Texto - Romanos 6:18-23
Tema - Salvação, Jesus pagou tudo.
Ideia Central do Texto - Num linguajar jurídico estamos tratando aqui do resgate. Fomos resgatados de uma servidão para outra servidão.
Tese - Não alcançamos a liberdade, apenas mudamos de Senhor.
Texto Grego (NA28) e Tradução
18 ἐλευθερωθέντες δὲ ἀπὸ τῆς ἁμαρτίας ἐδουλώθητε τῇ δικαιοσύνῃ. E, libertos do pecado, fostes escravizados à justiça.
19 Ἀνθρώπινον λέγω διὰ τὴν ἀσθένειαν τῆς σαρκὸς ὑμῶν. ὥσπερ γὰρ παρεστήσατε τὰ μέλη ὑμῶν δοῦλα τῇ ἀκαθαρσίᾳ καὶ τῇ ἀνομίᾳ εἰς τὴν ἀνομίαν, οὕτως νῦν παραστήσατε τὰ μέλη ὑμῶν δοῦλα τῇ δικαιοσύνῃ εἰς ἁγιασμόν. Falo de modo humano, por causa da fraqueza da vossa carne. Pois, assim como apresentastes os vossos membros como escravos à impureza e à iniquidade para a iniquidade, assim agora apresentai os vossos membros como escravos à justiça para a santificação.
20 ὅτε γὰρ δοῦλοι ἦτε τῆς ἁμαρτίας, ἐλεύθεροι ἦτε τῇ δικαιοσύνῃ. Pois, quando éreis escravos do pecado, éreis livres em relação à justiça.
21 τίνα οὖν καρπὸν εἴχετε τότε; ἐφ’ οἷς νῦν ἐπαισχύνεσθε, τὸ γὰρ τέλος ἐκείνων θάνατος. Que fruto, pois, tendes então? Coisas de que agora vos envergonhais; porque o fim delas é a morte.
22 νυνὶ δέ, ἐλευθερωθέντες ἀπὸ τῆς ἁμαρτίας δουλωθέντες δὲ τῷ θεῷ, ἔχετε τὸν καρπὸν ὑμῶν εἰς ἁγιασμόν, τὸ δὲ τέλος ζωὴν αἰώνιον. Mas agora, libertos do pecado e escravizados a Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna.
23 τὰ γὰρ ὀψώνια τῆς ἁμαρτίας θάνατος, τὸ δὲ χάρισμα τοῦ θεοῦ ζωὴ αἰώνιος ἐν Χριστῷ Ἰησοῦ τῷ κυρίῳ ἡμῶν. Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.
Introdução
É fundamental que toda vez que estivermos diante de um texto, e o mesmo por si só nos impõe uma demanda de caráter hermenêutico, devemos nos perguntar por quais caminhos podemos ou devemos trilhar? Se estamos nos referindo a uma porção da escritura sagrada(Bíblia), obviamente que haveremos de buscar todo e qualquer tipo de ferramenta específica que nos auxilie para uma melhor compreensão do texto. Mas, não vamos nos esquecer daquela máxima que existe numa hermenêutica mais reformada de que a SCIPTURA SUIPISIUS ENTERPRES. Ao olharmos para este texto, em especial, o que temos senão uma metáfora devidamente colocada que trabalha para o entendimento pedagógico de que na forma do direito busca-se especificamente destacar elementos do direito romano dessa época. No caso de uma epístola como esta do apóstolo Paulo endereçada aos aos crentes de Roma. Precisamos entender do ponto de vista histórico o que era viver no centro do poder universal dessa época, ou seja, a Roma do primeiro século. E acho que para fazermos isto, não necessitamos de muito esforço. Já que, a rigor, o que vai nos interessar é a informação de como a sociedade romana se estruturava. A estrutura social romana era rigidamente hierárquica: Ordos Superiores _ 1 - Senadores (classe política), 2 - Equestres (classe empresarial e administrativa). 3 - Plebe: Cidadãos comuns de Roma. 4 - Libertos: Escravos libertos, uma classe social dinâmica e em ascensão. E, 5 - Escravos: Eles eram a base da economia. Eram propriedade e não tinham direitos. Estima-se que constituíssem cerca de 1/3 da população da Itália. Então o ponto 5, acerca dos escravos nos interessa pelo fato de que se o apóstolo está escrevendo e, tal como a narrativa do texto, faz menção desse dado acerca da servidão dos servos, isto quer dizer muita coisa. Primeiro de tudo, dá para perceber que servidão, vassalagem devia ser muito comum entre aqueles crentes de Roma. Segundo, a mudança de senhorio e não a libertação seria muito mais realista enquanto elemento de boa nova do evangelho do que a tal liberdade. É evidente que a própria chave linguística que destrava a mente daquele servo que ouvia a palavra de Deus sob a forma de uma boa noticia(Evangelho), seria de tal maneira a ferramenta plausível e realista para que os crentes desta grande metrópole chegassem ao conhecimento de Cristo. O Império Romano do primeiro século era uma potência colossal e complexa, unificada sob um único governante, que mantinha paz interna através de poder militar, administração eficiente e entretenimento massivo. Foi um caldeirão de culturas, uma era de incríveis conquistas de engenharia e o palco para o surgimento de uma religião que mudaria o mundo. Foi, essencialmente, a fundação sobre a qual grande parte da civilização ocidental foi construída.
