Esta é uma reflexão sofisticada sobre a interface entre hermenêutica e tradução bíblica, articulando conceitos fundamentais dos Estudos da Tradução com a teoria da recepção. A seguir, ofereço uma análise acadêmica estruturada em eixos temáticos.
1. O Paradigma do Leitor Implícito e a Recepção Estética
A referência ao "leitor implícito" remete diretamente à teoria da recepção de Wolfgang Iser e, em certa medida, à estética da recepção de Hans Robert Jauss. O texto reconhece que a tradução da Bíblia de Almeida (séc. XVII) e a Almeida Revista e Corrigida (séc. XX/XXI) constituem atos comunicativos situados historicamente, onde o "horizonte de expectativas" do receptor — para usar a terminologia jaussiana — difere radicalmente entre os períodos.
A distinção entre o "horizonte semântico, pragmático ou discursivo" do leitor seiscentista versus o contemporâneo evidencia uma compreensão madura da variação diacrônica dos códigos linguísticos e culturais. O português arcaico de 1681 (primeira edição completa de João Ferreira de Almeida) operava com uma sintaxe flexível, vocabulário latino-hebraizante e pressupostos teológicos próprios ao contexto ibérico pós-restauração. Em contraste, a ARC (1956-1995) e subsequentes revisões respondem a uma comunidade evangélica brasileira diversificada, com formação literária distinta e sensibilidade eclesial plural.
2. Crítica à Equivalência Formal e a Teoria Nideana
O texto problematiza a "correspondência lexical ou formal", alinhando-se criticamente com a distinção clássica proposta por Eugene Nida entre equivalência formal e equivalência dinâmica (ou funcional) . Nida argumentava que a tradução bíblica deveria buscar "o equivalente natural mais próximo da mensagem da língua de partida, primeiramente em termos de significado e, posteriormente, em termos de estilo" .
A proposição de que a fidelidade deve ser avaliada pela "capacidade da tradução de comunicar [...] o sentido histórico do texto bíblico ao seu público-alvo" ecoa a primazia nideana da equivalência dinâmica, onde o impacto comunicativo sobre o receptor assume centralidade. Como observa Nida, a fidelidade tradutória reside na capacidade de evocar "essencialmente a mesma reação do que aquela manifestada pelos receptores da mensagem original" .
3. Hermenêutica como Dimensão Constitutiva
A tese de que "a hermenêutica não se apresenta como etapa posterior à tradução, mas como dimensão constitutiva do próprio ato tradutório" constitui a contribuição mais original do texto. Esta posição dialoga com:
- Hans-Georg Gadamer: A noção de que todo entendimento é históricamente situado e que o "círculo hermenêutico" permeia toda mediação linguística. O tradutor não é um mediador transparente, mas um interprete situado em sua própria historicidade.
- George Steiner: Em After Babel, Steiner argumenta que toda tradução é um ato hermenêutico de "confiança", "agressão" e "incorporação" do texto original. A tradução bíblica, por sua natureza canônica, intensifica essa tensão hermenêutica.
- Lawrence Venuti: Embora o texto não mencione explicitamente, a crítica implícita à invisibilidade do tradutor e à domesticização do texto bíblico poderia ser desenvolvida na linha venutiana. A "Almeida Revista e Corrigida" representa um processo de atualização que, ao buscar inteligibilidade, inevitavelmente produz uma forma de domesticização do texto sagrado.
4. Implicações Teológicas e Ecumênicas
O texto suscita questões pertinentes à teologia bíblica:
1. Autoridade textual: Se a fidelidade não reside na forma mas na comunicação do sentido, como se preserva a autoridade inspirada do texto em traduções funcionalmente equivalentes?
2. Pluralidade canônica: A existência de múltiplas revisões da Almeida (ARC, ARA, NVI, NVT) evidencia que o canon bíblico vivo admite — e talvez exija — re-traduções periódicas que respondam a novos contextos eclesiais.
3. Diálogo interconfessional: A comparação entre tradições católicas (que historicamente privilegiaram a Vulgata latina) e protestantes (com ênfase nos originais hebraico/grego) ilustra como pressupostos eclesiais moldam as escolhas tradutórias.
4. Considerações Críticas e Aprofundamentos Possíveis
O texto poderia ser enriquecido com:
- Análise contrastiva específica: Exemplos concretos de versículos onde a ARC modifica escolhas da Almeida original, demonstrando as "servidões" (no sentido aubertiano) e autonomias do tradutor .
- Teoria dos polissistemas: A contribuição de Itamar Even-Zohar poderia iluminar como as traduções bíblicas ocupam posições distintas no polissistema literário-religioso português (canônica vs. periférica).
- Estudos de recepção empírica: Pesquisas com leitores contemporâneos sobre como compreendem arcaísmos bíblicos versus linguagem atualizada poderiam fundamentar empiricamente as afirmações sobre "inteligibilidade".
Conclusão
O texto apresenta uma argumentação coerente e atualizada, situando-se na interseção da teoria da tradução bíblica, hermenêutica filosófica e história da recepção. Sua principal força reside na superação da dicotomia ingênua entre "literal" e "livre", propondo uma compreensão dialética da fidelidade tradutória como evento comunicativo historicamente mediado. A tese da hermenêutica como constitutiva — e não posterior — ao ato tradutório representa uma contribuição epistemológica significativa para os estudos bíblicos e da tradução em língua portuguesa.
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