O Subjetivismo Luterano na Filosofia de Kierkgaard.

O SUBJETIVISMO LUTERANO NA FILOSOFIA DE KIERKEGAARD: CONTINUIDADE E RADICALIZAÇÃO

Resumo: O presente artigo investiga a relação entre o subjetivismo teológico de Martin Lutero e a filosofia existencial de Søren Kierkegaard. Analisa-se em que medida o reformador alemão influenciou o pensador dinamarquês, demonstrando que Kierkegaard não apenas recebeu as intuições luteranas, mas as radicalizou em uma perspectiva existencial-filosófica. O estudo percorre três dimensões fundamentais: (1) a definição do subjetivismo luterano em sua dimensão soteriológica; (2) a transposição e radicalização desse subjetivismo no pensamento kierkegaardiano; e (3) as críticas de Kierkegaard ao luteranismo estabelecido de sua época. Conclui-se que Kierkegaard opera uma transfiguração do subjetivismo luterano, convertendo-o de categoria teológica em categoria existencial.

Palavras-chave: Subjetivismo; Lutero; Kierkegaard; Existencialismo; Fé.


1. INTRODUÇÃO

A questão da filiação intelectual entre Martin Lutero (1483-1546) e Søren Kierkegaard (1813-1855) constitui um dos temas mais relevantes para a compreensão da filosofia da religião moderna. Embora separados por mais de três séculos, ambos pensadores compartilham uma ênfase decisiva na subjetividade individual como locus privilegiado da experiência religiosa. No entanto, enquanto em Lutero tal subjetivismo assume caráter predominantemente teológico-soteriológico, em Kierkegaard ele é transposto para o âmbito filosófico-existencial, constituindo-se como reação crítica ao idealismo hegeliano dominante no século XIX.

O objetivo deste artigo é demonstrar que o subjetivismo de Lutero não apenas pode ser identificado no pensamento de Kierkegaard, mas constitui um de seus pilares fundamentais — embora radicalizado e ressignificado em um contexto filosófico distinto. Para tanto, proceder-se-á a uma análise em três momentos: (a) a caracterização do subjetivismo luterano; (b) sua recepção e radicalização em Kierkegaard; e (c) as críticas kierkegaardianas ao luteranismo institucionalizado.


2. O SUBJETIVISMO LUTERANO: DIMENSÕES SOTERIOLÓGICAS

O conceito de subjetivismo em Lutero não deve ser confundido com subjetivismo epistemológico — a tese de que a verdade é determinada pelo sentimento individual. Trata-se, antes, de um subjetivismo existencial e soteriológico, centrado na relação coram Deo (diante de Deus). Três aspectos fundamentais caracterizam essa posição.


2.1 Sola Fide e a individualidade salvífica

A doutrina da justificação pela fé (sola fide) estabelece que a salvação não advém das obras ou da submissão a autoridades eclesiásticas externas (Magistério, Tradição), mas exclusivamente da fé pessoal e individual. O indivíduo — der Einzelne — encontra-se, em última instância, isolado diante de Deus, estabelecendo uma relação direta e intransferível com o divino (LUTERO, 1520/2017).


2.2 A primazia da consciência

No discurso pronunciado na Dieta de Worms (1521), Lutero afirma: "Meine Gewissens ist gefangen in Gottes Wort [...] ich kann nicht anders" ("Minha consciência é cativa da Palavra de Deus [...] não posso e não vou retratar-me") (LUTERO, 1521/2008, p. 45). Tal declaração evidencia que a instância decisória última não reside na instituição eclesiástica, mas na consciência individual iluminada pela Escritura.


2.3 A fé como apropriação pessoal

Para Lutero, a verdade cristã não se reduz a conhecimento teórico passivamente aceito. A fé exige apropriação pessoal em meio à Anfechtung — termo técnico que designa angústia, tentação e desespero existencial. A fé configura-se, assim, como ato de vontade e paixão, distinto do mero assensus intelectual (OBERMAN, 1992, p. 123-145).


3. A RADICALIZAÇÃO KIERKEGAARDIANA DO SUBJETIVISMO

Kierkegaard, profundamente influenciado pela teologia luterana — especialmente pela ênfase na graça e no paradoxo —, traduz o subjetivismo luterano para o âmbito da existência filosófica, operando três transformações decisivas.


3.1 Der Einzelne contra o Sistema

Se Lutero opôs-se ao sistema eclesiástico de sua época, Kierkegaard dirige sua crítica contra o sistema filosófico hegeliano. Hegel, segundo Kierkegaard, pretendeu explicar a totalidade da existência mediante um sistema lógico-objetivo, reduzindo o indivíduo a mero momento no movimento do Espírito Absoluto (KIERKEGAARD, 1846/2010, p. 112).

Kierkegaard resgata o grito luterano ("Hier stehe ich, ich kann nicht anders"), transfigurando-o no imperativo de que "a verdade é subjetividade". A multidão — o público, o sistema — representa a impessoalidade que esmaga a individualidade. A fé configura-se como salto existencial que só pode ser executado na solidão do singular (den Enkelte) diante de Deus (KIERKEGAARD, 1843/2009, p. 89).


3.2 A verdade como subjetividade

No Post-scriptum às Migalhas Filosóficas (1846), Kierkegaard — sob o pseudônimo Johannes Climacus — formula sua tese mais radical: "A verdade é a subjetividade" (Sandheden er Subiectiviteten) (KIERKEGAARD, 1846/2010, p. 175).

