A proposição segundo a qual “o ser é movimento autodinamizado pelas contradições que contém” pode ser tomada como uma formulação sintética do núcleo da dialética moderna e, nesse sentido, constitui um ponto de convergência fundamental entre Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Marx. Tal formulação expressa a compreensão de que a realidade não consiste em um conjunto de substâncias estáticas, mas em um processo dinâmico de vir-a-ser, cujo princípio motor reside nas contradições internas que a constituem. A dialética, assim entendida, não descreve um movimento imposto externamente aos entes, mas um dinamismo imanente que emerge da própria estrutura do real.
No sistema hegeliano, a dialética apresenta-se como lógica do desenvolvimento da Ideia. O ponto de partida da Ciência da Lógica é o conceito de Ser puro, cuja indeterminação absoluta conduz imediatamente à sua identidade com o Nada. Dessa tensão entre Ser e Nada emerge o Devir, primeira determinação concreta do pensamento. O movimento dialético caracteriza-se, portanto, como um processo de autossuperação conceitual, no qual cada determinação contém em si a negatividade que a impulsiona para além de si mesma. Trata-se de um movimento autodinamizado porque a contradição não é extrínseca ao conceito, mas constitui sua própria estrutura interna. Em última instância, esse processo culmina na autoconsciência do Espírito, de modo que a história é interpretada como o itinerário de autorrealização da Ideia.
Em Marx, por sua vez, a estrutura dialética é preservada, porém submetida a uma inflexão decisiva. A lógica da contradição deixa de operar primariamente no plano da Ideia para ser situada nas condições materiais de existência. A contradição fundamental não se encontra entre categorias lógicas, mas nas relações sociais historicamente determinadas. No modo de produção capitalista, por exemplo, evidencia-se a tensão entre forças produtivas e relações de produção, bem como entre o caráter social do trabalho e a apropriação privada dos meios de produção. Essas contradições não são meramente conceituais; manifestam-se em crises econômicas, conflitos de classe e transformações históricas concretas. A dialética, assim, converte-se em instrumento crítico para a análise das formações sociais.
A relação entre Hegel e Marx pode, portanto, ser descrita como herança e ruptura. Marx reconhece na dialética hegeliana o método capaz de apreender a realidade como processo contraditório; contudo, rejeita seu fundamento idealista, propondo uma “inversão” que situa o movimento na base material da vida social. Se, em Hegel, o sujeito do processo é a Ideia que se objetiva na história, em Marx o sujeito histórico é a práxis humana inserida em determinadas relações de produção. O “cordão umbilical” que os une reside na matriz dialética comum; a separação ocorre no plano ontológico que fundamenta essa dialética.
Conclui-se, assim, que a formulação proposta é adequada para caracterizar o elemento estrutural compartilhado por ambos os pensadores: a compreensão do ser como processo movido por contradições internas. Todavia, a distinção entre idealismo e materialismo permanece decisiva para a correta interpretação de seus respectivos sistemas filosóficos.
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