A DISTINÇÃO ENTRE USO LINGUÍSTICO E IDENTIFICAÇÃO IDEOLÓGICA.

A DISTINÇÃO ENTRE USO LINGUÍSTICO E IDENTIFICAÇÃO IDEOLÓGICA: 


Uma Análise do Discurso Ambiental na COP 30


Resumo:

O presente artigo investiga as distinções entre o mero uso de vocábulos de um determinado campo discursivo e a efetiva identificação ideológica com as pautas por ele representadas. A partir de uma análise fundamentada na filosofia da linguagem, na sociolinguística e na análise do discurso, examina-se como termos ambientalistas utilizados no contexto da COP 30 podem ser apropriados por sujeitos que não compartilham das premissas ideológicas do movimento ecologista. Propõe-se que a distinção reside em quatro dimensões inter-relacionadas: a força ilocucionária dos atos de fala, a ideologia subjacente, a posição do sujeito no campo social e a prática social concreta.

Palavras-chave: Análise do Discurso; Pragmática; Ideologia; COP 30; Meio Ambiente.


1. INTRODUÇÃO

A questão central que norteia esta investigação pode ser formulada da seguinte maneira: o que distingue um sujeito que utiliza o mesmo vocabulário de um grupo ideológico — como, por exemplo, os signatários da Conferência das Partes 30 (COP 30) — daquele que efetivamente compartilha suas pautas? A resposta a essa interrogação exige uma incursão pelos domínios da filosofia da linguagem, da sociolinguística e da análise do discurso, campos que oferecem ferramentas teórico-metodológicas para compreender as nuances que separam o uso instrumental da linguagem da identificação genuína com um sistema de crenças.

A premissa fundamental deste estudo é que o léxico, por si só, não constitui indicador suficiente de adesão ideológica. Conforme argumenta AUSTIN (1962), as palavras são atos, e a intencionalidade que as atravessa determina seu significado social.


2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS

2.1 A Teoria dos Atos de Fala

John Langshaw Austin (1962), em sua obra seminal How to Do Things with Words [Como fazer coisas com palavras], estabeleceu a distinção fundamental entre três níveis de ato linguístico:

- Ato locucionário: o ato de dizer algo, compreendendo a emissão de vocábulos com sentido e referência;

- Ato ilocucionário: o ato realizado no ato de dizer algo, como prometer, ordenar, alertar ou criticar;

- Ato perlocucionário: os efeitos produzidos no interlocutor pelo ato de fala.


2.2 A Dimensão Ideológica do Discurso

A ideologia, conforme concebida pela tradição marxista e pós-marxista (ALTHUSSER, 1971; FOUCAULT, 1969; PÊCHEUX, 1969), opera como uma matriz interpretativa através da qual os sujeitos compreendem e representam a realidade.


2.3 A Análise do Discurso e a Questão do Sujeito

Michel Pêcheux (1969), em sua teoria da análise automática do discurso, demonstrou que o sujeito é constituído pelo discurso e não o precede.


3. AS DIMENSÕES DA DISTINÇÃO

3.1 Força Ilocucionária e Intencionalidade

3.2 Sistema de Crenças e Ideologia  

3.3 Posição do Sujeito e Interdiscurso

3.4 Prática Social e Coerência Discursivo-Prática


4. DISCUSSÃO

A análise proposta permite compreender fenômenos contemporâneos de apropriação discursiva, como o greenwashing (LAUFER, 2003) e o slacktivism (MOROZOV, 2009).


5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se que o uso dos mesmos vocábulos não configura, por si só, identificação com um grupo ideológico. O que distingue o uso instrumental da linguagem da identificação ideológica reside no modo como o sujeito se apropria da linguagem.


REFERÊNCIAS

- ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2021.

- AUSTIN, John L. Como fazer coisas com palavras. São Paulo: Editora Cultrix, 1990. [Original: 1962]

- BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2010.

- BOURDIEU, Pierre. O que falar quer dizer. São Paulo: Ática, 1996.

- FOUCAULT, Michel. L'archéologie du savoir. Paris: Gallimard, 1969.

- LAUFER, William S. Social accountability and corporate greenwashing. Journal of Business Ethics, v. 43, n. 3, p. 253-261, 2003.

- MOROZOV, Evgeny. The Net Delusion. New York: PublicAffairs, 2011.

- PÊCHEUX, Michel. Análise automática do discurso. São Paulo: EDUSP, 1997.

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