Memória, identidade e performance.

Memória, identidade e performance: interfaces entre o kerygma cristão, o teatro brechtiano e a linguística saussuriana


1 INTRODUÇÃO

A relação entre memória, identidade, oralidade e performance constitui um campo fértil para a crítica dos modelos estruturalistas de linguagem. O presente ensaio articula essas categorias a partir de três eixos: a função do kerygma na tradição cristã como atualização viva da Escritura; o teatro épico de Bertolt Brecht como dispositivo de disruptura cognitiva em contextos operários; e a oposição saussuriana entre langue e parole, apontando suas insuficiências para explicar a emergência do sentido no tempo real da fala. Argumenta-se que a análise puramente textual revela-se insuficiente para compreender fenômenos em que a identidade se forja na performance oral situada.


2 O TEXTO COMO DEPÓSITO E A ORALIDADE VIVA

Na tradição cristã, a Escritura, quando desprovida do kerygma – a proclamação viva –, reduz-se a um documento inerte, metaforicamente descrito como “esqueleto amorfo”. O kerygma constitui o evento da fala que atualiza o texto, retirando-o da fixidez escrita e inserindo-o no tempo presente do ouvinte, transformando-o em chamado e resposta.

Historicamente, as comunidades primitivas preservaram transmissão predominantemente oral por décadas antes da fixação escrita. Esta última veio como suporte, não como substituta da proclamação viva. A liturgia cristã mantém esse traço: a leitura da Escritura não se configura como ato privado de análise, mas como ato público de anúncio.


3 O TEATRO ÉPICO DE BRECHT E A PERFORMANCE COMO DISRUPTURA COGNITIVA

O teatro épico de Bertolt Brecht, especialmente em seu itinerário por vilas operárias, propõe uma inversão do modelo aristotélico de catarse. Mediante o Verfremdungseffekt (efeito de estranhamento), Brecht objetiva não a identificação emocional do espectador com o herói, mas o reconhecimento de seus próprios dilemas na cena, fomentando uma atitude crítica ativa.

Nesse contexto, a performance não se reduz ao entretenimento; configura-se como dispositivo de conscientização. O texto dramático somente adquire sentido pleno quando performado diante da classe que interpela. A oralidade – entendida como performance, voz do ator e reação da plateia – não é mero complemento ao escrito, mas o lugar onde a disruptura cognitiva ocorre. Sem a performance, o texto é literatura; sem o texto, a performance é agitação efêmera. Juntos, criam uma experiência de verdade situada, política e histórica.


4 SAUSSURE, LANGUE E PAROLE: LIMITES DO MODELO ESTRUTURALISTA

Ferdinand de Saussure, ao estabelecer a distinção entre langue (sistema abstrato da língua) e parole (ato individual da fala), privilegiou a primeira como objeto científico legítimo – estável, analisável e sincrônico –, relegando a segunda ao domínio do caótico, acidental e variável demais para a ciência.

Contudo, tanto o kerygma cristão quanto o teatro brechtiano evidenciam que a parole não é mero ruído residual do sistema. Pelo contrário, é nela que a identidade se forma, a memória se atualiza e o sujeito responde ao mundo. A abordagem saussuriana, ao focar na langue, corre o risco de congelar o fenômeno vivo da comunicação em um modelo estático.

A “disruptura” identificada reside no seguinte: contextos reais de produção de sentido – a pregação, a peça teatral na vila operária – não cabem no modelo estruturalista puro. Exigem-se teorias que contemplem:

· a pragmática (efeitos do discurso sobre o ouvinte);

· a performatividade (o ato de dizer como ação transformadora);

· a incompletude do texto (que só se completa no evento da recepção oral/performativa).

Essas demandas explicam por que autores como Émile Benveniste (teoria da enunciação) e Paul Ricœur (hermenêutica) buscaram complementar o modelo saussuriano, reconhecendo que a langue não explica a emergência do sentido no tempo real da fala.


5 SÍNTESE: MEMÓRIA, IDENTIDADE E PERFORMANCE

O quadro a seguir sistematiza as funções dos elementos discutidos na construção da memória e da identidade:

Elemento Função na memória/identidade

Texto/Escritura Depósito, reservatório de elementos estáveis

Oralidade / Kerygma / Performance Atualização viva, evento que convoca resposta

Contexto radicado Comunidade específica (Igreja primitiva, vila operária)

Saussure (langue/parole) Evidencia a tensão, mas não resolve a prioridade da parole viva

Conclui-se que a análise puramente textual – tal como aquela que trata a Bíblia como documento antigo submetido aos mesmos critérios de qualquer outro texto – é insuficiente para compreender o fenômeno cristão, bem como qualquer fenômeno em que a identidade se forja na performance oral situada.

A chamada “disruptura cognitiva latente” em Saussure revela-se, assim, como a insuficiência fundadora do estruturalismo: este descreve adequadamente o sistema, mas não o evento da fala. É no evento – kerygma, cena brechtiana, liturgia, assembleia de operários – que a memória se reconfigura e a identidade se decide.

Portanto, Saussure evidencia a disruptura precisamente por tentar domesticar a parole sob a langue, quando os fenômenos analisados demonstram exatamente o contrário: é na parole viva, radicada e performática, que o sentido se faz ou se desfaz.


REFERÊNCIAS

BRECHT, Bertolt. Estudos sobre teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

BENVENISTE, Émile. Problemas de linguística geral. Campinas: Pontes, 2012.

RICŒUR, Paul. Tempo e narrativa. São Paulo: Martins Fontes, 2010. v. 1.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006.

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