A Crítica de Silvio Romero a Machado de Assis: Disputas de Projeto Literário no Brasil de Fins do Século XIX
Resumo
Este artigo analisa a crítica sistematizada por Silvio Romero (1851-1914) à obra de Machado de Assis (1839-1908), focalizando-se no período compreendido entre as décadas de 1890 e início de 1900. A partir do exame do estudo Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897), investigam-se os fundamentos teóricos, os argumentos centrais e as implicações sociopolíticas dessa controvérsia, situando-a no contexto das disputas hegemônicas que marcaram a constituição do campo literário brasileiro.
Palavras-chave: Crítica literária brasileira; Silvio Romero; Machado de Assis; Naturalismo; Modernidade literária.
1. Introdução
A virada do século XIX para o XX no Brasil constituiu um momento de intensa reflexão sobre os rumos da literatura nacional. Nesse contexto, a crítica de Silvio Romero a Machado de Assis emerge não como mero desacordo estético, mas como expressão de conflitos mais amplos concernentes à definição do papel social da literatura e à consagração de determinados projetos intelectuais. A presente análise propõe-se a examinar as coordenadas desse debate, articulando dimensões biográficas, teóricas e institucionais.
2. Contextualização: Dois Paradigmas em Confronto
Para a compreensão adequada da polêmica, faz-se necessário situar os agentes envolvidos em seus respectivos horizontes teórico-ideológicos.
2.1. Silvio Romero: O Projeto Científico-Determinista
Silvio Romero posicionou-se como crítico militante, filiado ao positivismo e ao determinismo biológico-social que caracterizaram boa parte do pensamento brasileiro da segunda metade do século XIX. Seguindo as formulações de Hippolyte Taine sobre raça, meio e momento, Romero defendia uma concepção de literatura como documento sociológico, comprometida com a representação fidedigna da realidade nacional. Nessa perspectiva, o valor estético de uma obra estaria diretamente proporcional à sua capacidade de retratar o "caráter brasileiro", compreendido em suas dimensões étnicas, geográficas e sociais (CANDIDO, 1959).
2.2. Machado de Assis: A Consolidação de um Paradigma Universalista
Por outro lado, Machado de Assis, à época dos ataques mais contundentes de Romero, já ocupava a presidência da Academia Brasileira de Letras e consolidara sua reputação mediante obras como Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891). Sua produção da chamada "fase realista" caracterizava-se pela orientação universalista, análise psicológica refinada, ceticismo epistemológico e recusa explícita de compromissos documentais com a nacionalidade — postulados que se encontravam em antagonismo frontal com o programa romeriano (MAIA, 2013).
3. Os Eixos Argumentativos da Crítica Romeriana
Em Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira (1897), Romero estruturou seu ataque em torno de quatro núcleos argumentativos principais.
3.1. A Acusação de Falta de Originalidade e Plágio
O argumento mais agressivo de Romero consistiu na tentativa de demonstrar que Machado de Assis não seria um gênio criativo, mas um "imitador habilidoso" de autores estrangeiros. O crítico estabeleceu paralelos entre:
- O narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba e o humorismo de Laurence Sterne (The Life and Opinions of Tristram Shandy, Gentleman) e Xavier de Maistre (Voyage autour de ma chambre);
- A fase romântica machadiana e a produção de Gonçalves Dias e António Feliciano de Castilho;
- A psicologia e o estilo da fase realista e a obra de Gustave Flaubert.
Romero cunhou o termo "estilo a furto" para caracterizar a suposta apropriação não-autorizada de modelos estéticos estrangeiros (ROMERO, 1897).
3.2. A Crítica à "Falta de Brasiliandade"
Central para o pensamento romeriano estava a exigência de que a literatura nacional funcionasse como expressão da identidade brasileira. Nesse sentido, Machado de Assis incorria em duas falhas graves:
1. Cosmopolitismo excessivo: Ao privilegiar a análise da "alma humana" em abstrato e a elite carioca, Machado negligenciaria o "cheiro de terra", as paisagens nacionais e os conflitos regionais.
