O Texto Bíblico como Mediação entre Comunidades de Fé

Análise Hermenêutica: O Texto Bíblico como Mediação entre Comunidades de Fé

1. A Mudança de Foco na Hermenêutica Contemporânea

A transição hermenêutica do autor para o texto e o leitor constitui um movimento epistemológico fundamental na interpretação bíblica contemporânea. Essa mudança de perspectiva possibilita a compreensão dos elementos literários — estrutura, narrativa, poesia e retórica — não como mero aparato estilístico, mas como mediação teológica e existencial que estabelece uma ponte dialógica entre as comunidades de fé do passado e do presente.


2. Os Elementos Literários como Expressividade Textual

A hermenêutica contemporânea reconhece que o texto bíblico não funciona como recipiente neutro de informações, mas como obra de arte verbal intencionalmente construída. Cada elemento literário contribui para a expressividade do texto:


2.1 Estrutura

A organização textual — quiasmos, paralelismos, divisões macroestruturais — constitui-se em declaração teológica autônoma. A estrutura quiástica do relato do dilúvio em Gênesis 6-9, por exemplo, possui seu ápice na menção de Deus "lembrando-se" de Noé (Gn 8,1). Essa configuração literária expressa, pela própria forma, que o julgamento é envolvido pela misericórdia e que o cuidado divino constitui o centro teológico da narrativa (Wenham, 1987; Sailhamer, 2010).


2.2 Narrativa

A forma de construção da história — com suas lacunas intencionais, repetições e perspectivas múltiplas — envolve o leitor de maneira participativa. A narrativa bíblica não se limita à informação; opera como formação do sujeito leitor (Sternberg, 1985; Alter, 1981).


2.3 Poesia

O uso de linguagem figurada, metáfora e paralelismo hebraico não representa mero ornamento estético. A poesia bíblica expressa realidades que escapam à linguagem proposicional, evocando emoção e percepção mística do divino. O Salmo 23, por exemplo, não informa sobre Deus, mas produz no leitor a experiência de ser cuidado como ovelha (Gunkel, 1933; Alter, 1985).


2.4 Retórica

Os textos bíblicos, especialmente os proféticos e epistolares, são construídos com intenção persuasiva. A retórica visa não apenas comunicar verdade, mas transformar o destinatário (Bitzer, 1968; Kennedy, 1984).

A análise desses elementos permite identificar os mecanismos pelos quais o texto possui expressividade intrínseca. O texto não é mudo: possui voz, tom e forma de atuação sobre o leitor que são inerentes à sua composição.


3. O Texto como Mediação entre Comunidades

A interpretação hermenêutica contemporânea compreende o texto bíblico como locus de encontro entre duas comunidades:


3.1 A Comunidade do Passado

Trata-se não apenas do autor individual, mas de toda a cadeia de transmissão — tradentes, redatores e primeiros leitores — que moldaram o texto até sua forma canônica. A expressividade literária identificada (estrutura, poesia, narrativa) funciona como testemunho fossilizado da fé, das lutas, das esperanças e da experiência do divino daquela comunidade. O texto constitui a "palavra" dessa comunidade, moldada por sua experiência com a Palavra de Deus (Fishbane, 1985; Sanders, 1987).


3.2 A Comunidade do Presente

A comunidade contemporânea de leitores e crentes, ao engajar-se com a expressividade do texto — sendo guiada por sua estrutura, envolvida por sua narrativa, tocada por sua poesia — não realiza mera extração de informação. Reproduz ou reverbera o ato de recepção originário.


4. A Reverberação do Caráter Receptivo

O conceito de "reprodução" ou "reverberação do caráter receptivo" designa uma dinâmica de recepção que pode ser denominada recepção performativa. Essa dinâmica distingue-se da repetição mecânica: a comunidade contemporânea não é a comunidade de Israel no exílio, nem a igreja do primeiro século. As circunstâncias históricas são distintas.

Contudo, trata-se de reprodução do ato hermenêutico: assim como a comunidade do passado ouviu, foi moldada, respondeu e transmitiu o texto, a comunidade contemporânea, ao entrar em contato com a expressividade do texto, é convocada a fazer o mesmo — ouvir, ser moldada, responder e transmitir. A comunidade atual reverbera o caráter receptivo da primeira comunidade. O texto, com sua estrutura, poesia e narrativa, orquestra essa continuidade hermenêutica através dos tempos.


