A Leitura Litúrgica como Critério de Canonicidade.

A Leitura Litúrgica como Critério de Canonicidade: Uma Análise Histórica e Teológica

Resumo: O presente artigo examina a relação entre a prática da leitura litúrgica pública e o reconhecimento da autoridade das Escrituras Sagradas no âmbito do cristianismo primitivo. Analisa-se, por um lado, a dimensão histórica que atribui à liturgia o papel de principal critério de canonicidade e, por outro, a questão teológica relativa à natureza da autoridade bíblica — se intrínseca ou conferida pela comunidade eclesial.

Palavras-chave: Canonicidade; Leitura Litúrgica; Regra de Fé; Autoridade das Escrituras; Recepção Eclesial.


1. Introdução

A questão da autoridade das Escrituras Sagradas constitui um tema central que atravessa a teologia sistemática, a história da Igreja e a eclesiologia. A relação complexa entre autoridade, comunidade de fé e corpus bíblico não admite respostas dicotômicas simplificadas, uma vez que depende fundamentalmente da perspectiva teológica e eclesiológica adotada. O presente estudo propõe-se a investigar essa relação em duas dimensões complementares: a perspectiva histórica, que valida o papel determinante da liturgia, e a perspectiva teológica, que introduz matizes essenciais à compreensão do fenômeno.


2. A Leitura Litúrgica como Critério Histórico de Canonicidade

Do ponto de vista histórico-prático, a leitura pública em contexto litúrgico constituiu, nos primeiros séculos do cristianismo, o critério fundamental para o reconhecimento de um texto como Escritura Sagrada — anteriormente, portanto, à fixação de cânones por meio de concílios ecumênicos.


2.1. A Regra de Fé e o Uso Litúrgico

A determinação do caráter inspirado de um determinado escrito não decorria exclusivamente de critérios como antiguidade ou atribuição de autoria — embora estes fossem igualmente relevantes —, mas sobretudo da sua utilização nas assembleias dominicais, em conjunção com os textos do Antigo Testamento. Esse uso público representava a manifestação concreta da recepção eclesial do texto em questão (cf. Metzger, 1987; Gamble, 1985).


2.2. Testemunhos Patrísticos

Atanásio de Alexandria, em sua Carta Festal de 367 d.C. — documento que apresenta a primeira lista dos vinte e sete livros do Novo Testamento — estabelece uma distinção fundamental entre os livros canônicos, descritos como "fontes de salvação" e destinados à leitura litúrgica, e os livros meramente edificantes, como o Pastor de Hermas, considerados adequados à instrução individual, porém não à proclamação pública. Destarte, o ato de proclamação na assembleia funcionava como o selo distintivo que qualificava o texto como "Palavra de Deus" para a comunidade (Atanásio de Alexandria, Epistula Festalis 39).

O Fragmento Muratori (século II d.C.), mais antigo catálogo conhecido de livros do Novo Testamento, opera segundo o mesmo princípio: trata-se de uma lista de escritos que possuem dignidade para serem lidos na Igreja, excluindo aqueles que, tal como o Pastor de Hermas, se restringem à esfera da leitura privada (Fragmentum Muratorianum, linhas 73-80).


2.3. Síntese da Perspectiva Histórica

Na Igreja primitiva, a leitura litúrgica constituía, de fato, o principal ato conferidor e reconhecedor do status de Escritura Sagrada. A comunidade, ao escutar determinado texto no contexto celebrativo, reconhecia ali a voz de seu Senhor.


3. A Questão Teológica: Causa ou Reconhecimento da Autoridade?

Aprofundando a análise, impõe-se a distinção teológica relativa à natureza da autoridade bíblica — questão sobre a qual as tradições cristãs apresentam convergências significativas.


3.1. A Autoridade Intrínseca do Texto

Para as principais tradições cristãs — católica, ortodoxa e protestantes históricas —, o texto não se converte em Palavra de Deus em virtude da sua utilização litúrgica. Pelo contrário, ele já o é, por excelência, em virtude da inspiração divina. A Igreja, sob a guia do Espírito Santo, reconhece essa autoridade intrínseca e, ao proceder à sua leitura pública, submete-se a ela (cf. Dei Verbum, 10; Ware, 1993; Calvin, Institutio, I.VII.1).


3.2. A Liturgia como Ato de Reconhecimento Canônico

A leitura pública representa o momento solene em que a Igreja, enquanto corpo místico, profere seu "Amém" — assim seja, é verdade — à Palavra. Trata-se do ato de recepção canônica. É um critério indispensável, porém constitui a resposta da Igreja à Palavra que a precede e a convoca.


3.3. Metáfora Ilustrativa

A relação entre autoridade intrínseca e reconhecimento litúrgico pode ser metaforicamente compreendida através da imagem de um tesouro enterrado. O tesouro (a autoridade da Escritura) existe previamente e detém valor intrínseco. A Igreja, ao longo do tempo, munida de mapas (tradição, regra de fé), descobre o tesouro e confirma: "Isto é, de fato, ouro puro". Ao colocá-lo no centro da praça pública (a liturgia), declara publicamente o seu valor. O ato de exposição não criou o ouro, mas constitui o reconhecimento público e oficial da sua natureza.


4. Discussão: Leitura Litúrgica e Status de Palavra de Deus

Diante das questões propostas, apresentam-se as seguintes considerações:

Quanto à afirmação de que "as leituras litúrgicas (públicas) são o aval para se conceber a autoridade de escritura sagrada", a resposta é afirmativa no plano histórico: efetivamente, este foi o critério prático e decisivo. Um livro apenas era considerado "canônico" se fosse lido na missa ou culto. Configura-se, portanto, a "recepção litúrgica" da Igreja como elemento constitutivo do processo de canonicidade.

Quanto à questão de que "somente com a leitura litúrgica e a presença da igreja ou congregação a mesma alcança o status de palavra de Deus", a resposta exige distinções:

- No sentido ontológico, a resposta é negativa: o texto não se converte em Palavra de Deus nesse momento, uma vez que a fé cristã sustenta que ele já o é por inspiração divina;

- No sentido funcional-formal, a resposta é afirmativa: o texto alcança o status ou a função de Escritura para determinada comunidade quando por ela acolhido na liturgia. É na assembleia que a Palavra escrita se converte em Palavra viva proclamada. Fora desse contexto eclesial, um livro bíblico pode ser lido como literatura antiga; dentro da liturgia, é recebido e venerado como voz de Deus.


5. Conclusão

A leitura litúrgica não constitui a fonte da autoridade da Escritura — cuja origem é Deus —, mas representa o locus onde essa autoridade é publica e solenemente reconhecida, exercida e recebida pela comunidade dos fiéis. Sem a Igreja que a acolhe e proclama, a Escritura seria um livro fechado; sem a Escritura que a precede, a Igreja não teria fundamento apostólico. Estabelece-se, assim, uma relação de mútua pertença entre a Palavra e a comunidade que dela se nutre.


Referências

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Epistula Festalis 39. In: Patrologia Graeca. Paris: Migne, 1857.

CALVINO, João. Institutio Christianae Religionis. Genebra: 1559.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Divina Revelação. 18 de novembro de 1965.

GAMBLE, Harry Y. The New Testament Canon: Its Making and Meaning. Philadelphia: Fortress Press, 1985.

METZGER, Bruce M. The Canon of the New Testament: Its Origin, Development, and Significance. Oxford: Clarendon Press, 1987.

WARE, Timothy (Kallistos). The Orthodox Church. 2. ed. Londres: Penguin Books, 1993. 

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