorias inadequadas.
2.2. Interseccionalidade e estudos decoloniais
Para além da hermenêutica da recepção, este trabalho articula a categoria de interseccionalidade, desenvolvida inicialmente por Kimberlé Crenshaw (1989), como ferramenta analítica capaz de compreender como as marcas de diferença — gênero, raça, classe — incidem sobre a produção e a recepção literárias. Tal aproximação dialoga com os estudos decoloniais (QUIJANO, 2000; MIGNOLO, 2003), que problematizam as hierarquias epistêmicas estabelecidas pelo colonialismo moderno e propõem a "escuta atenta" como metodologia para a apreensão de vozes subalternizadas.
3. Análise comparada: Dante Alighieri e Carolina Maria de Jesus
3.1. Dante Alighieri e a ruína do latim: a fundação do volgare como língua literária
No século XIV, o latim constituía a lingua franca da cultura, da Igreja e da academia europeias. A decisão de Dante Alighieri (1265-1321) de compor a Divina Comédia em florentino, considerado mero dialeto "vulgar", representou ato de tremenda audácia epistemológica. Para a crítica de sua época, habituada aos parâmetros clássicos greco-latinos, a escolha do volgare implicava a impossibilidade de se produzir obra de envergadura filosófica, teológica e estética.
A observação do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (século XIX), segundo a qual a Divina Comédia seria "inanalisável" por não haver nada que rivalizasse com ela, revela a percepção da singularidade radical da obra. A crítica pré-romântica, formada nos moldes clássicos e nas literaturas modernas já estabelecidas — como a francesa —, não dispunha de instrumental teórico para lidar com uma obra que, ao invés de se inserir em uma tradição preexistente, fundava uma tradição inteiramente nova. Dante não apenas utilizou o volgare: criou, a partir dele, um sistema estético autônomo, com regras próprias e capacidade de expressão filosófica.
3.2. Carolina Maria de Jesus e a ruína do português "culto": a escrevivência periférica
Transportando essa lógica para o contexto brasileiro do século XX, observa-se fenômeno análogo na recepção de Quarto de despejo. A "norma culta" do português brasileiro, calcada na tradição lusitana e nos escritores consagrados da elite nacional, funcionou como parâmetro excludente para a apreensão da obra de Carolina Maria de Jesus.
A escrita de Carolina — marcada pela variante popular do português brasileiro, pela temática da favela, da fome e da miséria — foi inicialmente reduzida à categoria de "documento sociológico" ou ao "exotismo" de uma autora "instintiva". Tal redução evidencia a incapacidade da crítica academicista brasileira de reconhecer a inovação estética contida na obra, uma vez que seu arcabouço teórico fora construído para analisar objetos que se adequavam ao padrão normativo. Ao tentar aplicar categorias tradicionais — gênero, estilo, coesão, norma culta —, a crítica deparou-se com uma obra que simplesmente "não se encaixava", resultando em seu enquadramento como literatura "menor", "inclassificável" ou de valor meramente testemunhal.
4. A ponte conceitual: convergências analíticas
A comparação entre os dois casos sustenta-se em três eixos fundamentais:
Primeiro: a ruína da língua de prestígio como ato fundador. Tanto Dante quanto Carolina rejeitaram a língua do poder estabelecido para construir suas obras na língua que corporificava a experiência de seus respectivos povos. Tal ato configura-se como afirmação cultural e política, fundando novas possibilidades expressivas.
Segundo: a singularidade que exige novos instrumentos. A crítica tradicional demonstra-se paralisada diante de obras que não apenas são novas, mas que instauram novos paradigmas. Como analisar o "vulgar" popular antes que ele se torne base de uma língua nacional? Como analisar a "escrevivência" periférica antes que os estudos pós-coloniais e decoloniais forneçam as lentes adequadas?
Terceiro: a hierarquização e sua superação. Inicialmente, a crítica opera hierarquização: o latim é superior ao dialeto florentino; a norma culta é superior à variante popular. A superação dessa hierarquia só se processa mediante o desenvolvimento de instrumental teórico capaz de enxergar o valor intrínseco e a inovação estética na "língua menor". No caso de Dante, tal processo levou séculos, consagrando-o como "pai da língua italiana". No caso de Carolina, o processo ainda se encontra em curso.
5. Proposta metodológica: interseccionalidade e escuta atenta
Diante da inadequação do instrumental crítico tradicional, propõe-se a articulação de duas abordagens metodológicas:
A interseccionalidade permite compreender quem fala — mulher, negra, favelada — e como essa posição de sujeito molda a escrita, produzindo marcas estéticas específicas que escapam às categorias universalistas da crítica convencional.
A escuta atenta possibilita a apreensão da musicalidade da oralidade, da potência da sintaxe popular e da beleza que emerge da miséria, sem o ruído do julgamento normativo. Trata-se de metodologia que suspende as expectativas preestabelecidas para permitir que a obra instaure seus próprios parâmetros de valor estético.
6. Considerações finais
A análise comparada entre a recepção de Dante Alighieri e de Carolina Maria de Jesus revela que a "incapacidade" crítica identificada não constitui falha pessoal dos intérpretes, mas limitação estrutural de instrumentos de análise forjados para determinado tipo de objeto literário. Tais instrumentos demonstram-se não apenas inúteis, mas potencialmente prejudiciais quando aplicados a obras que instauram novos paradigmas.
Ao propor a análise fundamentada na interseccionalidade e na escuta atenta, o presente estudo busca contribuir para o desenvolvimento de novos instrumentos capazes de compreender a realidade que a obra de Carolina Maria de Jesus apresenta. Tal empreitada insere-se na tradição crítica que, desde os tempos de Dante, se esforça por forjar metodologias adequadas aos objetos que rompem com os horizontes de expectativa de sua época.
O avanço do conhecimento e da crítica literária depende, portanto, da capacidade de reconhecer as limitações de seus próprios instrumentos e de desenvolver novas ferramentas analíticas, capazes de fazer justiça à complexidade e à inovação das obras que, como as de Dante e Carolina, fundam novas tradições a partir das margens.
Referências
CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the intersection of race and sex: a Black feminist critique of antidiscrimination doctrine, feminist theory and antiracist politics. University of Chicago Legal Forum, v. 1989, n. 1, p. 139-167, 1989.
JAUSS, Hans Robert. Literatura como provocação. São Paulo: Perspectiva, 2002.
MIGNOLO, Walter D. Histórias locais, projetos globais: colonialidade, saberes subalternos e pensamento liminar. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2000. p. 227-278.
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