A Hermenêutica do Tempo em Paul Ricoeur: Para Além da Dicotomia entre Crítica Interna e Crítica Externa
Resumo
O presente artigo examina a proposta hermenêutica de Paul Ricoeur em Temps et Récit (1983-1985), demonstrando como o filósofo francês supera a tradicional divisão entre crítica literária interna e crítica histórica externa. Por meio da análise das três instâncias da mímesis — pré-configuração, configuração e refiguração —, argumenta-se que Ricoeur constrói uma terceira via dialética na qual a estrutura do texto e a experiência temporal do leitor se encontram de modo constitutivo. Aplica-se, enfim, esse arcabouço teórico ao campo da exegese bíblica, problematizando a possibilidade de uma leitura atemporal das Escrituras.
Palavras-chave: Hermenêutica; Narrativa; Tempo; Mímesis; Exegese Bíblica; Paul Ricoeur.
1. Introdução: A Questão do Enquadramento Teórico
A pergunta que orienta esta investigação diz respeito ao posicionamento epistemológico da obra Tempo e Narrativa, de Paul Ricoeur (1913-2005), em relação aos parâmetros tradicionais da análise textual. Trata-se de determinar se a proposta ricoeuriana se alinha à crítica interna — focalizada na estrutura autônoma do texto — ou à crítica externa — dependente do contexto histórico e da subjetividade do interprete. Como se verá, Ricoeur não se posiciona confortavelmente em nenhum dos dois polos. Em vez disso, ele constrói uma terceira via que reconcilia, dialeticamente, a estrutura do texto e a experiência do leitor no tempo.
2. Primeiro Movimento: A Configuração como Análise da Estrutura Interna
Ricoeur dedica enorme esforço à configuração (mímesis II). Ele analisa como um enredo é construído: como ele sintetiza eventos heterogêneos — causas, acasos, encontros — em uma totalidade inteligível. Para ele, o texto possui uma "lógica narrativa" própria, com regras de composição, gêneros e recursos (metáfora, simbolismo, intriga).¹
Neste sentido, ele se alinha à tradição da crítica literária e textual. O texto é um artefato cuja arquitetura interna pode (e deve) ser descrita objetivamente, assim como um músico analisa uma partitura. Ricoeur não rejeita a análise estruturalista; antes, incorpora-a para, em seguida, transcendê-la.²
3. Segundo Movimento: A Refiguração e a Impossibilidade da Leitura Atemporal
Aqui reside a genialidade da proposta ricoeuriana e a resposta à questão central. Para Ricoeur, o narratário (o leitor, o analista) jamais é independente do tempo. É impossível uma leitura "fora do tempo" ou de um ponto de vista eterno.
Ele demonstra isso com o conceito central de refiguração (mímesis III). A obra só se completa na intersecção entre:
- O mundo do texto (a realidade proposta pela estrutura interna);
- O mundo do leitor (sua historicidade, sua cultura, seus preconceitos, o momento exato da análise).³
Para Ricoeur, o tempo do leitor e o tempo da narrativa se encontram. Quando lemos Édipo Rei ou a Bíblia hoje, não somos os mesmos leitores de ontem, nem seremos os de amanhã. A cada nova leitura, em cada época histórica, a capacidade de compreensão do narratário é atravessada pela sua própria temporalidade. A "visão que se tenha no exato momento da análise" é justamente o filtro inevitável e produtivo da interpretação.⁴
4. Terceiro Movimento: Aplicação à Exegese Bíblica
Aplicando o arcabouço ricoeuriano à questão da Bíblia como texto antigo, observam-se três posições distintas:
a) Crítica histórica clássica (século XIX): O analista deve ser um "cientista objetivo", tentando anular seu tempo e suas crenças para reconstruir o "texto original" e seu contexto de produção (visão externalista). Ricoeur diria que isso é um ideal impossível. O crítico sempre carrega consigo sua pré-compreensão.⁵
b) Análise estruturalista (século XX): O texto é um sistema fechado. O leitor é quase irrelevante, pois a estrutura é atemporal. Ricoeur também rejeita essa posição. Uma partitura não é música sem um intérprete.⁶
c) A terceira via ricoeuriana: Ele propõe um círculo hermenêutico radicalizado pelo tempo. A análise da estrutura interna do texto (configuração) é um momento necessário, mas não suficiente. O passo final e decisivo é a refiguração, onde a capacidade do narratário (sempre situada historicamente) se confronta com o mundo proposto pelo texto.
O significado bíblico, para Ricoeur, não está "por trás" do texto (na intenção do autor antigo), nem "dentro" do texto (em sua estrutura eterna), mas "diante" do texto — no novo modo de ser e agir que a leitura, realizada por alguém em um tempo específico, torna possível.⁷
Portanto, quando analisamos a Bíblia hoje "como uma coletânea de textos antigos", fazemo-lo inevitavelmente com as lentes do nosso tempo. Ricoeur validaria a análise textual e histórica, mas diria que ela é apenas o primeiro passo. O segundo passo é reconhecer que o ato de analisar já é um evento hermenêutico profundamente temporal.
5. Considerações Finais
Para Ricoeur, não existe análise fora do tempo. O parâmetro da independência do narratário é precisamente o mito que sua obra desfaz. A capacidade de interpretar não é independente do tempo; ela é, antes, o trabalho do tempo sobre a compreensão humana.
Notas
¹ RICOEUR, Paul. Temps et Récit. Tome I: L'intrigue et le récit historique. Paris: Éditions du Seuil, 1983, p. 63-100.
² Sobre a relação de Ricoeur com o estruturalismo, cf. RICOEUR, Paul. "Le conflit des interprétations". In: Le Conflit des Interprétations: Essais d'herméneutique. Paris: Éditions du Seuil, 1969, p. 11-32.
³ RICOEUR, Paul. Temps et Récit. Tome III: Le temps raconté. Paris: Éditions du Seuil, 1985, p. 157-178.
⁴ Ibid., p. 179-210.
⁵ Sobre a crítica ricoeuriana ao positivismo histórico, cf. RICOEUR, Paul. Du texte à l'action: Essais d'herméneutique II. Paris: Éditions du Seuil, 1986, p. 83-112.
⁶ RICOEUR, Paul. "La métaphore vive et la structure du texte". In: La Métaphore vive. Paris: Éditions du Seuil, 1975, p. 95-120.
⁷ RICOEUR, Paul. Temps et Récit. Tome III, op. cit., p. 245-270. Sobre a aplicação hermenêutica à Bíblia, cf. também RICOEUR, Paul. "Biblical Hermeneutics". Semeia, n. 4, 1975, p. 29-148.
Referências
RICOEUR, Paul. Temps et Récit. 3 vols. Paris: Éditions du Seuil, 1983-1985.
RICOEUR, Paul. La Métaphore vive. Paris: Éditions du Seuil, 1975.
RICOEUR, Paul. Le Conflit des Interprétations: Essais d'herméneutique. Paris: Éditions du Seuil, 1969.
RICOEUR, Paul. Du texte à l'action: Essais d'herméneutique II. Paris: Éditions du Seuil, 1986.
RICOEUR, Paul. "Biblical Hermeneutics". Semeia, n. 4, 1975, p. 29-148.
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