A justificativa que nos interessa com o objetivo de delimitar nossa leitura surge a partir de constatações como, por exemplo, aquela com base de que o império romano era um caldeirão de cultura. Ou seja, é o que vou chamar de policulturalismo. Me reservo o direito de não chamar multiculturalismo para que não se revista de uma típica visão geopolítica, muito simplória e que, por razões que não nos convém comentar neste momento, vamos deixar de lado . E também, porque a ênfase deva incidir sobre o ser humano e sua natureza pecaminosa. É com esta visão da natureza humana contextulizada e performada neste período histórico de início de nossa era, tendo como pano de fundo a Roma já imperial, que nos deparamos com toda sorte de crenças politeístas. Vocês lembram da passagem narrada em Atos 17:16, quando Paulo se encontrava em Atenas e de como esta passagem do apóstolo por Atenas mexeu com ele? Ele ficou tão perturbado com tudo que via, que de repente o apóstolo se sente impelido a revelar seu inconformismo e indignação e, por isso mesmo, começa a pregar o evangelho. O apóstolo estava em Atenas de passagem. Não era seu objetivo, a primeira vista, pregar ali. Roma não é tão diferente de Atenas neste sentido. Em todas as narrativas anteriores a este capítulo 6 de Romanos, o apóstolo lista toda sorte iniquidade praticada por aqueles que habitavam a metrópole. Além do que o apóstolo fala que é do Céu que se manifesta toda sorte condenações por essas práticas abomináveis ao Senhor. Quero, portanto, a partir do trecho que me serve de base para meditação nesta noite, fazer com que ele mesmo seja este instrumento de síntese que traça o caminho de transição entre a servidão que outrora se submetia ao pecado para aquela que a partir da chave linguística que é Cristo estabelece que o ponto de virada e submissão é a Deus para a santificação que ocorre em Cristo Jesus.
I - Jesus pagou tudo significa uma radical mudança de senhorio. (V.V. 18-19).
Aquele uso metafórico que me serviu como palavras introdutórias desta meditação se adequa muito bem aqui. A ideia aqui conduzida é a relação entre o servo e o senhor de escravos. Se mergulhassemos um pouco mais no uso metafórico dessa imagem, ainda teríamos tantas outras situações que careceriam de mais detalhes na análise deste verso. Por ora, nos limitemos àpenas esse traço distintivo da relação entre o servo e seu senhor. É bom também que se compreenda que o alcance dessa metáfora é específica para esta passagem. Pois, em minha experiência como pregador já encontrei a mesma metáfora sendo utilizada por este apóstolo nesta mesma epistola(Romanos 8:15), porém, com objetivos e resultados diferentes ao que foi proposto. Basicamente o ato de pagamento de Jesus. Este pagamento é feito ao pecado, pois era ele que exercia sobre nós esse poder. Era ele o nosso senhor e sob este senhorio estávamos irremediavelmente condenados. Estando sob o senhorio do pecado, nós não tínhamos qualquer tipo de compromisso com a justiça. A ideia de justiça que o termo grego nos apresenta é aquela em que apresentamos uma vida de retidão, um viver justo. Sob o jugo do pecado nada disso era possível. Entretanto, com o pagamento que Cristo fez na cruz esse viver reto se torna possível e é exatamente quando a santificação se transforma no objetivo de todos nós. Porém, a condição de servos, de escravos que nos encontrávamos antes não se altera. Da mesma forma como eramos impelidos, compungidos à prática da iniquidade por meio dos nossos membros, agora o apóstolo fala dessa mesma obrigação e através dos nossos membros pela obrigatória prática da justiça com o objetivo de alcançarmos a santificação.