2. Ausência do povo: A exclusão sistemática de personagens pertencentes às camadas subalternas — sertanejos, indígenas, povos negros em situação de vulnerabilidade — contrariava a agenda temática dos romancistas naturalistas e regionalistas, como Aluísio Azevedo, valorizados por Romero (SCHWARZ, 1977).
3.3. O Repúdio ao Pessimismo e à Descrença
Fiel às concepções progressistas de seu tempo, Romero interpretava o ceticismo e o pessimismo machadianos como manifestações estéreis e patológicas. A obra de Machado seria, nessa leitura, negativa, descrente e destituída de mensagem construtiva para a nação — paradoxalmente acusada, simultaneamente, de falta de ideias próprias e de superficialidade irônica.
3.4. A "Pobreza de Imaginação"
Por fim, Romero diagnosticava na produção machadiana uma limitação estrutural: a restrição a análises psicológicas de personagens em cenários reduzidos, ausência de ação dramática e de dimensão épica, elementos que, segundo o crítico, deveriam caracterizar uma literatura nacional digna de tal nome.
4. As Motivações Subjacentes: Disputas pelo Campo Intelectual
A análise da crítica romeriana exige a consideração de fatores extraliterários que conferiram à polêmica sua intensidade particular.
4.1. A Disputa pela Hegemonia Crítica
A crítica a Machado de Assis inscreveu-se no projeto mais amplo de Silvio Romero de estabelecer-se como intérprete autorizado da realidade brasileira. Ao atacar a principal figura consagrada do campo literário, Romero buscava demolição simbólica de um ídolo como estratégia de autolegitimação (BOURDIEU, 1996).
4.2. O Conflito de Projetos Estéticos
A controvérsia articulava-se em torno de duas concepções antagônicas:
Projeto Romeriano Projeto Machadiano
Literatura engajada e documental Literatura artística e autônoma
Instrumento de conhecimento sociológico Exploração psicológica universal
Determinismo cientificista Ironia e ceticismo como ferramentas analíticas
Compromisso com a representação nacional Recusa de função documental
4.3. Dimensões Sociais e Regionais
Não pode ser desconsiderado o componente de ressentimento social que permeou a crítica romeriana. Originário de tradição intelectual regionalista (Sergipe), Romero enfrentava dificuldades de inserção na elite cultural carioca, da qual Machado de Assis constituía expressão paradigmática. A crítica funcionou, assim, como ataque ao establishment que o excluía (SANTIAGO, 1978).
5. Considerações Finais: Legado e Reavaliação
A ironia histórica da polêmica reside no fato de que os esforços depreciativos de Romero não lograram diminuir a reputação de Machado de Assis. Pelo contrário, com o tempo, a crítica romeriana foi ela mesma marginalizada no cânon historiográfico literário.
A acusação de plágio, particularmente, foi posteriormente revista pela crítica especializada: o que Romero interpretou como apropriação fraudulenta configura-se, na atualidade, como intertextualidade criativa, mediante a qual Machado de Assis transformava modelos estrangeiros em construção originalmente brasileira em sua complexidade (SCHWARZ, 1990).
A controvérsia Romero-Machado permanece, portanto, como documento privilegiado para a compreensão das disputas que marcaram a constituição do campo literário brasileiro, ilustrando o momento em que a literatura nacional debatia seu destino: entre a função documental e sociológica, de um lado, e a autonomia estética universalista, de outro. A crítica de Romero, ainda que formalmente injusta e teoricamente limitada, contribui para a valorização da originalidade machadiana, que conseguiu transcender as categorias em disputa.
Referências
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 2. ed. São Paulo: Martins, 1959.
MAIA, João de Jesus Paes. Machado de Assis e a crítica: uma recepção turbulenta. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2013.
ROMERO, Sílvio. Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1897.
SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1990.
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