Senso Comum e Conhecimento Científico.

A TENSÃO EPISTEMOLÓGICA ENTRE O SENSO COMUM E O CONHECIMENTO CIENTÍFICO: UMA ANÁLISE DO CONCEITO DE TEMPO EM ARISTÓTELES


Resumo

O presente artigo investiga a tensão epistemológica entre o senso comum (doxa) e o conhecimento científico/filosófico a partir da análise do conceito de tempo em Aristóteles. A pesquisa adota uma abordagem hermenêutica e histórico-filosófica, examinando como a definição aristotélica de tempo como "número do movimento segundo o antes e o depois" representa simultaneamente uma superação do senso comum mítico-grego e a consolidação de um novo paradigma que persistiu por mais de quinze séculos. Os resultados indicam que o conceito aristotélico de tempo funciona como uma "barreira epistemológica" (no sentido bachelardiano), na medida em que, embora tenha superado as concepções mitológicas antropomórficas, manteve resquícios substantialistas e psicológicos que só seriam plenamente superados pela física moderna (Galileu, Newton, Einstein). Conclui-se que o tempo constitui um caso paradigmático da dificuldade em superar completamente as intuições imediatas do senso comum, mesmo quando o conhecimento científico oferece modelos mais adequados.

Palavras-chave: Tempo. Aristóteles. Senso comum. Epistemologia. Barreiras epistemológicas.


1 INTRODUÇÃO

A relação entre senso comum e conhecimento científico constitui um dos problemas centrais da epistemologia contemporânea. Segundo Gaston Bachelard (1978), o progresso do conhecimento científico exige a superação sistemática dos "obstáculos epistemológicos" provenientes da experiência imediata e das categorias do senso comum. Nesse contexto, o conceito de tempo em Aristóteles emerge como um caso particularmente iluminador, na medida em que representa uma tentativa de transição entre a doxa pré-filosófica e o logos científico.

O problema de investigação que orienta este trabalho pode ser formulado da seguinte maneira: de que modo o conceito de tempo em Aristóteles ilustra a tensão epistemológica entre o senso comum e o conhecimento científico? Quais são os elementos do senso comum que permanecem na definição aristotélica, e como esses elementos funcionam como obstáculos à constituição de uma ciência física plenamente objetiva?

O objetivo geral deste artigo é analisar a definição aristotélica de tempo como "número do movimento segundo o antes e o depois" (ARISTÓTELES, Física, Livro IV), examinando em que medida essa definição supera o senso comum grego e em que medida permanece prisioneira dele. Os objetivos específicos são: (a) caracterizar o senso comum pré-aristotélico acerca do tempo; (b) analisar a definição aristotélica e seus avanços epistemológicos; (c) identificar os resquícios do senso comum na teoria aristotélica; (d) demonstrar como a física moderna foi obrigada a superar os limites aristotélicos.

A metodologia adotada consiste em uma análise hermenêutica dos textos aristotélicos, especialmente o Livro IV da Física, complementada por uma investigação histórico-filosófica das transformações do conceito de tempo na física moderna e contemporânea.


2 DESENVOLVIMENTO

2.1 O Tempo no Senso Comum Grego Pré-Filosófico

Antes de Aristóteles, a experiência temporal do grego comum estava profundamente imbricada com a mitologia e os ciclos naturais. O tempo era frequentemente personificado na figura de Cronos, o titã que devorava seus filhos, simbolizando a natureza destrutiva e irreversível do devir temporal. Além disso, a medição do tempo estava vinculada aos movimentos celestes — a alternância entre dia e noite, as estações do ano —, conferindo-lhe uma dimensão cíclica e cosmologicamente determinada.

Essa concepção mitológica atribuía ao tempo uma substancialidade própria: o tempo não era uma medida, mas uma entidade divina, uma força que agia sobre os mortais. Tratava-se, portanto, de uma doxa que não distinguia claramente entre o tempo como dimensão física e o tempo como experiência subjetiva.


2.2 A Superação Aristotélica: O Tempo como Número do Movimento

Aristóteles inaugura uma viragem epistemológica significativa ao deslocar o tempo do plano mitológico para o plano físico-psicológico. Em sua definição célebre, o tempo é concebido como "o número do movimento segundo o antes e o depois" (Física, 219b1-2). Essa formulação implica três avanços fundamentais:

Primeiro, a desubstancialização do tempo: ao defini-lo como arithmos (número), Aristóteles nega-lhe a condição de substância autônoma. O tempo torna-se um acidente do movimento, uma propriedade quantificável que depende da existência de um móvel e de um movimento para ser predicado.

Segundo, a matematização preliminar: embora ainda não se trate de uma matematização plena no sentido galileano, a definição abre caminho para uma abordagem quantitativa do tempo, vinculando-o à contagem e à medição.

