1. Introdução
O presente ensaio propõe uma articulação teórica entre a tragédia grega clássica, a neurobiologia contemporânea de Robert Sapolsky e o materialismo histórico de Karl Marx. O objetivo central consiste em examinar a aparente paralisia da consciência frente às estruturas de dominação social, problematizando especificamente o fenômeno da "consciência elitizada" que, embora dotada de acesso privilegiado à informação, demonstra incapacidade de transformação prática das condições materiais que sustentam a barbárie.
2. A Crítica Marxista à Autonomia da Consciência
A questão fundamental — por que a consciência não se traduz em ação transformadora? — encontra resposta no princípio basal do materialismo histórico marxiano: a determinação do ser social sobre a consciência. Conforme estabelecido em A Ideologia Alemã (1845-1846), "não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, o seu ser social que determina a sua consciência" (MARX; ENGELS, 2007, p. 15).
Esta proposição epistemológica implica que:
- A formação dos valores, das teorias e das categorias de percepção — inclusive a distinção entre "civilização" e "barbárie" — é condicionada pelas relações de produção;
- A elite detentora de acesso privilegiado à informação não detém, necessariamente, acesso à realidade em sua totalidade concreta;
- A consciência da classe dominante encontra-se estruturalmente moldada para a perpetuação das condições materiais que garantem seu privilégio.
Tal constatação aponta para a especificidade da tragédia moderna: a cegueira não decorre de falha moral individual (como a hybris na poética aristotélica), mas de contradição estrutural inscrita nas bases materiais da existência social.
3. Ideologia como Mecanismo de Reprodução da Dominação
O conceito de ideologia, tal elaborado por Marx, fornece a chave analítica para compreender a identificação das elites com os instrumentos de perpetuação do status quo. Conforme formulado em A Ideologia Alemã:
> "As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a potência material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua potência espiritual dominante" (MARX; ENGELS, 2007, p. 67).
A implicação teórica é que as instituições de produção mental (universidades, mídia, fóruns especializados) operam como aparelhos de reprodução ideológica. Os agentes inseridos nesses espaços, embora genuinamente comprometidos com a discussão de soluções para as mazelas sociais, operam dentro de parâmetros pré-definidos pela necessidade de manutenção do sistema produtivo que lhes confere privilégio.
O "oráculo moderno" — constituído pela ciência institucionalizada, pela imprensa e pela academia — produz discursos que, embora diagnosticadores da barbárie, são imediatamente submetidos a processos de reinterpretação. As soluções propostas (gerenciamento da crise, filantropia empresarial, "capitalismo consciente") configuram-se como instrumentos de alívio da consciência sem transformação estrutural, funcionando como mecanismos de neutralização da praxis revolucionária.
4. A Repetição Trágica e a Luta de Classes
A ciclicidade histórica identificada na tragédia grega encontra no materialismo histórico sua fundamentação material. A repetição dos ciclos de dominação não decorre de imperativos metafísicos ou falhas éticas individuais, mas da persistência das contradições inerentes às sociedades de classes.
A dinâmica estrutural opera mediante:
1. Acumulação primitiva e concentracão de poder por parte das classes dominantes;
2. Exploração sistêmica das classes trabalhadoras, configurando a "barbárie cotidiana";
3. Crises periódicas (guerras, revoluções, colapsos econômicos) que reconfiguram o cenário sem, contudo, eliminar a contradição fundamental entre capital e trabalho.
A previsibilidade desses ciclos, acessível à consciência teórica, não se converte em ação transformadora por parte das elites dominantes em virtude de uma determinação material objetiva: a superação do ciclo trágico exigiria a auto-negação da própria existência enquanto classe dominante. Trata-se, portanto, de uma "armadilha trágica materialista", na qual a consciência encontra-se irremediavelmente vinculada aos interesses de classe.
5. Superação da Tragédia: A Unidade de Teoria e Prática
Diferentemente da catarse aristotélica (purificação mediante aceitação do destino) ou da humildade epistemológica proposta pelo determinismo biológico sapolskiano, o projeto marxiano postula a transformação revolucionária das bases materiais como única saída possível para a repetição trágica.
A solução marxiana fundamenta-se em três eixos teórico-práticos:
a) A transformação material da filosofia
A XI Tese sobre Feuerbach estabelece o programa epistemológico: "Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diferentes modos; o que importa, porém, é transformá-lo" (MARX, 2010, p. 7). A superação da mera contemplação teórica constitui condição necessária para a efetivação da emancipação humana.
b) A práxis como categoria central
A unidade dialética entre teoria e prática implica que a consciência sobre a barbárie apenas se efetiva mediante a ação transformadora das condições materiais que a geram. Sem a mediação da prática, a teoria reifica-se em ideologia dominante.
c) O sujeito revolucionário
Marx identifica no proletariado o único agente capaz de romper o ciclo trágico. Diferentemente das elites, o proletariado não detém interesse material na manutenção do status quo. Sua consciência, forjada na experiência direta da exploração, pode elevar-se — mediante a mediação teórica — à "consciência de classe", tornando-se capacitada para a ação revolucionária de transcendência do sistema que produz a barbárie.
6. Considerações Finais:
Da Tragédia ao Drama Emancipatório
A articulação proposta estabelece uma genealogia teórica que conecta Édipo, Sapolsky e Marx em um continuum explicativo:
- A tragédia grega demonstra a impotência da consciência (oráculo) frente ao destino, atribuindo tal impotência ao ethos e à hybris do herói;
- A neurobiologia explica o mecanismo: a consciência como fenômeno biológico e ambiental, frequentemente sobrepujado por forças não controláveis;
- O materialismo histórico questiona as determinações últimas: "Por que esse ethos? O que molda essa cegueira?" A resposta aponta para as condições materiais e as relações de produção.
A elite contemporânea não age para impedir a barbárie porque sua existência material depende, em última instância, da manutenção de um sistema que a produz como subproduto inevitável. Sua consciência não pode superar essa contradição sem auto-supressão enquanto classe. Como na tragédia grega, o personagem não pode agir contra sua própria natureza sem autodestruição.
O materialismo histórico configura-se, assim, como tentativa de transformação da tragédia em drama com final emancipatório: não mediante aceitação do destino (fatalismo), nem tão-somente pela interpretação do oráculo (idealismo), mas pela transformação das bases materiais que produzem o destino trágico.
Referências
MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
MARX, K. Teses sobre Feuerbach. São Paulo: Boitempo, 2010.
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