Grupos Religiosos do Judaismo do Segundo Templo

Os Grupos Religiosos do Judaísmo do Segundo Templo: Uma Análise das Principais Correntes

O estudo das diversas facções religiosas que compunham o panorama judaico durante o período do Segundo Templo constitui elemento fundamental para a compreensão da complexidade histórica e teológica dessa época. Conforme documentado pelo historiador Flávio Josefo (século I d.C.), esses agrupamentos funcionavam como "escolas filosóficas" no seio do judaísmo, cada qual propondo interpretações distintas acerca da fidelidade à Aliança divina (JOSEFO, Antiguidades Judaicas; Guerra dos Judeus).


1. Os Fariseus (Perushim)

Os Fariseus representam, sem dúvida, o grupo de maior influência para o desenvolvimento do judaísmo rabínico posterior e constituem objeto de frequente menção nos Evangelhos do Novo Testamento.

Origem e composição social: O movimento farisaico surgiu no contexto do período dos Macabeus (século II a.C.), configurando-se como agrupamento composto por leigos e escribas dedicados ao estudo meticuloso da Torá. Predominantemente oriundos da classe média — comerciantes e artesãos —, distinguiam-se pelo compromisso com a observância rigorosa das prescrições religiosas (SCHÜRER, 1979; NEUSNER, 1971).


Principais características doutrinárias:

A concepção da Dupla Torá: A contribuição mais significativa dos Fariseus reside na crença na existência de duas revelações divinas conferidas a Moisés: a Torá Escrita e a Torá Oral. Esta última, transmitida tradicionalmente, funcionava como instrumento hermenêutico para a interpretação e aplicação da lei escrita às diversas situações da vida cotidiana. A criação de "cercas em volta da Torá" visava assegurar o cumprimento efetivo dos preceitos divinos, constituindo-se no embrião do que posteriormente se desenvolveria como literatura talmúdica (NEUSNER, 1979).

Inovações teológicas: Os Fariseus introduziram e defenderam crenças que se tornariam centrais no judaísmo rabínico posterior, quais sejam: a ressurreição dos mortos, a existência de anjos e demônios, a articulação entre livre-arbítrio humano e providência divina, bem como a noção de recompensa e punição póstumas (Atos 23:6-8; Josefo, Antiguidades Judaicas 18.14).

Práticas de piedade: A religiosidade farisaica centrava-se na sinagoga e no lar, com ênfase na oração, no estudo das Escrituras e na observância da pureza ritual, particularmente no que concerne às leis alimentares (kashrut) e ao dízimo. Tal configuração lhes granjeou considerável prestígio e influência junto à população comum (SANDERS, 1992).


2. Os Saduceus (Tzdukim)

Os Saduceus constituíam a aristocracia sacerdotal e laica do período, representando os interesses das elites políticas e econômicas.

Origem e composição social: Vinculados à família do sumo sacerdote e ao Templo de Jerusalém, os Saduceus formavam a elite dirigente que colaborava com os poderes ocupantes — inicialmente helenísticos, posteriormente romanos — com o objetivo de preservar o status quo e seus privilégios socioeconômicos (SCHÜRER, 1979).


Principais características doutrinárias:

Autoridade exclusiva da Torá Escrita: Em contraposição aos Fariseus, os Saduceus rejeitavam categoricamente a validade da Torá Oral e das tradições farisaicas, reconhecendo como autoridade normativa exclusiva os cinco livros de Moisés (Pentateuco).

Conservadorismo teológico: Fundamentados na ausência de menções explícitas à ressurreição no Pentateuco, negavam a ressurreição dos mortos, a imortalidade da alma e a existência de mundo vindouro, bem como rejeitavam a crença em anjos e espíritos (Atos 23:8; Josefo, Antiguidades Judaicas 18.16).

Centralidade do culto templário: A prática religiosa saduceia concentrava-se no culto sacrificial do Templo de Jerusalém. No plano teológico, defendiam o livre-arbítrio absoluto, negando a interferência divina direta nas escolhas humanas.

