A Hermenêutica do "Novo Israel": Entre a Solução Identitária e a Deslegitimação do Judaísmo
Resumo
O presente artigo investiga a tensão teológica inerente à autocompreensão cristã como "novo Israel", analisando como essa formulação hermenêutica, embora constitutiva da identidade eclesial, funcionou historicamente como mecanismo de deslegitimação do judaísmo rabínico. A pesquisa examina a gênese dessa categoria teológica, seu funcionamento interno como solução identitária, seus efeitos externos na configuração do antijudaísmo cristão e as perspectivas contemporâneas de releitura não-supercessionista. Conclui-se que a superação do abismo judeu-cristão exige uma reconfiguração hermenêutica que reconheça a validade permanente da aliança com Israel sem comprometer a especificidade cristã.
Palavras-chave: Supercessionismo; Nova Israel; Hermenêutica bíblica; Relações judeu-cristãs; Teologia das alianças.
1. Introdução
A questão da legitimação hermenêutica constitui um dos problemas teologicamente mais densos na história das relações entre judaísmo e cristianismo. A identificação do mecanismo de deslegitimação operado pela autocompreensão cristã como "novo Israel" revela uma paradoxo estrutural: a solução hermenêutica que o cristianismo desenvolveu para resolver seu problema de identidade tornou-se, simultaneamente, o instrumento de perpetuação do abismo teológico entre as duas tradições.
A hipótese central deste trabalho sustenta que a afirmação eclesial de ser o "novo Israel", embora historicamente necessária para a constituição da identidade cristã, assumiu configuração supercessionista que funcionou como mecanismo sistemático de deslegitimação da interpretação judaica das Escrituras. Tal deslegitimação, operada não em nível meramente exegético, mas ontológico-teológico, criou as condições estruturais para séculos de antijudaísmo cristão.
O presente estudo desenvolve-se em quatro momentos analíticos: (1) a gênese histórica da ideia de "novo Israel"; (2) seu funcionamento como solução hermenêutica interna ao cristianismo; (3) seus efeitos como instrumento de deslegitimação externa; e (4) as possibilidades de releitura teológica não-supercessionista.
2. A Gênese da Ideia: Solução para um Problema de Identidade
A construção da identidade eclesial como "novo Israel" não constituiu fenômeno espontâneo, mas resposta a uma crise existencial e teológica determinada. A problemática fundamental pode ser assim delineada:
2.1. O problema identitário
A recusa majoritária do povo judeu em reconhecer Jesus como Messias apresentou-se como aporia teológica para a comunidade primitiva: como compreender que o povo da aliança rejeitasse o cumprimento das promessas messiânicas? Se Israel "segundo a carne" não reconhecia seu Messias, quem configuraria o verdadeiro povo de Deus?
2.2. As sementes neotestamentárias
O corpus paulino, particularmente em Romanos 9-11, testemunha a luta hermenêutica com essa questão. A metáfora da oliveira (Rm 11,17-24) opera com categoria de incorporação — não substituição total —, indicando reconfiguração do povo de Deus mediante o enxerto dos gentios. Contudo, a imagem já contém germe da posterior descontinuidade teológica.
2.3. A formulação patrística
A cristalização do conceito operou-se no processo de distanciamento entre as comunidades. Justino Mártir, em seu Diálogo com Trifão (séc. II), explicita a identificação dos cristãos como "verdadeiro Israel espiritual" (Dial. 11,5; 123,1). A Carta de Barnabé radicaliza essa perspectiva, operando deslegitimação explícita de Israel histórico (Barn. 4,6-8; 13,1-6).
A categoria "Igreja como novo Israel" funcionou, portanto, como necessidade hermenêutica para a autocompreensão cristã, conferindo à comunidade eclesial fundamento identitário e continuidade histórico-salvífica.
3. O Funcionamento da Solução: Hermenêutica do Cumprimento
A operacionalização dessa categoria teológica desenvolve-se mediante movimento duplo de apropriação e reinterpretação:
3.1. Apropriação dos títulos e promessas
Os designamentos e promessas veterotestamentárias — povo eleito, nação santa, reino de sacerdotes, herança da terra — são reaplicados à Igreja. Esta lê o Antigo Testamento como destinatária legítima das promessas, estabelecendo-se como herdeira exclusiva das tradições abraâmicas.
3.2. Reinterpretação cristológica
A chave hermenêutica reside na figura de Cristo como pleroma das promessas. Aqueles que estão "em Cristo" constituem o povo legítimo; Israel histórico, por não reconhecer o cumprimento, teria perdido sua posição privilegiada.
3.3. Construção da continuidade espiritual
A Igreja não se compreende como novidade religiosa, mas como continuidade legítima da aliança única. A descontinuidade é apenas aparente; a verdadeira continuidade opera em nível espiritual e tipológico.
Do ponto de vista interno ao sistema teológico cristão, tal solução apresenta-se como elegante e economicamente poderosa, resolvendo o problema identitário e conferindo à Igreja história sagrada e dignidade teológica.
