Leitura Exegética de Romanos 9:22 (NA28): Soberania Divina e Paciência Escatológica
Resumo
O presente artigo oferece uma análise exegética detalhada de Romanos 9:22, versículo central nos debates teológicos acerca da predestinação e da responsabilidade humana. A investigação fundamenta-se no texto do Novum Testamentum Graece (Nestle-Aland, 28ª edição), procedendo à análise morfossintática, semântica e teológica do pericope. A pesquisa demonstra que o versículo, longe de estabelecer uma predestinação incondicional à perdição, enfatiza a makrothymia divina como elemento constitutivo da economia escatológica da salvação, na qual a soberania de Deus opera mediante a tolerância paciente do mal para a manifestação subsequente da misericórdia.
Palavras-chave: Romanos 9:22; Exegese Bíblica; Soberania Divina; Makrothymia; Predestinação; NA28.
1. Introdução
Romanos 9:22 constitui um dos textos neotestamentários mais debatidos no âmbito da teologia sistemática, particularmente no que concerne à inter-relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Situado no contexto maior da defensio paulina acerca da justiça de Deus diante da aparente rejeição de Israel (Rm 9-11), o versículo apresenta desafios hermenêuticos significativos que demandam rigor metodológico.
O objetivo deste estudo é proceder à exegese do texto grego segundo a 28ª edição do Novum Testamentum Graece (NA28), analisando suas estruturas gramaticais, suas implicações semânticas e seu contexto teológico imediato. A metodologia empregada segue os parâmetros da exegese histórico-gramatical, com atenção particular aos aspectos morfossintáticos e à intertextualidade bíblica.
2. Fundamentação Textual
2.1 Texto Grego (NA28)
> εἰ δὲ θέλων ὁ θεὸς ἐνδείξασθαι τὴν ὀργὴν καὶ γνωρίσαι τὸ δυνατὸν αὐτοῦ ἤνεγκεν ἐν πολλῇ μακροθυμίᾳ σκεύη ὀργῆς κατηρτισμένα εἰς ἀπώλειαν,
2.2 Tradução Interlinear Analítica
Elemento Tradução Literal Análise Gramatical
εἰ δὲ E se Conjunção condicional + partícula adversativa
θέλων ὁ θεὸς Deus, querendo Particípio presente ativo, nominativo singular masculino + artigo definido + substantivo nominativo singular
ἐνδείξασθαι demonstrar Infinitivo aoristo médio de ἐνδείκνυμι
τὴν ὀργὴν a ira Artigo definido + substantivo acusativo singular feminino
καὶ e Conjunção coordenativa
γνωρίσαι tornar conhecido Infinitivo aoristo ativo de γνωρίζω
τὸ δυνατὸν αὐτοῦ o seu poder Artigo definido + adjetivo substantivado acusativo singular neutro + pronome possessivo genitivo singular
ἤνεγκεν suportou/tolerou Verbo finito aoristo ativo, 3ª pessoa singular de φέρω
ἐν πολλῇ μακροθυμίᾳ com muita paciência Preposição + adjetivo dativo singular feminino + substantivo dativo singular feminino
σκεύη ὀργῆς vasos da ira Substantivo acusativo plural neutro + substantivo genitivo singular feminino
κατηρτισμένα preparados Particípio perfeito passivo, acusativo plural neutro de καταρτίζω
εἰς ἀπώλειαν para perdição Preposição + substantivo acusativo singular feminino
3. Análise Morfossintática
3.1 Estrutura Periódica: A Anacoluto Condicional
A incipit do versículo apresenta-se com a construção condicional εἰ δὲ ("E se"), que, conforme observado por Cranfield (1975, p. 489) e Dunn (1988, p. 548), não encontra sua apódose correspondente de forma explícita no texto imediato. Este fenômeno, classificável como anacoluto ou, mais especificamente, como aposiopesis (reticência deliberada), constitui uma figura de estilo empregada por Paulo para criar suspense retórico.
