Da Física à Poética: A Transposição Estrutural do Tempo Aristotélico em Paul Ricoeur
1. Introdução
A relação entre Aristóteles e Paul Ricoeur ultrapassa o nível de mera analogia conceitual. Trata-se, antes, de uma transposição estrutural: Ricoeur retoma a definição aristotélica de tempo como “número do movimento segundo o antes e o depois” (Física, IV, 11) e a desloca do horizonte físico-ontológico para o domínio hermenêutico e narrativo. Se Aristóteles define o tempo como mensuração da sucessão, Ricoeur interroga o estatuto existencial dessa sucessão e pergunta como o tempo pode tornar-se humano.
Em Tempo e Narrativa, Ricoeur sustenta que a narrativa constitui a mediação privilegiada entre tempo cosmológico (cronológico) e tempo vivido. O que Aristóteles concebe como operação numeradora da alma transforma-se, em Ricoeur, numa operação configuradora da intriga (mythos). O tempo deixa de ser apenas quantidade mensurada e torna-se forma significativa da experiência.
2. Do “Antes e Depois” à Intriga: A Configuração do Tempo
Na Física, o “antes e depois” designa a estrutura interna do movimento contínuo. O tempo surge quando essa sucessão é numerada pela alma. Trata-se de uma relação quantitativa: distinguir dois “agoras” e estabelecer entre eles um intervalo mensurável.
Ricoeur, por sua vez, desloca essa estrutura para o plano da poética. Inspirando-se na Poética de Aristóteles, ele identifica na intriga (mythos) a forma que transforma uma sucessão de eventos numa totalidade inteligível. A narrativa não apenas ordena acontecimentos cronologicamente; ela os configura segundo uma lógica interna de necessidade ou verossimilhança.
O que, em Aristóteles, era número aplicado ao movimento, em Ricoeur torna-se configuração aplicada à ação. A sucessão bruta do tempo cronológico é reorganizada pela narrativa em começo, meio e fim. Essa estrutura não corresponde simplesmente à ordem temporal empírica, mas instaura uma coerência retrospectiva: o fim ilumina o início, conferindo-lhe sentido.
Assim, o “antes e depois” aristotélico metamorfoseia-se na articulação interna da intriga. O número que contava instantes converte-se na lógica narrativa que articula acontecimentos em uma unidade significativa.
3. A Síntese do Heterogêneo: Contagem e Configuração
Em Aristóteles, o tempo emerge quando a alma distingue e conta dois “agoras”. A operação de numerar unifica o contínuo do movimento, tornando-o mensurável. O tempo é, portanto, resultado de uma síntese.
Ricoeur radicaliza essa estrutura ao definir a narrativa como “síntese do heterogêneo”. A intriga reúne elementos dispersos — personagens, circunstâncias, intenções, meios e fins — e os integra numa totalidade coerente. Essa operação é formalmente análoga à contagem aristotélica: assim como a alma unifica o antes e o depois num número, a narrativa unifica acontecimentos descontínuos numa totalidade inteligível.
Contudo, a diferença é decisiva: enquanto a contagem produz quantidade, a configuração narrativa produz sentido. O tempo narrativo não é apenas mensurado; ele é interpretado.
4. As Três Mímeses: Desdobramento Hermenêutico do “Antes e Depois”
A contribuição central de Ricoeur para a teoria do tempo consiste no desdobramento da estrutura temporal em três momentos hermenêuticos — Mímesis I, II e III — que articulam experiência, configuração e recepção.
4.1 Mímesis I (Pré-figuração)
A Mímesis I corresponde ao mundo da ação antes de sua narração. Trata-se do campo prático onde já existem estruturas temporais implícitas: projetos, expectativas, memórias, decisões. Aqui encontramos algo análogo ao “antes e depois” aristotélico enquanto estrutura do movimento. É o tempo ainda não configurado narrativamente, mas já articulado pela prática humana.
4.2 Mímesis II (Configuração)
A Mímesis II designa o ato de tecer a intriga. É o momento configurador que transforma a sucessão cronológica em totalidade significativa. Nesse nível, o “depois” (o desfecho) pode determinar retroativamente o significado do “antes”. A narrativa exerce, por assim dizer, uma reordenação do tempo linear.
Se, na física aristotélica, o antes precede o depois de modo irreversível, na narrativa o fim projeta sua luz sobre o início. Essa reorganização não altera a cronologia factual, mas reestrutura o sentido dos acontecimentos. A operação configuradora corresponde, em chave hermenêutica, à operação numeradora descrita por Aristóteles.
4.3 Mímesis III (Refiguração)
A Mímesis III refere-se à recepção da narrativa pelo leitor ou ouvinte. O tempo narrativo só se completa quando é apropriado por uma consciência que o atualiza. A leitura refigura o mundo do texto e transforma a experiência temporal do sujeito.
Se Aristóteles afirmava que o tempo requer uma alma que conte, Ricoeur amplia essa tese ao afirmar que o tempo humano requer uma consciência que interprete. A narrativa atinge sua plenitude quando o leitor habita o tempo configurado pelo texto.
5. Do Intervalo à Intensidade: O Tempo como Experiência
Em Aristóteles, o tempo mede o intervalo entre dois instantes. O “agora” funciona como limite que conecta e separa passado e futuro. O intervalo é quantitativo.
Em Ricoeur, a narrativa também mede um intervalo — mas trata-se do intervalo entre viver e compreender. A intriga transforma a mera sucessão em experiência densa: memória, expectativa, suspense, esperança. O número abstrato converte-se em ritmo existencial.
A narrativa não elimina a dimensão quantitativa do tempo, mas a transfigura. O tempo deixa de ser apenas sucessão mensurável e torna-se duração significativa.
6. Conclusão
A relação entre Aristóteles e Ricoeur pode ser compreendida como continuidade e superação. A definição aristotélica do tempo como número do movimento constitui a condição formal de possibilidade da narrativa: sem a capacidade de distinguir e contar instantes, não haveria ordenação temporal.
Ricoeur, entretanto, demonstra que a experiência humana do tempo excede a mensuração. A narrativa devolve ao tempo aquilo que a definição física havia abstraído: sua espessura existencial. Se, para Aristóteles, o tempo é aquilo que a alma calcula, para Ricoeur a narrativa é aquilo que a alma habita.
Assim, a operação numeradora transforma-se em operação configuradora; o intervalo mensurável converte-se em mundo interpretável; e o tempo físico torna-se tempo humano por meio da mediação narrativa.
Nenhum comentário:
Postar um comentário