O antes e o depois em Aristóteles.

A Definição Aristotélica de Tempo no Livro IV da Física: Movimento, Número e a Estrutura do “Antes e Depois”

1. Introdução

A definição aristotélica de tempo, apresentada sobretudo no Livro IV da Física, constitui um dos momentos mais decisivos da reflexão antiga sobre a temporalidade. Distanciando-se de concepções que tratariam o tempo como uma entidade autônoma ou substância independente, Aristóteles o compreende em estreita correlação com o movimento (kínēsis) e com a atividade cognitiva da alma. Sua definição clássica — o tempo é “o número do movimento segundo o antes e o depois” (arithmòs kinēseōs katà tò próteron kaì hýsteron) — exige uma análise articulada de três elementos fundamentais: (1) o “antes e depois” enquanto estrutura do movimento; (2) o papel da alma como princípio numerador; e (3) a noção de número como medida do intervalo entre instantes.

O presente texto tem por objetivo explicitar esses três eixos, evidenciando a coerência interna da concepção aristotélica.

2. O “Antes e Depois” como Estrutura do Movimento

Para Aristóteles, o “antes” (próteron) e o “depois” (hýsteron) não pertencem originariamente ao tempo, mas ao movimento e, por derivação, à grandeza espacial (megethos). O movimento é contínuo, assim como a magnitude na qual ele se realiza. Quando um corpo se desloca de um ponto A para um ponto B, essa trajetória é passível de ser dividida em posições sucessivas que instauram uma ordem: um ponto anterior e um ponto posterior.

Essa sucessividade é qualitativa e estrutural. O “antes e depois” expressa a ordenação interna do movimento enquanto continuidade divisível. Assim, o tempo não introduz a ordem no movimento; antes, ele pressupõe que o movimento já possua essa ordenação potencial.

Aristóteles afirma que o tempo acompanha o movimento porque ambos compartilham a mesma estrutura de continuidade. Contudo, o movimento, considerado isoladamente, não é ainda tempo. Ele é apenas a condição ontológica que torna possível a temporalidade.

3. A Alma como Princípio Numerador

Se o “antes e depois” pertence primariamente ao movimento, o tempo surge apenas quando essa sucessão é apreendida e numerada pela alma (psyché) ou pelo intelecto (nous). O movimento, em si mesmo, é contínuo e indeterminado quanto à quantidade temporal. Ele só se torna tempo quando é contado.

O termo “número” (arithmós) não deve ser entendido aqui como número abstrato ou cardinal, mas como número enquanto resultado de uma operação de contagem. O tempo é aquilo que é numerado no movimento. A alma distingue um “antes” e um “depois” e estabelece entre eles uma relação mensurável.

Aristóteles chega a sugerir que, sem uma alma que conte, não haveria tempo propriamente dito, mas apenas movimento. Isso não significa que o tempo seja puramente subjetivo, mas que sua atualidade enquanto tempo depende de um princípio cognoscente capaz de discriminar e numerar a sucessão.

4. O “Agora” e a Estrutura do Intervalo

Elemento central dessa análise é o conceito de “agora” (nŷn). O “agora” não constitui uma parte do tempo, assim como o ponto não é parte da linha, mas seu limite. Ele funciona simultaneamente como limite do passado e início do futuro.

A relação numérica que constitui o tempo estabelece-se entre dois “agoras”. Quando percebemos que o “agora” presente difere do “agora” anterior e determinamos o intervalo entre ambos, introduzimos a mensuração. O tempo é precisamente esse intervalo numerado.

Portanto, o tempo não é o movimento em si, mas a dimensão quantitativa do movimento enquanto sucessão mensurável. A passagem do “antes e depois” qualitativo à determinação quantitativa caracteriza a transição do movimento ao tempo.

5. Síntese Conceitual

Pode-se sintetizar a posição aristotélica nos seguintes termos:

O movimento possui uma estrutura intrínseca de “antes e depois”.

Essa estrutura é contínua e pertence primariamente à grandeza e ao deslocamento.

O tempo surge quando a alma distingue e conta essa sucessão.

O tempo é, portanto, o número do movimento segundo o antes e o depois.

O “agora” funciona como limite que conecta e separa passado e futuro.

A temporalidade consiste na mensuração do intervalo entre instantes.

Em termos didáticos: o movimento apresenta fases ordenadas; o tempo é a contagem dessas fases. Sem um agente numerador, há apenas movimento contínuo. Quando a alma estabelece uma relação numérica — por exemplo, ao afirmar que determinado movimento durou três unidades — o “antes e depois” deixa de ser apenas ordem qualitativa e converte-se em quantidade mensurável. É essa quantidade que Aristóteles denomina tempo.

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