A conclusão lógica da condicional, embora não expressa sintaticamente, pode ser inferida do contexto discursivo do capítulo 9, particularmente do versículo 24: "...também nos chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?" (καὶ οὓς ἐκάλεσεν, οὐ μόνον ἐξ Ἰουδαίων ἀλλὰ καὶ ἐξ ἐθνῶν;). A estrutura argumentativa sugere que o apóstolo interrompe seu raciocínio para introduzir uma quaestio retórica que será respondida nos versículos subsequentes.
3.2 Análise dos Constituintes Verbais
3.2.1 O Verbo θέλω (thelō)
O particípio presente ativo θέλων ("querendo") denota intenção deliberada e propósito soberano. Conforme enfatiza Moo (1996, p. 599), o termo não expressa mera vontade emotiva, mas designa a determinação incondicionada do actus purus divino. O uso do presente, em contraste com os infinitivos aoristos que se seguem, indica a simultaneidade da intenção divina com a ação executada.
3.2.2 O Verbo φέρω (pherō) no Aoristo
O verbo principal ἤνεγκεν (ēnenken), forma aorista de φέρω, possui campo semântico amplo, abrangendo desde o sentido literal de "carregar" até o figurado de "suportar" ou "tolerar". No contexto sapiencial e profético do Antigo Testamento, o termo frequentemente denota a longanimidade divina diante da provocação humana (cf. Sl 103:9; Is 48:9). O emprego do aoristo sugere uma ação pontual, porém de efeitos duradouros, referindo-se à tolerância histórica de Deus em relação à existência do mal.
3.3 Os Complementos Obliquos
3.3.1 Os Infinitivos de Propósito
A dupla finalidade divina é expressa pelos infinitivos aoristos ἐνδείξασθαι ("demonstrar") e γνωρίσαι ("tornar conhecido"), ambos regidos pelo θέλων inicial:
1. ἐνδείξασθαι τὴν ὀργήν: O verbo ἐνδείκνυμι, no aoristo médio, enfatiza a manifestação visível e pública do atributo divino. O termo ὀργή (orgē), no contexto paulino, não designa ira passionai ou caprichosa, mas a reação santa e justa contra a iniquidade (cf. Rm 1:18; 2:5; 5:9).
2. γνωρίσαι τὸ δυνατόν αὐτοῦ: O infinitivo ativo de γνωρίζω indica a comunicação cognitiva do poder divino (dynamis). A substancialização do adjetivo δυνατόν ("o poderoso/poder") refere-se à potentia absoluta de Deus em executar juízo, tema recorrente na teologia deuteropaulina (cf. Ef 1:19; Cl 1:11).
3.3.2 A Circunstancial de Modo
A expressão ἐν πολλῇ μακροθυμίᾳ ("com muita paciência") funciona como complemento circunstancial de modo, qualificando o verbo ἤνεγκεν. O termo μακροθυμία, composição de μακρός ("longo") e θυμός ("ira/afeto"), denota a qualidade de ser "tardio em irar-se" (slow to anger). No corpus paulino, o vocábulo aparece em listas de virtudes (Gl 5:22; Cl 3:12) e como atributo divino (Rm 2:4; 1Tm 1:16; 1Pe 3:20).
A presença do adjetivo πολλῇ ("muita") intensifica a noção de superabundância, sugerindo que a tolerância divina excede em muito o que seria razoavelmente esperável.
3.4 Análise dos Objetos Diretos
3.4.1 A Metáfora dos "Vasos" (σκεύη)
O substantivo σκεῦος ("vaso, utensílio, instrumento") constitui metáfora bíblica consolidada, com antecedentes no profetismo veterotestamentário (Jr 18:1-6; 27:1-11; Is 54:16-17 LXX) e na tradição rabínica. Em Paulo, a imagem aparece em 2Coríntios 4:7 (vasos de barro) e 2Timóteo 2:20-21 (vasos de honra e desonra).
