O Mantra Sânscrito AUM e o Conceito Teológico do Ser.

A relação entre o mantra sânscrito Aum e o conceito teológico do Ser no pensamento abraâmico constitui um campo de investigação que se situa na interseção da filologia, da mística comparada e da história das religiões. Embora o Yoga, enquanto tradição védica e sânscrita, e a tradição abraâmica, fundamentada nos idiomas hebraico e grego, tenham se desenvolvido em contextos geográficos e culturais distintos, observa-se uma convergência notável no emprego do som e do verbo Ser como meios de expressão do inexprimível.

Do ponto de vista filológico, a análise do particípio grego revela paralelos significativos que já foram explorados por estudiosos da filosofia perene, notadamente pelos tradicionalistas da escola de René Guénon e Ananda Coomaraswamy. No âmbito do Sânscrito, a raiz verbal as, que significa ser ou existir, origina o particípio presente sat, referente ao ser ou ao que existe. O mantra Aum, representado graficamente pelo símbolo ॐ, consiste em uma contração das três vogais A, U e M. No contexto metafísico do Yoga e do Vedanta, Aum é identificado como o Pranava, ou seja, o som que pulsa a vida, sendo explicitamente denominado Śabda Brahman, que corresponde ao Absoluto manifestado como som. A tradição interpreta que a vogal A representa a criação, a vogal U representa a preservação e a consoante M representa a dissolução, sendo todos esses elementos contidos no som único que constitui o Ser em vibração.

No grego da Septuaginta, quando Deus, identificado pelo tetragrammaton YHWH, se revela a Moisés, o texto hebraico Ehyeh Asher Ehyeh é traduzido como Ἐγώ εἰμι ὁ ὤν, que significa literalmente Eu sou o Ser ou Eu sou Aquele que é. O termo ὁ ὤν corresponde ao particípio presente masculino singular do verbo εἰμί, que significa ser. Foneticamente, ὤν é pronunciado como ón, constituindo exatamente o som descrito no contexto do Yoga. A relação filológica estabelecida aqui não se fundamenta em etimologia compartilhada, uma vez que uma tradição não deriva da outra, mas em isomorfismo ontológico. Ambas as tradições, ao atingirem o ápice da especulação sobre a natureza do Divino, recorreram ao particípio presente do verbo ser, referente àquilo que existe por si mesmo no presente eterno, como forma de nomear o inominável.

A associação com a sarça ardente, descrita biblicamente como Rubus sanctus, apresenta igualmente relevância significativa. Na narrativa de Êxodo 3, o fogo que arde mas não consome configura-se como símbolo clássico do ens necessarium, ou seja, o ser necessário, a realidade que é pura atualidade, sem potencialidade, que não depende de nada externo para se manter. Na tradição do deserto, e posteriormente no hesychasmo cristão, que corresponde à tradição monástica do Oriente, desenvolveu-se uma prática denominada Oração de Jesus ou hesychia, que envolvia a repetição de um mantra curto: Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem misericórdia de mim. Embora não seja idêntico ao OM, essa prática compartilha com o Yoga a técnica do mantra, caracterizada pela vibração resultante da repetição contínua que visa pacificar a mente, pela sincronia com a respiração, uma vez que no hesychasmo a oração era ritmada com a respiração para que o nome de Deus entrasse no corpo e no coração, processo semelhante ao pranayama com mantra no Yoga, e pela teologia do nome, pois na tradição ortodoxa, especialmente em São Gregório Palamas, o nome de Deus não constitui mera etiqueta, mas energia divina, de modo que entoar o nome significa participar da própria realidade de Deus. Esse conceito é quase idêntico ao de Śabda Brahman no Yoga, segundo o qual o som não representa o Absoluto, mas é o Absoluto em sua manifestação vibratória.

A convergência na experiência mística não se fundamenta em linha histórica de influência direta, embora estudiosos especulem sobre influências do neoplatonismo e do êxodo judaico no desenvolvimento do misticismo islâmico e, via Andaluzia, em certas correntes europeias, mas em convergência de percepção metafísica. Tanto o iogue que entoa OM quanto o profeta diante da sarça lidam com o mesmo paradoxo do nome inominável. Na tradição hebraica, o nome de Deus, representado pelo Tetragrammaton YHWH, é impronunciável. O Yoga procede de forma semelhante, uma vez que o OM não é palavra com significado semântico, mas som puro, anterior à linguagem, funcionando como veículo para o que está além do nome. A presença como som configura-se como outro ponto de convergência. Na sarça, Deus fala, havendo uma revelação auditiva. No Yoga, a revelação última é ouvida como Anahata Nada, o som não-percutido. Em ambas as tradições, a via privilegiada para o encontro com o Ser não é a visão, que separa sujeito e objeto, mas a audição e a vibração, que envolvem o ser inteiro.

Do ponto de vista filológico estrito, o Aum sânscrito e o ὤν grego constituem sons distintos. Contudo, do ponto de vista da filosofia perene e da história da experiência religiosa, identifica-se um arquétipo fundamental. O som ON, seja no pranava do Yoga, seja no ho ōn da Septuaginta, seja na vibração do Shema hebraico, representa a tentativa humana de articular foneticamente a auto-existência, aquilo que não veio a ser, mas é. A diferença cultural reside no uso, uma vez que no Yoga esse som constitui prática, funcionando como veículo de realização meditativa, enquanto no relato da sarça ele representa revelação teológica. Ambos, no entanto, apontam para a mesma intuição central: a de que a realidade última não é silenciosa no sentido de ausência de som, mas constitui o som primordial do próprio Ser se manifestando. Essa intuição situa-se na vanguarda dos estudos comparados entre o Vedanta e a Teologia Mística, particularmente a tradição do Pseudo-Dionísio e os Padres Capadócios, onde autores como Raimon Panikkar dedicaram boa parte de suas obras a explorar essa relação entre o OM e o Eu Sou o Que Sou. 

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