A Reverberação do Recitativo como Locus Teológico da Simultaneidade Comunitária: Uma Análise da Anamnese Performática
Resumo
O presente artigo investiga as condições de possibilidade para o encontro simultâneo entre comunidades históricas distintas — especificamente, a comunidade geradora de textos fundadores e a comunidade atual de recepção. Argumenta-se que tal simultaneidade não se opera no plano da leitura privada ou da mera rememoração intelectual, mas na e pela reverberação do recitativo litúrgico. Através de uma análise fenomenológica e hermenêutica do ato performativo da recitação, demonstra-se que o texto sacro funciona como script ou partitura que, quando atualizado na proclamação comunitária, gera um espaço litúrgico-temporal onde passado e presente coalescem em unidade dialética.
Palavras-chave: Anamnese; Recitação performativa; Hermenêutica bíblica; Liturgia; Memória fundadora.
1. Introdução: O Problema da Simultaneidade
A questão que fundamenta esta investigação concerne as modalidades pelas quais uma comunidade de fé contemporânea pode estabelecer continuidade ontológica e existencial com a comunidade originária de seus textos fundadores. Trata-se de um problema clássico de hermenêutica teológica: como transcender a distância histórica sem incorrer em anacronismo, e como afirmar a contemporaneidade do evento fundador sem negar sua especificidade histórica?
A hipótese central deste trabalho é que a simultaneidade comunitária se realiza na e pela reverberação do recitativo — entendido aqui como o ato performativo de proclamação do texto sacro em contexto litúrgico. Este conceito será desenvolvido em três dimensões analíticas: a temporal (quando), a formal (como) e a ontológica (porquê).
2. A Dimensão Temporal: O Ato da Recitação como Anamnese
A simultaneidade comunitária não se configura na esfera da leitura privada, individualística, ainda que esta possa constituir-se como echo secundário do fenômeno primário. Sua manifestação paradigmática ocorre no ato público e comunitário de proclamação da palavra.
Dois exemplos do corpus bíblico ilustram esta dinâmica:
Primeiramente, a instituição da Páscoa em Êxodo 12,26-27: "E quando vossos filhos vos perguntarem: Que quereis dizer com este rito? Respondereis: Este é o sacrifício da Páscoa do Senhor..."[^1]. A estrutura dialogica do texto prescreve uma transmissão intergeracional na qual o ato de recitar a narrativa do Êxodo transforma o evento histórico em realidade presente. O sujeito que recita e o que ouve ocupam, simultaneamente, as posições históricas do Egito e da Terra Prometida.
Em segundo lugar, a "confissão do primogênito" em Deuteronômio 26,5-10: "Meu pai era um arameu errante... e desceu ao Egito... Então os egípcios nos maltrataram..."[^2]. A alternância pronominal — do singular ("meu pai") para o plural ("nos maltrataram") — evidencia a identificação performativa da comunidade presente com a comunidade passada. A recitação não é mera rememoração, mas re-enactment existencial.
Portanto, o quando da simultaneidade corresponde ao instante da anamnese (do grego anamnesis, "memorial ativo" ou "não-esquecimento"). Conforme a tradição patrística, especialmente na liturgia eucarística, a anamnese não designa simples recordação psicológica, mas "tornar-presente" (Vergegenwärtigung) o evento passado através de sua actualização performativa[^3].
3. A Dimensão Formal: A Reverberação como Estrutura de Ressonância
A metáfora acústica da reverberação provê um modelo heurístico adequado para compreender a mediação entre as duas comunidades. Ao contrário da linha reta que conecta dois pontos distintos no tempo, o recitativo opera como diapasão que, ao ser tocado, põe em vibração simultânea ambas as comunidades.
Esta reverberação pode ser analisada em três componentes estruturais:
3.1. A voz do passado na estrutura do recitativo
A comunidade geradora do texto permanece presente na forma literária por ela legada. A estrutura narrativa, a cadência poética, a força retórica — todos estes elementos constituem a "voz" histórica moldada pela fé e pela experiência originárias. Quando a comunidade contemporânea recita o Salmo 137 ("Junto aos rios da Babilônia, nós nos assentamos e choramos...")[^4], a afetividade do exílio do século VI a.C. torna-se imediatamente presente na enunciação.
