A questão suscitada é particularmente relevante, na medida em que coloca em tensão duas categorias distintas de ação moralmente reprovável: a banalidade do mal, tal como concebida por Hannah Arendt a partir do julgamento de Adolf Eichmann, e o mal consciente, oportunista e, posteriormente, acompanhado de uma pretensa redenção. Para ilustrar essa distinção, toma-se como referência o caso de John Newton (1725-1807), capitão de navios negreiros que, ao longo de sua trajetória, transportou centenas de africanos em condições desumanas. Após uma experiência de conversão religiosa ocorrida durante uma tempestade no mar, Newton tornou-se pastor anglicano e abolicionista, consagrando-se, notadamente, como autor do hino Amazing Grace ("Eu era cego, mas agora vejo").
As diferenças estruturais entre Newton, por um lado, e Eichmann e Ustra, por outro, podem ser sistematizadas em três eixos analíticos. Em primeiro lugar, o reconhecimento público do crime: Newton admitiu, ainda que tardiamente, a monstruosidade do tráfico negreiro. Em seu panfleto Pensamentos sobre o Comércio de Escravos (1788), confessou explicitamente: "Foi um negócio de iniquidade cruel e sanguinária". Eichmann e Ustra, ao contrário, jamais produziram equivalente confissão, mantendo, até o fim de suas vidas, posturas de justificação ou de silêncio. Em segundo lugar, a assimetria do poder de interromper a ação delituosa: Newton poderia, a qualquer momento, recusar-se a comandar um navio negreiro, uma vez que não estava submetido a uma estrutura ditatorial que o ameaçasse de morte. Eichmann e Ustra, embora inseridos em máquinas de terror que igualmente os vigiavam, dispunham, ainda que limitadamente, de margem de escolha individual — e ambos optaram por prosseguir. Em terceiro lugar, a distinção entre arrependimento e culpa confessada: Newton converteu-se ainda enquanto atuava no tráfico de escravos, continuando nessa atividade por anos após a famosa tempestade. Sua transformação foi, portanto, gradual e incompleta durante o período de atuação no comércio negreiro. Sob a ótica arendtiana, uma conversão religiosa que não se traduz na interrupção imediata do crime configura uma espécie de esquizofrenia moral.
O que se torna evidente nessa análise não é uma comparação quantitativa de gravidades — uma vez que o tráfico negreiro, o nazismo e a ditadura brasileira custaram milhões de vidas —, mas uma investigação sobre as estruturas de pensamento subjacentes a tais ações. Eichmann e Ustra representam o mal desprovido de reflexão, isto é, a figura que não se interroga sobre o sentido de sua própria ação: "o que estou fazendo?". Newton, por sua vez, encarna o mal refletido, porém racionalizado: ele sabia que o tráfico era moralmente condenável, haja vista os debates abolicionistas já existentes na Inglaterra do século XVIII, mas optou pelo lucro, buscando posteriormente a absolvição espiritual.
A grande e incômoda verdade, do ponto de vista arendtiano, é que a conversão de Newton não o tornaria moralmente superior a Eichmann. Ambos teriam falhado no mesmo ponto: a capacidade de pensar enquanto agiam. A diferença reside no fato de que Newton teve o privilégio de viver tempo suficiente para escrever sua própria absolvição em forma de hino, enquanto Eichmann foi enforcado e Ustra morreu impune. Desse modo, a análise convida a uma reflexão sobre por que a sociedade frequentemente romantiza figuras como Newton — o arquétipo do "ex-pecador arrependido" — e execra Eichmann, mesmo quando os danos objetivos produzidos por ambos são comparáveis em magnitude.
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