É relevante observar que o grupo saduceu desapareceu após a destruição do Templo em 70 d.C., uma vez que perdera sua base de poder institucional e sua razão de ser como elite sacerdotal (COHEN, 1987).


3. Os Essênios (Essenoi)

Os Essênios configuravam um movimento ascético dedicado à busca da pureza máxima, atualmente conhecidos principalmente em virtude das descobertas arqueológicas de Qumran e dos Manuscritos do Mar Morto.

Origem e composição social: Provavelmente originários de um grupo dissidente de sacerdotes — autodenominados "Filhos de Zadoque" — que romperam com o Templo de Jerusalém devido à consideração de que seus sumos sacerdotes estavam corrompidos (a partir do século II a.C.), retiraram-se para o deserto, estabelecendo comunidades como a de Qumran (CROSS, 1995; VERMES, 1997).


Principais características doutrinárias:

Dualismo e predestinação: A cosmovisão essênia fundamentava-se em um dualismo cósmico entre o bem e o mal, a "Luz" e as "Trevas", no qual os "filhos da luz" — os próprios essênios — estavam predestinados por Deus à vitória final sobre as forças das trevas (Regra da Comunidade 1QS III-IV).

Organização comunitária: Viviam em comunidades fechadas, caracterizadas por rígida disciplina, celibato (para a maioria dos membros), e comunhão total de bens. A observância da pureza ritual era constante, compreendendo banhos diários de purificação e refeições comuns de caráter sacro (JOSEFO, Guerra dos Judeus 2.119-161).

Escatologia apocalíptica: Dedicavam-se ao estudo das Escrituras, particularmente dos textos proféticos, em busca de indicações sobre o fim dos tempos e a iminente vinda de dois messias: um messias sacerdotal (descendente de Aarão) e um messias real (descendente de Davi) (CROSS, 1995).

O movimento essênio foi significativamente dizimado durante a Guerra Judaica (66-73 d.C.), embora alguns estudiosos sugiram possíveis continuidades com movimentos posteriores (VERMES, 2000).


4. Os Zelotes (Kanaim)

Os Zelotes representavam o braço político-armado da resistência judaica contra a dominação romana.

Origem e composição social: Embora tenham adquirido configuração mais definida no século I d.C., sua mentalidade remontava à tradição da revolta dos Macabeus. Compunham-se de fariseus de linha radical ou nacionalistas extremistas que consideravam a dominação romana uma afronta inaceitável à soberania divina sobre Israel (HORSLEY, 1988; RHoads, 1976).


Principais características doutrinárias:

Teocracia pela força: Os Zelotes sustentavam que Israel não deveria reconhecer outro soberano senão Deus (nullum regem nisi Deum; Josefo, Antiguidades Judaicas 18.23). Consequentemente, consideravam dever religioso a luta armada para expulsar os romanos e seus colaboradores, utilizando inclusive táticas de guerrilha e assassinato político — daí a designação de sicarii (portadores de adagas curtas, sicae) pelos romanos (HORSLEY, 1979).

Nacionalismo apocalíptico: Acreditavam que a ação violenta revolucionária contribuiria para apressar a vinda do Reino de Deus, configurando uma expectativa escatológica de caráter ativista.

Os Zelotes desempenharam papel central na eclosão da Grande Revolta Judaica (66-70 d.C.), que culminou na destruição de Jerusalém e do Segundo Templo (GOODMAN, 2007).


5. Os Samaritanos

Embora não constituíssem propriamente um "partido" interno ao judaísmo, os Samaritanos representavam um grupo irmão e rival, com origem e práticas religiosas distintas.

Origem histórica: Descendentes dos habitantes do antigo Reino do Norte (Israel), que haviam sido assimilados por povos estrangeiros após a conquista assíria (722 a.C.), desenvolveram uma versão própria da religião de Israel, mantendo tradições específicas (CROWN, 1989).


