A Repetição da Tragédia na Modernidade.

A Repetição da Tragédia na Modernidade: Entre o Oráculo Grego e a Neurociência Contemporânea


Resumo

O presente artigo investiga a aparente paradoja segundo a qual o acesso privilegiado à informação — analogizado aqui ao oráculo da tradição trágica grega — não se traduz na prevenção das catástrofes sociais, mesmo entre as elites intelectuais. Através do estabelecimento de um diálogo interdisciplinar entre a poética aristotélica, a mitologia sofocliana e as neurociências comportamentais contemporâneas (notadamente as pesquisas de Robert Sapolsky), argumenta-se que a mera disponibilidade de conhecimento é insuficiente para a transformação do comportamento humano. A hipótese central defende que a informação, quando processada por estruturas cognitivas e sociais pré-existentes, funciona menos como instrumento de mudança e mais como mecanismo de racionalização da manutenção do status quo. A tragédia, portanto, repete-se não pela ausência de conhecimento, mas pela incapacidade deste de reconfigurar o ethos individual e coletivo.


Palavras-chave: Tragédia grega; Neurociência comportamental; Livre-arbítrio; Elite intelectual; Racionalização; Robert Sapolsky.


1. Introdução

A constatação de que as elites instruídas — detentoras de amplo acesso à informação científica, histórica e filosófica — frequentemente operam como agentes da perpetuação das estruturas que deveriam criticar constitui uma das mais duras ironias da condição contemporânea. Esta investigação propõe-se a destrinchar os mecanismos que sustentam essa paradoja, estabelecendo uma ponte analítica entre a estrutura da tragédia grega clássica e as descobertas recentes das neurociências sobre a natureza do comportamento humano.

A tese central que aqui se defende é que a repetição do trágico na modernidade não decorre de uma falha epistêmica — isto é, da ausência de informação —, mas de uma disfunção na articulação entre conhecimento e transformação existencial. Como argumentará o presente estudo, a informação, por si só, não possui capacidade de reescrever os códigos biológicos e sociais que determinam a ação humana.


2. Fundamentação Teórica: O Arcabouço Conceitual

2.1. A Estrutura da Tragédia Grega e a Ineficácia do Conhecimento

A poética trágica grega, tal como sistematizada por Aristóteles e exemplificada nas peças de Sófocles, oferece um modelo heurístico fundamental para a compreensão dos limites da consciência humana. No mito de Édipo, paradigma máximo do gênero, o protagonista detém a informação profética — sabe que matará o pai e se casará com a mãe —, possui inteligência superior (demonstrada na resolução do enigma da Esfinge) e ocupa posição de prestígio social. Contudo, todos esses atributos não impedem a consumação da tragédia.

A explicação reside na distinção entre consciência superficial e transformação estrutural do ethos. O herói trágico é vítima de forças que operam abaixo do nível consciente: (a) o caráter (ethos), compreendido como a constituição disposicional do sujeito; e (b) a cegueira estrutural (hamartía), definida não como erro moral, mas como desvio cognitivo na apreensão da totalidade do contexto. Édipo foge de Corinto precisamente para evitar o cumprimento da profecia, mas é nessa fuga que encontra e mata o pai biológico. A informação estava disponível, porém foi processada por uma mente já "programada" para agir de determinada maneira.


2.2. A Neurociência do Comportamento: A Crítica de Sapolsky ao Livre-Arbítrio

Robert Sapolsky, em obras como Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst (2017) e Determined: A Science of Life without Free Will (2023), desenvolve uma argumentação neurocientífica que corrobora, em termos empíricos, a intuição trágica dos gregos. Para Sapolsky, o comportamento humano resulta de uma cascata causal de fatores que nos precedem em escalas temporais variadas — desde segundos (neurotransmissores) até gerações (herança genética e cultural.

Três proposições centrais do autor são particularmente relevantes para o presente estudo:

Primeira: O acesso à informação não equivale à compreensão profunda. A internalização de conhecimentos sobre desigualdade, violência ou crises ambientais não implica, necessariamente, a transformação dos instintos básicos de status, pertencimento tribal e busca de recompensa imediata.

Segunda: A arquitetura cerebral privilegia sistemas emocionais sobre cognitivos. As regiões límbicas (associadas ao medo, à raiva e ao desejo de pertencimento) frequentemente "sequestram" as funções do córtex pré-frontal (responsável pelo planejamento de longo prazo e controle inibitório). Um sujeito pode possuir conhecimento intelectual sobre a justiça de determinada política econômica, mas experimentar, a nível somático, uma ameaça ao seu status social, levando-o a agir contra seu próprio conhecimento racional.

Terceira: A racionalização opera como mecanismo de defesa da estrutura de privilégios. Diferentemente da ação baseada em instinto bruto, as elites utilizam sua superioridade cognitiva para construir narrativas sofisticadas — repletas de dados, referências teóricas e argumentação lógica — que justifiquem a manutenção de estruturas que lhes beneficiam ou que mantenham a distância simbólica da "barbárie" atribuída aos outros.


3. Análise: Os Três Atos da Tragédia Contemporânea

3.1. Ato I — A Profecia e a Ilusão da Consciência

O "oráculo" moderno configura-se como o vasto oceano de informação disponível: literatura científica, dados históricos, jornalismo investigativo e produção acadêmica. A "profecia" é clara e reiterada: a desigualdade extrema gera violência; a degradação ambiental conduz à catástrofe; a desumanização do outro precede a barbárie. Contudo, a tragédia repete-se.