3.2. A voz do presente na entonação do recitativo
A comunidade de recepção não é tabula rasa. Ela traz consigo suas próprias determinações históricas, suas dores e alegrias contextuais. A "entonação" conferida ao texto — sua modulação afetiva e existencial — marca a presença do presente. A comunidade não repete palavras mortas, mas investe o texto com "a carne da sua própria vida"[^5].
3.3. A simultaneidade na onda sonora
A reverberação constitui uma onda que contém ambas as frequências. No ato performativo, a voz do passado (letra, estrutura, história) e a voz do presente (entonação, emoção, aplicação) fundem-se numa unidade sinfônica. Não se trata de mera sobreposição, mas de síntese dialética: a voz que chora é, simultaneamente, a do salmista histórico e a do crente contemporâneo.
4. A Dimensão Ontológica: O Texto como Script
A natureza do texto bíblico enquanto "regra de fé e prática" (regula fidei et praxis) pode ser elucidada pela analogia com artefatos performativos:
4.1. O texto como roteiro teatral
Um roteiro (por exemplo, uma peça de Shakespeare) não é a própria peça. Esta só existe na representação atualizada por atores diante de uma audiência. As palavras permanecem as mesmas através dos séculos, mas cada encenação confere-lhe nova vida, nova entonação, novo significado — sem que deixe de ser a mesma obra[^6].
4.2. O texto como partitura musical
Analogamente, uma partitura (como a Missa em Si Menor de Bach) não é a música. Esta só se actualiza na execução orquestral e coral. A partitura contém as instruções do compositor, mas cada performance é uma recriação singular[^7].
O texto bíblico funciona como este script ou partitura. A comunidade do passado compôs a "peça" (a narrativa do encontro com o Divino); a comunidade do presente é a companhia de atores que a representa. No instante da performance, autor e intérprete coexistem na obra que ganha vida efetiva.
5. Conclusão: O Recitativo como Sacramento da Palavra
O "lugar" e o "momento" do encontro simultâneo não correspondem a coordenadas geográficas ou temporais empíricas. Trata-se de um espaço litúrgico-hermenêutico: o espaço gerado pela recitação fiel e criativa do texto.
Na reverberação do recitativo:
1. A comunidade do passado actualiza-se através da voz que ecoa na estrutura textual;
2. A comunidade do presente actualiza-se através da voz que investe essa estrutura com sua entonação singular;
3. Ambas se reconhecem como partes do mesmo Corpo místico, da mesma história da salvação, unidas pela Palavra que as convoca e constitui.
Assim, o recitativo configura-se como Sacramento da Palavra: o sinal visível e audível (a proclamação performativa) que torna presente a realidade invisível (a comunhão dos santos atravessando o tempo, unida pelo evento salvífico)[^8].
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Referências
[^1]: Bíblia Sagrada. Êxodo 12,26-27. Tradução ecumênica.
[^2]: Bíblia Sagrada. Deuteronômio 26,5-10. Tradução ecumênica.
[^3]: PANNENBERG, Wolfhart. Systematische Theologie. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 1988. v. 3, p. 312-318.
[^4]: Bíblia Sagrada. Salmo 137,1. Tradução ecumênica.
[^5]: RICOEUR, Paul. Temps et récit. Paris: Seuil, 1984. v. 3, p. 245.
[^6]: FISCHER-LICHTE, Erika. The Transformative Power of Performance. Londres: Routledge, 2008. p. 38-42.
[^7]: SMALL, Christopher. Musicking: The Meanings of Performing and Listening. Hanover: Wesleyan University Press, 1998. p. 9-15.
[^8]: CHAUVET, Louis-Marie. Symbole et sacrement. Paris: Cerf, 1987. p. 412-418.
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