Principais características doutrinárias:

O Monte Gerizim como centro de culto: Em oposição a Jerusalém, os Samaritanos rejeitavam a capital judaica como centro religioso, sustentando que o local sagrado eleito por Deus era o Monte Gerizim, onde mantinham seu próprio santuário.

Pentateuco Samaritano: Reconheciam como Escritura exclusivamente os cinco livros de Moisés, porém em uma versão textual própria, que incluía o mandamento de edificar o altar no Gerizim (Êxodo 20:17b no Pentateuco Samaritano).

Eram considerados heréticos e ritualmente impuros pelos judeus da Judeia e da Galiléia, existindo tensões históricas documentadas desde o período pós-exílico (Esdras 4; Neemias 13; João 4:9).


6. Os Am Ha-Aretz (O Povo da Terra)

É fundamental reconhecer que a maioria da população judaica do período não se filiava a nenhum dos grupos anteriormente mencionados.

Caracterização social: Os am ha-aretz compreendiam camponeses, pescadores, pastores e artesãos comuns, cuja prática religiosa se configurava de modo mais simples e direto.

Práticas de piedade: Sua devoção fundamentava-se na participação nas festas religiosas, na peregrinação ao Templo (quando possível) e na frequência às sinagogas locais. Nem sempre conseguiam cumprir as rigorosas prescrições de pureza dos Fariseus ou o ascetismo dos Essênios, o que ocasionava tensões sociais com os grupos mais estritamente observantes (BICKERMAN, 1988; SAFRAI, 1976).


Considerações Finais

A diversidade de grupos e orientações religiosas no judaísmo do Segundo Templo demonstra que a "piedade judaica" da época não se configurava como linha monolítica, mas sim como verdadeiro "caleidoscópio" de interpretações acerca de como ser fiel à Aliança divina em um contexto histórico de profundas transformações políticas, culturais e sociais. Essa pluralidade interna, longe de representar fraqueza, evidenciava a vitalidade e a capacidade de adaptação do judaísmo ante os desafios impostos pela diáspora, pelo helenismo e pela dominação romana, configurando o terreno fértil a partir do qual emergiria o judaísmo rabínico pós-70 d.C.


Referências Bibliográficas

BICKERMAN, E. J. The Jews in the Greek Age. Cambridge: Harvard University Press, 1988.

COHEN, S. J. D. From the Maccabees to the Mishnah. Philadelphia: Westminster Press, 1987.

CROSS, F. M. The Ancient Library of Qumran. 3. ed. Minneapolis: Fortress Press, 1995.

CROWN, A. D. (ed.). The Samaritans. Tübingen: Mohr Siebeck, 1989.

GOODMAN, M. Rome and Jerusalem: The Clash of Ancient Civilizations. New York: Vintage Books, 2007.

HORSLEY, R. A. The Zealots: Their Origin, Relationships and Importance in the Jewish Revolt. Novum Testamentum, v. 28, n. 2, p. 159-192, 1976.

HORSLEY, R. A. Josephus and the Bandits. New York: Cambridge University Press, 1979.

NEUSNER, J. The Rabbinic Traditions about the Pharisees before 70. 3 vols. Leiden: Brill, 1971.

NEUSNER, J. From Politics to Piety: The Emergence of Pharisaic Judaism. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1979.

RHOADS, D. M. Israel in Revolution: 6-74 C.E.. Philadelphia: Fortress Press, 1976.

SAFRAI, S. The Temple. In: SAFRAI, S.; STERN, M. (eds.). The Jewish People in the First Century. Philadelphia: Fortress Press, 1976. v. 2, p. 865-907.

SANDERS, E. P. Judaism: Practice and Belief, 63 BCE – 66 CE. London: SCM Press, 1992.

SCHÜRER, E. The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ. Rev. ed. Ed. por G. Vermes, F. Millar e M. Black. 3 vols. Edinburgh: T&T Clark, 1979.

VERMES, G. The Complete Dead Sea Scrolls in English. New York: Penguin Books, 1997.

VERMES, G. The Changing Faces of Jesus. New York: Viking Compass, 2000. 

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