Considerações Epistemológicas e Metodológicas sobre o Estudo do Fenômeno Religioso
1. Delimitação do problema epistemológico
O presente trabalho parte do reconhecimento de que o método científico moderno — fundamentado na observação empírica, na formulação de hipóteses, na experimentação controlada e na verificação intersubjetiva — constitui um instrumento epistemológico altamente eficaz para a investigação de fenômenos naturais caracterizados por regularidade, mensurabilidade e repetição. Todavia, sua aplicação irrestrita ao campo da espiritualidade e do fenômeno religioso revela limites estruturais, uma vez que tais fenômenos envolvem dimensões simbólicas, narrativas, existenciais e referenciais ao transcendente, que escapam à quantificação e à verificação experimental estrita.
Assim, este estudo adota uma postura epistemológica pluralista, segundo a qual diferentes objetos de conhecimento exigem métodos adequados à sua natureza específica. O fenômeno religioso é compreendido aqui como uma realidade complexa, multidimensional e irredutível a explicações exclusivamente naturalistas ou empiricistas.
2. Justificativa da abordagem metodológica plural
A opção metodológica deste trabalho fundamenta-se na distinção entre explicação causal e compreensão de sentido (Erklären e Verstehen), conforme estabelecida na tradição das ciências humanas. Enquanto o método científico-natural privilegia relações causais e regularidades observáveis, o estudo da religião exige instrumentos capazes de lidar com significados, experiências subjetivas, tradições interpretativas e sistemas simbólicos.
Nesse sentido, o rigor acadêmico não é abandonado, mas redefinido de acordo com critérios próprios das humanidades, tais como coerência interna, consistência conceitual, fidelidade às fontes, clareza hermenêutica e plausibilidade interpretativa.
3. Fenomenologia da religião como método descritivo-compreensivo
A fenomenologia da religião constitui um dos pilares metodológicos deste trabalho. Essa abordagem não se propõe a demonstrar a veracidade ontológica das crenças religiosas, mas a descrever e compreender o modo como o sagrado se manifesta na experiência humana.
O método fenomenológico opera mediante a epoché, isto é, a suspensão do juízo quanto à existência objetiva do divino, permitindo a análise das estruturas essenciais do fenômeno religioso. Categorias como sagrado e profano, hierofania, rito, mito e símbolo são empregadas como instrumentos analíticos fundamentais.
Autores como Rudolf Otto, ao introduzir o conceito de numinoso (mysterium tremendum et fascinans), Gerardus van der Leeuw e Mircea Eliade fornecem o arcabouço teórico que orienta esta perspectiva, deslocando o foco da investigação da questão ontológica (“Deus existe?”) para a questão fenomenológica (“como o sagrado é experienciado e estruturado?”).
4. Hermenêutica filosófica e teológica
A hermenêutica constitui outro eixo metodológico central deste estudo. Parte-se do pressuposto de que o fenômeno religioso é mediado por textos, narrativas, símbolos e práticas que exigem interpretação. Inspirado na hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur, este trabalho reconhece que toda compreensão ocorre dentro de um horizonte histórico e existencial específico.
O chamado “círculo hermenêutico” indica que o intérprete jamais se aproxima do texto ou da tradição de forma neutra, mas dialoga continuamente entre pré-compreensão e compreensão renovada. Assim, conceitos centrais da fé, como criação, salvação ou ressurreição, são analisados não em termos de comprovação empírica, mas de sentido narrativo, função simbólica e impacto existencial.
5. Filosofia da religião e análise racional dos conceitos
A filosofia da religião é empregada como instrumento crítico para a análise racional dos conceitos e argumentos religiosos. Essa abordagem permite examinar a coerência lógica de doutrinas, a validade de argumentos clássicos sobre a existência de Deus e problemas filosóficos como o mal, a liberdade e os atributos divinos.
A contribuição de autores contemporâneos, como Alvin Plantinga, Richard Swinburne e John Hick, é particularmente relevante, pois demonstra que a reflexão filosófica sobre a religião pode ser conduzida com rigor analítico, sem reduzir o fenômeno religioso a categorias exclusivamente empíricas.
6. Epistemologia das crenças básicas e racionalidade da fé
Este trabalho também dialoga com a epistemologia reformada, especialmente com a proposta de Alvin Plantinga, segundo a qual a crença em Deus pode ser considerada uma crença básica apropriadamente fundamental. Essa perspectiva desafia o evidencialismo clássico, que exige evidência proposicional explícita para toda crença racionalmente justificada.
Segundo Plantinga, o sensus divinitatis opera como uma faculdade cognitiva que, em condições adequadas, produz crença em Deus de forma imediata e não inferencial. Tal abordagem permite compreender a racionalidade da fé sem subordiná-la aos critérios estritos das ciências naturais.
7. Abordagem pragmática e existencial
Inspirado no pragmatismo de William James, este estudo considera também os efeitos existenciais da experiência religiosa como um dado metodologicamente relevante. A validade de uma crença religiosa é analisada, em parte, à luz de seus frutos concretos na vida individual e comunitária.
Conversões, experiências místicas e práticas espirituais são avaliadas quanto à sua capacidade de gerar transformação ética, reorganização de sentido e aprofundamento existencial, independentemente da possibilidade de comprovação causal de sua origem transcendente.
8. Abordagem transdisciplinar e integral
Por fim, o trabalho reconhece a pertinência de abordagens transdisciplinares, como a teoria integral de Ken Wilber, que propõe a articulação entre ciência, fenomenologia, hermenêutica e espiritualidade. O fenômeno religioso é compreendido como uma realidade multidimensional, que pode ser analisada simultaneamente em níveis neurofisiológicos, psicológicos, simbólicos e soteriológicos.
Nenhuma dessas perspectivas, isoladamente, é considerada suficiente para esgotar a complexidade do fenômeno religioso.
9. Considerações finais sobre os limites do método
Reconhece-se, por fim, que a investigação acadêmica da espiritualidade opera no campo do sentido, do significado e da experiência profunda, lidando inevitavelmente com o mistério. O objetivo metodológico não é produzir provas conclusivas no sentido matemático ou experimental, mas demonstrar que a visão religiosa é racionalmente defensável, internamente coerente e existencialmente significativa.
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ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
GADAMER, Hans-Georg. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 1997.
JAMES, William. As variedades da experiência religiosa. São Paulo: Cultrix, 1995.
OTTO, Rudolf. O sagrado. Petrópolis: Vozes, 2007.
PLANTINGA, Alvin. Warranted Christian belief. Oxford: Oxford University Press, 2000.
RICOEUR, Paul. A simbólica do mal. Lisboa: Edições 70, 1988.
WILBER, Ken. Uma teoria de tudo. São Paulo: Cultrix, 2001.
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