Tobias Barreto como Contramodelo na Estratégia Crítica de Silvio Romero.

Tobias Barreto como Contramodelo na Estratégia Crítica de Silvio Romero: Uma Análise da Polêmica com Machado de Assis


Resumo

O presente artigo examina a utilização estratégica da figura de Tobias Barreto (1839-1889) por Silvio Romero (1851-1914) em sua crítica a Machado de Assis (1839-1908), focalizando-se na obra Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897). Analisa-se de que modo Romero construiu um contramodelo idealizado de intelectual comprometido com o projeto nacional, utilizando-o como instrumento retórico para desqualificar a estética universalista e cética de Machado de Assis. Argumenta-se que essa estratégia revela tanto as disputas hegemônicas no campo literário quanto as tensões concernentes ao papel do intelectual mestiço na construção da nação brasileira.

Palavras-chave: Silvio Romero; Tobias Barreto; Machado de Assis; Crítica literária brasileira; Intelectuais mestiços.


1. Introdução

A polêmica entre Silvio Romero e Machado de Assis, protagonizada especialmente na década de 1890, transcende as fronteiras da disputa estética para configurar-se como um momento privilegiado de reflexão sobre o papel do intelectual e os destinos da literatura nacional. Central para a compreensão dessa controvérsia é a figura de Tobias Barreto, utilizada por Romero não como mero referencial biográfico, mas como peça estruturante de uma estratégia crítica calcada na construção de contramodelos. O presente estudo propõe-se a analisar essa operação discursiva, demonstrando como a idealização de Barreto funcionou como mecanismo de desqualificação da obra machadiana e de legitimação do projeto crítico romeriano.


2. A Estratégia do "Estudo Comparativo": Subversão do Objeto Crítico

O título da obra de Romero — Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897) — encerra em si uma ambiguidade programática. Embora apresente Machado de Assis como objeto central, a estrutura argumentativa do livro revela uma substituição fraudulenta do foco analítico, conforme denunciado pelos contemporâneos do autor.

Lafayette Rodrigues Pereira, em crítica da época reproduzida pela Academia Brasileira de Letras, apontou com precisão essa subversão:

> "Intitula-se o livro – Machado de Assis – grosso embuste! Machado de Assis é o pretexto. O objeto do livro é Tobias, é a glorificação do Teuto sergipano. (...) Daí a fraudulenta substituição de Tobias Barreto por Machado de Assis. A crítica também tem as suas pias fraudes" (apud ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, s.d.).

A denúncia de Lafayette evidencia que o "estudo comparativo" oficialmente dedicado a demonstrar o suposto plágio machadiano de autores estrangeiros funcionava, na prática, como veículo de consagração póstuma de Tobias Barreto. Essa operação retórica — que poderia ser caracterizada como uma dispositio deslocada — revela a existência de um duplo movimento: ao mesmo tempo em que Romero aparentemente se dedicava à crítica destrutiva de Machado, estava efetivamente construindo um altar para seu próprio projeto intelectual, personificado no amigo e conterrâneo falecido.


3. A Construção do Contramodelo: Tobias Barreto versus Machado de Assis

A estratégia romeriana fundamentou-se na estabelecimento de uma série de oposições binárias que contrastavam as trajetórias e as poéticas de Tobias Barreto e Machado de Assis. A sistematização dessas antíteses permite visualizar o mapa cognitivo que orientou a crítica:

Dimensão Tobias Barreto (Modelo) Machado de Assis (Antimodelo) 

Projeto Intelectual Engajado, combativo, "doutrinador do povo" através da literatura e das ideias Universalista, psicológico, cético, sem compromisso com doutrinas ou missões nacionalistas 

Relação com Filosofia e Ciência Filósofo sistemático, imerso nas teorias científicas e filosóficas de vanguarda (evolucionismo, germanismo) Não-filósofo; utilizava ironia e pessimismo como ferramentas de análise, sem adesão a sistemas teóricos 

