A Disrupção Cognitiva da Parole Viva: Oralidade, Performance e a Insuficiência do Estruturalismo Saussuriano
Resumo
O presente artigo investiga a tensão entre o modelo estruturalista de Ferdinand de Saussure — particularmente a dicotomia *langue/parole* — e os fenômenos de produção de sentido em contextos de performance oral situada. A partir da análise comparativa entre o *kerygma* cristão primitivo e o teatro épico de Bertolt Brecht, argumenta-se que a *parole* performática constitui o locus privilegiado onde a memória se reconfigura e a identidade se forja, evidenciando uma insuficiência fundadora no estruturalismo clássico. Demonstra-se que a análise puramente textual é insuficiente para compreender fenômenos nos quais o sentido emerge do evento da fala radicada em comunidades específicas.
Palavras-chave: Estruturalismo; Saussure; Oralidade; Performance; Kerygma; Teatro épico; Memória; Identidade.
1. Introdução
A presente investigação parte de uma provocação epistemológica central: em que medida o modelo estruturalista de Ferdinand de Saussure, ao privilegiar a *langue* como objeto científico legítimo, subestima o papel constitutivo da *parole* performática na produção de sentido? A questão não é meramente teórica, mas emerge de fenômenos concretos de comunicação situada — especificamente, o *kerygma* cristão primitivo e o teatro épico brechtiano — nos quais a oralidade viva não se configura como mero complemento ao texto escrito, mas como condição de possibilidade para a emergência do sentido.
O objetivo deste artigo é, portanto, articular uma crítica ao estruturalismo saussuriano a partir da análise de contextos nos quais a performance oral opera como dispositivo de disrupção cognitiva, reconfigurando memória e identidade em comunidades específicas.
2. O Texto como Depósito Morto: A Insuficiência da Escritura sem a Oralidade Viva
Para a tradição cristã, a Escritura sem o *kerygma* — a proclamação viva — constitui um documento morto, um "esqueleto amorfo" (cf. BARTH, 1963). O *kerygma* é o evento da fala que atualiza o texto, arrancando-o da página e inserindo-o no tempo presente do ouvinte. Trata-se da voz que transforma o texto em chamado e em resposta.
Tal configuração não é acidental. Nas comunidades primitivas, a transmissão foi predominantemente oral por décadas antes da fixação escrita. A escrita surgiu como suporte, jamais como substituta da proclamação viva (cf. KELBER, 1983). A liturgia cristã preserva essa estrutura: a leitura da Escritura não constitui ato privado de análise, mas ato público de anúncio. O texto escrito, nesse contexto, funciona como depósito — reservatório de elementos estáveis —, enquanto a oralidade opera como atualização viva, evento que convoca resposta.
3. O Teatro Épico de Brecht: A Performance como Dispositivo de Disrupção Cognitiva
Bertolt Brecht, ao levar o teatro para vilas operárias, inverteu o modelo aristotélico de catarse — fundado na identificação emocional — e propôs o *Verfremdungseffekt* (efeito de estranhamento). O objetivo não era que o operário se emocionasse com o destino do herói, mas que reconhecesse seu próprio dilema na cena e, por esse estranhamento, desenvolvesse uma atitude crítica ativa (cf. BRECHT, 1967).
A performance, nesse contexto, não se restringe ao entretenimento: configura-se como dispositivo de conscientização. O texto dramático apenas ganha sentido quando performado diante da classe que ele interpela. Aqui, a "oralidade" — a performance, a voz do ator, a reação da plateia — não é mero complemento ao texto escrito, mas o próprio locus onde a disrupção cognitiva se opera. O texto sem a performance é literatura; a performance sem o texto é agitação efêmera. Juntos, criam uma experiência de verdade situada, política e histórica.
4. Saussure, *Langue* e *Parole*: A Tensão Estruturalista
Ferdinand de Saussure, ao estabelecer a dicotomia entre *langue* (sistema abstrato da língua) e *parole* (ato individual da fala), criou uma ciência da linguística que privilegiava a *langue* como objeto científico legítimo — estável, analisável, sincrônico. A *parole* era vista como caótica, acidental, variável demais para a ciência (cf. SAUSSURE, 1916).
Contudo, o que o *kerygma* cristão e o teatro brechtiano demonstram é que a *parole* não é mero ruído residual do sistema. Ela constitui o lugar onde a identidade se forma, onde a memória é atualizada, onde o sujeito responde ao mundo. A abordagem saussuriana, ao focar na *langue*, corre o risco de congelar o fenômeno vivo da comunicação em um modelo estático.
A "disrupção cognitiva" identificada reside no seguinte: os contextos reais de produção de sentido — a pregação, a peça de teatro na vila operária, a liturgia, a assembleia de operários — não se acomodam ao modelo estruturalista puro. Exigem uma teoria que dê conta da:
Pragmática: o efeito do discurso no ouvinte;
Performatividade: o ato de dizer como ação que transforma;
Incompletude do texto: ele apenas se completa no evento da recepção oral/performativa.
Autores como Émile Benveniste, com a teoria da enunciação, e Paul Ricoeur, com a hermenêutica, tentaram suprir essa lacuna, percebendo que a *langue* não explica a emergência do sentido no tempo real da fala (cf. BENVENISTE, 1966; RICOEUR, 1975).
5. Síntese: O Quadro Teórico
O arco argumentativo construído pode ser sistematizado. Porém, a conclusão implicada no raciocínio é que a análise puramente textual — a Bíblia como documento antigo, analisada como qualquer outro texto — é, por si só, insuficiente para compreender o fenômeno cristão, bem como qualquer fenômeno no qual a identidade se forja na performance oral situada.
6. Conclusão
A "disrupção cognitiva latente" em Saussure é, em última instância, a insuficiência fundadora do estruturalismo: ele descreve adequadamente o sistema, mas descreve mal o evento da fala. E é no evento — no *kerygma*, na cena brechtiana, na liturgia, na assembleia de operários — que a memória se reconfigura e a identidade se decide.
Saussure evidencia a disrupção precisamente por tentar domesticar a *parole* sob a *langue*, quando os fenômenos aqui analisados demonstram exatamente o contrário: é na *parole* viva, radicada e performática, que o sentido se faz ou se desfaz.
Referências
BARTH, K. A Palavra de Deus e a Palavra do Homem. São Paulo: ASTE, 1963.
BENVENISTE, É. Problèmes de linguistique générale. Paris: Gallimard, 1966.
BRECHT, B. Schriften zum Theater. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1967.
KELBER, W. H. The Oral and the Written Gospel. Philadelphia: Fortress Press, 1983.
RICOEUR, P. La Métaphore vive. Paris: Seuil, 1975.
SAUSSURE, F. de. Cours de linguistique générale. Paris: Payot, 1916.
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