4. O Efeito Colateral: Deslegitimação da Interpretação Judaica
A categoria de "deslegitimação" designa precisamente o problema estrutural: não se trata da afirmação interna eclesial em si, mas de seu corolário externo necessário. Se a Igreja é o novo Israel, qual o status teológico do Israel histórico?
4.1. A categoria do "antigo" e "ultrapassado"
O judaísmo rabínico, mantenedor da Torá e da prática da aliança, foi relegado a categoria teológica inferior. Sua interpretação bíblica foi deslegitimada não por erro exegético corrigível, mas por princípio ontológico. A hermenêutica paulina do "véu" (2 Cor 3,14-16) e da "letra que mata" (2 Cor 3,6) funcionou como desautorização sistemática da leitura judaica.
4.2. A Sinagoga como relíquia teológica
A persistência do povo judeu configurou-se como scandalon teológico. Agostinho de Hipona ofereceu solução que se tornou hegemônica: os judeus são preservados como testes (testemunhas involuntárias), portadores dos livros que anunciam Cristo, mas cegos a seu conteúdo, servindo para comprovar a antiguidade da fé cristã (De Civitate Dei, XVIII, 46).
4.3. Consequências históricas
Essa deslegitimação teológica criou terreno fértil para séculos de antijudaísmo cristão institucionalizado, perseguições, pogroms e, no limite, para as condições estruturais do Holocausto. Quando uma interpretação teológica deslegitima a existência viva de um povo, as consequências podem tornar-se devastadoras (cf. RAISER, 2000; PAWLIKOWSKI, 1982).
5. Perspectivas de Superação: Além do Supercessionismo
A questão fundamental que se impõe é se o cristianismo pode manter sua identidade sem recorrer à deslegitimação do judaísmo. A resposta exige revisão profunda da hermenêutica supercessionista.
5.1. A Teologia das Duas Alianças
Desenvolvida por Franz Rosenzweig e retomada por Karl Barth, essa linha propõe duas alianças válidas e paralelas: a aliança da Torá com Israel e a aliança em Cristo com a Igreja. Ambas constituem caminhos legítimos de salvação, respeitando a integridade do judaísmo. Críticos argumentam, contudo, que tal visão pode minimizar a universalidade cristã (cf. KASPER, 2011).
5.2. A distinção paulina dos "dois Israéis"
Em vez da substituição, alguns teólogos propõem a incorporação. Romanos 11 mantém a metáfora da oliveira: os gentios são ramos enxertados, mas os ramos naturais não foram definitivamente arrancados. A unidade do povo de Deus permanece como mistério escatológico, sem deslegitimação do judaísmo presente (cf. MÜLLER, 2009).
5.3. Releitura do "novo" como categoria escatológica
O termo hadash (novo) em Jeremias 31,31-34 não implica substituição, mas renovação e plenificação. A Igreja não constitui povo diferente, mas expansão da aliança abraâmica às nações. Israel permanece Israel, e a Igreja é chamada a reconhecer suas raízes e viver em diálogo respeitoso com o "irmão mais velho" (JOÃO PAULO II, 1980).
6. Considerações Finais
A autocompreensão cristã como "novo Israel" revela a tragédia estrutural no cerne da identidade eclesial. A solução hermenêutica desenvolvida para o problema identitário da Igreja primitiva transformou-se, historicamente, em instrumento de deslegitimação do judaísmo e aprofundamento do abismo inter-religioso.
A esperança teológica reside na possibilidade de releitura não-supercessionista. Reconhecer a Igreja como "novo Israel" não necessita implicar a deslegitimação de Israel histórico. Pode significar, antes, que o mistério de Deus excede as categorias excludentes humanas, e que, no horizonte escatológico, "todo o Israel será salvo" (Rm 11,26), numa adoração comum ao Deus que "nunca revogou seus dons e sua vocação" (Rm 11,29).
Referências
BARTH, Karl. Die Kirchliche Dogmatik. Zürich: Evangelischer Verlag, 1952-1967.
JOÃO PAULO II. Discurso à Comunidade Judaica de Mainz. Mainz, 17 nov. 1980.
KASPER, Walter. O Deus de Israel e os Gentios. Petrópolis: Vozes, 2011.
MÜLLER, Gerhard Ludwig. Unterwegs zur Einheit: zur Theologie des ökumenischen Dialogs. Freiburg: Herder, 2009.
PAWLIKOWSKI, John T. Catechetics and Prejudice: How Catholic Teaching Materials View Jews, Protestants and Racial Minorities. New York: Paulist Press, 1982.
RAISER, Konrad. Ecumenism in Transition: A Paradigm Shift in the Ecumenical Movement?. Geneva: WCC Publications, 2000.
ROSENZWEIG, Franz. Der Stern der Erlösung. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1988 [1921].
Nenhum comentário:
Postar um comentário