RESÍDUOS DE ABSTRAÇÃO NA TEOLOGIA PÚBLICA DE WOLFHART PANNENBERG: UMA ANÁLISE CRÍTICA
Resumo
O presente artigo investiga a tensão metodológica na proposta teológica de Wolfhart Pannenberg (1928-2014), especificamente quanto à possibilidade de uma teologia fundada exclusivamente em fatos históricos verificáveis, sem recursos a princípios filosóficos abstratos ou pressupostos não-empíricos. Através de uma análise crítica de quatro eixos fundamentais de sua obra — o conceito de história universal, o status da ressurreição, a concepção de Deus como "poder do futuro" e a experiência do sentido —, demonstra-se que, apesar do esforço pannenberguiano em construir uma teologia "pública" e objetiva, persistem resíduos de abstração filosófica, particularmente na transição do fato histórico à significação teológica.
Palavras-chave: Pannenberg; teologia pública; história universal; ressurreição; abstração filosófica.
1. Introdução
Wolfhart Pannenberg constitui uma das figuras mais significativas da teologia sistemática protestante do século XX, tendo desenvolvido uma obra que busca estabelecer a teologia cristã como uma disciplina racional, sujeita aos mesmos critérios de verificação que as ciências naturais . Sua proposta central consiste em fundamentar a teologia em fatos históricos públicos, especialmente na ressurreição de Jesus, compreendida como evento histórico acessível à investigação racional .
No entanto, surge a questão metodológica fundamental: é possível construir uma teologia completamente "pública", baseada em fatos históricos verificáveis, sem recorrer, em algum momento, a princípios filosóficos abstratos ou pressupostos não-verificáveis? A presente análise sustenta que, embora Pannenberg tenha minimizado tais recursos, resíduos de abstração permanecem, particularmente nos momentos em que se faz necessário explicar a vinculação entre fatos históricos e sua significação divina.
2. O Conceito de "História Universal" como Totalidade: A Abstração Necessária
O principal resíduo de abstração encontra-se no próprio fundamento do sistema pannenberguiano: a ideia de que a "história como um todo" constitui o horizonte da revelação divina.
Do ponto de vista empírico, nenhum historiador ou cientista possui acesso à "história universal". A história não se apresenta como um objeto observável externamente; os sujeitos encontram-se imersos nela, e ela permanece em constante processo de desenvolvimento. Para afirmar que a revelação se opera na história como totalidade, Pannenberg necessita postular filosoficamente que essa totalidade existe e que convergirá para um fim coerente.
Tal pressuposto não configura um "fato histórico" comprovado, mas uma premissa metafísica sobre a natureza da realidade, parcialmente herdada da tradição hegeliana . A concepção de história como continuum unitário dotado de sentido direcional constitui uma abstração que organiza os fatos, sem derivar diretamente deles. Como assinala Robert Doran, a concepção de verdade como coerência em Pannenberg aproxima-se de uma perspectiva idealista que não distingue adequadamente entre insight e juízo .
3. O Status da Ressurreição: Fato Histórico e Significado Escatológico
Pannenberg insiste na natureza histórica pública da ressurreição, utilizando o método histórico-crítico para argumentar que o túmulo vazio e as aparições tornam a ressurreição a melhor explicação para os dados disponíveis . Contudo, ele próprio reconhece que tal evento não se configura como "histórico" no sentido convencional (comparável, por exemplo, à queda de Roma).
O significado atribuído a esse fato — de que se trata da "antecipação proléptica do fim da história" — não está contido nos dados brutos. Um historiador secular poderia aceitar a ocorrência de algo extraordinário com Jesus, sem necessariamente aceitar a conclusão teológica de que tal evento "revela a Trindade" ou "antecipa o destino final da humanidade".
Observa-se, portanto, um salto hermenêutico — denominado por Pannenberg de "percepção do significado" — que depende de uma estrutura prévia de crença ou de um conceito abstrato de revelação. Como indica Cyril Orji, embora Pannenberg se concentre na questão da verdade da dogmática, sua metodologia opera com distinções entre ontologia e epistemologia que pressupõem uma compreensão prévia da realidade divina .