II - Em que momento tomamos consciência de que este pagamento foi efetuado?(V.V. 20-21).
Eu me identifico muito com um ditado popular que existe entre nós. Acho até que este ditado já foi mais popular do que é hoje. Porém ao mencioná-lo, peço, por favor e pela boa vontade de todos, que apenas se concentrem no lado positivo de tal comparação. E a comparação deve ser apenas no sentido de entendermos a relevância do que chamamos de temporalidade, ou olhar qualitativo para o tempo. O ditado é aquele que em algum momento de nossa vida quando buscamos algo da nossa memória que ficou no passado e a comparamos com o estágio atual de nossa vida, a gente dá aquele suspiro e diz: “Eu era feliz e não sabia”. Num instante ou lapso de tempo, recuperamos nossa memória e a encaminhamos para um sentido que antes não tínhamos percebido. Então, entender Jesus passa por essa compreensão de que realmente estávamos perdidos, e, de repente, tudo passa a ser compreendido. Esses dois versos 20 e 21, nos passam esta ideia. Paulo propõe o esquema hermenêutico de leitura do texto se valendo da temporalidade tendo como elemento comparativo a prática contumaz do pecado e a liberdade de não se observar por isso mesmo a prática da justiça. Éramos escravos do pecado, quando Paulo faz esse tipo de afirmação, querendo ou não, não sei se era sua intenção. Mas ele nos remete àquela metáfora utilizada por ele nesta mesma epístola (Romanos 7:14-16). Ou seja, gozamos de nossa racionalidade moral e ética para distinguirmos o bem do mal. Porém, nossa vontade é ainda assim subjugada pelo pecado. É uma intensa luta interna e, por conta disso, nossa subjetividade fica totalmente comprometida. O apóstolo nesta epístola também afirma que nossa liberdade em relação à justiça nos privou e nos privava da consciência de nossa temporalidade. O esclarecimento que alcançamos pela graça de Cristo também é o ponto de virada para esse entendimento já que, tendo recuperado pela consciência o lapso de tempo que ficou despercebido, assim que o recuperamos começamos a entender que tudo que se vislumbra a partir desse passado é motivo de vergonha. Caminhávamos enquanto portadores de cegueira espiritual em direção ao abismo e a morte.
III - Ele pagou com a morte porque este era o preço a ser pago (V.V. 22-23)
O verso 22 começa lembrando mais uma vez que a libertação do pecado que mantinha um senhorio sobre nós, nos transforma em escravos de Deus. Como dissemos desde o início houve apenas uma troca de Senhor. Continuamos na condição de escravos. Todavia, o compromisso de nossa submissão agora é para com Deus. Entretanto, a mudança de Senhorio não deixa que passemos despercebidamente por este verso sem notarmos. Se antes, tal como o registro do verso 21, quando o produto de uma escravidão ao pecado produziamos fruto dos quais depois haveriamos de nos envergonhar e que fatalmente nos conduziria para destinos trágicos. Agora, e a mudança de Senhorio nos ensina isto, sob a tutela do senhorio que Deus, em Cristo Jesus, nos proporciona. O caminho está franqueado para a santificação e naturalmente alcançamos a vida eterna. Evidentemente que toda essa engenharia jurídica desenhada pelo apóstolo tem como objetivo, exemplificar que o único preço a ser pago para se resgatar uma alma do pecado, é a morte de um justo. Não há, não havia e nunca houve um justo. A escritura sempre testemunhou a esse respeito, o proprio Paulo retoma uma citação dessa mesma escritura, nesta epístola aos Romanos 3:10 _ “Não há um justo, nenhum sequer”. Pois bem, quando chegamos ao verso 23 desse capítulo, constatamos que que o único preço cabível e compatível para o pecado é a morte. Qualquer outro tipo de precificação que alguém possa apresentar, tenha a certeza de uma coisa, ela jamais poderá ser enquadrada do ponto de uma perspectiva hermenêutica e bíblica. Outro dado bastante relevante para que entendamos a natureza e profundidade deste verso, é