Esta é uma reflexão muito sofisticada sobre os limites do instrumental crítico-literário dominante, especialmente no que concerne a autores marginalizados como Carolina Maria de Jesus. O desejo é de envolver uma busca por informações sobre a citação específica de Schelling a respeito da Divina Comédia e também sobre as abordagens interseccionais e de escuta atenta aplicadas à obra de Carolina.
A reflexão é profundamente instigante e toca em um ponto nevrálgico da crítica literária contemporânea. O importante é desenvolver o diálogo que se propõe entre Schelling/Dante e Carolina Maria de Jesus, incorporando as referências que são encontradas.
O Paradoxo da Inanalizabilidade
A citação de Schelling sobre a Divina Comédia referenciada por ele, evoca — o fato de que não dispunha de instrumentos críticos para analisar a obra e que, por não haver rival, ela escapava à análise — revela algo fundamental: o canone ocidental frequentemente constitui-se através de uma retórica da excepcionalidade que, paradoxalmente, tanto eleva quanto exclui do campo crítico. Schelling reconhecia na obra dantesca uma totalidade orgânica que escapava às categorias analíticas fragmentárias — "não plástica, não pitoresca, não musical, mas tudo isso ao mesmo tempo" .
No entanto, há uma diferença crucial entre o "inanalizável" de Dante e o de Carolina: o primeiro é celebrado como transcendência, o segundo é silenciado como inadequação. Quando Schelling se depara com a Commedia, ele reconhece uma obra que excede seu instrumental crítico; quando a crítica tradicional se depara com Quarto de Despejo, frequentemente não reconhece obra alguma — vê apenas documento, testemunho bruto, "escrita espontânea" de alguém que "não sabe escrever".
A Norma Culta como Latim
Neste ponto, é necessario analogia é precisa: assim como o latim era a norma culta que a Divina Comédia subverteu ao optar pelo dialeto florentino, a gramática padronizada e o "bom português" funcionam como o latim da crítica literária brasileira. Dante escolheu o volgare não por incapacidade de escrever em latim, mas como ato político-estético de legitimação da língua viva. Carolina, por sua vez, não "escolhe" a favela como tema — ela é a favela, e sua escrita emerge das contradições materiais de uma existência marcada pela interseccionalidade de raça, gênero e classe .
A crítica, adepta da norma culta, opera como aqueles humanistas que inicialmente rejeitaram Dante: não reconhece na escrita de Carolina uma poética porque busca uma poética reconhecível — aquela que dialoga com as convenições do cânone. É aqui que sua proposta de "escuta atenta" se torna crucial.
Interseccionalidade como Instrumental Teórico
Os estudos recentes sobre Carolina têm avançado exatamente nessa direção. Pesquisadores como Eliani de Lima Villas Gomes e Nicea Helena de Almeida Nogueira demonstram como a interseccionalidade de raça e gênero funciona não apenas como marcadores identitários, mas como articuladores de empoderamento e subjetivação na obra carolineana . A escrita de Carolina não é mera descrição sociológica da favela; é uma construção literária de subjetividade que opera na interseção de sistemas opressivos.
A "escuta atenta" que você propõe exigiria da crítica:
1. Descentrar o ouvido: deixar de ouvir Carolina através dos filtros da norma culta, escutando-a em sua própria frequência — com seus "erros" gramaticais, seus ritmos, suas interrupções, sua oralidade escrita;
2. Reconhecer a interseccionalidade formal: a forma fragmentária do diário, a aparente descontinuidade narrativa, a mistura de registros — tudo isso não é defeito, mas estratégia estética condizente com uma existência interseccional;
3. Legitimar o "não-saber" crítico: assim como Schelling admitiu a insuficiência de seu instrumental diante de Dante, a crítica precisa admitir que seus conceitos foram moldados em universidades elitistas, por sujeitos de classe média branca, e que não têm vocabulário pronto para a experiência de Carolina — o que exige construir novas categorias.
A Impossibilidade Produtiva
Você sugere que, tal como Schelling diante de Dante, não temos instrumentos para analisar Carolina. Mas talvez essa "impossibilidade" seja produtiva: force a criação de um novo instrumental. A diferença é que, enquanto Schelling podia recuar para uma estética do sublime romântico, nós não temos essa luxo — precisamos construir teorias que não apenas "compreendam" Carolina, mas que sejam transformadas por ela.
A escrita de Carolina Maria de Jesus exige uma crítica que se desloque de seu pedestal, que aceite aprender com a favela, que reconheça que, assim como o florentino de Dante se tornou língua literária, o "despejo" de Carolina contém uma poética capaz de refundar o que entendemos por literatura brasileira — desde que a escutemos não como objeto de caridade cultural, mas como interlocutora teórica que nos ensina a ler o mundo de outra forma.
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