A Tensão Hermenêutica entre Rudolf Bultmann e Carl Gustav Jung.

A Tensão Hermenêutica entre Rudolf Bultmann e Carl Gustav Jung: Mitologia, Arquétipos e a Decisão Existencial


Introdução

O conflito entre Rudolf Bultmann e Carl Gustav Jung — e, por extensão, entre a hermenêutica existencial e a psicologia profunda — repousa sobre uma diferença fundamental quanto à natureza e função do mito. Bultmann não ignora o mito, mas o redefine radicalmente. Para ele, o mito não constitui uma expressão simbólica de arquétipos da psique, como sustenta Jung, mas sim uma linguagem "objetivante" e pré-científica para falar de uma realidade transcendente — o agir de Deus — que, por definição, não pode ser objetivada. Essa diferença de fundo afeta o processo hermenêutico em pelo menos quatro sentidos profundos, os quais serão examinados a seguir.


1. O Objeto da Busca no Texto: Arquétipos versus Possibilidade Existencial

Para Bultmann, a mensagem do Novo Testamento não versa sobre arquétipos — o Herói, a Sombra, o Si-mesmo —, mas sobre a decisão existencial diante do agir escatológico de Deus em Cristo. O mito, com suas categorias de céu, inferno, queda e juízo, funciona como um invólucro que precisa ser traduzido para a categoria de possibilidade de existência autêntica: ser para a morte, liberdade da ansiedade. Ignorar os arquétipos não é, portanto, um descuido metodológico, mas uma opção deliberada contra qualquer psicologização ou essencialização do sagrado. Hermeneuticamente, isso significa que o exegeta deve indagar: "O que este mito diz sobre minha possibilidade de ser aqui e agora?" — e não: "Que arquétipo inconsciente ele manifesta?"


2. O Lugar do Intérprete e o Círculo Hermenêutico

Em Jung, o intérprete precisa estar atento aos próprios arquétipos ativados, à transferência e à constelação do inconsciente. Em Bultmann, o intérprete parte de sua pré-compreensão existencial, inspirada em Martin Heidegger: ele já sabe o que é existir, cuidar, decidir. O mito não precisa ser decifrado como símbolo psíquico, mas desconstruído como obstáculo à fé genuína, que não exige cosmologia, apenas obediência. A consequência hermenêutica é significativa: o texto bíblico perde sua função de espelho da psique arquetípica e ganha a função de chamado à decisão.


3. O Problema da Universalidade: Inconsciente Coletivo versus Evento Histórico Singular

Os arquétipos, na concepção junguiana, são universais: todos os seres humanos compartilham o inconsciente coletivo, de modo que a mensagem bíblica seria apenas um caso particular dessa universalidade. Para Bultmann, ao contrário, o kerigma — a mensagem cristã — é um evento histórico singular e escandaloso: Deus age em Jesus crucificado. Nada na psique humana, nem mesmo os arquétipos, pode preparar ou explicar esse evento. Hermeneuticamente, isso implica que a mitologia bíblica não pode ser "traduzida" para um sistema intemporal da psique; caso contrário, a fé se converteria em autoconhecimento, e a graça, em desenvolvimento natural.


4. O Risco do Divórcio entre Símbolo e Psique

O ponto cego de Bultmann para a leitura junguiana reside no seguinte: ao rejeitar o mito como expressão da psique, ele descarta a dimensão imaginativa e curativa do símbolo. Um paciente com delírio de possessão demoníaca, por exemplo, não é auxiliado por uma desmitologização existencial — "decida-se!" —, mas talvez por uma reconstrução simbólica do seu mito pessoal, como procederia um analista junguiano. Hermeneuticamente, Bultmann produz uma hermenêutica pobre em imaginação, focada na vontade e na decisão, enquanto uma hermenêutica junguiana seria rica em imagem, centrada na integração do inconsciente.


Considerações Finais

Bultmann afeta o processo hermenêutico ao deslocar a pergunta fundamental — de "que arquétipo fala aqui?" para "que possibilidade existencial me é oferecida?". Ele considera o mito não como expressão da psique, mas como obstáculo objetivante a ser decifrado em chave antropológico-existencial. O projeto bultmanniano, portanto, não é compatível com a psicologia analítica de Jung, pois nega que o mito bíblico seja, em primeiro lugar, um produto do inconsciente coletivo — e, com isso, recusa a chave hermenêutica que tornaria essa leitura arquetípica possível.

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