Erich Fromm e o Debate Hermenêutico.

Erich Fromm como Terceira Voz no Debate Hermenêutico: Uma Crítica Psicanalítica e Social às Leituras de Bultmann e Jung


Introdução

O debate hermenêutico entre Rudolf Bultmann e Carl Gustav Jung, centrado na natureza e função do mito bíblico, recebe uma terceira voz significativa na figura de Erich Fromm. Psicanalista associado à Escola de Frankfurt, embora com divergências próprias, Fromm desenvolveu uma perspectiva crítica tanto à desmitologização existencial de Bultmann quanto à hermenêutica arquetípica de Jung. Suas principais obras sobre o tema — O Dogma de Cristo (1930) e Psicanálise e Religião (1950) — articulam uma abordagem que pode ser qualificada como tradução existencial-social do mito, distinta tanto da desmitologização radical quanto da re-mitologização simbólica. A presente análise examina as críticas de Fromm a cada um desses interlocutores, apresenta sua hermenêutica própria e oferece um quadro comparativo que situa as três abordagens em diálogo.


1. Situando Erich Fromm no Campo Teórico

Fromm rejeitou tanto o biologismo freudiano quanto o misticismo junguiano. Para ele, o inconsciente é fundamentalmente social e histórico — não meramente pessoal, como sustentava Freud, nem coletivo-arquetípico, como propunha Jung. Essa posição epistemológica determina toda a sua abordagem do mito religioso: os símbolos não expressam estruturas inatas da psique nem invólucros descartáveis da transcendência, mas conflitos psicológicos produzidos por formas históricas de organização social. Fromm, portanto, não é nem desmitologizador radical, como Bultmann, nem re-mitologizador simbólico, como Jung. Sua proposta consiste em uma tradução existencial-social do mito, na qual a dimensão crítica da sociedade ocupa lugar central.


2. Fromm contra Bultmann: A Crítica do Existencialismo Desencarnado

2.1 Pontos de Convergência

Fromm concorda com Bultmann em dois pressupostos fundamentais: primeiro, que o mito precisa ser interpretado, não aceito literalmente; segundo, que a mensagem central do texto bíblico versa sobre a condição humana, especialmente sobre alienação, sofrimento e esperança. Essa convergência metodológica estabelece um terreno comum a partir do qual Fromm desenvolve suas críticas.


2.2 Críticas Fundamentais

A primeira crítica de Fromm dirige-se ao formalismo vazio da desmitologização bultmanniana. Para Bultmann, o mito fala apenas de "decidir-se", mas essa decisão carece de conteúdo social específico. Sem tal conteúdo, a decisão existencial pode ser instrumentalizada para justificar qualquer coisa, inclusive regimes opressivos. A segunda crítica aponta para a falta de crítica social na hermenêutica de Bultmann: ao isolar o indivíduo em sua decisão privada, Bultmann ignora como o mito responde à alienação produzida pelo capitalismo, pelo autoritarismo e pela sociedade de consumo. A terceira crítica denuncia a despolitização do mito: o chamado à "existência autêntica" de Bultmann não diz nada sobre estruturas injustas, configurando-se, assim, como uma fuga da responsabilidade social.


2.3 Ilustração: A Parábola do Filho Pródigo

Fromm leria a parábola do Filho Pródigo de modo distinto de Bultmann. Enquanto Bultmann reduziria tudo a "decida-se pela graça", Fromm identificaria na parábola uma crítica à sociedade meritocrática. O irmão mais velho representa o pequeno burguês que obedece às regras e odeia quem recebe graça sem merecer. Sem essa dimensão crítica, a desmitologização bultmanniana corre o risco de se converter em ideologia, ou seja, em uma interpretação que legitima as estruturas de poder existentes em vez de questioná-las.


3. Fromm contra Jung: A Crítica do Arquétipo Apolítico

3.1 Pontos de Convergência

Fromm aceita de Jung a premissa de que o mito possui camadas profundas, não sendo mera embalagem cultural, e de que os símbolos importam para a saúde psíquica. Essa convergência, no entanto, é limitada e serve principalmente como ponto de partida para as críticas.


3.2 Críticas Fundamentais

A primeira crítica de Fromm dirige-se ao biologicismo dos arquétipos junguianos. Jung sustenta que os arquétipos são herdados e inatos; Fromm, ao contrário, argumenta que eles são produtos de estruturas sociais e históricas. O "Grande Pai", por exemplo, não é uma estrutura inata da psique, mas a internalização da autoridade patriarcal em diferentes épocas. A segunda crítica aponta para a despolitização do inconsciente em Jung: ao tratar o mito como drama intemporal da psique, Jung ignora as perguntas sobre que tipo de sociedade produz determinado mito, a quem ele serve e que ansiedades sociais ele expressa. A terceira crítica denuncia o perigo da re-mitologização: ao mergulhar nos arquétipos, Jung pode levar a uma regressão pré-racional e a uma aceitação acrítica de projeções coletivas, como ocorreu com o uso da mitologia germânica pelo nazismo. Fromm, como humanista racionalista, defende que o mito deve ser interpretado criticamente, não vivido como verdade simbólica.


