Leitura Exegético-Teológica de Mateus 25
Escatologia, responsabilidade e práxis no discurso final de Jesus
As duas parábolas que compõem o capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus funcionam como complemento direto da seção escatológica iniciada em 24,37 e que se estende até 25,30. Conforme observa Kümmel, trata-se de uma unidade temática articulada em torno da expectativa da vinda do Filho do Homem e das implicações éticas dessa espera para a vida comunitária dos discípulos (KÜMMEL, 1982, p. 125).
Embora o trecho de Mateus 24,37 não constitua o objeto imediato desta análise, ele fornece um pano de fundo hermenêutico relevante ao descrever a atitude das gerações humanas desde os dias de Noé. A expressão “casavam-se e davam-se em casamento” não deve ser compreendida meramente como referência à normalidade da vida social, mas como indicativo de uma existência conduzida sob o signo da banalização da responsabilidade diante de Deus, do próximo e de si mesmo. Tal postura conduz a uma percepção tardia da dimensão trágica da existência, na qual o indivíduo se vê subitamente confrontado por um destino irreversível. Essa percepção aproxima-se da noção grega de tragédia, em que nem mesmo as divindades são capazes de interferir no curso determinado do destino (Moĩra).
Ao ingressar no capítulo 25, o leitor se depara inicialmente com a parábola das dez virgens (Mt 25,1–13). Nessa narrativa, Jesus compara o Reino dos Céus a dez jovens que aguardam a chegada do noivo. Todas compartilham a mesma expectativa e partem ao encontro dele munidas de lâmpadas, o que evidencia uma iniciativa comum. A distinção fundamental, contudo, reside na qualificação de metade delas como insensatas (morai) e da outra metade como prudentes (phronimoi).
A ausência de azeite sobressalente por parte das virgens insensatas revela uma atitude marcada pela banalização daquilo que Paul Tillich denomina de “ultimacidade” — isto é, a dimensão última do sentido da existência (TILLICH, 1973). Trata-se de uma racionalidade instrumental que, sobretudo a partir do Iluminismo, tende a confinar o absoluto ao domínio estritamente religioso, dissociando-o das práticas concretas da vida. As virgens prudentes, por sua vez, não apenas compartilham da expectativa da chegada do noivo, mas também reconhecem a indeterminação do tempo da espera, o que as conduz a uma postura preventiva e responsável.
A diferença entre os dois grupos não está na expectativa em si, mas na forma como o tempo é compreendido. As prudentes percebem um “tempo além do tempo”, isto é, uma espera que exige preparação contínua. Já as insensatas limitam sua racionalidade àquilo que está imediatamente disponível, reduzindo a espera ao consumo do azeite já presente nas lâmpadas.
A exclusão das virgens insensatas da câmara nupcial e o não reconhecimento por parte do noivo apontam para o caráter decisivo da atitude adotada durante o tempo da espera. Não basta nutrir uma expectativa abstrata em relação à parousia. A esperança escatológica, no horizonte mateano, exige uma preparação concreta e historicamente situada. Nesse sentido, a saudação primitiva Maranatha (1Co 16,22) expressa uma escatologia antecipada: o futuro é vivido como realidade já presente, orientando a prática cotidiana dos fiéis.
A segunda parábola do capítulo, a dos talentos (Mt 25,14–30), desloca o foco para a relação entre senhor e servos. A questão central não é o desempenho quantitativo, uma vez que os talentos são distribuídos conforme a capacidade de cada servo, mas a postura adotada diante da responsabilidade confiada. Os dois primeiros servos reconhecem que, embora o senhor esteja ausente, continuam agindo sob sua autoridade, o que os leva a uma atuação diligente e proativa.
O terceiro servo, ao contrário, revela-se negligente. Apesar de conhecer o caráter de seu senhor, ele opta por enterrar o talento, movido pelo medo e pela recusa em assumir riscos. Sua falha não consiste na perda do talento, mas na ausência de iniciativa. A relação de poder entre senhor e servo, embora marcada pela assimetria, não elimina a responsabilidade ética do servo em agir dentro das possibilidades que lhe foram concedidas.
Ambas as parábolas se inserem no conjunto dos discursos escatológicos de Mateus, cuja estrutura literária revela uma composição didática elaborada pela tradição eclesial primitiva. Conforme destacam Schreiner e Dautzenberg, esses discursos não devem ser entendidos como registros literais, mas como construções teológicas que sintetizam os temas centrais da pregação de Jesus, organizados em unidades temáticas coerentes (SCHREINER; DAUTZENBERG, 1977, p. 275–276).
A seção final do capítulo (Mt 25,31–46) apresenta o juízo do Filho do Homem em moldes universais. A imagem do juiz assume a forma de um pastor que separa ovelhas e bodes, deslocando o critério do juízo do campo ritual ou confessional para o da práxis concreta. A herança do Reino, preparada desde a fundação do mundo, é concedida àqueles cuja vida foi marcada pela solidariedade diante da fome, da sede, da nudez, da doença e da prisão.
O elemento decisivo não é o reconhecimento explícito de Cristo, mas a prática da misericórdia. O amor ao próximo aparece como expressão concreta do amor a Deus, dissolvendo qualquer forma de meritocracia religiosa. Em contraste, os que se encontram à esquerda são condenados não por atos explícitos de maldade, mas pela omissão sistemática diante do sofrimento alheio.
A exclusão das virgens insensatas, a condenação do servo negligente e o juízo sobre os indiferentes convergem para uma mesma afirmação teológica: a escatologia mateana está enraizada na ordem da criação. O Reino de Deus não se configura como recompensa futura, mas como vocação originária, inscrita na própria bondade do ato criador. A fidelidade escatológica, portanto, manifesta-se na responsabilidade histórica, na prudência e na solidariedade, que antecipam no presente aquilo que se espera no futuro.
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