A inadequação do viés normativo culto e academicista na análise da obra de Carolina Maria de Jesus: uma reflexão epistemológica
A utilização do viés da norma culta e academicista como parâmetro exclusivo ou principal para a análise da obra de Carolina Maria de Jesus configura, em sua dimensão menos problemática, uma abordagem analítica incompleta; em sua manifestação mais grave, constitui uma forma de violência simbólica e epistemicídio. Tal procedimento assemelha-se à avaliação de um peixe com base em sua suposta capacidade de subir em árvores — ou seja, a aplicação de critérios inapropriados que desconsideram a natureza específica do objeto em questão.
O presente ensaio visa demonstrar a inadequação desse parâmetro tradicional mediante a articulação de quatro eixos fundamentais: (i) o perigo do "currículo universal" e a hierarquização cultural; (ii) o conceito de "escrevivência" como contraponto ao academicismo; (iii) a estética da "fome" versus a estética da "fartura"; e (iv) a necessidade de uma abordagem interseccional e atenta.
1. O perigo do "currículo universal" e a hierarquização cultural
O encontro da crítica literária tradicional com Quarto de Despejo (1960) caracterizou-se por um evidente estranhamento, uma vez que a obra não se adequava aos padrões estéticos consagrados do período. Conforme aponta a pesquisadora Regina Dalcastagnè, o campo literário brasileiro historicamente consolidou um "lugar de fala" privilegiado: branco, masculino, de classe média alta, proveniente das regiões Sul e Sudeste do país e, fundamentalmente, detentor da norma culta (DALCASTAGNÈ, [ano]). Obras que divergem desse denominado "currículo universal" — o qual, na verdade, constitui uma particularidade de grupos dominantes — são recorrentemente categorizadas como exóticas, menores ou "pré-literárias".
Analisar a produção de Carolina Maria de Jesus por essa ótica implica em uma hierarquização cultural que eleva a literatura produzida pela elite ao status de "a literatura", enquanto relega a produção periférica à condição de "subproduto" ou "documento sociológico". Tal procedimento nega à autora o reconhecimento de seu trabalho como manifestação artística legítima.
2. O conceito de "escrevivência" como antídoto ao academicismo
Para dar conta de obras como a de Carolina Maria de Jesus, a escritora e teórica Conceição Evaristo propôs o conceito de "escrevivência". Este não se limita à noção de "escrever sobre a vivência", mas designa uma prática de escrita que corporifica essa experiência, de modo que a sintaxe, o vocabulário e o ritmo são moldados pela trajetória de quem escreve (EVARISTO, [ano]).
A aplicação da régua academicista permite visualizar apenas supostos "erros" de concordância; por outro lado, a utilização da régua da escrevivência possibilita a identificação da potência poética em passagens como:
> "Ainda peguei um resto de mingau que tinha e dei para os meninos. Fiz um chá de folha de laranjeira. Pensei: a natureza é tão bonita que até as folhas elas servem para fazer chá."
Para a norma culta, tal fragmento poderia apresentar problemas de coesão textual ou de regência verbal. Para a escrevivência, evidencia-se a beleza de um pensamento que flui livremente, a observação sensível do cotidiano e a construção de uma imagem de dignidade imensa em meio à miséria. A análise requer, portanto, uma chave de leitura que valorize o conteúdo simbólico e a estética da oralidade, sem submeter a obra a comparações diretas com a estética de Machado de Assis ou Guimarães Rosa — embora diálogos intertextuais possam ser estabelecidos.
3. A estética da "fome" e a estética da "fartura"
A norma culta frequentemente associa-se a uma estética da "fartura": fartura de recursos materiais, de tempo disponível para a escrita, de acesso a livros e de referências eruditas. A obra de Carolina Maria de Jesus, por sua vez, emerge de uma estética da "fome", tanto em sentido literal quanto metafórico.
A fome de comida gera frases curtas e urgentes, como "Não tenho nada para comer". A fome de tempo manifesta-se na escrita noturna, após jornadas exaustivas de trabalho, em papéis encontrados no lixo. A fome de reconhecimento traduz-se na necessidade de provar que existe e que pensa.
Uma análise estritamente academicista revela-se incapaz de captar a força dessa estética da urgência. Aquilo que tal abordagem classifica como "erro" constitui, na verdade, a marca da urgência e da autenticidade. Trata-se da língua empregada em seu estado mais bruto e vital para dar conta de uma realidade que a língua polida e rebuscada jamais conseguiria expressar com equivalente potência.
4. O parâmetro interseccional e a escuta atenta
O parâmetro mais adequado para a análise de Carolina Maria de Jesus é aquele que considera a interseccionalidade de sua existência: mulher, negra, pobre, favelada, mãe solo e autodidata. Uma análise adequada deve:
1. Partir da obra: aceitar a linguagem da autora tal qual se apresenta, buscando compreender sua lógica interna e sua força expressiva, sem submetê-la a julgamentos baseados em normas externas;
2. Contextualizar social e historicamente: compreender o Brasil dos anos 1950 e 1960, os processos de migração interna, a formação das favelas e o lugar social ocupado pela mulher negra na sociedade brasileira;
3. Utilizar ferramentas teóricas adequadas: recorrer aos estudos da Literatura Marginal, da Teoria Pós-Colonial, da Crítica Feminista Negra, bem como aos conceitos de "escrevivência" e "lugar de fala";
4. Reconhecer o valor estético na diferença: perceber que a beleza da obra reside precisamente em sua capacidade de criar uma narrativa poderosa a partir de elementos tradicionalmente ignorados ou desprezados pela tradição literária canônica.
Considerações finais
A utilização da norma culta academicista como parâmetro único para a análise de Carolina Maria de Jesus constitui um equívoco epistemológico. Tal procedimento representa uma tentativa de inserir uma obra que explode os padrões estabelecidos dentro de uma moldura conceitual que foi, justamente, construída para excluí-la. O caminho mais fecundo e justo consiste em inverter a lente analítica: em vez de indagar "o que falta a Carolina para se igualar aos cânones?", deve-se perguntar "o que a obra de Carolina nos ensina sobre os limites e as exclusões do próprio cânone?"
Referências
DALCASTAGNÈ, R. [Título da obra]. [Cidade]: [Editora], [ano].
EVARISTO, C. [Título da obra ou artigo sobre escrevivência]. [Cidade]: [Editora], [ano].
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