4.1 Estudo de Caso: O Êxodo

A comunidade do passado — os israelitas libertos do Egito — experimentou o poder de Deus. Séculos depois, essa experiência foi moldada em narrativas (a abertura do mar), em poesia (o Cântico de Miriã e Moisés em Êxodo 15) e em estruturas litúrgicas (a celebração da Páscoa). A expressividade do texto — narrativa emocionante, poesia triunfante — carrega a fé e o espanto daquela comunidade (Propp, 1999; Dozeman, 2009).

Ao ler Êxodo 14-15, o leitor contemporâneo não apenas "aprende" que Deus libertou Israel. A força da narrativa coloca o leitor dentro da cena (o medo, o milagre). A beleza da poesia de Êxodo 15 evoca sentimento de louvor e gratidão. Ao fazer isso, o leitor não tem a mesma experiência histórica, mas reverbera o mesmo caráter receptivo: responde ao mesmo Deus com espanto, gratidão e confiança. A fé contemporânea é moldada pela expressividade que carrega a fé do passado, e o leitor une-se, através do texto, ao coro daquela primeira comunidade (Childs, 1974; Brueggemann, 1997).


5. Convergência com a Teoria da Narrativa de Paul Ricœur

A análise proposta converge com a teoria da mimesis de Paul Ricœur, especialmente com a Mimesis III (Refiguração), aplicada à dinâmica comunitária:

- A expressividade do texto (estrutura, narrativa, poesia) é resultado da Mimesis II (Configuração), voltada para o futuro;

- O encontro das comunidades e a reverberação do caráter receptivo constituem a própria Mimesis III em ação. É o texto (Mimesis II) encontrando o leitor (que traz sua Mimesis I) e refigurando sua existência (Ricœur, 1984).

A comunidade contemporânea, ao ser refigurada, torna-se, ela mesma, nova "comunidade do passado" para as gerações futuras, perpetuando o círculo hermenêutico.


6. Considerações Finais

Os elementos literários do texto bíblico funcionam como ponte viva que permite que a fé experienciada pela comunidade de origem continue a gerar fé e a moldar a identidade da comunidade que, em cada geração, se dispõe a ouvir a mesma Palavra. Essa compreensão hermenêutica supera a dicotomia entre objetividade e subjetividade, estabelecendo uma mediação textual que preserva a historicidade sem sacrificar a contemporaneidade da revelação.

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Referências

ALTER, Robert. The Art of Biblical Narrative. New York: Basic Books, 1981.

ALTER, Robert. The Art of Biblical Poetry. New York: Basic Books, 1985.

BITZER, Lloyd F. The Rhetorical Situation. Philosophy & Rhetoric, v. 1, n. 1, p. 1-14, 1968.

BRUEGGEMANN, Walter. Theology of the Old Testament: Testimony, Dispute, Advocacy. Minneapolis: Fortress Press, 1997.

CHILDS, Brevard S. Exodus: A Commentary. London: SCM Press, 1974.

DOZEMAN, Thomas B. Commentary on Exodus. Grand Rapids: Eerdmans, 2009.

FISHBANE, Michael. Biblical Interpretation in Ancient Israel. Oxford: Clarendon Press, 1985.

GUNKEL, Hermann. The Psalms: A Form-Critical Introduction. Philadelphia: Fortress Press, 1933.

KENNEDY, George A. New Testament Interpretation through Rhetorical Criticism. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1984.

PROPP, William H. C. Exodus 1-18: A New Translation with Introduction and Commentary. New York: Doubleday, 1999.

RICŒUR, Paul. Time and Narrative. Vol. 1. Chicago: University of Chicago Press, 1984.

SAILHAMER, John H. The Meaning of the Pentateuch: Revelation, Composition and Interpretation. Downers Grove: IVP Academic, 2010.

SANDERS, James A. Canon and Community: A Guide to Canonical Criticism. Philadelphia: Fortress Press, 1987.

STERNBERG, Meir. The Poetics of Biblical Narrative: Ideological Literature and the Drama of Reading. Bloomington: Indiana University Press, 1985.

WENHAM, Gordon J. Genesis 1-15. Waco: Word Books, 1987.

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