Brasilidade e Localismo Intelectual que pensava o Brasil a partir de suas raízes regionais (sergipano) e étnicas (mestiço) "Pouco brasileiro", sem "cor local", circunscrito à elite carioca e à universalização temática 

Estilo e Expressão Combativo, polêmico, direto, voltado ao impacto e à propagação de ideias Elegante, indireto, nuancado, fundamentado na ironia e no subtexto 

Essa construção dicotômica permitia a Romero operar uma taxionomia moral do campo intelectual: de um lado, o intelectual público comprometido com um projeto de nação; de outro, o artista "puro", eventualmente dotado de gênio, porém alheio às "lutas" e à "missão civilizatória" que a literatura deveria assumir.


4. A Questão Racial e o Projeto de Nação: O Intelectual Mestiço

A análise da estratégia romeriana exige a consideração de uma dimensão ainda mais profunda: a questão racial e o papel atribuído ao intelectual mestiço na construção da nacionalidade. Romero, Tobias Barreto e Machado de Assis compartilhavam a condição de mestiços — fato que, na concepção determinista de Romero, impunha-lhes um "dever" específico.

Para Romero, o mestiço constituía o "doutrinador" por excelência, aquele que deveria conduzir o Brasil mestiço rumo à "civilização" mediante a formulação e a propagação de ideias redentoras (ROMERO, 1902). Nesse contexto, Machado de Assis representava uma frustrante anomalia: em vez de assumir o papel de profeta nacional, conforme esperado de um "mestiço típico", o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas abstinha-se de qualquer discurso doutrinário, de qualquer apontamento de "caminhos" para a nação.

Essa recusa machadiana soar, aos ouvidos de Romero, como traição ao "dever de classe" do intelectual mestiço. Ao elevar Tobias Barreto como paradigma do intelectual comprometido, Romero estava, portanto:

1. Construindo um altar para seu próprio projeto crítico, personificado na figura do amigo e conterrâneo;

2. Criando uma arma retórica de comparação para evidenciar tudo que Machado de Assis deveria ter sido e não foi;

3. Participando de uma disputa mais ampla sobre o papel do intelectual e o futuro da literatura e da nação brasileira.


5. Considerações Finais

A utilização estratégica de Tobias Barreto na crítica romeriana a Machado de Assis revela-se, em última instância, como um sintoma das contradições do próprio projeto intelectual de Romero. Ao idealizar Barreto como contramodelo, Romero buscava não apenas desqualificar um adversário estético, mas também resolver uma aporia constitutiva de sua posição: a necessidade de conciliar o determinismo racial e científico com a possibilidade de intervenção ativa do intelectual na história.

A "fraudulenta substituição" denunciada por Lafayette Rodrigues Pereira constitui, assim, mais do que um subterfúgio retórico: é a marca visível de uma estratégia de legitimação que, ao buscar demolir Machado de Assis, acabou por revelar as limitações teóricas e políticas do próprio programa romeriano. A ironia histórica reside no fato de que a consagração póstuma de Tobias Barreto, operada por Romero, permaneceu subordinada à sombra da obra de Machado de Assis — justamente o autor que, recusando-se a cumprir o "dever" do intelectual mestiço, logrou criar a mais duradoura expressão da literatura brasileira.


Referências

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Tobias Barreto. Disponível em: <>. Acesso em: mar. 2026.

LAFAYETTE RODRIGUES PEREIRA. Crítica a Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Obra de Silvio Romero: recepção crítica. Rio de Janeiro: ABL, s.d.

ROMERO, Sílvio. Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1897.

ROMERO, Sílvio. O evolucionismo e o positivismo no Brasil. In: . História da literatura brasileira. 5. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1902. v. 2.

SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

SKIDMORE, Thomas E. Branco sobre negro: imagens de raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. São Paulo: Paz e Terra, 1974.

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