que a recompensa enquanto despesa de pagamento para uma pessoa, no caso deste verso está relacionada ao fato que o termo grego traduzido como salário tem sua origem nas despesas de soldos para os soldados romanos. Um outro detalhe, é que a palavra salário, muito comum em português, principalmente quando se trata das relações de contratos de trabalho. É uma palavra oriunda do latim. Uma das formas de pagamento que o soldado romano tinha era uma porção de sal. Cada soldado portava junto de si um recipiente chamado de SALARIUM. Recipiente onde era deposurltado o sal que o soldado recebia como uma de suas formas de pagamento. Paulo justapoē o pagamento merecido à graça imerecida. O pecado funciona como um empregador tirânico que acerta contas na morte física, espiritual e eterna. A salvação, ao contrário não é um salário, mas uma dádiva, ou dom(Χάρισμα). O verso serve como um resumo conciso do Evangelho e ressalta a incapacidade humana de ganhar a vida.
Conclusão
Ao término desse imenso desafio que enfrentamos atualmente de preservar o genuíno espírito do evangelho de Jesus de fazer com que todos compartilhem da mesma opinião. A mesma opinião é aquela em que entendemos que fomos resgatados, note bem, resgatados do pecado por causa da mediação ocorrida no derramamento do sangue de Jesus. É para este evento que atribuímos o nome de Redenção. Houve uma espécie de compensação ou pagamento para que deixássemos de servir ao pecado. E, a partir de então pudéssemos servir a Deus. O que o texto que tem nos servido de elemento para a reflexão desta noite está dizendo é que a nossa redenção foi precificada apenas e tão somente de uma única maneira: Uma vida por outra vida. Mas, essa troca não foi uma troca simples. Pois, da maneira como nos expressamos transparece ser algo muito superficial. E para entendermos melhor tal situação necessitaríamos de um conhecimento muito mais aprofundado sobre como funcionava o direito romano quando o assunto dizia respeito à propriedade de escravos. Afinal de contas, tal como deixamos claro a título de informação, estamos falando de aproximadamente um terço de toda a população da Itália, da península itálica do primeiro século. As informações básicas eram de que quando alguém se encontra na condição de escravos essa pessoa, sequer é considerada uma pessoa. É desprovida de vontade própria e não possui qualquer direito sobre seu próprio corpo. Então, quando o apóstolo usa a metáfora da relação que existe entre escravo e seu senhor e aplica este entendimento a obra de Redenção operada por Deus por meio de Cristo Jesus. Assinalando que a condição para o resgate do escravo tinha como pagamento uma outra vida e Deus em Cristo aceita fazer tal pagamento. Somos então resgatados de um senhor para outro Senhor. Não fomos comprado pela metade. O preço foi integral custo vida de um justo. Nossa obediência também para com este Senhor(Deus) é também incondicional. Nessa relação com Deus não temos vontade própria. Não somos donos dos nossos corpos. Nesta mesma epistola, Paulo, no capítulo, versos 1 e 2 faz um apelo a todos no sentido de que apresentamos os nossos corpos em sacrifício vivo e agradável a Deus. Tudo que diz respeito a nós é propriedade divina, pois fomos comprados. Deus nos comprou e ao faze de nos sua propriedade, veio fazer morada em nos pela presença do seu Espírito Santo. Nossos corpos agora têm a obrigação de ser consagrados a ele como vasos de benção. Este mesmo Paulo em sua epístola de I Coríntios capítulo 6:18-20 nos dá conta da nova que agora temos em Cristo. Do alto preco desta compra e nos lembra dá obrigação de preservarmos nossos corpos por se constituirem como templos do Espírito Santo. Encerro esta reflexão lembrando devemos glorificar a Deus nos nosso corpos e nosso espirito, pois pertencemos integral e incondicionalmente a Deus. Amém e que Deus nos abençoe.
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