3.3 Ilustração: O Relato de Adão e Eva

Fromm leria o relato de Adão e Eva não como expressão de arquétipos da Sombra ou da Anima, mas como narrativa sobre a emergência histórica da consciência individual contra a autoridade patriarcal. A serpente representa a rebelião racional, pois diz a verdade: "vocês não morrerão; tornar-se-ão como deuses". A expulsão do paraíso não é queda, mas nascimento da liberdade, com sua angústia inevitável. Assim lido, o mito configura-se como manifesto contra a obediência cega.


4. A Hermenêutica de Fromm: Três Movimentos

Fromm propõe uma hermenêutica psicanalítica social estruturada em três movimentos interdependentes. O primeiro movimento consiste em desconfiar da literalidade, aproximando-se de Bultmann na rejeição da leitura factual do mito. O segundo movimento exige identificar a necessidade psíquica que o mito atende, mas, diferentemente de Jung, essa necessidade não é arquetípica e sim socialmente produzida: medo da liberdade, alienação, ansiedade diante da autoridade. O terceiro movimento traduz o mito em linguagem de libertação humana, estabelecendo como critério hermenêutico final a seguinte pergunta: esse mito, interpretado, promove autonomia, amor e solidariedade, ou promove obediência, medo e conformismo?


5. Quadro Comparativo: Bultmann, Jung e Fromm

Critério Bultmann Jung Fromm 

Natureza do mito Linguagem objetivante pré-científica Expressão espontânea do inconsciente coletivo Expressão simbólica de conflitos sociais e psicológicos históricos 

O que o mito revela Possibilidade existencial de decisão Estruturas arquetípicas da psique Ansiedades e esperanças produzidas por formas de sociedade 

Destino do símbolo Ser traduzido (desmitologizado) Ser amplificado (aprofundado como imagem viva) Ser traduzido criticamente (revelar sua função social) 

Inconsciente Não tematizado Coletivo, herdado, universal Social, produto da história, não herdado 

Risco da abordagem Empobrecimento simbólico, apoliticismo Regressão mística, aceitação acrítica de projeções Racionalismo excessivo, perda da dimensão numinosa 

Destino final da mensagem bíblica Chamado à decisão autêntica (individual) Mapa do processo de individuação (trans-histórico) Manual de libertação da alienação (histórico e político) 


6. Fromm Aplicado à Parábola do Filho Pródigo: Exemplo Sintético

A aplicação da hermenêutica frommiana à parábola do Filho Pródigo ilustra os três movimentos de sua metodologia. Primeiro, desmitologiza-se o texto: não há pai rico literal, nem bezerro gordo mágico. Segundo, recusa-se a leitura arquetípica: o pai não é o "Self intemporal", mas a internalização da autoridade patriarca numa sociedade de clãs. Terceiro, pergunta-se socialmente: por que essa parábola surgiu no judaísmo do Segundo Templo? A resposta aponta para uma sociedade em crise, com tensões entre os que ficaram "fiéis" (irmão mais velho) e os que "se perderam" (publicanos, pecadores, pródigos). A parábola responde à questão de como uma comunidade sobrevive quando possui membros que falharam miseravelmente. Finalmente, traduz-se para o presente: a parábola critica o meritocratismo e a inveja moralista do irmão mais velho, enquanto o pai representa o amor radical que não calcula méritos — condição para qualquer comunidade verdadeiramente humana. Para Fromm, essa leitura é mais verdadeira que a de Bultmann, pois possui conteúdo social, e mais saudável que a de Jung, pois não exige crer em arquétipos metafísicos.


7. Considerações Finais: A Posição de Fromm no Debate

Fromm, olhando para Bultmann e Jung, diria que Bultmann jogou fora a criança com a água do banho: ao desmitologizar, eliminou a crítica social que o mito carrega. Jung, por sua vez, re-encantou o mito, mas ao preço de torná-lo intemporal e acrítico; seus arquétipos servem para justificar qualquer coisa, desde a sabedoria até o autoritarismo. A via frommiana é a terceira: o mito é uma linguagem simbólica que expressa ansiedades humanas reais, mas essas ansiedades são sempre históricas, sociais e modificáveis. A tarefa hermenêutica não consiste em abolir o mito nem em adorá-lo, mas em traduzi-lo em termos de liberdade e amor concretos.

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