A Refiguração Narrativa na Leitura Pública de Papiros Unciais: Uma Análise à Luz da Mimese III.
Resumo
O presente artigo propõe uma análise da operação hermenêutica da Mimese III (Refiguração), conforme elaborada por Paul Ricœur, aplicada ao contexto histórico específico da leitura pública de papiros unciais durante a Antiguidade Tardia e o início da Idade Média. Busca-se demonstrar como o encontro entre o mundo do texto e o mundo do ouvinte se configurava como um ato eminentemente performático, comunitário e sensorial, distanciando-se substancialmente das práticas leitoras modernas de caráter individual e silencioso.
1. Introdução: O Problema e o Cenário Histórico
O conceito filosófico de Mimese III, desenvolvido por Ricœur em Tempo e Narrativa, designa o momento culminante do processo narrativo, no qual a configuração textual (Mimese II) articula-se à pré-compreensão do destinatário (Mimese I), resultando em uma transformação da experiência temporal e prática do sujeito. O presente estudo aplica esse arcabouço teórico à prática da leitura pública de papiros unciais — códices ou rolos confeccionados em papiro e escritos em letras maiúsculas, arredondadas e separadas, predominantes entre os séculos IV e VIII d.C. —, comum em contextos litúrgicos, monásticos e acadêmicos da época.
2. O Leitor como Agente da Refiguração
Na Mimese II, o autor — ou o copista, enquanto configurador secundário — organiza o texto na página. A escrita uncial, pela sua clareza monumental, constitui-se já como um ato de configuração voltado para a oralidade. Contudo, é na Mimese III que o texto adquire efetividade existencial.
O leitor público não se restringe à função de decodificador; assume-se como primeiro intérprete e agente central da refiguração. Por meio de sua performance vocal — entonação, pausas, ritmo —, corporifica a "síntese do heterogêneo" ricoeuriana, transformando as marcas gráficas em evento sonoro e temporal. Em contextos litúrgicos, particularmente, o leitor configura-se como figura de autoridade, mediador sagrado através do qual o "mundo do texto" (o universo das Escrituras) irrompe no mundo presente da comunidade.
3. O Público e a Dimensão Comunitária da Refiguração
A Mimese III na leitura pública de unciais distingue-se da leitura silenciosa moderna por seu caráter eminentemente coletivo. Os ouvintes, imersos na mesma performance, experimentam sincronicamente o tempo configurado pela narrativa. Ocorre, assim, uma articulação triádica: o tempo da história (o tempo do texto), o tempo litúrgico (o momento do ano, a festa religiosa) e o tempo da comunidade (sua história, suas provações e esperanças). Esta configuração representa a refiguração do tempo em seu estado mais acabado, conforme postulado por Ricœur.
A audição coletiva institui um "nós" hermenêutico. As reações afetivas do grupo — emoções, suspiros, comoção — manifestam materialmente a operação refigurativa. O sentido não emerge da interpretação solitária, mas da construção coletiva operada pelo corpo social.
4. A Materialidade e o Contexto como Catalisadores
A materialidade do suporte e o espaço físico da leitura não constituem elementos neutros; participam ativamente do processo de refiguração.
O papiro uncial, enquanto objeto precioso, de dimensões consideráveis, confeccionado em material importado e com caligrafia meticulosa, exala uma aura de autoridade, sacralidade e permanência. O ouvinte não apenas percebe a narrativa auditivamente; visualiza o artefato que a contém, cuja mera existência atesta a importância e a veracidade do conteúdo. Essa percepção sensorial molda decisivamente a maneira pela qual a mensagem é refigurada na experiência do sujeito.
Ademais, o espaço físico e sonoro — basílica com acústica particular, refeitório monástico, sala de aula —, as condições de iluminação e a reverberação da voz do leitor criam uma atmosfera estética e espacial específica. Este ambiente constitui o "mundo do ouvinte" que se fundirá ao "mundo do texto", tornando a refiguração também uma experiência estética situada.
5. A Dimensão Litúrgica e a Refiguração da Existência
No âmbito cristão, a leitura de um Evangelho em uncial durante a celebração eucarística não se restringia à transmissão de informação; configurava-se como ato performático de atualização da Palavra. A narrativa da Paixão, proclamada na Semana Santa, não remetia apenas a um acontecimento passado, mas refigurava a experiência presente dos fiéis, convocando-os à identificação com a narrativa e à projeção de seu significado sobre suas existências e sobre a esperança escatológica.
6. Considerações Finais
A Mimese III na leitura pública de papiros unciais configura-se como culminância de um processo complexo, no qual: (a) o texto, com sua intriga configurada e sua materialidade específica; (b) a comunidade, com sua pré-compreensão de mundo, fé e estrutura social; (c) a performance do leitor, que corporifica o texto; e (d) o ambiente físico e litúrgico, que determina o ritmo e a atmosfera da recepção, articulam-se dialeticamente.
O resultado dessa articulação é a refiguração da experiência coletiva: a comunidade não apenas compreende a história, mas é, em certo sentido, incorporada por ela, vendo seu sentido de tempo, identidade e mundo transformado pelo ato de audição. A narrativa deixa de ser objeto para tornar-se evento fundador da realidade do grupo.
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Referências
RICŒUR, Paul. Tempo e Narrativa. Tradução de Constança Marcondes Cesar. Campinas: Papirus, 1994. 3 v.
CAVARERO, Adriana. Por uma ontologia vocal da singularidade. Tradução de Paulo Neves. Revista Estudos Semióticos, São Paulo, v. 6, n. 3, 2010.
STOCK, Brian. The Implications of Literacy: Written Language and Models of Interpretation in the Eleventh and Twelfth Centuries. Princeton: Princeton University Press, 1983.
SAENGER, Paul. Space Between Words: The Origins of Silent Reading. Stanford: Stanford University Press, 1997.
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