A proposta tradutória de Frederico Lourenço caracteriza-se, fundamentalmente, por uma orientação literária e filológica, ao menos no horizonte epistemológico assumido pelo tradutor. Tal abordagem não implica a desconsideração da tradição teológica associada ao texto bíblico; antes, esta é metodologicamente relativizada por meio da distinção entre o texto em suas línguas originais e as sucessivas camadas interpretativas produzidas ao longo da história da recepção. Nesse sentido, a obra de Lourenço insere-se em diálogo direto com a exegese crítica contemporânea, privilegiando uma perspectiva histórico-literária em detrimento de uma leitura normativo-dogmática. Trata-se, portanto, de um instrumento especialmente adequado ao estudo da Bíblia enquanto documento histórico e literário, ainda que não se apresente como uma tradução orientada à edificação devocional ou à consolidação de identidades confessionais específicas.
De modo geral, a produção de traduções bíblicas deve ser compreendida à luz de seus pressupostos hermenêuticos e de seus vínculos institucionais, sendo frequente a associação dessas versões a tradições confessionais determinadas. No âmbito da teologia acadêmica, a tradução bíblica ocupa posição estratégica, uma vez que constitui o principal meio de mediação entre o texto canônico e os diversos contextos linguísticos, culturais e históricos de recepção. Longe de configurar-se como um procedimento meramente técnico ou instrumental, o ato tradutório envolve escolhas exegéticas e hermenêuticas que possuem implicações teológicas significativas, condicionando, em larga medida, a compreensão e a apropriação do texto bíblico por parte de comunidades leitoras e do campo acadêmico.
Nesse contexto, a recorrente questão acerca da “melhor” tradução da Bíblia revela-se metodologicamente imprecisa se não for acompanhada de uma explicitação prévia dos objetivos do leitor ou do pesquisador. Interroga-se, por exemplo, se a demanda recai sobre uma tradução mais próxima da literalidade do texto-fonte, apta a servir como base para estudos comparativos e para a análise da história das traduções bíblicas em língua portuguesa, ou se o interesse reside em uma versão voltada à leitura devocional, catequética ou pastoral, que privilegie a clareza e a familiaridade linguística. Assim, a avaliação de uma tradução não pode ser dissociada de sua finalidade específica e de seu horizonte de uso.
Por fim, a indicação da tradução de Frederico Lourenço não deve ser compreendida como representativa do modo como a teologia católica, em sentido estrito, concebe a relação com o texto bíblico. Enquanto o protestantismo clássico afirma a Escritura como Palavra de Deus e norma única e suficiente de fé (sola Scriptura), a teologia católica articula a revelação divina a partir de uma estrutura tripartite, composta pela Escritura, pela Tradição e pelo Magistério. Nesse modelo, a interpretação autorizada do texto bíblico não se fundamenta exclusivamente no princípio escriturístico, mas se desenvolve no interior da tradição viva da Igreja, sob a mediação normativa do Magistério enquanto instância hermenêutica reguladora da doutrina.
Nenhum comentário:
Postar um comentário