A Tensão entre a Herança da Heilsgeschichte Alemã e a Pragmática da Teologia pública americana.

Aprofundar essa tensão entre a herança da Heilsgeschichte alemã e a pragmática da teologia pública americana constitui um excelente exercício analítico, pois revela o ponto nevrálgico onde essas duas tradições teológicas se estranham. Para realizar essa comparação, utiliza-se como base a Ética de Wolfhart Pannenberg, publicada postumamente em 1990, embora gestada durante décadas, e a obra de Max L. Stackhouse, especialmente Public Theology and Political Economy, de 1987, bem como a série God and Globalization, sendo Stackhouse talvez o principal sistematizador da teologia pública nos Estados Unidos. Enquanto Pannenberg parte da ressurreição como antecipação do fim da história para fundamentar a ética, Stackhouse parte da aliança e da responsabilidade social como estrutura universal para fundamentar a ética. O resultado são duas maneiras radicalmente diferentes de compreender o que significa agir no mundo.

Para Pannenberg, a ética não pode ser fundada em princípios abstratos, como na tradição kantiana, nem apenas no mandamento divino, como propunha Karl Barth. Ela é fundada na realidade do Reino de Deus que já irrompeu na ressurreição e aguarda sua consumação. A estrutura fundamental de sua ética é a antecipação. O ser humano vive sempre adventus, em direção ao futuro. Como a ressurreição de Jesus já revelou qual é o futuro de toda a humanidade, a vida na glória de Deus, a ação ética cristã consiste em viver agora como se o futuro de Deus já fosse realidade. O papel da História da Salvação é central nessa construção. A Heilsgeschichte é o fio condutor. A ética não é um código, mas uma participação na história de Deus com a humanidade. Cada ação cristã é um sinal que aponta para o destino escatológico do mundo. As consequências práticas dessa posição são múltiplas. Pannenberg mantém uma relação de tensão com o Estado. Reconhece a necessidade da ordem estatal para conter o pecado, mas insiste que o Estado não é o locus da salvação. O cristão vive como estrangeiro no mundo, testemunhando, por meio de uma vida de amor e serviço, a realidade de um futuro que o Estado e a economia não podem garantir. A ação pública, para Pannenberg, é fundamentalmente testemunhal e antecipatória. Ela visa criar espaços de liberdade que reflitam a destinação do homem à comunhão com Deus. Não busca primariamente influenciar políticas públicas, mas mostrar que a verdade última, a ressurreição, tem implicações para todas as esferas da vida. O grande problema na ética pannenbergiana, apontado por críticos como Trutz Rendtorff, é que ela às vezes parece tão focada no fim da história que carece de uma teoria de mediação institucional clara para o presente. Como exatamente a igreja deve dialogar com a economia de mercado? Pannenberg oferece princípios teológicos profundos, mas poucas estratégias de implementação concreta.

Max Stackhouse representa um movimento oposto. Ele não parte da escatologia, do fim, mas da criação e da aliança, do início e da estrutura. Sua teologia pública é profundamente influenciada por Abraham Kuyper, notadamente pela doutrina da soberania das esferas, e pela ética social calvinista. A estrutura fundamental de sua ética é a responsabilidade cultural. Deus criou o mundo com uma estrutura ordenada. O pecado distorce essas estruturas, mas a graça redentora em Cristo visa restaurar não apenas almas individuais, mas as estruturas da sociedade, incluindo economia, política, família e arte. O papel da história em Stackhouse é periférico em comparação com Pannenberg. Stackhouse fala muito menos em Heilsgeschichte no sentido alemão e muito mais em história como laboratório da aliança. Para ele, as instituições sociais são meios de graça onde a justiça de Deus deve se encarnar. As consequências práticas dessa abordagem diferem substancialmente das de Pannenberg. Stackhouse defende que a teologia deve oferecer um magistério, um ensino autoritativo, mas não coercitivo, para as instituições públicas. Ele se engaja pesadamente com economia, direito e política, tentando mostrar que o cristianismo tem os recursos simbólicos e morais para sustentar a democracia e os direitos humanos em um contexto globalizado. Ao contrário da tensão pannenbergiana, Stackhouse vê o Estado democrático e o mercado regulado como conquistas positivas da tradição cristã, especialmente calvinista. A ética, portanto, não é apenas testemunho, mas gestão e reforma dessas instituições. Se Pannenberg pergunta como antecipar o Reino, Stackhouse pergunta como garantir que as instituições globais, como ONU, OMC e corporações, operem sob princípios de justiça que reflitam a justiça de Deus.