Para o pseudônimo, não basta possuir o conteúdo objetivo correto do cristianismo se tal conhecimento não transforma a existência do indivíduo. Uma pessoa pode dominar toda a teologia luterana e ainda assim permanecer na esfera estética ou ética, sem alcançar a autêntica fé religiosa. A verdadeira fé ocorre quando o indivíduo se relaciona com a verdade (Cristo) mediante paixão infinita e interioridade.

Tal posição ecoa diretamente Lutero: a fé não é historia (conhecimento dos fatos), mas fiducia (confiança pessoal). Kierkegaard, contudo, radicaliza: o como (a maneira como o sujeito se relaciona com a verdade) torna-se mais importante que o quê (o conteúdo objetivo) (KIERKEGAARD, 1846/2010, p. 178-180).


3.3 Anfechtung e o Paradoxo Absoluto

Lutero descrevia a fé como aquela que nasce na Anfechtung — momento em que o indivíduo experimenta Deus como juiz terrível e só pode apegar-se à Sua promessa. Kierkegaard eleva tal conceito ao estatuto de categoria existencial fundamental.

Para Kierkegaard, a fé não constitui certeza tranquila, mas tensão permanente. O cristianismo apresenta-se como paradoxo absoluto (Deus no tempo, o eterno no histórico), inacessível à razão objetiva e abraçável apenas pela paixão subjetiva no ápice da angústia. A fé é movimento do desespero — a "doença mortal" — para a possibilidade de Deus, sendo essencialmente subjetiva e solitária (KIERKEGAARD, 1849/2011, p. 45-67).


4. A CRÍTICA DE KIERKEGAARD AO LUTERANISMO ESTABELECIDO

Apesar da profunda filiação, Kierkegaard desenvolve crítica feroz ao luteranismo de sua época — especificamente à Igreja Nacional da Dinamarca —, considerando-o traição ao autêntico espírito luterano. Nesse ponto, distingue o "Lutero vivo" (o reformador que sofreu) do "luteranismo estabelecido" (religião cultural institucionalizada).


4.1 A união Igreja-Estado

Kierkegaard acusa Lutero (e o luteranismo posterior) de haver facilitado excessivamente a vida cristã mediante a união entre Igreja e Estado. Ao subordinar a Igreja ao braço secular, Lutero teria, segundo essa interpretação, eliminado o martírio e a perseguição como constitutivos do verdadeiro cristianismo. O cristianismo tornou-se "objetivo" e institucional, perdendo seu caráter de risco existencial (KIERKEGAARD, 1854-1855/2009, p. 234-256).


4.2 A graça sem ascensão

Kierkegaard argumenta que, ao rejeitar as obras, Lutero abriu espaço para uma complacência na qual "tudo está na graça" e o indivíduo prescinde do esforço para tornar-se cristão. Para Kierkegaard, a graça representa o objetivo final, mas exige movimento prévio de desespero, repetição e esforço infinito — o que ele denomina "ressonância da fé" (Gjentagelsen) (KIERKEGAARD, 1843/2011, p. 112-134).


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O subjetivismo luterano não apenas pode ser identificado em Kierkegaard, mas constitui um de seus fundamentos, transfigurado em categoria existencial-filosófica. Enquanto em Lutero o subjetivismo assume caráter predominantemente teológico — o indivíduo coram Deo, justificado pela fé pessoal contra a autoridade externa da Igreja —, em Kierkegaard ele torna-se existencial e filosófico: a verdade como interioridade apaixonada do singular que, diante do paradoxo e da angústia, assume responsabilidade total por sua existência contra a impessoalidade do sistema hegeliano e da cristandade cultural.

Kierkegaard afirmava que sua obra consistia em "ler novamente" (at læse) o cristianismo. De fato, ele leu Lutero de maneira tão radical que, em muitos aspectos, realizou com o luteranismo institucionalizado o mesmo que Lutero fizera com a Igreja Católica: utilizou as premissas do mestre para criticar o sistema que se reclamava seu herdeiro.


REFERÊNCIAS

KIERKEGAARD, S. Begrebet Angest [O Conceito de Angústia]. 1844. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Enten-Eller [Ou... Ou]. 1843. Tradução de Álvaro Luiz Amaral. São Paulo: Hedra, 2009.

KIERKEGAARD, S. Frygt og Bæven [Temor e Tremor]. 1843. Tradução de José Gama. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Gjentagelsen [A Repetição]. 1843. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Indøvelse i Christendom [Exercício no Cristianismo]. 1850. Tradução de Paula Baptista et al. Lisboa: Relógio d'Água, 2003.

KIERKEGAARD, S. Syvdommen til Døden [A Doença Mortal]. 1849. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2011.

KIERKEGAARD, S. Afsluttende uvidenskabelig Efterskrift [Post-scriptum Final Não Científico às Migalhas Filosóficas]. 1846. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2010.

KIERKEGAARD, S. Øieblikket [O Momento]. 1854-1855. Tradução de José Miranda Justo. Lisboa: Relógio d'Água, 2009.

LUTERO, M. De captivitate Babylonica ecclesiae praeeludium [O Cativeiro Babilônico da Igreja]. 1520. Tradução de Luiz Alberto de Boni. São Paulo: Loyola, 2017.

LUTERO, M. Wormser Edikt [Discurso na Dieta de Worms]. 1521. In: Luthers Werke in Auswahl. Berlin: de Gruyter, 2008. v. 2, p. 42-48.

OBERMAN, H. A. Luther: Man Between God and the Devil. New Haven: Yale University Press, 1992.

WESTPHAL, M. Becoming a Self: A Reading of Kierkegaard's Concluding Unscientific Postscript. West Lafayette: Purdue University Press, 1996.

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