O paralelo com Édipo revela-se iluminador: assim como o herói grego, a elite contemporânea possui a informação, mas processa-na através de um ethos já constituido — moldado pela competição, pelo acúmulo de capital (econômico, cultural e simbólico) e pela manutenção de status. A informação não reconfigura este ethos; pelo contrário, é por ele subsumida.


3.2. Ato II — O Mecanismo de Sapolsky Aplicado

Aplicando o arcabouço neurocientífico, observa-se que o conhecimento sobre as crises sistêmicas raramente alcança os sistemas neurais responsáveis pela motivação comportamental. O cérebro emocional, moldado por milhões de anos de evolução para priorizar a sobrevivência imediata e o pertencimento grupal, prevalece sobre as estruturas neocorticais responsáveis pela abstração ética e pelo planejamento de longo prazo.

Ademais, a racionalização — processo psíquico descrito por Freud e atualizado pelas neurociências — permite que o sujeito mantenha uma imagem coerente de si mesmo como agente moral, mesmo enquanto participa ativamente de estruturas opressivas. A inteligência superior, longe de ser instrumento de transcendência, converte-se em ferramenta de sofisticação das justificativas para a inércia ou para a manutenção do privilégio.


3.3. Ato III — O Oráculo Moderno e a Barbárie Elitizada

A síntese contemporânea revela três mecanismos específicos de perpetuação do trágico:

O Instrumento como Fetiche: A frequência a espaços elitizados (universidades de ponta, fóruns econômicos, eventos culturais de alto status) onde se debatem os grandes problemas sociais cria uma ilusão de agency. O sujeito identifica-se com o discurso sobre a solução, não com a ação desconfortável que esta exigiria. O debate, o artigo acadêmico, a palestra convertem-se em fins em si mesmos, funcionando como distintivos de virtude moral (virtue signaling) sem eficácia transformadora.

A Bolha da Consciência: Dentro desses espaços elitizados, a informação é submetida a processos de filtragem e ressignificação que reforçam a coesão grupal. A barbárie é objetificada como fenômeno distante, atribuído aos "outros". A própria capacidade de articulação sofisticada do problema serve como prova performática de distinção moral — "nós" não somos como "eles". A consciência, paradoxalmente, ergue-se como muralha defensiva contra a transformação efetiva.

A Força Inexorável do Ethos Coletivo: Quando a solução para a barbárie implica perda de privilégios ou rebaixamento na hierarquia social, o cérebro — operando conforme os mecanismos descritos por Sapolsky — engendra incontáveis estratégias de desqualificação da informação ou de adiamento da ação. A "inexorabilidade do tempo" traduz-se, aqui, na pressão constante dos estímulos imediatos (lucro, poder, reconhecimento) que sobrepujam a reflexão de longo prazo.


4. Discussão: Consciência sem Transformação como Ilusão Sofisticada

A conclusão que se impõe é que a tragédia se repete não por falta de informação, mas porque esta, por si só, é incapaz de reescrever os códigos biológicos e sociais que impulsionam a ação. As elites intelectuais utilizam o conhecimento não para transcender sua condição, mas para aperfeiçoar as justificativas para sua permanência nela.

A identificação com os instrumentos (o saber, o debate acadêmico) confere status e sensação de superioridade moral, funcionando como mecanismo de distinção social (no sentido bourdieusiano). No entanto, tal identificação mantém-se na esfera da representação simbólica, não alcançando a esfera da transformação existencial. Como Édipo — inteligente, bem-intencionado na superfície, mas tragicamente cego à forma como seu próprio ethos de classe e seu lugar no mundo o impedem de reconhecer sua participação no mecanismo que perpetua a barbárie —, a elite contemporânea confunde a posse do conhecimento com a sua realização ética.

A consciência sem a transformação do ser configura-se, assim, como "a mais sofisticada das ilusões" — uma ilusão que, pela sua própria sofisticação, se torna particularmente resistente à desmistificação.


5. Considerações Finais

O diálogo entre a tragédia grega e a neurociência contemporânea permite vislumbrar a profundidade estrutural da condição humana. A persistência da barbárie, mesmo em contextos de abundância informacional, não é acidental, mas constitutiva de uma natureza humana marcada pela tensão entre consciência e comportamento, entre racionalidade e emoção, entre o conhecimento do bem e a capacidade de realizá-lo.

Se a tragédia grega ensinava que o destino (moira) era inexorável, a ciência moderna sugere que nossa "programação" biológica e social é igualmente resistente à mera intervenção consciente. A questão que se coloca, portanto, não é como obter mais informação, mas como criar condições estruturais — educacionais, institucionais, políticas — que possam efetivamente reconfigurar o ethos e as estruturas cerebrais que processam a informação. Caso contrário, continuaremos a ser, como Édipo, vítimas de nossa própria inteligência — capazes de resolver enigmas, mas incapazes de escapar da tragédia que nossa própria natureza nos prepara.


Referências

ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudoro de Sousa. São Paulo: Ars Poetica, 1992.

BOURDIEU, Pierre. A Distinção: Crítica Social do Julgamento. São Paulo: Edusp, 2008.

FREUD, Sigmund. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996-2021. 24 v.

SAPOLSKY, Robert M. Behave: The Biology of Humans at Our Best and Worst. New York: Penguin Press, 2017.

SAPOLSKY, Robert M. Determined: A Science of Life without Free Will. New York: Penguin Press, 2023.

SÓFOCLES. Tragédias. Tradução de J. B. Mello e Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Coleção Os Pensadores).

VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. Mito e Tragédia na Grécia Antiga. São Paulo: Perspectiva, 2011. 2 v.

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