A comparação direta entre esses dois modelos revela tensões em múltiplos critérios. Quanto ao fundamento ético, Pannenberg baseia-se na ressurreição como antecipação escatológica, de modo que o futuro de Deus determina o presente. Stackhouse baseia-se na aliança e criação, de modo que a ordem original e a promessa orientam a ação. Quanto ao papel da Heilsgeschichte, esta é central para Pannenberg, sendo a espinha dorsal da ética, de modo que a ética é hermenêutica da história universal. Para Stackhouse, a Heilsgeschichte é periférica, dando o ethos, a motivação, mas a análise ética se dá pela doutrina das esferas e pela razão prática. Na relação com o Estado, Pannenberg mantém tensão e transcendência. O Estado é necessário por causa do pecado, mas é relativizado pelo Reino vindouro. Stackhouse mantém parceria crítica. O Estado, especialmente o democrático, é um aliado potencial na promoção da justiça, desde que submetido à lei divina. Quanto à natureza da ação pública, para Pannenberg é testemunho antecipatório, ação que manifesta o futuro de Deus, mesmo que contra a corrente. Para Stackhouse é gestão cultural e institucional, ação que reforma as estruturas da sociedade de dentro, através de especialistas e líderes. Quanto ao destinatário, para Pannenberg o público é a humanidade como um todo, convocada a reconhecer a verdade da ressurreição. Para Stackhouse o público são os agentes das instituições, políticos, economistas, juristas, com quem se dialoga em pé de igualdade. A principal crítica à ética pannenbergiana é a ausência de mediação, a falta de uma teologia da política concreta, de modo que se questiona como a igreja se organiza para isso. A principal crítica à teologia pública de Stackhouse é o risco de aclimatação. Ao se engajar tão profundamente com o liberalismo democrático, corre o risco de diluir a tensão escatológica e confundir bem comum com progresso ocidental.

A tensão fundamental entre essas duas abordagens pode ser assim resumida. Pannenberg teme que a teologia pública, ao se tornar tão focada em reformar estruturas, acabe perdendo a memória escatológica. Se a ressurreição não for o centro público e factual da teologia, a ação social cristã torna-se indistinguível de uma organização não governamental humanista secular. O cristão age no mundo não primariamente para melhorar a sociedade, mas porque o futuro de Deus já começou e ele precisa viver de acordo com esse futuro. Stackhouse e a corrente majoritária da teologia pública temem que a ênfase pannenbergiana na escatologia e na Heilsgeschichte leve a um quietismo ou a um sectarismo. Se a atenção está tão voltada para o fim da história, a teologia torna-se incapaz de oferecer orientação concreta para os complexos dilemas da biopolítica, da economia global e do pluralismo religioso no presente.

Apesar dessa tensão, há autores que buscam uma síntese. Eilert Herms, discípulo de Pannenberg, tenta desenvolver uma ética social que mantenha a estrutura escatológica de Pannenberg, mas dialogue mais seriamente com as instituições. Por outro lado, Ronald Thiemann, decano da Harvard Divinity School, autor de Religion in Public Life, tentou importar a ênfase pannenbergiana na publicidade da verdade para o contexto americano, sem adotar toda a estrutura da Heilsgeschichte. Enquanto Pannenberg oferece uma fundação metafísica e escatológica para a ação pública, a ressurreição como evento público que reorienta toda a história, a teologia pública de Stackhouse oferece uma teoria da mediação institucional, ou seja, como as igrejas e os teólogos podem influenciar as esferas da sociedade. O grande desafio que permanece é saber se é possível unir as duas coisas, ter a profundidade escatológica da Heilsgeschichte pannenbergiana e a sofisticação institucional da teologia pública norte-americana, ou se essas duas tradições são, em última instância, irredutíveis por partirem de pressupostos antropológicos e eclesiológicos diferentes. 

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