A Questão acerca da Relação entre a Heilsgeschichte de Wolfhart Pannenberg e a Tradição da Teologia Pública.

A questão acerca da relação entre a Heilsgeschichte de Wolfhart Pannenberg e a tradição da teologia pública toca no cerne da tensão entre a herança teológica alemã e o desenvolvimento da teologia pública norte-americana. Essa relação caracteriza-se por uma ruptura metodológica, mas também por uma continuidade genealógica, especialmente quando se observa a evolução da teologia alemã pós-Bultmann. Para responder adequadamente a essa questão, é necessário compreender como Pannenberg ressignificou a Heilsgeschichte e de que modo essa visão foi traduzida, ou em certo sentido reduzida, pela corrente predominante da teologia pública anglo-saxônica.

Na tradição teológica alemã dos séculos XIX e XX, a Heilsgeschichte, associada a Johann Christoph von Hofmann e, posteriormente, a Oscar Cullmann, operava com uma distinção fundamental entre Historie e Heilsgeschichte. A Historie compreendia os fatos brutos e verificáveis, enquanto a Heilsgeschichte designava a sequência de eventos interpretados pela fé, que não necessariamente precisavam ser verificáveis pelos métodos seculares. Pannenberg rompe com essa estrutura de maneira radical, considerando que tal separação constituía um erro que permitia à fé refugiar-se em um gueto subjetivista. Sua tese central afirma que a Heilsgeschichte não é uma camada escondida atrás da história secular, mas a própria história universal, não havendo dois níveis de realidade histórica. A consequência imediata dessa posição é que, se a ressurreição constitui o centro da Heilsgeschichte, ela precisa ser demonstrada como um evento histórico público, sujeito aos mesmos critérios de investigação que aplicamos a Alexandre, o Grande, ou à queda de Jerusalém. O objetivo epistemológico de Pannenberg é superar o fideísmo, defendendo que a teologia é uma ciência que deve apresentar sua pretensão de verdade à razão pública, sem apelar para uma pré-compreensão da fé, como fazia Rudolf Bultmann. Nesse ponto, estabelece-se um contato com a noção de publicidade: a teologia deve ser pública porque lida com a história real. Contudo, o público de Pannenberg permanece, primordialmente, a academia e a razão histórica.

Quando a teologia pública se institucionaliza nos Estados Unidos, principalmente mediante o trabalho de Max Stackhouse no Princeton Seminary, ocorre uma mudança de eixo significativa. A teologia pública norte-americana herdou de Pannenberg a recusa do privatismo religioso, mas abandonou, em grande medida, a estrutura escatológica e histórica densa da Heilsgeschichte. Essa transformação decorre da alteração de contexto: não se trata mais de dialogar com o ceticismo histórico alemão, posterior às críticas de Gotthold Ephraim Lessing e David Friedrich Strauss, mas de dialogar com o pluralismo religioso e a democracia liberal. Na evolução da teologia alemã para a teologia pública americana, verifica-se um deslocamento categorial. Enquanto para Pannenberg, na tradição da Escola de Heidelberg, o foco da Heilsgeschichte é vertical e escatológico, compreendendo a história como movimento em direção ao fim, ao Reino de Deus, que já foi antecipado na ressurreição, para a teologia pública de Stackhouse e seus interlocutores o foco é horizontal e ético, entendendo a história como lugar da aliança e da responsabilidade social. Quanto à mediação, onde Pannenberg apresenta a ressurreição como fato verificável que antecipa o fim do mundo, a teologia pública norte-americana substitui essa mediação pela ética pública e pelos direitos humanos como ponte entre a fé e a sociedade. No que tange ao papel do Estado, enquanto para Pannenberg o Estado é relativizado pela irrupção do Reino, configurando uma tensão apocalíptica, para a teologia pública o Estado é uma esfera soberana onde a igreja atua como magistério público.

Para compreender como a Heilsgeschichte evoluiu até influenciar, ou ser abandonada, pela teologia pública, é necessário examinar o triângulo teológico alemão do século XX. Karl Barth rompeu com a Heilsgeschichte liberal, sustentando que a história da salvação é a história de Deus para o homem, revelada na Escritura, não uma entidade verificável pela ciência histórica. Barth constitui-se no grande crítico da tentativa de Pannenberg de provar a ressurreição. Rudolf Bultmann, por sua vez, radicalizou a separação, considerando a Historie irrelevante para a fé, entendida como Geschichte existencial. Para Bultmann, a ressurreição é um evento existencial na pregação, no kerygma. Wolfhart Pannenberg e Jürgen Moltmann reagem contra Barth e Bultmann, buscando reabilitar a história. Para ambos, a Heilsgeschichte não pode ser uma história sagrada separada. Pannenberg aposta na prova histórica, desenvolvendo uma apologética da ressurreição, enquanto Moltmann aposta na esperança política, compreendendo a ressurreição como promessa de justiça que mobiliza a transformação do mundo. A teologia pública norte-americana, ao se apropriar dessa tradição, tendeu a preferir Moltmann, ou seja, a dimensão política da esperança, em detrimento de Pannenberg, a dimensão epistemológica da prova histórica.

Na virada para a teologia pública, especialmente no contexto luterano alemão contemporâneo, como em Eilert Herms ou em alguns setores da Igreja Evangélica na Alemanha, a Heilsgeschichte de Pannenberg enfrentou um paradoxo estrutural. Se a Heilsgeschichte é Universalgeschichte, então a teologia precisa se submeter aos critérios de verdade da historiografia secular. Se a teologia se submete a isso, corre o risco de, na esfera pública pluralista, ter sua linguagem escatológica, referente ao Reino de Deus e à ressurreição, traduzida para uma linguagem puramente ética ou cívica, perdendo sua densidade teológica original. Na evolução da teologia alemã, Pannenberg tentou salvar a Heilsgeschichte tornando-a pública, isto é, histórica. A teologia pública norte-americana herdou a intenção de publicidade, mas, ao se adaptar ao pluralismo democrático, acabou transformando a Heilsgeschichte, a história da salvação, em uma ética da responsabilidade histórica. Para Pannenberg, se a ressurreição não é um fato público, a teologia desaba. Para a teologia pública, especialmente a pós-Marty, a fé cristã pode contribuir para o bem comum mesmo que a sociedade não aceite a ressurreição como fato histórico. Essa diferença representa um abismo em relação ao projeto original pannenbergiano. 

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