O Risco do Idealismo na Afirmação da Ressurreição como "Regra Estruturante": Uma Análise Crítica
Resumo
O presente artigo examina a tensão entre a autonomia do discurso teológico e o compromisso ontológico com a historicidade do evento da ressurreição. Analisa-se a acusação de resquício idealista na afirmação de que a ressurreição funciona como "regra estruturante" do discurso cristão, articulando três possíveis interpretações dessa relação: (1) o resquício hegeliano de idealismo, (2) a via hermenêutica pós-heideggeriana e (3) o realismo teológico da cruz.
Palavras-chave: Ressurreição; Idealismo; Hermenêutica Teológica; Bultmann; Pannenberg; Moltmann
1. O Problema: Autonomia Teológica e Referência Histórica
A afirmação de que a ressurreição de Jesus funciona como "regra estruturante" do discurso cristão — e não meramente como objeto de investigação histórica — constitui uma questão epistemológica central para a teologia contemporânea. Esta formulação, embora perspicaz e capaz de escapar dos limites do positivismo histórico, suscita a seguinte interrogação: há, nesta afirmação, um resquício de idealismo?
A resposta depende fundamentalmente de como se compreende a relação entre a "regra estruturante" e o evento a que ela se refere. Propõe-se, neste ensaio, a identificação de três possibilidades hermenêuticas distintas.
2. O Resquício de Idealismo (Hegeliano)
Se a afirmação em questão implicar que a ideia da ressurreição — compreendida como símbolo da vitória do espírito sobre a matéria, da esperança sobre o desespero, ou da continuidade da comunidade eclesial — é o que verdadeiramente importa para a fé, tornando a historicidade do evento indiferente ou mesmo um obstáculo para a fé genuína, então estaremos diante de uma configuração idealista.
Nesta perspectiva, a fé torna-se autorreferencial: ela crê na sua própria estrutura de sentido. A teologia, ao recuperar sua "autonomia" metodológica, cortaria o cordão umbilical com um evento contingente, transformando-se em um discurso sobre a necessidade lógica do espírito — uma configuração que remonta, metodologicamente, ao idealismo hegeliano (cf. HEGEL, 1986).
3. A Via Hermenêutica (Pós-Heideggeriana)
Grande parte da teologia do século XX — de Rudolf Bultmann a Wolfhart Pannenberg, passando por Paul Ricoeur — empreendeu esforços consideráveis para evitar essa deriva idealista. Nesta perspectiva, a afirmação não é que a ressurreição funciona como regra, mas que ela é o evento fundador que instaura essa regra.
3.1. Bultmann: Historie e Geschichte
Bultmann, frequentemente acusado de idealismo, sustenta que a cruz e a ressurreição são eventos históricos (Historie, no sentido de facts brutos) que somente se tornam reveladores quando alcançam o existente na linguagem (Geschichte) (BULTMANN, 1969). Para o teólogo de Marburgo, a ressurreição não é um fato passado demonstrável, mas o evento de fé que inaugura uma nova autocompreensão existencial.
O risco idealista aqui é real, na medida em que a fé parece criar seu próprio fundamento — uma objeção levantada, entre outros, por Ernst Käsemann (cf. KÄSEMANN, 1969).
3.2. Pannenberg: O Evento Histórico Público
Pannenberg, em contraste metodológico explícito, insiste que a teologia somente recupera autonomia legítima se conseguir demonstrar que a ressurreição é um evento histórico público, ainda que não verificável pelos métodos estritos da ciência histórica — que operam, segundo ele, com um princípio de analogia que exclui a priori a possibilidade do milagre (PANNENBERG, 1977).
Para Pannenberg, a "regra estruturante" só possui legitimidade epistemológica se derivar de um fato que irrompeu na história universal, submetendo-se à verificabilidade histórica in principle, embora não in actu pelos métodos positivistas.
4. A Teologia da Cruz e o Realismo (Lutero/Moltmann)
Uma resposta mais robusta à acusação de idealismo emerge da teologia que insiste no realismo ontológico do evento. Para Jürgen Moltmann, a ressurreição não é uma "regra estruturante" abstrata, mas a promessa concreta que se opõe à realidade material da morte (MOLTMANN, 1974).
Se a ressurreição fosse apenas uma estrutura de discurso sem referencialidade histórica, ela não teria força para consolar a vítima ou para protestar contra a injustiça estrutural. A autonomia da teologia, nesta configuração, não significa que ela dispensa a história, mas que ela se recusa a deixar que o método histórico — que pressupõe um mundo fechado de causa e efeito — determine a priori o que pode ou não ter acontecido.
5. Conclusão
A afirmação de que a ressurreição opera como "regra estruturante" do discurso cristão só demonstra um resquício de idealismo se estiver desconectada de um compromisso ontológico com a realidade da ressurreição como evento que, embora não seja demonstrável pelos métodos históricos padrão — pois estes já excluem a possibilidade do milagre em seu protocolo de investigação —, constitui a condição de possibilidade para que o discurso cristão tenha um conteúdo objetivo e não seja mera autorreferência comunitária.
Se a teologia recupera sua autonomia metodológica para simplesmente descrever como a comunidade se estrutura linguisticamente, ela degenera em antropologia cultural. Se, por outro lado, recupera sua autonomia para afirmar que a ressurreição é um evento real que escapa aos métodos históricos positivistas, mas que se impõe como promessa e futuro escatológico, ela permanece teologia propriamente dita.
O "resquício de idealismo" aparece precisamente quando se confunde a autonomia do método teológico com a suspensão da referência histórica. A verdadeira autonomia teológica reside, assim, não na independência da história, mas na recusa de submeter a realidade do evento escatológico aos protocolos de uma ciência histórica que pressupõe o fechamento causal do mundo.
Referências
BULTMANN, Rudolf. Theologie des Neuen Testaments. Tübingen: J.C.B. Mohr (Paul Siebeck), 1969.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Vorlesungen über die Philosophie der Religion. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986.
KÄSEMANN, Ernst. "Das Problem des historischen Jesus". In: Exegetische Versuche und Besinnungen. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1969. v. 1, p. 187-214.
MOLTMANN, Jürgen. Der gekreuzigte Gott: Das Kreuz Christi als Grund und Kritik christlicher Theologie. München: Kaiser, 1974.
PANNENBERG, Wolfhart. Grundfragen systematischer Theologie: Gesammelte Aufsätze. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1977. v. 2.
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