4. O Deus como "Poder do Futuro": Uma Abstração Dinâmica
Para explicar a ação divina sem recorrer ao sobrenaturalismo intervencionista — que violaria as leis da ciência —, Pannenberg define Deus como o "Poder do Futuro" ou o "Campo de Força do Futuro" . Essa estratégia conceitual permite afirmar que Deus não "invade" o mundo externamente, mas atrai o mundo desde o futuro, operando através das causas naturais.
Ora, o que seria exatamente esse "Poder do Futuro"? Trata-se de uma categoria filosófica — inspirada em conceitos de campo da física — elaborada para falar de Deus sem incorrer no teísmo clássico ou no deísmo. Essa concepção funciona como uma abstração necessária para estabelecer a ponte entre fé e ciência, constituindo, todavia, uma construção teórica e não um fato observável.
Como assinala Christiaan Mostert, a explicação da eternidade de Deus a partir da ação futura no tempo representa uma inovação especulativa que pressupõe uma compreensão particular da relação entre tempo e eternidade .
5. A Experiência do Sentido: A Subjetividade que Retorna
Pannenberg critica explicitamente a teologia subjetiva (representada por Schleiermacher), mas, ao final, necessita de um sujeito que reconheça o fato como revelação. Se a revelação é pública (um fato), por que nem todos a reconhecem? Por que alguns visualizam apenas um homem morrendo na cruz, enquanto outros contemplam o Filho de Deus?
A resposta pannenberguiana — de que a fé constitui a "percepção" da verdade do evento — não é automática; envolve uma abertura para o significado que transcende o fato bruto. Isso reintroduz, discretamente, um elemento de subjetividade (ou de iluminação pelo Espírito) que não é totalmente "público" no sentido científico. O Espírito Santo, em sua teologia, frequentemente opera como o poder que permite ao crente ver nos fatos históricos aquilo que eles realmente são, criando um pequeno resíduo de "interioridade" que Pannenberg tanto procurou evitar.
6. Considerações Finais
A teologia de Pannenberg vive, portanto, em uma tensão criativa, porém não resolvida: entre o polo público do fato histórico — que busca ancorar a teologia na história verificável para conferir-lhe base objetiva e universal, fugindo do subjetivismo — e o polo abstrato do sentido — que necessita inserir tais fatos em um quadro teórico abstrato (a totalidade da história, o futuro como poder, a prolepse) para que se tornem "revelação" e não mero "acontecimentos estranhos".
O resíduo de abstração localiza-se precisamente na passagem do "fato histórico" (ex.: Jesus ressuscitou) para a "significação teológica" (ex.: isso é a auto-revelação do Deus Triúno). Essa transição não é puramente empírica; exige uma decisão sobre a natureza da realidade (metafísica) e uma confiança de que a história caminha para uma totalidade coerente (escatologia).
Pannenberg caracterizaria tal procedimento como uma "hipótese" racional. Todavia, para críticos como Jürgen Moltmann ou os pensadores pós-modernos, isso continua representando um "sistema" que impõe um sentido abstrato aos fatos, em vez de deixar que os fatos falem por si mesmos .
Referências
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PANNENBERG, Wolfhart. Revelation as History. New York: Macmillan, 1968.
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MOLTMANN, Jürgen. Theology of Hope: On the Ground and the Implications of a Christian Eschatology. London: SCM Press, 1967.
DORAN, Robert M. What Is Systematic Theology? Toronto: University of Toronto Press, 2005.
ORJI, Cyril. "Lonergan and Pannenberg's Methodologies". Theological Studies, v. 70, n. 3, p. 1-22, 2009.
MOSTERT, Christiaan. God and the Future: Wolfhart Pannenberg's Eschatological Doctrine of God. London: T. & T. Clark, 2002.
MATTES, Mark C. "Pannenberg's Achievement: An Analysis and Assessment of His Systematic Theology". Currents in Theology and Mission, v. 26, n. 1, p. 51-60, 1999.
WENZ, Gunther. Introduction to Wolfhart Pannenberg's Systematic Theology. Bristol: Vandenhoeck & Ruprecht, 2013.
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