A questão acerca da identidade entre o princípio da teologia pública e a concepção pannenbergiana de publicidade revela uma leitura atenta tanto do campo da teologia pública quanto do pensamento de Wolfhart Pannenberg. A resposta a essa indagação exige uma distinção cuidadosa: embora exista uma afinidade de fundo e a possibilidade de diálogo entre ambos, não se trata exatamente do mesmo princípio.
A corrente dominante da teologia pública, iniciada por Martin Marty e sistematizada por Max Stackhouse, opera sob um princípio metodológico e eclesiológico, concernente fundamentalmente à maneira como a fé deve dialogar com a sociedade plural. Esse modelo parte do pressuposto da tradução e da relevância social, segundo o qual a teologia deve ser formulada em linguagem acessível à razão pública e deve engajar-se com as estruturas da sociedade civil, não mediante imposição autoritária, mas buscando o bem comum. O público, nessa concepção, refere-se à sociedade, ao Estado e à academia como esferas autônomas com as quais a igreja dialoga. O objetivo último consiste na edificação da justiça social e na preservação da dignidade humana dentro do quadro de um Estado democrático e pluralista. Nesse modelo, a publicidade constitui um espaço de mediação. A ressurreição, por exemplo, seria tratada como um símbolo fundante de esperança que a comunidade cristã oferece ao debate público sobre o sentido da vida, sem, contudo, ser imposta como um fato verificável pela ciência histórica.
Wolfhart Pannenberg, por sua vez, opera com um conceito de público substancialmente mais radical e teologicamente denso, desenvolvido principalmente em Revelação como História (1961) e em sua obra cristológica. O movimento pannenbergiano parte de um princípio epistemológico e antropológico, concernente à maneira como a verdade da fé pode ser verificável na história universal. Para Pannenberg, a verdade da teologia deve ser reivindicada como verdade para todos os homens, baseada nos critérios da história universal (Universalhistorie). Não existe, em sua concepção, uma verdade privada para o crente e uma verdade pública para o ateu. A verdade é uma só, e ela se decide na história.
O papel central da ressurreição no pensamento de Pannenberg ilustra bem essa diferença. Para ele, a ressurreição de Jesus não é um objeto de fé irracional (fides qua creditur), mas um evento histórico público. Historicamente, argumenta ele, assim como a morte de César ou a ascensão de Alexandre, a ressurreição ocorreu em tempo e espaço concretos, com testemunhas. Acessível à razão, embora exija uma decisão existencial, a ressurreição é, em princípio, verificável pelo método histórico-crítico, mediante a análise das tradições das testemunhas, a conversão dos céticos, o túmulo vazio, entre outros elementos. Quanto ao seu significado universal, se a ressurreição aconteceu, ela não constitui um evento privado de uma seita, mas a antecipação do fim da história. Jesus foi ressuscitado para a glória do Pai, e essa glória — o futuro de Deus — irrompeu no presente. Portanto, a ressurreição é o evento público que valida que o Deus de Israel é o Deus de todos.
A diferença crucial entre ambas as concepções pode ser sintetizada da seguinte maneira. Na teologia pública de Marty e Stackhouse, o público é compreendido como a arena social — governo, academia, mídia — onde diferentes grupos negociam significados. O princípio regente é a tradução, isto é, transpor conceitos teológicos para ética pública acessível. O status da ressurreição é o de pressuposto eclesial que fundamenta a motivação do cristão para agir no mundo. O diálogo com o mundo se processa de modo que a teologia se senta à mesa do debate público como uma voz entre outras, embora distinta. Para Pannenberg, ao contrário, o público é a história universal como palco da autorrevelação de Deus. O princípio regente é a verificação, ou seja, demonstrar que a pretensão de verdade cristã se sustenta diante da razão histórica. O status da ressurreição é o de conteúdo central que deve ser provado como um evento público para que a teologia tenha legitimidade. O diálogo com o mundo assume a forma de uma reivindicação de que a realidade última, Deus, se manifestou publicamente, de modo que o mundo precisa lidar com essa alegação factual.
Apesar dessa distinção fundamental, existe uma conexão possível entre os dois campos. Eberhard Jüngel, aluno de Pannenberg embora posteriormente crítico, bem como alguns teólogos públicos alemães, argumentam que a publicidade pannenbergiana constitui a condição de possibilidade para uma teologia pública de fato. Se a ressurreição é um evento público, conforme sustenta Pannenberg, então a igreja não tem o direito de privatizar essa verdade. Ela é obrigada a prestar contas dela na esfera pública, não apenas como um mito edificante, mas como um fato que redefine o que é ser humano.
Em síntese, o princípio da teologia pública é sociológico e ético, concernente à questão de como falar de Deus na praça. O princípio de Pannenberg sobre a ressurreição é histórico e ontológico, segundo o qual Deus se tornou público na história, independentemente de a sociedade aceitar ou não. Pannenberg não fundou a corrente da teologia pública — sendo, em certos aspectos, mais próximo da teologia política de Jürgen Moltmann —, mas forneceu uma das justificativas mais radicais para que a teologia não se recolhesse ao gueto eclesial, insistindo que a fé cristã lida com fatos públicos, ou não é fé cristã de fato.
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