Uma Análise das Dimensões Escatológica e Realizada no Profetismo de Jesus.


A Simultaneidade do Reino de Deus na Cristologia do Novo Testamento: Uma Análise das Dimensões Escatológica e Realizada no Profetismo de Jesus


Resumo

O presente artigo investiga a tensão criativa entre as dimensões escatológica (futura) e realizada (presente/interior) do Reino de Deus no profetismo de Jesus, conforme registrado nos Evangelhos do Novo Testamento. A análise fundamenta-se na categoria teológica do "já, mas ainda não", examinando três eixos interligados: a linguagem simbólica das parábolas, os atos de poder (sinais) e a própria pessoa de Jesus como presença do Reino. Por meio de uma abordagem exegético-teológica, demonstra-se como o anúncio profético de Jesus articula a simultaneidade entre a consumação futura e a eficácia presente do Reino, estabelecendo Jesus como o próprio ponto de encontro entre o céu e a terra, entre o tempo e a eternidade.

Palavras-chave: Reino de Deus; Escatologia; Cristologia; Parábolas; Jesus de Nazaré.


1. Introdução

A questão da simultaneidade das dimensões escatológica e realizada do Reino de Deus constitui um dos núcleos hermenêuticos fundamentais tanto da cristologia quanto da teologia do Novo Testamento. A presente investigação propõe-se a demonstrar como o profetismo de Jesus articula essa dupla dimensão — frequentemente designada pela formulação teológica "já, mas ainda não" — mediante a análise de três categorias interligadas: a linguagem simbólica das parábolas, os atos de poder (sinais) e a própria pessoa de Jesus como presença do Reino.


2. As Parábolas: O Mistério do Reino Presente e Futuro

Jesus utiliza as parábolas como instrumento privilegiado para a comunicação da natureza do Reino de Deus. Diversas narrativas parabólicas encapsulam de forma magistral a tensão entre as dimensões presente e futura do Reino.


2.1 A Parábola do Semeador (Lc 8,4-15)

Nesta parábola, o Reino é comparado a uma semente lançada na terra, constituindo uma realidade presente e interior que germina, cresce e transforma o coração humano. Simultaneamente, a semente encerra em si a promessa de uma consumação escatológica: a colheita. O agricultor opera no presente, orientado pela esperança da colheita futura, configurando assim a estrutura do "já, mas ainda não".


2.2 A Parábola do Grão de Mostarda (Mc 4,30-32)

Esta narrativa ilustra com precisão a simultaneidade em questão. O Reino é apresentado como a menor de todas as sementes — realidade presente, humilde e quase imperceptível —, que, contudo, encerra um destino escatológico glorioso: tornar-se a maior de todas as plantas, capaz de abrigar as aves do céu. O "já" corresponde à semente pequena e ao crescimento; o "ainda não", à árvore grandiosa.


2.3 A Parábola do Fermento (Mt 13,33)

De modo semelhante, o Reino é comparado a fermento que uma mulher esconde em três medidas de farinha. A ação do fermento é presente, invisível e interior, transformando a massa por dentro, com o objetivo futuro de fazer levedar toda a massa, preparando o pão que será consumido no banquete escatológico final.


3. Os Exorcismos e Curas: A Irrupção do Futuro no Presente

As ações de Jesus constituem demonstrações concretas de que o Reino futuro já se encontra em operação. Quando acusado pelos fariseus de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, Jesus responde com uma declaração programática: "Mas, se é pelo dedo de Deus que expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou até vós" (Lc 11,20).

Neste texto, a simultaneidade torna-se explicitamente palpável. A dimensão futura do Reino, no imaginário judaico, correspondia ao momento em que Deus reinaria definitivamente, vencendo todo o mal, inclusive Satanás. A dimensão presente é afirmada por Jesus: essa vitória final sobre o mal está ocorrendo naquele exato momento, mediante suas ações. Cada cura e cada libertação configuram-se como "antecipação" do Reino futuro, constituindo uma invasão do céu na terra. O profeta não apenas anuncia o futuro; torna esse futuro presente e operante.


4. As Bem-Aventuranças: A Inversão Escatológica Presente

No Sermão da Montanha (Mt 5,1-12), Jesus profetiza o Reino mediante a estrutura das bem-aventuranças, que constituem talvez o exemplo mais eloquente da simultaneidade investigada.

A expressão "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus" (Mt 5,3) apresenta o Reino como posse presente ("é") para aqueles que vivenciam determinada atitude interior no momento atual. Por sua vez, "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados" (Mt 5,4) projeta a consolação como promessa futura ("serão") para aqueles que experimentam a dor no presente. Similarmente, "Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra" (Mt 5,5) situa a herança no futuro, enquanto a mansidão é qualidade a ser cultivada no presente.

As bem-aventuranças proclamam que a felicidade definitiva (escatológica) já começa a germinar no coração daqueles que vivem segundo os valores do Reino no presente. O profeta Jesus anuncia uma realidade já experimentável interiormente (pobreza de espírito, mansidão, fome de justiça), cuja plenitude, contudo, ainda está por vir.


5. A Pessoa de Jesus: O Reino em Pessoa

A forma mais profunda de ilustrar essa simultaneidade reside na própria pessoa de Jesus. Ele é o profeta que anuncia o Reino, mas, nos evangelhos, essa fronteira esbate-se: Jesus não é meramente mensageiro, mas a própria mensagem.


5.1 A Metáfora do Noivo (Mc 2,18-20)

Questionado sobre o jejum, Jesus utiliza a imagem do casamento. Enquanto o noivo está presente, é tempo de festa (dimensão presente). Contudo, virá o dia em que o noivo será tirado (dimensão futura). A presença de Jesus constitui a garantia da festa do Reino no agora, simultaneamente apontando para a consumação final.


5.2 O Advérbio "Hoje" na Tradição Lucana

O evangelista Lucas demonstra predileção particular pelo advérbio "hoje" como indicador da simultaneidade do Reino. Na sinagoga de Nazaré, após a leitura do profeta Isaías, Jesus declara: "Hoje se cumpriu esta Escritura nos vossos ouvidos" (Lc 4,21). O ano da graça do Senhor (futuro profético) converte-se em realidade presente na pessoa e na palavra de Jesus. Ao ladrão arrependido na cruz, afirma: "Hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23,43), demonstrando como o Paraíso futuro irrompe no "hoje" do sofrimento presente.


6. Considerações Finais

A ilustração da simultaneidade do Reino anunciado por Jesus revela que o futuro escatológico não constitui realidade totalmente distante, mas dimensão que já começou a operar no presente, no íntimo de cada pessoa e na comunidade dos seus seguidores.

O Reino futuro corresponde à consumação: a colheita, a árvore grandiosa, a consolação definitiva, a herança, o banquete final. O Reino presente e interior configura-se como a semente lançada, o fermento em ação, o "dedo de Deus" expulsando o mal, a atitude das bem-aventuranças, a presença do Noivo, o "hoje" da salvação.

Jesus, enquanto profeta, é aquele que anuncia esta realidade e, mais do que isso, constitui Ele mesmo o ponto de encontro entre o céu e a terra, entre o tempo e a eternidade, entre o Reino que vem e o Reino que já está no meio de nós.


Referências

BÍBLIA SAGRADA. Nova Tradução na Linguagem de Hoje. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

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