Senso Comum e Conhecimento Epistemológico.

A Barreira Epistemológica entre Senso Comum e Conhecimento Científico: Uma Análise das Perspectivas de Bachelard, Foucault e Piaget.


Resumo

O presente artigo examina a natureza da relação entre senso comum e conhecimento científico a partir de três vertentes epistemológicas distintas: o racionalismo crítico de Gaston Bachelard, a arqueologia do saber de Michel Foucault e a teoria genética da inteligência de Jean Piaget. Por meio de uma análise comparativa, busca-se demonstrar que, embora a tradição clássica defenda a superação necessária do senso comum como condição para o estabelecimento do conhecimento científico, perspectivas contemporâneas problematizam essa fronteira, revelando-a como construção histórica e política. Conclui-se que a barreira epistemológica permanece como função constitutiva da ciência, mas sua percepção e legitimidade encontram-se em constante tensão no contexto pós-moderno.

Palavras-chave: epistemologia; senso comum; conhecimento científico; Bachelard; Foucault; Piaget.


1. Introdução

A questão acerca da distinção entre senso comum e conhecimento científico constitui um dos eixos centrais do debate epistemológico contemporâneo. A resposta a tal questão depende diretamente da lente teórica utilizada para analisar o fenômeno. Se para Gaston Bachelard (1884-1962) a superação do senso comum configura-se como uma batalha eterna e necessária, para Michel Foucault (1926-1984) a própria definição de "senso comum" e "conhecimento" revela-se escorregadia e historicamente determinada. Por sua vez, Jean Piaget (1896-1980) aborda a questão sob a ótica do desenvolvimento cognitivo e da adaptação epistemológica.

O objetivo deste artigo é explorar as duas possibilidades implícitas nesse debate: (i) a perspectiva da superação possível e necessária, fundamentada no racionalismo crítico de Bachelard; e (ii) a perspectiva da dissolução da barreira, advinda da virada linguística e da arqueologia do saber foucaultiana.


2. A Perspectiva da Superação Necessária: Conhecimento versus Opinião

Para uma vertente significativa da epistemologia — da qual Bachelard é considerado o principal expoente francês, mas que engloba também pensadores como Karl Popper (1902-1994) e Georges Canguilhem (1904-1995) —, a superação do senso comum constitui a própria definição de ciência.


2.1 O obstáculo epistemológico

Bachelard é célebre pela assertiva de que "a opinião pensa mal" (BACHELARD, 1938). Para o autor, o senso comum é constituído por imagens, hábitos e primeiras impressões. A ciência, nessa perspectiva, não se edifica sobre esses elementos, mas contra eles. O ato de conhecer cientificamente exige uma vigilância constante, de modo que o espírito científico deve manter-se em permanente estado de alerta para não sucumbir às armadilhas da linguagem cotidiana, das metáforas e das evidências aparentes.


2.2 A ruptura epistemológica

Nesta concepção, a ciência é compreendida como um processo contínuo de retificação. O conhecimento apenas se configura como tal enquanto estiver superando o erro anterior. Quando a superação cessa, a ciência degenera em dogmatismo. Assim, a barreira do senso comum existe e funciona como ponto de partida indispensável: sem a ruptura com a opinião (doxa), o que se tem não é ciência, mas mera crença.


3. A Perspectiva da Complexidade: A Dissolução da Barreira

A partir do século XX, especialmente com os desenvolvimentos da antropologia, da sociologia do conhecimento e da filosofia analítica, a rigidez dessa fronteira epistemológica passou a ser radicalmente questionada.


3.1 A crítica foucaultiana: a verdade como prática social

Foucault não indaga "como superar o senso comum?", mas sim "o que faz com que, em uma determinada época, algo seja classificado como senso comum (erro) e outra coisa como ciência (verdade)?" (FOUCAULT, 1969).


3.1.1 Regimes de verdade

Para Foucault, não existe uma "verdade" objetiva aguardando para ser libertada das amarras da opinião. O que efetivamente existe são "regimes de verdade": cada sociedade estabelece discursos que funcionam como verdadeiros, além de mecanismos para distinguir enunciados verdadeiros de falsos.


3.1.2 O saber como poder

O "senso comum" de uma determinada época — aquilo que todos sabem sem necessidade de demonstração — frequentemente corresponde à internalização de um poder que outrora se apresentava como científico. A noção de que "saúde é silêncio do corpo", por exemplo, constituiu-se inicialmente como conceito médico inovador, tornando-se, posteriormente, senso comum difundido.


3.1.3 O fim da barreira ontológica

Nesta perspectiva, não há uma linha divisória ontológica entre senso comum e ciência, mas tão-somente uma linha histórica e política. O que hoje é ciência pode ser interpretado como mito amanhã; o que era folclore ontem pode converter-se em dado científico hoje.


3.2 A contribuição piagetiana: a gênese contínua

Piaget oferece uma terceira via epistemológica. Para o autor, o senso comum (ou pensamento intuitivo) não representa o "inimigo" da ciência, mas sim sua matéria-prima (PIAGET, 1970).


3.2.1 Continuidade funcional

Piaget demonstrou que as operações lógicas utilizadas na ciência — classificar, seriar, estabelecer correspondências — são as mesmas que a criança desenvolve em suas brincadeiras. A diferença reside no grau de abstração e formalização.


3.2.2 Adaptação epistemológica

O conhecimento, seja cotidiano ou científico, consiste sempre em uma tentativa de adaptação à realidade. O senso comum configura uma adaptação prática e imediata; a ciência, uma adaptação mais complexa, hipotético-dedutiva. Não há "superação" no sentido de aniquilação, mas integração e diferenciação progressivas.


4. A Crise Contemporânea: A Barreira em Questão

A indagação acerca da existência ou não dessa barreira de superação revela-se particularmente perspicaz por apontar para um fenômeno característico do momento histórico atual: a crise da autoridade científica.


4.1 O negacionismo científico

Quando determinados grupos postulam que suas opiniões (senso comum) possuem equivalência epistêmica a dados publicados em periódicos científicos (conhecimento), a barreira da superação é anulada politicamente, embora não epistemologicamente.


4.2 A democracia do conhecimento

A internet contribuiu para a criação da ilusão de equivalência entre todos os saberes. Tal fenômeno não representa o fim da barreira epistemológica, mas o apagamento da diferença entre saber metódico (ciência) e experiência imediata (senso comum).


5. Conclusão

O conhecimento é, por definição clássica — desde Platão —, a superação da mera opinião (doxa). A barreira epistemológica, portanto, existe como condição constitutiva da ciência.

Entretanto, o que se modificou ao longo do tempo foi a percepção dessa barreira:

1. Para o cientista clássico (Bachelard), a barreira configura-se como um muro a ser escalado mediante trabalho árduo e contínuo.

2. Para o filósofo contemporâneo (Foucault), a barreira é uma linha desenhada no chão pela história e pelo poder, suscetível de ser apagada e redesenhada.

3. Para o mundo pós-moderno, observa-se a crença — equivocada do ponto de vista epistemológico — de que a barreira foi derrubada e que "tudo é interpretação".

Assim, a resposta mais precisa à questão inicial é: a barreira existe e é função constitutiva da epistemologia, mas a sociedade contemporânea vive em permanente tensão entre reconhecê-la ou negá-la.


Referências

BACHELARD, G. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996 [1938].

FOUCAULT, M. L'archéologie du savoir. Paris: Gallimard, 1969.

PIAGET, J. Epistémologie des sciences de l'homme. Paris: Gallimard, 1970.

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