O genitivo ὀργῆς ("da ira") é qualitativo, caracterizando estes σκεύη como destinados à manifestação da justiça retributiva divina. A pluralidade (σκεύη) indica a multiplicidade de indivíduos ou grupos que se enquadram nesta categoria.
3.4.2 O Estado de Preparação (κατηρτισμένα)
O particípio perfeito passivo κατηρτισμένα, derivado de καταρτίζω ("preparar, aperfeiçoar, restaurar"), apresenta aspecto culminativo, indicando um estado resultante de ação anterior completada. A voz passiva é particularmente significativa: gramaticalmente, não especifica o agente responsável pela preparação.
Conforme argumenta Schreiner (1998, p. 510), a ambiguidade intencional do participial passivo permite que o texto mantenha em tensão a soberania divina e a responsabilidade humana, sem explicitar mecanicamente a causalidade. O estado de "preparação para perdição" (εἰς ἀπώλειαν) descreve a condição atual dos vasos, não necessariamente a determinação incondicional de seu destino.
4. Análise Semântica e Lexical
4.1 O Campo Semântico de Μακροθυμία
No contexto da teologia bíblica, a μακροθυμία divina constitui um dos atributos fundamentais da revelatio Dei (cf. Êx 34:6; Nm 14:18; Sl 86:15). A LXX traduz o hebraico erek appayim ("longo de narinas", i.e., tardio em irar-se) por μακρόθυμος/μακροθυμέω.
A função teológica da paciência divina em Romanos 9:22 não é meramente descritiva, mas instrumental: ela serve como medium para a realização dos propósitos escatológicos de Deus. Conforme observa Jewett (2007, p. 589), a μακροθυμία aqui não contradiz a ὀργή, mas a contextualiza temporalmente, adiando sua manifestação plena para que se cumpra o mistério da inclusão dos gentios (vv. 24-26).
4.2 A Semântica de Ἀπώλεια
O termo ἀπώλεια ("perdição, destruição, ruína") possui conotações escatológicas densas no pensamento paulino. Em Filipenses 3:19 e 1Timóteo 6:9, refere-se ao destino final dos ímpios. No entanto, em Romanos 9:22, o termo aparece sem artigo definido, o que, segundo Porter (1994, p. 89), pode indicar qualidade ou estado mais do que destino inelutável.
A preposição εἰς ("para") introduz finalidade ou destino, mas não necessariamente inevitabilidade absoluta, especialmente considerando o aspecto tolerativo do verbo principal.
5. Contexto Literário e Intertextual
5.1 O Contexto Imediato: Romanos 9:19-24
O pericope 9:19-24 estrutura-se como diálogo diatríbico, no qual Paulo antecipa objeções hipotéticas contra sua teologia da soberania divina. O versículo 22 insere-se na ilustração do oleiro (v. 21), funcionando como exposição do "primeiro movimento" da analogia: os vasos para desonra.
A transição para o versículo 23 é marcada pela conjunção final ἵνα ("para que"), que introduz o propósito último da ação divina: a manifestação das "riquezas da glória" (πλούτου τῆς δόξης) nos vasos de misericórdia.
5.2 Contraste Sintático entre os Versículos 22 e 23
A análise comparativa dos versículos adjacentes revela distinção gramatical significativa:
Versículo Termo de Preparação Voz Agente
9:22 κατηρτισμένα Passiva Não especificado
9:23 προητοίμασεν Ativa Deus (subentendido)
O verbo προητοιμάζω ("preparar de antemão") no versículo 23 é ativo e transitivo, com Deus claramente como sujeito implícito. Esta assimetria sintática, conforme destaca Cranfield (1975, p. 494), sugere que Paulo evita atribuir diretamente a Deus a preparação dos vasos de ira, mantendo a complexidade teológica do tema.
5.3 Intertextualidade com o Êxodo
A referência implícita a Faraó no versículo 17 (cf. Êx 9:16) informa a compreensão dos "vasos de ira". O endurecimento (hardening) do coração de Faraó, tema recorrente em Romanos 9:14-18, ilustra a dinâmica segundo a qual a resistência humana serve aos propósitos divinos sem eximir o sujeito de responsabilidade.
