A comparação direta de João 8:32 entre as duas versões revela alterações mínimas no nível lexical. Todavia, quando se aplicam métodos sincrônicos, torna-se possível analisar o papel funcional do versículo dentro de cada sistema tradutório específico. Já a abordagem diacrônica permite investigar tanto a evolução do texto-base grego quanto as transformações históricas da língua portuguesa subjacentes a essas traduções.
A Metodologia Histórico-Crítica constitui o arcabouço científico que organiza essa investigação, ao fornecer não apenas as ferramentas analíticas — com destaque para a Crítica Textual —, mas também o imperativo epistemológico de reconstruir, tanto quanto possível, o significado histórico original do texto. Esse significado atua como parâmetro objetivo para a avaliação do trabalho dos tradutores, seja o de João Ferreira de Almeida no século XVII, seja o da comissão responsável pela Almeida Revista e Corrigida.
É precisamente essa metodologia que transforma uma simples comparação vocabular em uma análise aprofundada da gênese, transmissão e recepção interpretativa do texto bíblico. Essas considerações introdutórias delineiam os procedimentos fundamentais para o desenvolvimento de uma hermenêutica metodologicamente comprometida com a compreensão histórica dos textos sagrados. Entretanto, ao estabelecer uma relação entre a primeira edição da tradução de Almeida, no século XVII, e a Almeida Revista e Corrigida, impõe-se uma questão decisiva: a diferença entre o leitor do português seiscentista e o leitor do português do século XXI. Tal diferença exige a consideração de elementos linguísticos orientados por pressupostos da linguística histórica, da semântica e da pragmática.
Que proposições científicas podem ser levantadas aqui?
A partir desse enquadramento, é plenamente possível formular proposições científicas, entre as quais destaco as seguintes:
1. Proposição linguístico-histórica
O significado pragmático de João 8:32 permanece relativamente estável no nível do texto-base grego, mas sofre reconfigurações semânticas na recepção do leitor em função das mudanças históricas da língua portuguesa.
Essa proposição permite investigar como termos como verdade e libertar mantêm continuidade lexical, mas adquirem novos campos semânticos ao longo dos séculos.
2. Proposição tradutória
As diferenças entre a tradução de Almeida do século XVII e a ARC não decorrem primariamente de variantes textuais gregas, mas de decisões tradutórias condicionadas por mudanças linguísticas, culturais e eclesiais.
Aqui, o foco desloca-se da Crítica Textual para a história da tradução, evidenciando que a estabilidade textual não implica estabilidade interpretativa.
3. Proposição hermenêutica
Toda tradução bíblica pressupõe um leitor implícito, historicamente situado, o que torna a hermenêutica inseparável da análise do horizonte linguístico e cultural do público-alvo.
Essa proposição conecta diretamente hermenêutica bíblica com teoria da recepção (Wirkungsgeschichte).
4. Proposição metodológica
A Metodologia Histórico-Crítica fornece critérios objetivos para avaliar traduções bíblicas, mas não elimina a necessidade de mediações linguísticas e culturais na atualização do texto para novos contextos de leitura.
Aqui você demonstra consciência crítica: o método é necessário, mas não absoluto.
5. Proposição epistemológica
A comparação entre traduções de épocas distintas revela que a objetividade hermenêutica não reside na literalidade formal, mas na fidelidade ao sentido histórico mediado por linguagens historicamente mutáveis.
Essa é uma proposição forte, com impacto direto no debate sobre “tradução fiel”.
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