Terceiro, a antropologização do tempo: Aristóteles estabelece que "se não há quem conte, há movimento, mas não há tempo numerado" (Física, 223a21-28). O tempo depende da existência de uma alma (psychê) capaz de contar, o que representa uma inovação significativa ao introduzir a dimensão cognitiva na constituição do tempo.


2.3 Os Obstáculos Epistemológicos na Definição Aristotélica

Apesar dos avanços, a teoria aristotélica mantém resquícios do senso comum que funcionam como obstáculos epistemológicos, no sentido bachelardiano do termo. Identificam-se três obstáculos principais:

A) O obstáculo substantialista: embora Aristóteles negue explicitamente que o tempo seja uma substância, ele ainda o trata como algo que possui "partes" — passado, presente e futuro. O "agora" (nun) é concebido como o elo que une e divide o tempo, funcionando como uma espécie de instante presente que flui. Essa concepção mantém a intuição do tempo como um "rio" que escoa, imagem típica do senso comum. O problema, posteriormente explorado por Santo Agostinho (Confissões, Livro XI), é que se o tempo é composto de "agoras", e o passado não existe mais enquanto o futuro ainda não existe, resta apenas o presente — que, sendo um ponto sem duração, não pode constituir tempo.

B) O obstáculo psicológico: a dependência do tempo em relação à alma que conta representa um avanço antropológico, mas constitui um obstáculo para a objetividade científica. Para a física moderna, inaugurada por Galileu Galilei e consolidada por Isaac Newton, o tempo deve ser absoluto, matemático e independente de qualquer consciência que o perceba. O "tempo absoluto, verdadeiro e matemático, em si e por sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com nada externo" (NEWTON, Principia, 1687) representa uma ruptura necessária com a subjetividade aristotélica.

C) O obstáculo da continuidade: o senso comum pressupõe que o tempo é uma sucessão contínua de "agoras". Aristóteles sistematiza essa intuição, mas ela revela-se problemática diante dos paradoxos de Zenão de Eleia (Aquiles e a tartaruga, a flecha em voo). Mais ainda, a física contemporânea — especialmente a teoria da relatividade de Albert Einstein — demonstra que o "agora" não é universal: o que constitui presente para um observador pode ser passado ou futuro para outro em movimento relativo. A simultaneidade é relativa, e o tempo pode ser dilatado, contrariando a intuição de uma continuidade absoluta.


2.4 A Persistência do Senso Comum Aristotélico

Paradoxalmente, embora a física tenha superado Aristóteles, a definição aristotélica permanece como o senso comum dominante. Se perguntado "o que é o tempo?", o leigo comum responderá provavelmente que é "o que passa", "a duração das coisas" ou "o presente que flui" — formulações essencialmente aristotélicas. Isso evidencia uma décalage epistemológica: enquanto o conhecimento científico (relatividade, mecânica quântica, cosmologia) nos oferece modelos nos quais passado, presente e futuro são igualmente reais (o "bloco de universo" ou block universe), nossa intuição imediata permanece presa à concepção de um presente fluido e privilegiado.


3 CONCLUSÃO

A análise do conceito de tempo em Aristóteles confirma a hipótese inicial de que é possível observar, de forma cirúrgica, a tensão epistemológica entre o senso comum e o conhecimento científico. A definição aristotélica de tempo como "número do movimento segundo o antes e o depois" representa uma transição paradigmática que:

a) superou o senso comum mítico (Cronos, deus do tempo) ao deslocar o tempo para o plano físico-matemático;

b) consolidou um novo senso comum filosófico que perdurou por mais de quinze séculos, influenciando a filosofia patrística (Agostinho) e a escolástica medieval;

c) foi progressivamente superada pela física moderna, que exigiu a eliminação da dependência psicológica e a constituição de um tempo absoluto e objetivo;

d) persiste, no entanto, como a intuição primária do tempo vivido, mesmo quando contradita pelo conhecimento científico mais avançado.

O tempo constitui, assim, um dos mais claros exemplos de como a superação completa do senso comum é uma tarefa epistemologicamente difícil. A "barreira" entre a doxa e o episteme não é apenas externa (o senso comum pré-científico), mas também interna (as categorias filosóficas que, embora mais elaboradas, ainda carregam marcas da experiência imediata). A distância entre a definição aristotélica e a concepção einsteiniana ilustra não apenas o progresso do conhecimento científico, mas também a resistência do senso comum às suas transformações mais radicais.


REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Física. Tradução de Paulo C. Abrantes. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Tradução de Estela dos Santos Abreu. 8. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

EINSTEIN, Albert. Sobre a teoria da relatividade especial e geral. Tradução de Ronaldo Sérgio de Biasi. São Paulo: Contraponto, 2008.

NEWTON, Isaac. Princípios matemáticos de filosofia natural. Tradução de T. A. S. Pires. São Paulo: Edusp, 1990.

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental. Tradução de M. A. de Oliveira. São Paulo: Nova Cultural, 1995. v. 1.

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