Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação.


Oscar Cullmann (1902-1999): A Teologia da História da Salvação e a Tensão Escatológica do "Já" e do "Ainda Não"


Resumo

O presente trabalho apresenta uma síntese do pensamento teológico de Oscar Cullmann, teólogo luterano franco-suíço que se destacou como um dos mais influentes intérpretes do Novo Testamento no século XX. A análise centra-se em seus principais contribuições: a teologia da história da salvação (Heilsgeschichte), a tensão escatológica entre o "já" e o "ainda não", a cristologia funcional e suas posições no debate sobre mito e história, bem como suas contribuições à teologia política e ao ecumenismo.


Palavras-chave: Oscar Cullmann; Heilsgeschichte; Escatologia; Cristologia; Desmitologização.


1. Introdução

Oscar Cullmann (1902-1999) constitui-se como uma das figuras centrais da teologia bíblica do século XX. Formado nas universidades de Estrasburgo e Basileia, o teólogo luterano de origem francesa desenvolveu uma obra que buscava mediar entre a crítica histórica moderna e a fé cristã tradicional. Sua proposta teológica distinguiu-se tanto do existencialismo de Rudolf Bultmann quanto da escatologia realizada de C. H. Dodd, oferecendo uma alternativa estruturada pela categoria de Heilsgeschichte (história da salvação) (CULLMANN, 1967a).


2. A Tensão Escatológica: O "Já" e o "Ainda Não"

O conceito mais emblemático do pensamento cullmanniano reside na reinterpretação da escatologia cristã mediante a dialética do "já" (schon) e do "ainda não" (noch nicht).


2.1 O "Já": A Vitória Decisiva em Cristo

Para Cullmann, o centro da história não se projeta em um futuro distante, mas encontra-se na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. O evento decisivo para a salvação da humanidade já se consumou: a batalha final contra o pecado e a morte foi travada e vencida na cruz (CULLMANN, 1956). Essa perspectiva confere às realizações históricas de Jesus um caráter definitivo e irreversível.


2.2 O "Ainda Não": A Consumação Futura

Paralelamente, Cullmann mantém a expectativa de uma consumação final do Reino de Deus, cuja instauração plena e perfeita permanece como promessa futura. A Igreja, portanto, habita o intervalo entre a vitória conquistada e a manifestação escatológica definitiva.


2.3 A Analogia Militar

Para ilustrar essa tensão, Cullmann recorre a uma analogia histórica: a Segunda Guerra Mundial foi decisivamente vencida com o Dia D (a invasão da Normandia), todavia a guerra somente findou completamente no Dia V (a vitória final) (CULLMANN, 1956, p. 84). Analogamente, a Igreja vive no período intermediário entre a vitória decisiva de Cristo e a consumação escatológica.


3. Cristologia e a Concepção Linear do Tempo

3.1 O Tempo como Linearidade Histórica

Contrariando a concepção grega de tempo como ciclo eterno (kyklos), Cullmann defende que o cristianismo introduziu uma compreensão de tempo como linear e irrepetível, orientado por um propósito divino teleológico (CULLMANN, 1967b). A história da salvação configura-se, assim, como uma linha reta que atinge seu ápice na pessoa de Jesus Cristo.


3.2 Cristologia Funcional

Em sua obra seminal Christologie des Neuen Testaments (1957), Cullmann propõe uma cristologia que prescinde de categorias filosóficas gregas — tais como "natureza" (physis) e "substância" (ousia) — em favor de uma abordagem funcional. O foco recai sobre os títulos cristológicos atribuídos a Jesus no Novo Testamento (Profeta, Servo Sofredor, Senhor, Filho de Deus), os quais revelam a obra e a função messiânica de Cristo na história da salvação (CULLMANN, 1967b, p. 15-42).


4. O Debate sobre Mito e História

Cullmann posicionou-se de forma crítica em relação ao programa de "desmitologização" (Entmythologisierung) proposto por Rudolf Bultmann (1941). Enquanto Bultmann advogava pela reinterpretação dos relatos bíblicos para extração de significado existencial, prescindindo de sua suposta roupagem mitológica, Cullmann argumentava que o Novo Testamento, embora utilizando conceitos da mitologia contemporânea, subordina-os a um evento histórico concreto: a ressurreição de Jesus (CULLMANN, 1967a).

Para Cullmann, a remoção do caráter histórico desses eventos esvaziaria o cerne da fé cristã, a qual permanece ancorada em fatos ocorridos em tempo e espaço determinados. A historicidade constitui, portanto, pressuposto indispensável para a validade da proclamação cristã.


5. Teologia Política e Ecumenismo

5.1 Igreja e Estado

Cullmann rejeitou a dicotomia entre esfera religiosa e esfera política. Em sua concepção, tanto a Igreja quanto o Estado subsistem sob o senhorio de Cristo (Christus Herr), embora desempenhem funções distintas no Reino já inaugurado (CULLMANN, 1956, p. 192-210).

5.2 O Primado de Pedro e o Diálogo Ecumênico

Num gesto ecumênico significativo, Cullmann reconheceu que Pedro exerceu efetivamente papel de liderança e primazia na Igreja primitiva. Contudo, argumentou que tal função era pessoal e intransferível, não podendo ser herdada por um sucessor institucional (o Papa). Essa posição buscava abrir perspectivas para o diálogo entre luteranos e católicos romanos, sem implicar submissão ao magistério papal (CULLMANN, 1962).


5.3 Unidade na Diversidade

Cullmann concebia a diversidade denominacional não como problema a ser eliminado, mas como expressão da riqueza do Espírito Santo. Sua visão ecumênica não pressupunha fusão uniformizante, mas a coexistência de diferentes tradições eclesiais orbitando em torno de um centro comum: Jesus Cristo (CULLMANN, 1956).


6. Considerações Finais

A obra de Oscar Cullmann representa um esforço sistemático de construir pontes entre a crítica histórica e a fé cristã. Por meio da categoria de Heilsgeschichte e da tensão escatológica do "já e ainda não", o teólogo ofereceu um esquema hermenêutico que influenciou profundamente a teologia bíblica subsequente. Sua proposta permitiu que a Igreja se compreendesse como participante ativa na missão divina, vivendo na expectativa entre a vitória consumada de Cristo e a esperança de sua parusia.


Referências

CULLMANN, O. Christ and Time: The Primitive Christian Conception of Time and History. Tradução de Floyd V. Filson. 3. ed. Filadélfia: Westminster Press, 1956.

CULLMANN, O. Peter: Disciple, Apostle, Martyr: A Historical and Theological Study. 2. ed. rev. Tradução de Floyd V. Filson. Filadélfia: Westminster Press, 1962.

CULLMANN, O. Salvation in History. Tradução de Sidney G. Sowers. Nova Iorque: Harper & Row, 1967a.

CULLMANN, O. The Christology of the New Testament. Tradução de Shirley C. Guthrie e Charles A. M. Hall. Rev. ed. Filadélfia: Westminster Press, 1967b.

BULTMANN, R. Neues Testament und Mythologie: Das Problem der Entmythologisierung der neutestamentlichen Verkündigung. In: BULTMANN, R. Glauben und Verstehen: Gesammelte Aufsätze. Tübingen: J. C. B. Mohr (Paul Siebeck), 1941. v. 1, p. 1-44.

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