6. Implicações Teológicas
6.1 A Tensão entre Soberania e Responsabilidade
A exegese de Romanos 9:22 não resolve de forma reducionista o antinômio entre a praedestinatio divina e a libertas humana. Ao contrário, o texto mantém ambas as dimensões em tensão dialética:
1. Soberania: Deus age segundo propósito incondicionado (θέλων), demonstra seus atributos (ὀργή e δυνατόν) e tolera os vasos de ira para seus fins escatológicos.
2. Responsabilidade: A voz passiva de κατηρτισμένα permite a inferência de que os próprios vasos, mediante endurecimento autêntico (cf. Rm 1:24, 26, 28), participam de sua condição.
6.2 A Paciência como Estrutura Escatológica
A μακροθυμία divina em Romanos 9:22 não é mera delay ou inércia, mas componente estrutural da economia da salvação. O "suportar" (ἤνεγκεν) cria o espaço-tempo necessário para a chamada dos gentios (v. 24), cumprindo assim as promessas proféticas (vv. 25-26; cf. Os 2:23; 1:10).
Esta estrutura temporal da paciência divina encontra paralelo em 2Pedro 3:9, 15, onde a μακροθυμία é explicada como disposição para o arrependimento universal.
6.3 A Função Doxológica do Juízo
O propósito duplo de Romanos 9:22 (demonstrar ira e tornar conhecido o poder) é eminentemente doxológico. A manifestação da justiça retributiva serve à revelação da glória divina, que alcança seu ápice não na destruição, mas na misericórdia (v. 23).
Esta perspectiva inverte a lógica da objeção inicial (v. 14): se Deus é injusto por escolher a quem quer, Paulo responde que a própria existência dos "vasos de ira" é tolerada para que se manifeste a plenitude da graça.
7. Considerações Finais
A exegese de Romanos 9:22 conforme o texto do NA28 revela um versículo de extraordinária densidade teológica e sofisticação retórica. A análise morfossintática demonstra que Paulo emprega recursos gramaticais (anacoluto, voz passiva ambígua, aspecto verbal) para manter a complexidade do tema, resistindo a simplificações deterministas ou pelagianas.
Conclui-se que o versículo enfatiza primariamente a makrothymia divina como o modo pelo qual Deus administra a história da salvação. Os "vasos de ira" existem em estado de preparação para perdição, mas este estado é contextualizado pela tolerância paciente que visa à manifestação das "riquezas da glória" nos vasos de misericórdia.
A contribuição exegética para o debate teológico reside na insistência de que a soberania de Deus em Romanos 9 não opera à margem da paciência, mas precisamente através dela, subordinando a manifestação da ira à economia mais ampla da graça.
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Referências
CRANFIELD, C. E. B. A Critical and Exegetical Commentary on the Epistle to the Romans. 6. ed. Edinburgh: T&T Clark, 1975. v. 2.
DUNN, James D. G. Romans 9-16. Dallas: Word Books, 1988. (Word Biblical Commentary, 38B).
JEWETT, Robert. Romans: A Commentary. Minneapolis: Fortress Press, 2007. (Hermeneia).
MOO, Douglas J. The Epistle to the Romans. Grand Rapids: Eerdmans, 1996. (New International Commentary on the New Testament).
PORTER, Stanley E. Idioms of the Greek New Testament. Sheffield: JSOT Press, 1994. (Biblical Languages: Greek, 2).
SCHREINER, Thomas R. Romans. Grand Rapids: Baker Books, 1998. (Baker Exegetical Commentary on the New Testament).
NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece. 28. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2012.
Nota do Autor: Este artigo foi elaborado com base na metodologia da exegese histórico-gramatical, utilizando o texto crítico do Novum Testamentum Graece (NA28). As traduções do grego são do próprio autor, salvo indicação em contrário.
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